domingo, 21 de junho de 2015

António Lobo Antunes - As mulheres têm fios desligados.

De Júlio Machado Vaz 
Roubado ao blog Crónicas Rosa Cueca.

António Lobo Antunes - As mulheres têm fios desligados.

Há uns tempos a Joana:
- Pai, acabei um namoro à homem.Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda:-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de- Já não gosto de tide- Não quero maischegam com discursos vagos, circulares- Preciso de tempo para pensar- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanasou declarações do género de- Tu mereces melhor do que eu- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua faltae aos amigos- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata- Custou-me mas foi- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu- Chora um dia ou dois e passa-lhee pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safoe depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias- As mulheres têm fios desligadose um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam- Já não gosto de tise informam-Não quero maisaí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)- O problema não está em ti, está em mima mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.Fui(espero que não muitas vezes)rasca.Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual- Mereces melhor que eulevou como resposta- Pois mereço. Rua.Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua- O que faço às cartas de amor que me escreveu?e a amiga sua- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.Fazem de certeza: é so copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga- E depois de ele se ir embora?- Depois chorei um bocado e passou-me.Ontém jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.

Boa leitura :) 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

O lugar

A construção pariu ratazanas polidas, execráveis, endeusadas…disparam dos altos cargos em descapotáveis ganhos nas contas sumptuosas da Telexfree… e alardeiam-se à Hollywoodiana.

Lugar vizinho do vazio

Sítio engolido pelo chão

Edifício roído pela podridão

E gente, gente pífia, aquários de prisão

 

Lugar, armadilha do bem

Sítio entranhado de metal e de frio…

Edifício de risos sujos e dentes sádicos

Almas agrestes, maldosas e o perigo do dinheiro na mão

 

Sem saudade deste lugar…

Liberdade em fuga

Teia de aranha fechada

Que pica e mata quem vai a par

 

Fétido lugar, sítio de falso brilho

Besuntado de estrume e olhos de través

Algema bandida, furacão soberano

Falsa oração, cúmplice da maldição viés

 

PN


Nota( Ainda não consigo retomar as visitas habituais e recíprocas .... em breve contem comigo. Com a mesma atenção de sempre... )
PN

domingo, 10 de maio de 2015

No cimo da tua mesa…



No cimo da tua mesa há rima branca
dispersa, poalha, farelo…assim, desaparecida….
luz branca que sorri e flutua
e o problema retorceu a anca…

No cimo da tua mesa há muros espessos
nós apertados à tua garganta
dúvidas engasgadas, guilhotinas de medo
 a tua cabeça rola nas bocas do mundo…

No cimo da tua mesa há vertigens
suicidas, sedutoras, convidativas ao salto mortal
tudo seria mais fácil….
Mas outra força maior puxa-te para a vida

No cimo da tua mesa há um espelho
onde se reflecte o que nem sabes …
navios, mastros, santos mártires …
homens intocáveis, inteiros

No teu cimo da tua mesa há acusações
sentimentos de culpa, espinhos que te mordem
e ferem a boca
confusões, artilharia apontada e mentira pesada


No cimo da tua mesa navegam peixes de água doce
tempestades marinhas
mar calmo….
até regos bem cultivados e alface a saltar para cima…

No cimo da tua mesa há verdades dolorosas
que não podes vencer…
por muito que grites e combatas
é uma conquista que irás perder

No cimo da tua mesa, a um canto
 a  esperança aguarda por ti
parou de chover…
mesmo com o estômago embrulhado,

sai, sai a correr
segura a tua idade
não a deixes fugir.
PN                                                        Jean Frederic Schall





Cinza… nevoeiro



Mentira 
vazio inteiro
Embarcação abalroada 
num cais desfeito
Casco aberto
num céu coberto
Úlcera sem sentido a morder o peito
O que ainda agora foi…
deixou de ser
Amor sem hora…
Faúlhas amortecidas 
a guarnecer –te o leito.
Reflexos do céu… não passam por aqui…
Se houvesse luar, pedia um pouco de luz para a minha noite
Reduzida a faúlhas, desbotada
O que já foi:
Rubro
Pujante
Delicado
Divertido
Um segredo secreto
Só nosso
Um amor sentido!
Um amor certo !

PN
(reedição)

No_Masculino











Foram dias de demora
puxados num ápice
Línguas trocadas
roçadas
Saliva de uivos
salpicadas de ternura...
Noite adentro
corpos orvalhados
paisagem serena
amena de Verão
aconchego do abraço
terno sossego
A lua acende ...
e o desejo roça
acorda
a água mansa
rola na areia fina
num burburinho
inaudível
Solta-se o soluço
e o caudal
transborda…
O turbilhão resvala
e a pressa da ânsia
arrasta os poros,
desprende-se
do leito
e cavalga frenética!
A tua boca gulosa
provoca
sequiosa
fogosa...
O incêndio aviva-se
O quarto é pequeno
a vontade não cabe
na cama
É urgente ir mais longe
trepar paredes
cadeiras
mesas…
sem pudor
sem receio
sem medo
de sentir...
Respirar sofregamente
em perfeito movimento
ora louco
ora rouco
arquejante
o momento...
Gemido dorido
Soluço abafado
convulsão
espasmo...
O fluído impaciente
desemboca
na tua boca...
PN
(Reedição)

Deixa

                                                                   Pierre Auguste Cot

Deixa meus dedos 
Opalinos
Descerem teu corpo
Numa melopeia
De vento quente.
Deixa lamber tua pele sedosa
Em sussurros …
Em murmúrios…
Na descoberta do fruto proibido.
Deixa minha língua insubmissa
Franjar
o teu medo secreto.
Deixa à mostra
Essa maresia
De cabelos ondulados
Ornado com conchas verdes
E sóis na boca…
Deixa-me ser sal, doce e pimenta…
E sorver todo teu bafo hortelã…
PN
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Só nós dois...

                                                        Pierre Auguste Cot

Só nós dois…(sorriso maroto)
Imagino-o aqui…afagando minha alma
sua boca mordendo a minha, desperta emoções
em vagas fragosas e em tais visões…
que desfaleço num leito de calma
Descanse a sua mágoa no estendal
onde estão meus seios envolvidos
por entre risos divertidos
torno sua dor irreal…
Venha….deixe-se guiar por mim!
entre na alameda deste meu jardim
Veja; as flores num murmúrio a cabeça inclinaram
e os pássaros num estremeção aflito viajaram….
PN
(reedição)