na varanda
esticado
parede fora
ligeiramente curvado
quase todo aprumado
enregelado
um rapaz
de ombros encolhidos
resiste ao frio
introvertido
permanece assim, calado
O vento armado leva-lhe os cabelos
abre-lhe a camisa
galga tronco abaixo
até ao ventre
O moço levanta o pescoço
perturbado
E o furacão alvoroçado
empurra-o
provoca-o para um rixa
sacode-lhe os ombros espadaúdos
Tempo perdido
Resolve entrar pelo cano das calças escuras
E subir até à cintura
O cinto largo não permite escalar mais .
Tem pernas esguias
músculos treinados
é novo, bem tratado
boa imagem
As rajadas soltas serenam…
que fazer?
mal humorado
o senhor dos temporais
tenta arrancar os braços
mas as mãos estão presas nos bolsos das calças
Tenta içá-lo …
Nada
De novo
Nada
O rapaz não se deixa provocar
continua de pé, para a frente e para trás
as rajadas não o largam
Quem visse, diria que na varanda
há um “menino” embriagado
mas não é verdade
só está desolado
soturno
pudesse ele abocanhar um cigarro
e pássaros esvoaçariam da boca
batendo em profusão
O vento acirrado tenta esmurrá-lo
no queixo quadrado
no peito bem talhado
nos ombros fortificados
Todo o corpo
ostenta uma presença forte
um castelo
não se verga
O senhor dos temporais torna-se asqueroso
de propósito belicoso
de tal forma
se torna vil, abjecto
que o rapaz solta as mãos das calças e atira-as à parede
O sopro guerreiro aproveita o momento titubeante
salta-lhe para cima
ataca-o destemido
crava-lhe as unhas
um ataque momentâneo
já se endireita rapidamente
e a postura a mesma …
como se nada tivesse acontecido
os olhos dele tornam-se abstractos
alheados de toda e qualquer circunstância do momento
não que contemple o paraíso
ou se mostre sem
juízo
No seu rosto
há uma bondade natural
uma pachorra
não blasfema
nem boceja de fastio
Lábios carnudos cereja
semiabertos
pela brecha
distingue-se dentes
alvos, frescos
cabelos bruxuleantes
ondulam, serpenteiam inquietos
O vento clama
cenho carregado
cinzento
Cinge-o num abraço, aperta-o com força pela cintura
Quer ouvi-lo gritar
o rapaz coíbe-se de qualquer retaliação
revestido de uma couraça
apenas uma ligeira crispação
Uma rasteira certeira
arrepia-lhe a alma
tropeça nos próprios pés
rodopia embaraçado no inimigo
rumoreja enredado…
rola sobre o gradeamento
desliza desamparado
…da cabeça escorrega um fio de sangue
O guerreiro bravio e grandioso
dardeja mais forte
arreliado e sem comiseração
Detentor da situação
rasga-lhe a camisa
com violência
O jovem mortificado
e desconcertado
deixa-se ir até ao chão
O furacão épico exige que se levante
o rapaz ainda ergue o braço esgazeado
estiolado
a cabeça descai para o lado.
O senhor dos temporais ruidoso e fanfarrão
bate em retirada
Os olhos do jovem pestanejam…
e devagar, muito devagar prepara-se para se erguer do chão.
PN





