sábado, 20 de dezembro de 2014

“As aventuras do “Menino sem Medo”


Há cento e quatro anos, mais precisamente no mês onze, pelas dez horas e trinta minutos
deu à costa, vindo do planeta Enamoramento,
um ser indefeso, frágil, dimensão reduzida
gorduchinho, careca
e nos olhos, um céu azul intenso
Para surpresa da fada que  ansiosamente o aguardava;
gargalhava com imenso gozo
nadava nu e fazia glu…glu….
O mundo cabia inteirinho nos braços abertos
Desatava a correr num passo miudinho, copioso
O bebé acrobata fazia piruetas e mais piruetas na água;
um golfinho delicioso…
rolava, saltava, pulava, dançava
Ia lá ao fundo
ninguém o apanhava…
A fada tratava-o por “o meu “Tarzan” Boy Water”
Bastava-lhe soltar o grito de chamamento
e as sereias acudiam prontamente.
Foram essas meninas que o trouxeram para a praia
O bote ficou a balançar a milhas, próximo de uns rochedos
Iupi! Grande vitória , terra nova, terreno sólido
As sereias deixaram-no ali e voltaram ao mar
O “menino” meio zonzo, soltou o grito costumeiro
E surgiu o blacky,rabinho a agitar
Cão castanho fofo e focinho preto
“Tarzan” boy water” montou-o e lá foram floresta dentro.
Encontraram uma variedade de primatas, cavalos, gatos, suínos, patos, galináceos, girafas, leopardos, leões….
A viagem do crescimento iniciara-se ali…no reino Natural.
A fada madrinha, muito querida dava-lhe lições; ensinou-lhe as boas maneiras;
 foi firme,
regras e muito colo.
Mostrou-lhe o Amor  
Os anos passaram…
“Tarzan boy” water” tornou-se um rapazito feliz
meigo, ternurento, amigo, alegre, divertido e brincalhão
Recorda agora!


PN Dez 2014
Continuações de um Feliz Natal para todos vós!

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A menina


Ventania sem norte
fria e impiedosa
fustiga a vidraça
Dezembro com sorte,
claridades medonhas
tumultos, pedra rachada
abate-se sobre a cabeça da miúda
Há fantasmas que se arrastam céu fora
cujas bocas rugem cavernosas,
mostram dentes afiados, ferozes
Ninguém compreende os seus medos, as suas inseguranças, os seus receios
a rapariga encolhe de altura…
muito tímida…agrilhoada
os vultos assustam
o visível
até o invisível
Move-se às escuras no quarto
de um lado para o outro
angustiada e só
nova claridade, o temor persiste
Na manhã seguinte
sai à rua;
terra molhada
ainda cai uma poalha rala
Chora de alívio
Decide fazer um pacto com a coragem;
percorre montanhas, montes e vales
para se encontrar com a Guardiã da Floresta;
mulher profundamente conhecedora da alma humana
O portão abre e range nos gonzos;
dois duendes acompanham-na
sobre uma passadeira verde…
pássaros saúdam amáveis
O casarão coberto de trepadeiras;
redondo como um moinho
Entretanto, a rapariga vai perdendo tamanho, intimidada
com a força grandiosa da natureza que ali brota e ostenta
Agora já não chove
só o cheiro da terra ensopada, das ervas, das plantas, das flores
Os aromas entontecem
Há brilhos de todos os lados;
O sol
espeta-se em todos os cantos e recantos e os milhares de gotículas
deixadas ao acaso vão brilhando
Lantejoulas saltitantes. Facho interminável de luzinhas…
Os duendes conduzem-na aos aposentos da Senhora da Floresta.
Abrem uma porta
a menina entra e a porta volta a fechar
A sala é redonda, chão de terra seca
paredes atapetadas de relva aparada
raros rebentos de flores amarelas, verdes, brancas, castanhas
aqui, ali, acolá
Ao fundo da sala;
Ei-la, sentada numa cadeira de madeira talhada à mão,
apoiada numa mesa igual, redonda e os bancos também redondos e toscos
Quando se ergue, assusta a miúda, que diminui ainda mais de tamanho.
A mulher é alta, magra, rosto tisnado, jovial,
cabelo cacheado, bagos de uva verde imiscuídos
no vinhal denso da cabeça,
casaco curto musgo maciço de vários tons
calça justa de terra seca, texturada de lama rachada
à medida da silhueta
Botas de cortiça, cano alto.
Pede à menina para se aproximar e ocupar um dos bancos
para ficarem o mais próximo possíveis uma da outra.
Toma-lhe as mãos pequeninas nas suas e predispõe-se a escutá-la atentamente.
Porém, a miúda começa a garatujar tão baixo
que a outra inclina a cabeça e apura o ouvido direito
mesmo assim….
- Tenta falar um bocadinho mais devagar e mais alto, por favor!
Mas a pequena não se controla, sussurra em cascata;
jorro de frases ininteligíveis…quase sem respirar
A senhora da Floresta resolve deixá-la prosseguir
Espera, espera pacientemente
que a rapariga termine aquela melopeia praticamente inaudível
depois, a menina suspira aliviada e
logo a seguir fita-a à espera de uma resposta
A Guardiã da Floresta sorri meiga
e responde num tom médio
- Minha menina, quero que te comprometas a vir visitar-me todas as semanas
Estarei aqui disponível para ti.
Levanta-se, abre um armário grande, feito de cascas de árvores
e declara:
- Aqui tens este baloiço para quando te sentires só e abandonada,
Baloiça, baloiça… imagina que são os meus braços protectores e sentir-te-ás amparada
Leva este gato, poisa no teu regaço, trata-o bem, mima-o….
receberás o mesmo em troca
Significa o meu afecto
Menina, agora vá, volte para casa, não se esqueça
Mime-se e cuide de si!
A rapariga saiu dali mais que surpreendida!
mãos cheias e alma a transbordar de alegria.
PN Dez 2014
Queridos Amigos, aproveito a ocasião para Desejar a Todos um FELIZ e SANTO NATAL.
O poema/conto é da minha autoria, a ilustração trata-se de uma fotografia minha a um postal que encontrei numa loja.
Poema e postal Têm um significado Especial, por isso dediquei-o a uma Pessoa Igualmente Especial.
Fiquem bem!
Até já!

Nota: Desejo a Todos os Amigos que me têm acompanhado ao longo destes últimos anos....Votos de um Santo Natal !
PN

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A minha vida





Porque é que aquele homem nunca morre?!
Ainda não chegou a hora dele?
e para meu castigo 
Deus havia de se esquecer do desgraçado
Um arteiro, um demónio a infernizar os meus últimos anos…,
merecia melhor sorte, eu, a mulher doente,
aquela que nenhum homem
lhe pôs a vista em cima,
de qualquer forma, a minha mãe bem me dizia
que eu não teria
qualquer futuro casada com aquele estafermo,
mas esta minha cabeça torta…
apesar de tudo tinha uma ambição;
queria uma casinha à beira mar…
a flutuar na água verde, os pés mergulhados na areia branca e tépida…
também queria um jardim…
muitos nenúfares a boiarem nas águas calmas, claras e límpidas como cristais…
e algas marinhas, nem todas pequenas , nem todas verdes ,
a subirem as paredes da casa até se espetarem no telhado….
algumas vermelhas, castanhas e douradas …
E queria mais …
uma cadeira igual a de meu pai, santo homem, que Deus lhe ponha a alma no céu,
uma cadeira de balanço… braços de Morfeu …
e evocar a infância… outros tempos… a minha mãe, santa mulher, minha querida mãe
… se há céu…eles estão lá… tão amiga dos pobres, tão casta, tão atenciosa com todos,
tão religiosa, devota de Nossa Senhora… menina rica … casou com meu pai,
um homem igualmente nobre e rico mas coitado não teve sorte,
caíram-lhe imensas nódoas de vinho sobre os negócios …
as pratas e os mármores foram lentamente desaparecendo do aparador
da sala grande… da casa antiga…
O álcool bebeu-lhes tudo… trouxe desgostos e a viuvez precoce de minha mãe.
… como senhora de bem, ficou sozinha até ao fim…honrou a morte de meu pai.
Todo o património repartido entre os filhos,
esses sim, abutres, frios e ambiciosos, ávidos dos bens materiais.…
nenhum deles foi inteiramente feliz…
Agora estão os dois à minha espera …
com certeza reservaram-me um cantinho…
um lugarzinho sossegado onde vou descalçar os pés e andar assim,
sem preocupações …de dores, bastam-me as terrenas …
...Ando tão cansada deste mundo … o que me vale são os filhos,
os bons filhos que Deus me deu…
Não sei o que fazes vivo…morre,
leva contigo essa sombra, vai-te daqui…
tartamudo, trôpego, simplório, contemplas os ricos, pobretão!
… Velho tonto…
Muito dedicado ao patrão…
A minha sina?!
Este imbecil, inútil,
longe daquele que em tempos conheci e sonhei…
já nem sei se tive sonhos…não me lembro
Perdi-me deles…ou eles perderam-se de mim…
Embarquei naqueles falsos olhos,
ora céu , ora mar…. dois barquinhos navegando…
e mal o sol havia se levantado….
nuvens espessas escureceram o ninho onde fomos habitar …
Vieram as proibições;
nem uma cor nos lábios, nem os botões abertos para mostrar
um clarão de feminilidade, nem trabalhar fora, nem luzes acesas, nem alegrias efusivas,
nem amigas, nem passeios, nem gastar água nas plantas …um tormento, um pesadelo
…depois do laço dado, era muito tarde para fugir,
subira ao altar e confessara o meu “sim”,
coloquei o avental e comecei a preparar refeições,
ao fim do dia esperava-o .
Ele regressava muito tarde do trabalho,
mal humorado e cansado , a comida sobre a mesa, pronta, sem fumo
… sem enganos de cozedura mas naquela casa havia sempre discussão;
sal a mais , sal a menos, o arroz muito quente, cru, mal cozido….
E eu vencia o sono… para aguardar a sua chegada…
fui perdendo repouso e sossego,
a cabeça rolando sobre o peito, contra a parede
e lentamente a insónia
nunca mais me devolveu o sono….
Fizera não um pacto com Deus mas com o diabo,
fui meter-me na clausura.
Mesmo assim, nem tudo é mau
Deus deu-me filhos amigos… mas estraguei-lhes as vidas…
tornei-me seca, amarga, gargalhada forçada, enlouquecida.
Cometi imensas atrocidades;
não compreendi, não tolerei, vinguei-me, revoltei-me…
e agora quero que esse homem morra, esse que de extremoso nada tem…
Não te cases minha filha, os homens não valem nada,
fica só,
não cometas os meus enganos….
É matares-te em vida… os homens traem, mentem e nada sentem.
Amor? Só o de mãe…
os homens não amam… são urze do campo…
ele nunca foi de mulheres, isso não,
nunca faltou pão em casa,
nem gota de álccol….
nunca passamos fome…
A mania de ser amigo do patrãozinho …
era coisa que me enraivecia…
nunca foi ladrão…
o trabalhador exemplar e o patrão a roubar …
as férias, o salário …e ele sempre submisso…
a comprar tudo ao rico, fruta doente…grande doido!
Um paspalho louco sem nenhuma ambição…
dentro do manicómio daquela casa…
A sorte não bateu à minha porta …
A minha tia , aquela diaba, a maldita velha roubou-me parte da herança…
essa já foi dar contas a Deus…
caçadora de dotes, deve estar sentada à esquerda do próprio Belzebu …
se há justiça, ficou no purgatório, a irmã dela, outra ladra…essa ainda anda por cá…
mas um dia hão-de se juntar as duas e ranger os dentes …vão assar no fogo do inferno
Não me apiedo, duas déspotas, merecem.
Eu…? lamentavelmente estou casada com este atado…
Houvesse esquecimento para tanta tirania…
um branqueador para as memórias, muitas delas …
Não quero esquecer a minha querida mãe, nem o meu querido pai…
nem os meus queridos filhos…o resto…o resto que importa?
O resto que descanse em paz, amortecido no fundo do tempo…
num poço sem fundo.
Pudesse eu regressar de outro tempo, rosto enxaguado
num tanque a transbordar de água limpa
Não gosto deste palato fel, é chumbo pesado na língua,
as narinas secas, sem nenhum odor a flores…
logo eu que adoro flores…minhas ricas meninas…
vasos cheios delas, o meu quintal, o meu tesouro…
apesar de velha, gasta e cansada ainda lhes chego de regador…
um mimo para lhes matar a sede, sei o nomes de todas,
sempre bem tratadas, com cuidado e carinho…
depois chegou o fumo, o maldito comeu tudo…
não ficou nada para meu desgosto… ah, até ma dá para chorar….
Ninguém compreendeu nada do meu sofrer,
apenas os meus filhos, o meu amparo.
Dizem que o meu mal é estar debruçada para trás…
e vejo o lume a crepitar, as florinhas ceifar…
o meu corpo lavrar … consumido por esta revolta …
e ardo em ira!
O meu coração é um deserto … doido, aflito, perdido e triste…
se houvesse um cantinho para plantar uma florzinha ,
uma cor, um aroma…estou ressequida
Caminho claudicante, vacilante, sentada ao esmorecer da tarde.
Já quase sem nenhum sol… e se Deus se lembrasse de mim?
Seria um descanso… Que Deus perdoe …os meus pecados,
não sei do meu virtuosismo,
Nem uma brisa para refrescar,
estou tão mortificada… aquele homem só me faz pecar…
Uhhh…. Coisa do demo, cada vez mais calcinada pela raiva, pelo ódio…
A minha voz ainda não perdeu a força de gritar, de urrar, de bradar justiça…
valham-me certos laivos de sol…
um sol sem destino, sem nascente, nem poente …
ai aquele homem que me deixa louca… julgas-te um Deus?
Ardes num altar em ruínas, ditador,
abres os braços e traças a clivagem entre o bem e o mal…
és um condenado ao fogo do teu e do meu inferno.
Não haverá devir para mim, nem para ti…
estamos ambos à beira do inevitável fim…
não há consolo para nós…
só o exílio da nossa própria condição…
afundaste e arrastaste-me contigo…
Enviaram-me sinais de aviso, de alerta….gesticularam,
tentaram poupar-me a esta desgraça, cega e louca …
ai esta cabeça torta …não soube reconhecer nada….
Hoje, o meu discurso é pesado, duro, áspero,
crítico, acusatório, ríspido, contundente …
não consigo refrear a minha língua,
este estado de consciência…
não me corrijas…não vale a pena,
Só o cansaço vence e a cabeça pende sobre o peito…
e vou a correr para os braços de minha mãe….
refugio-me no colo dela,
às vezes não me apetece voltar…
Deus é quem sabe da minha hora…
Quando acordo,
O diabo provoca-me e não posso segurar a brutalidade dos modos,
não resisto à irritação, dentro de mim há uma força descomunal, uma fera….
Meu velho, a tua pobre alma ébano …
Entre nós há um abismo imenso,
afastaste-me…estás podre, tens mau hálito,
o nariz que nunca curaste, eu muito insisti, a tua teimosia de mula apalermada …
és mau e ranhoso… Está bem , não sou santa…
no entanto, consigo ser melhor que tu…
um dia chegará o estertor, sei que irei, tal como tu.
Perdão? E tu?
Nem penses, se eu for para o inferno …tu também vais….
porém, fica longe de mim…que nem te veja , nem te ouça….
nem o teu respirar…nem o teu bocejar…
Passamos os últimos anos a esboroar a porcaria do passado,
como objetos soltos, sem valor, a esgravatar o pouco que havia ,
desfizemos tudo em migalhas ,
arruinamos as edificações humanas que procriamos.
Ainda consegues grasnar?!
Tornamo-nos insensíveis …
ainda assim,
por entre gravetos, os rebentos semeados
continuamente buscamos alívio para amortecer a dor deste nosso drama,
culpa nossa, se bem que és mais culpado que eu.
A tua alma indigente remove-se no lixo que calas e não confessas,
o tormento que também te morde….
que Deus me leve depressa para os braços de minha mãe…
PN

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Tu e eu...


Agora somos duas sombras pesadas e inseguras
dançando um tango frouxo, periclitante,
distantes, longínquos um do outro
E se não é uma mão ou outra que nos ampara…
Que seria de nós?
Viajamos no mesmo bote;
da cadeira para a cama e da cama para a cadeira
Os nossos dias estão contados
Não por mim, exímio contabilista
Mas por um Deus que reneguei a vida toda.
Estamos à mesa…
babete  para ambos
Em que nos tornamos…
dois tolos  inutilizados
mergulhados em irritações incessantes
Ferimo-nos tão profundamente
Escarnecemos um do outro
Discutimos tanto…, esgrimas banais e sem sentido
Torturaste-me, torturei-te
Morreste para mim, morri para ti…
Nem respeito, nem amizade
Nada sobrou! Haverá céu que nos salve…?
que herança deixamos?!
Vejo-te chorar
Rio e choro contigo
Tens pena que Deus não se lembre de ti…
Tenho pena que Deus não se lembre de mim…
Sinto-me roto, falido
maldito rebento
Um diabo em traje de gente
carneiro de um rebanho, desaparecido
O crepúsculo pôs-nos  um frente ao outro…
Que entardecer enfadonho, aflitivo, medonho
Finalmente a enfermidade  colou-me  a boca
A mesma boca que vociferou, praguejou a existência toda
Esfolamo-nos vivos… tanto ódio, tanta mágoa
Dois ressabiados.
Que amarras são estas, que me atam a língua
e me ceifam a alma?
Foi  a cobra venenosa
misturou-se  com a nossa casa
Fomos tão culpados dessa intrusão…
A bicha ganhou chão, galgou paredes
Ganhou pão, roubou-nos os filhos
Gatuna,  
Conquistou e encantou…
Enroscou-se toda em nós
Tornou-se imensa, colossal
Um peso brutal
Ainda fiz um esforço
Era tarde
Deixei-me escorregar nas piedosas intenções
E tu… tu ficaste cega
Não me vias…
Era ela … que   a teia tecia…
O mal foi esse, quando acordei  já não te conhecia
Não me conhecias…
Peçonha
Sempre ela ; sorriso matreiro, voz de imperatriz, frieza diabólica
Ordens de juiz…
Contrapus
De nada me valeu
Esmurrei  a mesa, cuspi raiva
Fraco… fraco… mais nada fiz…
Sem dar por isso, a criatura
bebeu da mesma taça
Até ao fim… o ódio entre os três
Três pedras a chocar
A colidir sem dó nem piedade
Que raio de praga foi esta?
Negra sorte
A nossa vida? um desnorte
Choras…
Comovo-me…
sou uma fonte a jorrar lágrimas
Deixem-me engasgar de riso e pranto
Mascarei os sentimentos, tinha de ser forte,
 homem não mostra a dor, ditos das gentes
mas não me lembro de ter sido feliz…
Onde é que isso ficou?
Choras e eu choro vendo-te chorar
E choro ainda mais por saber que partirás sozinha
Sem mim
E eu sozinho…sem ti…e não suporto muito a ideia
Vamos morrer juntos… eu na minha cama e tu na tua, em quartos distintos
Temo que não saibas o caminho…
E muito provavelmente não seremos os mesmos…
Dois entes voláteis, duas luzes incógnitas, meio tontas e sumidas…
por  fim, com uma delicadeza que nunca te mostrei 
Porque só me ensinaram a ser implacável e duro
Quem sabe… aí
Despidos de todas as memórias
Te possa estender a minha mão
E te guiar céu fora

Sem saber porque treme tanto o meu pobre e velho coração.

PN

terça-feira, 11 de novembro de 2014

“O mimo nunca estraga uma criança”


“O mimo nunca estraga uma criança”


O pediatra Mário Cordeiro escreveu mais livro dirigido aos pais. Desta vez, sobre “Educar com Amor”, porque, como explica, “amar é a palavra-chave” e “educar é o seu apêndice”. Em entrevista à Pais&filhos apela aos pais que sejam mais coerentes, mais frugais e que digam aos filhos que os amam, “sem cerimónias”.


Começa o livro com um exemplo bem conhecido de quase todos os pais: uma birra gigante no supermercado, no final de um dia de escola/trabalho, porque a Maria, de três anos, quer um pacote de bolachas e a mãe não quer comprar. A mãe deve comprar as bolachas à Maria ou não?


Isso é uma minudência no meio desse imbróglio. A mãe deve agir como entender, mas “curto e seco”, no sentido de comprar a birra ou as bolachas, mas não ficar num “entre cá e lá” que só confunde a criança e aumenta o stresse. Num momento ser possível e no outro não, acabará por bombardear a criança com mensagens contraditórias. A mãe, porventura, deveria ter poupado – à Maria e a ela própria – aquela cena, pensando numa melhor altura para ir às compras, que não um final de tarde de um cansativo dia.


Fala-se muito na necessidade de dizer “não” às crianças? Neste livro parece discordar dessa ideia…


Atenção que não partilho a ideia de alguns pediatras de que as crianças devem ser os reizinhos da casa e que o mundo deixa de girar porque suas excelências querem isto e aquilo. Defendo que se diga “não” e sublinho, várias vezes, que o “não”, quando adequado e justo, é a melhor forma de a criança aprender a viver com a frustração, e não ficarem umas pessoas egoístas, narcísicas e omnipotentes. Agora, entre o “não” sem explicações e que humilha e sacode, e o “não” em que se dão justificações, se ensina, se acarinha e se arranja uma alternativa e um plano B, C ou D, opto decididamente pelo segundo.


E os castigos são mesmo pedagógicos?


Claro que são. Tal como os prémios. Mas têm de ser adequados, justos, proporcionados, no tempo certo, e sempre, mas sempre mesmo, castigando o ato e o comportamento e nunca, mas mesmo nunca, a pessoa. A criança é querida, do sentido do verbo querer, e isso deve ser sublinhado naquela altura em que ela pensa que os pais vão deixar de gostar dela ou pensar que ela é feia ou má. Mas depois disto dito, o comportamento deve ser avaliado, dissecado e, se for caso, aplica-se a “justiça”, com penas, atenuantes e agravantes…


Um dos grandes medos dos pais é que os filhos não se sintam amados? Como é que podemos mostrar aos nossos filhos que os amamos?


Dizendo-lhes sem cerimónias, as vezes que considerarmos necessárias. Dizermos mas não para fazer um favor ou exibirmo-nos em frente de terceiras pessoas. Dizermos quando nos sai da alma. E mostrarmos, no quotidiano, que eles são uma prioridade. Não devem “comer-nos” a nossa vida, atabafar o nosso ser, cilindrar o nosso “eu”, mas têm de saber que os amamos. Amar – essa é a palavra-chave, e com ela vem o seu apêndice: Educar. Não há um sem o outro.


Quais são os maiores erros que os pais fazem que os impedem de educar os seus filhos com amor?


Quererem ser pais perfeitos, serem inseguros no seu amor, verem os filhos como cartões-de-visita ou sinais exteriores da sua grandiosidade, estilo “que grande mãe que eu sou por ter filhos tão bonitos”, quando isso ultrapassa o orgulho normal e natural que devemos ter em ter filhos. Outro aspeto é, dentro das nossas normais incoerências e inconsistências, inerentes ao ser humano, andarmos em zig-zag, ao sabor do vento, das modas, das redes sociais, e agirmos contra o que apregoamos: “Não acho bem que tenhas consolas, mas toma lá uma PS4, já que todos os teus amigos têm”. As crianças têm de ter a ideia de que estão em primeiro lugar para os pais – e estão! – mesmo que isso não signifique, pelo contrário, usurpar a vida dos pais, já que ambas as partes devem ter uma crescente autonomia interdependente.


A ideia de que o mimo demais ou o colo estraga as crianças já está mesmo fora de moda?


Nunca o mimo estraga uma criança – o que estraga é o desamor, o desamparo, a negligência, o desprezo, o não provimento das necessidades básicas e irredutíveis da criança. Há quem diga isso, mas é tão cientificamente errado como dizer que as vacinas fazem mal e que ter doenças é que é bom. Mas mimo é a expressão major do amor oblativo, ou seja, do que se dá “apenas porque sim”, e não de chantagens, negócios, estratégias de poder, etc.


No livro, tem um capítulo sobre as vantagens da agressividade. Pode explicar algumas?


Agressividade não é violência. Agressividade é a expressão do nosso polo hormonal adrenalínico (polo “pai”: ação, atividade, ousadia, crescer, arriscar). Se respeitar o outro, a agressividade é benéfica. Se entrar pelo desrespeito e pela violência, como “corta caminho” para se obter o que se deseja, então já estamos num patamar diferente, num quadro que deve ser censurado numa sociedade que se quer formada por cidadãos livres, responsáveis, humanistas e democratas.


As crianças de hoje brincam pouco na rua, a maior parte não sabe lançar o pião, nem nunca andou num carrinho de rolamentos. Acha que essas experiências fazem falta à infância?


Não sei se é a jogar ao pião ou com carrinhos de rolamentos – sou pouco nostálgico do passado em coisas assim. Sei que as crianças precisam de interação com o meio, as pessoas e os objetos usando os cinco sentidos e não apenas o visual com um bocadinho de áudio. Se é com piões ou se é jogando futebol… isso pouco importa. Mas favorecer a brincadeira em grupo, com contato e conflitos, aprender a dirimi-los, fruir a Natureza… aí sim.


Por outro lado, a maior parte das crianças adora e é expert em tecnologia. Como é que acha que deve ser a relação das crianças com as tecnologias?


Sempre houve tecnologias porque termos a oponência do polegar é a primeira das tecnologias! Quanto às novas – ecrãs nos seus vários matizes –, são boas desde que bem usadas, em qualidade e quantidade. Podemos ter 24 horas de zapping de luxo ou de lixo, mas uma coisa é certa: se estivermos 24 horas a ver tv não nos sobrará tempo para tudo o resto. A arte está em conseguir organizar a vida quotidiana de modo a poder fazer um bocadinho de tudo. É um desafio, mas se pararmos um bocadinho para pensar, veremos que temos muito mais graus de liberdade do que pensamos, desde que não nos deixemos levar por chavões e cultivemos uma vida frugal e simples, sem show-offs.


Existem tantas teorias e livros sobre todos os aspetos da educação de uma criança e até sobre a forma de amar um filho. Onde é que fica o instinto no meio de tanta informação?


O instinto é o que conta mais, mas a questão é saber se o instinto não tem de ter baias e limites, ele próprio. Será instintivo, eventualmente, dar bofetadas ou puxar as orelhas a uma criança que não faz o que os pais dizem ou que é malcriada… e contudo, este comportamento deve ser interdito. O instinto dá ao animal humano capacidade de fazer o melhor, mas também de exercer, sobretudo face a mais fracos, um poder que pode ter raias de perversidade e de vingança “pelos males do mundo”. E, como em tudo na vida, a Ciência – pediatria, psicologia, antropologia, sociologia, ética – pode ajudar os pais a balizar os seus comportamentos sem lhes dizer propriamente o que devem fazer, estilo “manual de etiqueta”.


O que é que faz falta às crianças de hoje?


É difícil particularizar, dado que, como afirmou Ortega y Gasset, “nós somos nós e as nossas circunstâncias”, e as circunstâncias variam quase tanto como as pessoas. Todavia, creio que falta cultivar a frugalidade, o que é diferente da pobreza, embora muitas vezes confundida. Ser pobre é não poder ter. Ser frugal é poder ter e não querer ter porque será redundante, exagerado ou desperdício. Devemos divertir-nos mais com coisas naturais, não dispendiosas, e ensinar as crianças a amarem a vida e a balizarem os comportamentos pela ética. Confundir o Bem e o Mal e desculpar ou branquear o Mal é um dos problemas com que nos enfrentamos. Simplicidade, humildade, cultura, divertimento com coisas pequenas, relações interpessoais e não meramente em redes sociais… enfim, fica uma ideia. Mas, note-se, não defendo, pelo contrário, o regresso à Idade das Cavernas!


E o que é que as faz felizes?


Serem amadas. Sentirem-se amadas, acompanhadas, orientadas. Sentirem limites. Saberem que alguém se preocupa em ensiná-las e terem gosto em aprenderem, em aperfeiçoarem-se, em serem melhores e transcenderem-se, e também em fazerem bem “porque sim”, como pessoas honradas e cidadãos intervenientes que devem ser. A felicidade passa também por se sentirem únicas, importantes e imprescindíveis. Claro que um geladinho ou chocolates, um passeio ou um cinema de vez em quando também as faz felizes, tal e qual um beijinho inesperado no meio do corredor ou um abraço “só porque apetece”… e aos pais igualmente, quando as acompanham nesses momentos irrepetíveis.
Leia as crónicas de Mário Cordeiro no site da Pais & Filhos:

Aconselho a leitura do artigo! 
PN

 

sábado, 4 de outubro de 2014

Ponta Afiada



 Alguém diz:
- Que criança mentirosa, sempre a inventar histórias!
Outro alguém acrescenta:
- É só para chamar a atenção!
Ainda  outro  remata:
- Não é para chamar a atenção mas à RELAÇÃO! E se a criança mente, aprendeu com quem a ensinou a mentir.
Os pais mentem, mentem muito, desdizem-se um ao outro mesmo na frente de um pequeno espectador, dão-lhe péssimo exemplo, porque a mentira alarga-se aos restantes familiares,  passa aos conhecidos e amigos e no local de trabalho, refila como uma planta do mal.
Quantas vezes a criança necessita inventar( recriar) cenários imaginários, imiscuindo realidade e ficção para suportar o quotidiano que a aterroriza, que a confunde,  que a devora, que a desvaloriza, que a desrespeita, que lhe retira a essência e  o vigor .
Estes pais assumiram um compromisso e não conseguem levá-lo a bom porto.  Como se não bastasse, fazem uma aliança, um pacto secreto , tirânico e diabólico; actuam incessantemente na mente da criança, à semelhança de como agem  os líderes fantasma   de al- Qaeda, quanto mais laboram pioram o comportamento, o aproveitamento escolar, alteram o  carácter e baralham  a personalidade da criança. São pais criminosos e desequilibrados.
Para quem julga o contrário; “coitadinhos dos abandonados à sua sorte”, desengane-se, os que fogem, os “patinhos feios”, os desordeiros, têm mais possibilidades de singrar porque não os obrigam a beber tóxicos, e se descobrirem ou forem descobertos no caminho, por gente capaz, gente com boa índole, gente saudável ou mesmo altruísta que adopta, pode ser a sua salvação. Cito o exemplo do Diogo Infante (vejam a entrevista em Alta Definição).

Essa história; “ Filho, obedece ao teu pai e à tua mãe” – pode ser uma frase assassina.   PN
Nota: Fotos retiradas da Internet

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Poema sem título


(Imagem raptada da Net acerca da vida das Ninfas)

Puseram-se em fuga
seres vagantes
fugidios errantes,
as vestes ?
velas pandas
sopradas na pressa da corrida
Foi na moita
ali…
que sem morosidade se despiram
impacientes ,
forma estouvada
Ósculos repenicados
na pontinha dos lábios;
depois mais longos, mais apertados
esmagados, frios, gélidos
risinhos à socapa …
No instante seguinte;
olhos nos olhos
semblante grave
é a linfa que arrebita
Bocas cobiçosas
ranhuras de mel
ou de par em par
sorvidas uma  na  outra
Línguas roçadas
bêbadas em festa
Dentes alvos e puros
Monumentos megalíticos;
Construção  dura, saliente
mais a   polpa, dentina e esmalte
Ciosos de cerimónias afagadas
Banquete assaz apetecido
Mãos quentes
sob as vestes percorrem uma e outra perna
É a falésia  a chamar almas
O peito sobe e desce mais pulsado
Cabelos esgaçados, puxados 
entre ávidos dedos…
Vagidos assomam da cave
do velho tronco centenário;
raízes amadas….
Montanhas assaltadas
mamilos eriçados e furtados
a habilidades mestres e macias, facilmente soldáveis
ao relento
d’uma qualquer tarde abrasiva;
o  pudor é silenciado
o  medo posto de lado
o pecado abre pernas desavergonhado
O ardor febril
Torna o assalto  à medida da vontade
pele roçada , esmagada , beliscada
 Há regatos abertos
filamentos  viscosos  de lava
escorrem morosamente
mel que se desprende do vazadouro
languidamante…
e é a boca que o vai chupar, lamber
o rosto lambuzar…
Há  rosas atrevidas
desprendidas ….
pintam  paisagem lascivas
constroem histórias
verbalizam numa linguagem despudorada
desfiles de fantasias ,
 loucuras a serem perpetuadas
no jardim das delícias.
PN