sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Poema sem título


(Imagem raptada da Net acerca da vida das Ninfas)

Puseram-se em fuga
seres vagantes
fugidios errantes,
as vestes ?
velas pandas
sopradas na pressa da corrida
Foi na moita
ali…
que sem morosidade se despiram
impacientes ,
forma estouvada
Ósculos repenicados
na pontinha dos lábios;
depois mais longos, mais apertados
esmagados, frios, gélidos
risinhos à socapa …
No instante seguinte;
olhos nos olhos
semblante grave
é a linfa que arrebita
Bocas cobiçosas
ranhuras de mel
ou de par em par
sorvidas uma  na  outra
Línguas roçadas
bêbadas em festa
Dentes alvos e puros
Monumentos megalíticos;
Construção  dura, saliente
mais a   polpa, dentina e esmalte
Ciosos de cerimónias afagadas
Banquete assaz apetecido
Mãos quentes
sob as vestes percorrem uma e outra perna
É a falésia  a chamar almas
O peito sobe e desce mais pulsado
Cabelos esgaçados, puxados 
entre ávidos dedos…
Vagidos assomam da cave
do velho tronco centenário;
raízes amadas….
Montanhas assaltadas
mamilos eriçados e furtados
a habilidades mestres e macias, facilmente soldáveis
ao relento
d’uma qualquer tarde abrasiva;
o  pudor é silenciado
o  medo posto de lado
o pecado abre pernas desavergonhado
O ardor febril
Torna o assalto  à medida da vontade
pele roçada , esmagada , beliscada
 Há regatos abertos
filamentos  viscosos  de lava
escorrem morosamente
mel que se desprende do vazadouro
languidamante…
e é a boca que o vai chupar, lamber
o rosto lambuzar…
Há  rosas atrevidas
desprendidas ….
pintam  paisagem lascivas
constroem histórias
verbalizam numa linguagem despudorada
desfiles de fantasias ,
 loucuras a serem perpetuadas
no jardim das delícias.
PN



quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Mais um poema para si, caro leitor e amigo.



O homem pobre, escavado pela fome
abatido pela mão negra da sorte
estiolado,
a  crepitar de arrefecimento
a  boca sangrando…
Derrubado na berma da estrada
cenho ermo, frio
cinzento e
nos olhos,  o sol esquivado
Pensou alto:
- Não vale a pena continuar!
E eis que nesse instante
passa um jovem forasteiro a cavalo:
-Ouvi-te dizer que não vale a pena continuar?!
-Sim, já nada tenho a perder…
nada me resta…nada!
O forasteiro apoiou as coxas
no selim do animal
 esticou o tronco
espreguiçou-se, observou para lá do horizonte
e propôs:
- Vamos fazer um acordo, dás-me um sentido teu
e em troca cedo-te duas montanhas, concordas?
- Sim, sim, pede o sentido, o acordo fica já selado…
- Calma, reflecte, volto daqui a duas horas
e nessa altura terás decidido.
- Com certeza.
O forasteiro puxou as rédeas do corcel
e afastou-se a trote lento.
O pobre tornou a pensar  alto.
- Que sentido devo dar?
Deixa cá ver….já sei, entrego-lhe a audição, isso mesmo…
Não serve para nada…ou serve?
Nunca mais vou ouvir o meu cão latir…
nem a água do riacho a cantar…
nem o vento a assobiar ….
não me parece boa ideia.
Então, e se for o tacto?
Não serve de nada…ou serve?
Nunca mais sentirei  o pêlo do cão
que é tão fofinho…
nunca mais vou sentir a água nos dedos
nem tocar a terra quente
Ah, não sei se gosto disto…
não me parece boa ideia…não quero
Espera aí… ( coçou a barba um tanto embaraçado)
Só se for a visão… é isso mesmo.
Não serve para nada…ou serve?
À  noite quando o sono não chega
estendo-me  sobre a relva
molhada  e  conto as estrelas …
e agora já não vou poder apreciar
as garinas quando vão lavar roupa na  ribeira
em risadas de dentes alvos como a neve,
lindas de morrer…
nem mirar os seixos do fundo do rio….
nem pescar…com a cana afiada
nem apreciar os verdes, os castanhos
Sempre de noite e sem lua? nem estrelas…
Não!
Total escuridão? Sem a claridade do sol?
Basta, nem pensar!
Assim sendo, restam dois;
Ó paladar para que te quero?
Vais tu embora!
Não serve para nada…ou serve?
E o copinho de vinho tinto?
Que sabe tão bem na boca….
E as broas de mel…
que me dão a provar…
Coisas tão boas, doces e salgadas….
Fresquinhas, tenras, meio rijinhas
Que adoro trincar…
Ainda não vai ser este….
Tenho de me apressar
As duas horas vão mesmo escoar….
Vai ter de ser o cheiro…
Não resta outro… (levantou o chapéu, coçou a cabeça,
soprou contrariado)
mas, mas ,mas….
há odores que fazem festa nas narinas…
quando me chamam para entrar na cozinha…
o cheirinho da comida …hum…..
Ai o perfume das flores, das ervas, da terra molhada, seca
Seja  que odor  for….não, não não!
Que venha o forasteiro.
- Aqui estou, tens o sentido para me dar?
- Não, não tenho nada para te dar. Todos me fazem
uma falta danada. Sei que me vou arrepender se o fizer…
 Fim do acordo.  
- Felicito-te pela decisão tomada.
Um homem sensato e inteligente
Não foi por acaso que te dei duas horas,
tempo suficiente para ponderar
- E agora?
- Agora vive e pensa na riqueza que ainda tens! Queres vir comigo?
- Para onde?
- Para longe, para casa.
- Que farei lá?
- Serás meu ajudante nas tarefas caseiras e pagar-te-ei  por isso. Aceitas?
- Aceito! - declarou muito contente
- Então sobe! ( Estendeu a mão ao pobre e ajudou-o a montar o cavalo)



Esboço ilustrativo do texto poético)
PN

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Reveja-se se quiser

"Já não tenho paciência para algumas coisas, não porque me tenha tornado arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida em que não me apetece perder mais tempo com aquilo que me desagrada ou fere. Já não tenho pachorra para cinismo, críticas em excesso e exigências de qualquer natureza. Perdi a vontade de agradar a quem não agrado, de amar quem não me ama, de sorrir para quem quer retirar-me o sorriso. Já não dedico um minuto que seja a quem me mente ou quer manipular. Decidi não conviver mais com pretensiosismo, hipocrisia, desonestidade e elogios baratos. Já não consigo tolerar eruditismo selectivo e altivez académica. Não compactuo mais com bairrismo ou coscuvilhice. Não suporto conflitos e comparações. Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de carácter rígido e inflexível. Na Amizade desagrada-me a falta de lealdade e a traição. Não lido nada bem com quem não sabe elogiar ou incentivar. Os exageros aborrecem-me e tenho dificuldade em aceitar quem não gosta de animais. E acima de tudo já não tenho paciência nenhuma para quem não merece a minha paciência."
José Micard Teixeira
Encontrei num blogue de uma amiga e trouxe-o para aqui, tem imenso sentido, até serve à minha pessoa... Que bom ! Desculpa não ter pedido autorização prévia. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Pare para Ouvir, Ver e Meditar

Livre Pensamento- Episódio 8 - RTP Play - RTP

www.rtp.pt
Maria do Rosário Vieira

Assista porque a Pedagoga coloca o dedo na ferida sem dó nem piedade. Fiquei encantada por saber que  afinal não estou só.

domingo, 17 de agosto de 2014

Daniela e o poeta


Sentou-se à secretária;
Gestos indolentes
folhearam o caderno de notas
Caligrafia quase ilegível
imperceptível
meio apagada
No percurso, alguma nota esborratada
outra rabiscada
ou levada pelo entusiasmo; rasurada.
Dedos curtos, níveos, papudos
Sólidos,
cegos tactearam as imediações…
ergueu o bloco.
Estalinho da língua no céu da boca
denunciou certa impaciência…
Levantou-se,
 analisou pormenorizadamente  cada canto do santuário,
as mãos semiabertas baixaram e tactearam os bolsos do casaco;
regozijou-se
A caneta; o achado da tarde.
Tranquilizou-se de novo e retomou a tarefa costumeira;
deixar correr a tinta sobre uma folha de mar….e nuvens a cavalgar
Embrenhou-se na floresta dos  vocábulos; ora densos , ora diáfanos… encharcados, húmidos, secos, tísicos…
Parou desnorteado;
borboletas saltavam
do prédio em frente e vinham ter com ele.
Algumas, laços brancos, outras, lenços a acenar…
Saltitantes, frescas, escamadas, azuladas,
esvoaçantes, calmas, atrevidas
Umas exaltadas, outras mais contidas….
Todas entraram janela adentro…
desvairadas,
agitadas…
Fizeram-lhe cócegas;
desmanchou-se em risos
puxaram a gravata
os bolsos das calças
desgrenharam-lhe a cabeleira grisalha e farta…
“Doidas”- murmurou  rindo.
Tanta mariposa de papel !
Um rancho delas …
Com o mesmo alvoroço com que tinham vindo, foram…
 Silêncio .
E os olhos dele ficaram pregados no edifício do outro lado da rua
 Os sons haviam cessado na escola de música… terminara a animação.
Ficou assim; alienado … até que avistou uma jovem a sair.
Seguiu-a, debruçou-se para a rua até vê-la desaparecer.
Ficou pensativo….
No dia seguinte permaneceu mais atento, no outro, no outro e mais o outro…
Dava-lhe um gozo tremendo vê-la chegar, vê-la partir… meio despida, meio vestida…
Jovial, feminina, descontraída… ora só, ora acompanhada …
-Rómulo, hoje temos visitas, não te esqueceste, pois não?
-Sim…não, é verdade…! - tartamudeou distante .
Sentado na cadeira, braços abertos
 dobrados pelos cotovelos,  apoiados no peitoril da janela
 e dedos entrelaçados, o queixo fincado no ponto médio do cruzamento das mãos anafadas.   
- Senhor doutor, o pequeno almoço já está na mesa.
-Sim? Obrigada, Vou já. – outra resposta  distante.
Logo cansou-se daquele deslumbre;
“ Hoje vamos nos encontrar!”
Um nervosismo miudinho tomou conta dele;
desceu as escadas a correr,
matreiro esperou que a garota saísse.
Havia muita gente na rua àquela hora.
Tomara que a mulher não o chamasse
nem a empregada o atormentasse.
Lá vinha ela; as short´s  não muito curtas
assentavam-lhe bem, a mochila ao ombro
a túnica rococó acompanhava o tamanho dos calções
Cabelos louros e lisos flutuantes, óculos de sol Ray Ban. Sandálias turcas
Bijutaria ao peito, nos pulsos, nos dedos….nas orelhas
Primeiro deteve-se  a  uma certa distância,
o resto  do mundo eclipsou-se… esfumara-se
Desesperado, simulou distracção fortuita e chocou com ela.
Alguns livros caíram, ele prontamente apanhou-os
e desculpando-se entregou-lhos.
A  jovem sorriu e o reflexo dos dentes alvos e simétricos
estontearam-no.
Atarantado convidou-a a tomar café.
Ela amavelmente rejeitou …outro dia…quem sabe
mas sugeriu-lhe que fossem até ao parque,
Ponto de encontro com alguém. ..
Perguntou-lhe logo o nome:
-Daniela.
Enalteceu o bom gosto dos  pais dela.
Apresentou-se com uma vénia:
-Rómulo, um admirador discreto e secreto.
A rapariga, de repente, em gestos sensuais libertou o rosto dos óculos
Rómulo fitou -a com pasmo e estupefacção; que semblante completo e fresco!
Os olhos ramalhudos, que perdição…, amêndoa avelã, ou ocre mel.
- Como bailarina deve ser excepcional!
Um jovem chamou-a e desfez-lhe a curiosidade de saber coisas… mais e mais ….
- Tenho de ir, Sr. Rómulo.
– Já?! Outro pormenor, trate-me apenas pelo nome, agradecido.
- Volto amanhã, encontramo-nos por aqui!
Atordoado com um raio de sol agudíssimo que lhe manchou a face
ou a promessa de voltar a vê-la
rodou nos calcanhares e o rosto voltado para o céu numa bebedeira de inspiração.
E passaram a encontrar-se com regularidade, ali, no parque
enquanto a jovem aguardava a chegada do mesmo rapaz.
 Foi assim durante  algum tempo, sob o sol e a chuva da mesma estação que trocaram impressões, riram, conjecturaram, desabafaram….
 Feitiço certeiro aniquilou a realidade do poeta
e deu a beber uma taça de cegueira pura.
Certo dia anunciaram:
- Senhor doutor, há um rapaz que lhe quer falar.
- Um rapaz? Mande entrar.
A senhora saiu sem fazer ruído e o jovem entrou
Rómulo, ergueu o rosto sem prestar atenção ao estranho,
atafulhava o caderno e a caneta dentro da gaveta.
- A que devo a sua presença?
Foi  quando prestou mais atenção que tudo nele  lhe pareceu familiar:
Alto, imberbe, olhos grandes e brilhantes
pele sedosa, cabelo médio,  
espadaúdo….descontraído
garboso… brioso
- Já nos conhecemos… ? questionou o poeta
- Sou o namorado da Daniela.
Rómulo pôs-se de pé num ápice;
- Que deseja de mim?
- É muito simples, ainda não se cansou de a tentar seduzir?
- Que insinua?
- Poupe-me ao seu cinismo, todos os dias no parque à espera dela, eu observo e vejo-o
como um animal a farejar a presa.
- Atenção rapaz, haja respeito, cuidado com a língua, sabe a quem se dirige?
- O senhor é que me deve respeito; não se meta na minha vida privada. A  Daniela tem apenas dezassete anos e é minha namorada. Podia ser um parente longínquo dela…um avô …
- Que história sem graça…
- Sei que é poeta de renome mas isso não me afecta, nem me compra por aí, as mulheres rendem-se e confundem o homem e o vate, tem fama , glória e o mundo aos seus pés…
- Está com inveja?!
- Não! Quantas vezes o que escreve nem se harmoniza com o que pensa, diz e faz…
-Não vou ser insultado na minha própria casa!
- A Daniela é minha namorada!
- Mas ela sente prazer em estar comigo…receia que a roube?
- Não tenho nenhum medo, conheço-a bem  e falta pouco para esses “encontrozinhos” terminarem. Ela simpatiza consigo, admira-o,  apenas e só, essa mania de erotizar tudo…
 como se todas as mulheres quisessem envolver-se consigo…
- Mas ela deseja-me, sinto isso!
- Velho tonto, não confunda  as coisas…
 - Rua, rua !- bradou de olhos esbugalhados
O jovem retirou-se e bateu a porta.
- Rua , desparece, fedelho nojento! Morde-te  de inveja, grande burro,
 não és nada, eu figuro na História, na intemporalidade
sou imortal e tu parvo? – praguejou  encrespado
- Senhor, que aconteceu? Está a tremer ! Já lhe trago água com açúcar.
Assaz perturbado, decidiu  que teria de falar com a rapariga o mais urgente possível.
Não seria qualquer Joãozinho que o intimidaria, se o outro queria braço de ferro, iria tê-lo!
Sem mais delongas, foi ter ao lugar habitual, esperava-a impaciente
Consultou o relógio, faltava tanto tempo…. Voltar para casa não, nem pensar!
Girou por ali, passeou, tentou distrair-se, esquecer que uma boca
mordia-o por dentro, angustiado voltou ao banco.
Perscrutou de novo o relógio, ainda faltavam cinco minutos… mais uma eternidade.
Tentou aquietar-se, porém, não parava de mexer nos bolsos  do casaco….
Ajeitou a gravata inúmeras vezes, os colarinhos da camisa, escovou com as mãos
as calças…. Examinou os sapatos brilhantes , revirou os pés, aparentemente estava pronto.
- Olá, bom dia!
Levantou-se abruptamente
- Bom dia Daniela.
Cumprimentaram-se com dois beijos, ele não cabia em si de contente.
- Gosta mesmo deste parque!? E tem razão para isso. Um lugar apaziguador, relaxante, vem muito aqui buscar inspiração para escrever…
- Não é só a paisagem que me inspira aqui…
- Não?
- É mais por si…- desatou o nó da gravata
- Também sirvo de inspiração?!
- Nem sabe o quanto….
- Diga-me o quanto…
- Estou apaixonadíssimo  por si - declarou de chofre
e segurou a mão dela.
- Rómulo, tenha  calma, você está a confundir tudo!
- Que quer dizer? Não sente nada por mim?!
- Não é bem assim, sinto por si um carinho especial, uma amizade pura e verdadeira…
- E desejo?
- Não! Nem podia, amo o João!
- O João é um rapaz sem interesse ….
- Está enganado, não julgue sem conhecer primeiro.
- Desculpe. Fui precipitado. Não considere este meu lapso.
- Com certeza, somos  amigos.
- Amigos… – pronunciou num tom murcho.
- Quando nos voltaremos a ver? Quero visitar museus, cafés, conhecer outros lugares na sua companhia, estou farto deste parque…
- Lamento mas hoje vim  despedir-me de si, eu e o João vamos sair do país.
O João foi convidado para desenvolver um trabalho de pesquisa estrangeiro, acerca de textos bíblicos. Eu vou acompanhá-lo, o que faço aqui, posso continuar a fazer lá.
O poeta estremeceu de desencanto, petrificou e clareou marmóreo.
Daniela abraçou-o e comentou rindo:
-Não fique assim, por favor, prometa que vai cuidar de si e nada de se deixar enredar nas malhas de qualquer oportunista. Fique bem, eu também vou ficar, darei notícias. Adeus.
- Adeus menina linda, que pena …
Daniela saiu do parque apressada, o poeta esperou que ela acenasse pela última vez,
 só depois  tornou a sentar-se pesado no banco,
 curvou-se ,
 apoiou os cotovelos nos joelhos ,
e enterrou a cabeça nas mãos abertas.


PN

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Coisas de "Moscas"



O asfalto inclina
a Mosca reduz o andamento
depois…
pela frente quilómetros de estrada lisa, alongada…
indefinidamente a direito
…. ao comprido.
Lá vai ela ao volante do seu volvo….
Maxilares a torcer,
numa mastigação lenta de qualquer porcaria encontrada…
acelera, liga o rádio, desagradada da musica tocada
desliga num gesto agressivo.
Mais à frente encontra um desvio
um largo conspurcado de latas vazias,
de papéis surrados , plásticos adiposos e os outros em circunstâncias iguais…
Puxa o freio rapidamente, a máquina derrapa, treme, guincha.
A Mosca, numa elegância desmesurada
apeia-se, contorce-se molemente.
Traje negro, transparente e justo, decote marcado
Sorriso habilidoso quase sobranceiro.
Atira a cabeça para o alto
os cabelos finos e escorridos descrevem uma curva
olhos escuros breu, cor do carvão
mortíferos como punhais frios
destilam uma maligna sedução.
Caminha sem pressa, as coxas bamboleiam roliças
Saltam fartas e roçam-se uma na outra.
Aguarda-a a rainha Vareja;
tacão altíssimo e verniz estilhaçado.
A Anã antecipa apressadamente o abraço
mas o cumprimento não desmancha a imperturbável “Vareja”.
Insolente, vaidosa imperatriz do lixo costurado
solta um grunhido descrente, o rosto incha de tão pérfida maldade
Por ali, além do suspense, as fumarolas arrotam baixinho
pressentindo a esgrima da cena.
A” Vareja” de mãos à cintura, a Anã de lábios espremidos
Sua majestade de peruca desgrenhada, palácio da furna…
A rasteira, rosto altivo, cabelo empapado, nariz empoado.
Toma a palavra a suprema hierarquia:
Voz forte, altifalante ligado,
estrídula , sibilante
e áspera…
Treme o deserto e a mosca Anã a “desaparecer”….
esmagada e triturada, escancara as narinas
baixa os cílios no auge da exaltação ,
Plagia a postura da mandante e ligeiramente nervosa
altaneira e contrafeita
tom esganiçado , rápido
lamuria-se em falsete:
- Eu sou sempre a má da fita, a falsa, a embusteira, logo eu que me esmero tanto…
Sua alteza, torna-se sombria e desfia metálica:
- Aborto mal parido
Cigarro apagado
Dente furado
Não tomas a palavra sem antes consultar a minha!
A mosca Anã desafia as alturas:
- Dizem por aí que não passas de um monte de estrume!
Mais endoidecida e afogueada que nunca
aponta canhões
dispara espingardas
viola fronteiras
A raiva em faúlhas a coser por dentro
o dedo em riste:
- Sai daqui indigente, este lugar é meu, por sufrágio
universal direto!
Excomungada, coisa tirana, leva as tuas coisas, busca outra casa,
Aqui não entras mais!
Humilhada no mais fundo de si, a mosquinha recompôs-se da ira e em pranto se desfaz:
- Não acredito que me estás a expulsar! Eu sempre te defendi….sempre! e é assim
que pago pelo mal que não fiz?!
Dobra-se toda em altos soluços…
- Ai meu deus, que mal fiz eu?…são as outras…não vês que são as outras …
que fazem tudo e te colocam contra mim?!
Rosnando algo condoída, revoltada por sentir-se a retroceder….
Remói, salpica a salada da vida, mexe muito bem, rala tudo mental mente …
espia a outra; continua prostrada, lavada em pranto
Indecisa e confusa, desata irrefletida:
- Chega de carpir, levanta-te!…. A culpa não é só tua… ficas cá mas livra-te
de me enfrentares mais !
- Alteza ….- ia começar a Anã.
- Vá, deixa-te de lábias, tenho assuntos mais importantes a tratar!
Enquanto a mosquinha se dirige ao carro, a Vareja, fixa-a inquieta,
desconfiada das suas boas intenções…
Mal se ajeita no assento do volvo, limpa o rosto, liga a ignição, já distante, ri-se,
primeiro baixinho, mas livre e longe da outra, gargalha e até uiva;
por fim murmura raivosa:
-Velhaca! Um dia lixo-te!
Lá atrás, no descampado, parada, fica a Vareja
a cogitar, com  os olhos pregados  na estrada por onde partira
a anã:
“ Vai para o diabo, se julgas que vais longe, estás enganada… aqui, não voltas nunca mais!”  

PN 11 de Julho 2014

Nota- Fotos da Internet que foram algo tratadas por mim através do photoshop.

sábado, 21 de junho de 2014

Tanto Para Conversar

Tanto Para Conversar





Sexo e sexualidade- Não deixe de assistir

"A medicação é para ser usada quando ela tem efeito, quando ela serve um propósito,quando ela serve para melhorar a vida da pessoa, caso contrário vem trazer mais problemas.
O paradigma, ou seja o entendimento que é tido, ou que está a ser vigente sobre sexualidade, se não for alterado, é muito complicado.
A sexualidade é qualquer coisa vasta, evidentemente que o pénis não é o único orgão que sente, não é o único orgão que tem prazer, dá prazer, ele tem prazer de muitas maneiras- isto não se pode dizer exclusivamente quando há um problema, tem de ser dito sempre,tem de ser dito para todos, tem de ser dito nas escolas.
Um beijo e uma carícia também é um acto de sexualidade. Este acto é procurado e desejado por muita gente, as pessoas não têm, porquê? o medo da perfomance ...está a haver confusão acerca do que é sexo e sexualidade. É muito estranho...mas estamos numa sociedade muito falocêntrica( a função do pénis). E tudo o resto?Tudo o resto que é necessário trabalhar?A disfunção erétil é uma situação de crise e sofrimento mas pode ser também uma ocasião de crescimento, vamos lá desmontar o que é a questão da sexualidade....tem os carinhos, tem a envolvência...Os mitos que os jovens têm que estão quase todos centrados na importância da perfomance e do tamanho...o pénis tem que servir...coitadinho do pénis. As mulheres quando se estão a queixar , não se estão a dizer que o pénis é pequeno ou grande, estão a querer dizer o que aquela pessoa não faz com medo do pénis que tem. O problema da ejaculação precoce, maior que a rapidez com que aquela pessoa ejacula, é a forma como encara esta dificuldade. O medo de que isso possa acontecer é tão grande que se esquece completamente que está com uma pessoa, esquece-se completamente das carícias, do encontro...de tudo o que pode fazer com esta pessoa. Acabou o encontro do pénis com a vagina e acabou o encontro daquelas duas pessoas e aí sim, a tensão, o mal estar, a forma como os dois .... não há diálogo, não há mais nada...é uma frustração muito grande, foi porque ele teve uma ejaculação precoce?Não! Foi porque nada aconteceu para além da relação do pénis. os seres humanos têm muitos centímetros quadros de pele, pele que sente, pele que pode dar prazer e pele que tem prazer...e o pénis é só uma parte destes centímetros quadros todos, muito pequenina. A vida sexual não é só a relação entre o pénis e a vagina. Os jovens andam sempre a espreitarem-se, a ver quem tem um pénis maior e é muito transmitido culturalmente, Nós estamos neste momento a ter uma massificação da sexualidade, centrada na função...que é uma coisa brutal...os mitos que alimentam isto tudo mantêm-se" ....e veja porque há mais ...e outros aspectos que lhe podem ser úteis." ___


Nota: Não esqueçam de abrir o vídeo e irão constatar que o texto não é da minha autoria.