domingo, 10 de maio de 2015

Deixa

                                                                   Pierre Auguste Cot

Deixa meus dedos 
Opalinos
Descerem teu corpo
Numa melopeia
De vento quente.
Deixa lamber tua pele sedosa
Em sussurros …
Em murmúrios…
Na descoberta do fruto proibido.
Deixa minha língua insubmissa
Franjar
o teu medo secreto.
Deixa à mostra
Essa maresia
De cabelos ondulados
Ornado com conchas verdes
E sóis na boca…
Deixa-me ser sal, doce e pimenta…
E sorver todo teu bafo hortelã…
PN
(Reedição)

Só nós dois...

                                                        Pierre Auguste Cot

Só nós dois…(sorriso maroto)
Imagino-o aqui…afagando minha alma
sua boca mordendo a minha, desperta emoções
em vagas fragosas e em tais visões…
que desfaleço num leito de calma
Descanse a sua mágoa no estendal
onde estão meus seios envolvidos
por entre risos divertidos
torno sua dor irreal…
Venha….deixe-se guiar por mim!
entre na alameda deste meu jardim
Veja; as flores num murmúrio a cabeça inclinaram
e os pássaros num estremeção aflito viajaram….
PN
(reedição)

Vou a sós com a estrada


Leve …asinha de pássaro…
A calçada leva-me
na abundância da descida
Do lado esquerdo casario deserto
Do lado direito o mesmo enfeite…
Deixa-me ir… pena não haver uma escrivaninha
Sentir
a tinta a escorrer do dedo….
a galgar a mão minha…
paro, faço ligeiro reparo
belas quintas,
com certeza gente rica
quintais abastados de verde
vasos persas…
tapetes nas esquinas
a pressa a correr no peito
a crescer a bem aparada relvinha…
É mais de meio dia…
A tarde já desflorou…
E nem vislumbre de gente na rua…
Nem outros rugidos perturbadores…
E a alma caminha tão levezinha…
Vai só, é grande, imensa …cheia de ar…
Livre, sem amarras
Apenas demasiado sozinha…
PN                                                            
Fredèric Soulacroix
(reedição)

No tempo dos sonhos


NA FALTA DAS MINHAS PALAVRAS
O VAZIO NÃO FICOU MAIS CHEIO
'
NA TUA BOCA FLORIAM AVES
EU NAQUELE TEMPO 
CEGUEI...
NÃO VI!
'
OS TEUS PASSOS SUBTIS
PERDERAM-SE EM VÉUS
NUS E VIRGINAIS
'
SÓ DEPOIS LI
NA TINTA QUE ESCORRIA
DOS TEUS OLHOS
DESSES OLHOS QUE NUNCA VI
'
ENLOQUECI-TE
COM MÃOS DE ESPUMA
E LÍNGUAS DE FOGO
'
E TU SOLTASTE AS TECLAS
E O SOM AGUDIZOU-SE
EM ORGASMOS FRENÉTICOS
'
OS CORPOS LONGÍNQUOS
AGITARAM-SE
EM FANTASIAS...QUE EU INVENTAVA
'
AS NOITES FORAM BRANCAS 
...VESTIDAS DE LUTO
EM LEITO RÍGIDO E FRIO
'
AGORA 
DESTE CAIS ONDE A SAUDADE MORA
REPOUSAM APENAS OS MEUS AIS...
'
PUDESSE EU TOCAR-TE
QUANDO O TEMPO
AINDA ERA PRIMAVERA ALADA

PN  (reedição)                                              Pierre Auguste Cot

Paisagem

 Obra de Jean-François Millet

Manchas aguareladas clareiam a figura da campesina
insectos vários poisam nas flores docemente
mais à distância distingue-se uma casita pequenina
e da chaminé rústica evola-se um fumo quente
Mais à direita, um retalho nebuloso rasga o ocaso vagamente
o canto uníssono d'um grupo de raparigas
uma gaivota agita as asas lentamente
e os campos enchem de trigo as espigas
O camponês exaltado eleva emocionado os olhos celestiais
espelhando a paixão cor em coloridos vitrais
em bicos de pés , no real quadro, o rio espreguiça-se no leito...
Logo de seguida, para dentro da pintura levo meu desejo ideal
o de elevar com altruísmo aquele amor triunfal
mas senti um estranho e solitário sentimento no peito....
PN
Nota: (Um desafio amigo do facebook .... reedição sujeita a  alterações)

domingo, 3 de maio de 2015

Tu por mim…eu por ti!

As tuas mãos trémulas e frias
repousam carinhosamente nas minhas
aquecidas em lume brando...
na paz destes dias...
Essa nostalgia….
Outras vezes alegria!
sou de novo tua alvorada
teus olhos ainda  não perderam o brilho!
  enchem-se de rosas sem espinhos
e eu fito-te  com eterna   comoção!
Desmancha a ruga sombria
que no sobrolho faz ninho
Meu peito segura teus cansaços
Vamos agora caminhar devagarinho
que eu  amparo teus passos…(sorrimos)
PN

sábado, 25 de abril de 2015

Abril, que seja um peixe fresco, bem fresco a saltar da rede para o mar!


No fundo, no mais fundo 
nas entranhas do funil 
há uma boca altifalante
que anuncia o fim do mundo


No fundo, no mais fundo
dos dias coxos e curtos
há uma boca altifalante
que morde o apocalíptico surto


No fundo, no mais fundo
do roubo sem piedade e sem dó
há uma boca altifalante 
que conhece um povo que morde o pó


No fundo, no mais fundo
a matança já começou
há uma boca altifalante
a dizer que muito sangue jorrou!!!

                                                 PN