sábado, 18 de julho de 2015

Falta a lua…

Miguel Angel Ramirez, de El Salvador

Afasta a mão e deixa o sol passar, 
não, não é assim…
se fugir a culpa será tua!
Segura bem o frasco, retira a tampa, deixa-o entrar …
agora, muito depressa…rápido 
volta a fechar …
… só precisamos d’um bocadinho de ouro
a tilintar no transparente vidro ar
Abre de novo para eu atirar para dentro água doce, doce mar 
Apetece-me uma….duas nuvens
uma é minha, outra é tua…
não para o sol cobrir 
só para criar uma certa sombrinha
Vou querer umas gotinhas de água
para ti e para mim… matar a sede se a garganta secar
Lembra-te das plantinhas
verdes , verdinhas …a água que restar será para a rega
Não posso perder nada … que nos fará falta
Sem esquecer um sopro de vento
um soprozinho basta, um hálito para empurrar calmamente
as duas nuvens alvas como a neve fria
e para travar o sol quando ficar muito forte
e fazer chover…quando chegar o vento norte
o que restar é para nos trazer alívio ao calor, aos meus e aos teus cabelos
em fios desenhados e criarem movimentos agitados … serpenteados
Espera aí…apanha uma ave … 
nossa companhia
À noite lado a lado, enrolados, deitados, calados
e ela no seu canto encanto a chamar o sono, pia
um rio…um fio basta para banhar os pés 
deixa ver….um pedaço de céu, como poderia esquecer…
e algumas estrelas… haverá noite no nosso mundo 
porque o sol precisa adormecer 
Agora entro eu, depois entras tu, fecha logo o frasco para ninguém fugir…
…oh, diz-me tu, o que está a faltar? Se alguma coisa falha não vou gostar.
                                                                                                           PN

terça-feira, 7 de julho de 2015

À noite haverá céu ?

Autor: Mota Urgeiro - " A rapariga na varanda"

O sol na tarde
escorregadio…
Os prédios a arder
brandamente, de forma tão aprazível, suavemente
digerindo aquele sentimento, bem por dentro,
as paredes sonolentas e tontas de bebedeira
Um motor, um rugido e o autocarro  na curva engolido
As crianças soltam-se como pardais, na rua
e eu fico aqui na varanda
com a vista calada
testemunha ocular
da tarde que se vai….
O horizonte nem se mexe…
sempre ali,
azul, fiel, firme, familiar, …  à minha frente…
Mar e céu, enrolados, abraçados
Lá em baixo há vento…
as ondas frisadas, crispadas …  
empurradas, lançando-se umas contra as outras…
em brincadeiras galopantes…delicadas, vibrantes 
espumando pela boca…
Grandeza de se ver!

PN

sábado, 4 de julho de 2015

Radiografia do quotidiano



No decurso de uma aula prática, a vozearia subiu para lá do limite tolerável; Amélia, a docente, já havia chamado à atenção várias vezes, inclusive, dirigira-se em particular aos mais perturbadores e nada. Advertiu que iria usar a caderneta, as respostas não se fizeram esperar; - “O que é que eu estou a fazer?!”  - Meta recado, pensa que me importo”, “- Faça isso e levo mais uma tareia.”
Amélia voltara para junto de um rapazinho que sentia imensas dificuldades, após uns cinco minutos, decidiu que se tornara imperativo fazer uma pausa.
- Ei, turma, vamos acalmar, parou por aqui, sentem-se todos no seu lugar. Isto não é um circo, é uma sala de aula. Não podem ir todos lavar pincéis e paletas. Saibam esperar pela vossa vez. Lembrem-se das regras! – apelou.“- Esta professora é uma chata…” A frase chegou aos ouvidos de Amélia que a ignorou. Sabia que naquele momento precisava disciplinar a turma, apenas isso.
- Já posso ir?- Não, tem calma.- Assim, assim nunca mais vou lavar o que é meu!
- Victor, todos vão fazer essa tarefa mas a pia só tem lugar para duas pessoas. Quantas lá estavam?- Sei lá!
- Tu não sabes mas eu sei! contei sete! … e sabem que só podem ir a par, caso contrário pintam-se uns aos outros, brincam, zangam-se, machucam-se e depois choram…
-Não sou dos que choram! – lastimou-se galhofeiro.Algumas risadas.- Acabou, Victor!Ainda com algum ruído perturbador:- Toda a gente sentada, se faz favor!Amélia cruzou os braços e esperou que o ambiente regressasse à normalidade:- Eu própria vou nomear quem vai à pia, de forma ordeira, compreendido?Quando todos se tinham sentado, e o ruído baixara, um aluno pôs-se de pé a meio da sala e levantou o dedo:- Diz, António!
- O meu trabalho está borrado!- Como foi que isso sucedeu?
- Estava na pia a lavar os pincéis … - pronunciou com voz trémula, quase a chorar – quando voltei, vi isto….Amélia, encaminhou-se ao lugar do aluno e pôde constatar que haviam sujado o trabalho do mais aplicado da turma. Ficou incrédula:- Quem fez isto?!
- “Não fui eu!”;  - “Não vi nada! “- Parem imediatamente, isso não me interessa, quero saber  quem sujou o trabalho do António!
De novo o alarido, todos comentava o sucedido, outros riram e acharam graça:- Coitadinho do bonzinho….- Por favor, silêncio! – ordenou enervada.
- Outra vez? Ei…nunca mais chego à pia! – os olhos do  Paulo deambulavam trocistas pela turma procurando cumplicidade. – Não pode ser agora? Olhe, não está lá ninguém! É a minha oportunidade…não percebe professora?- Senta-te e cala-te!
- Olha, senta-te e cala-te?! Está lindo! – repetiu as palavras da professora - O que é que eu fiz agora?
- Paulo, deixa de ser o meu eco, ocupa o teu lugar até esclarecermos este assunto!- Está bem, a senhora é que sabe! – proferiu num tom folgazão enquanto se ria para os colegas.- Agora  que os ânimos acalmaram, quero saber rapidamente a verdade.
- Qual verdade? – tornou Paulo.Amélia não lhe prestou qualquer atenção, já que a maioria  havia feito o mesmo.António, sentado, ar desolado. Não queria acreditar no estado em que ficara a tarefa que já tinha sido iniciada na semana anterior ….Paulo levantou-se muito atabalhoado, encaminhou-se desarticulado para junto de António e da professora e falou num tom jocoso:
- Deixe-me ver professora! – Paulo, era um aluno que já contava com várias participações pelo mau comportamento; pai alcoólico, desempregado, mãe prostituta. Vivia aos cuidados da avó, como esta trabalhava e o resto do tempo ninguém sabia ao certo onde se metia, Paulo, passava a maior parte do tempo sozinho, entregue a si próprio, sem  regras nem afecto.
Novamente uma risada geral e alguns gritos à mistura.
Amélia sentia-se muito desgastada para reagir às provocações constantes daquele estudante.- Olhe professora, a tinta é a que o Duarte está a usar! Veja, tenho razão!  – e apontou o dedo para o colega imediatamente a seguir.Duarte elevou-se no auge da raiva e contestou de forma muito agressiva:- Não fui eu, parvo! Queres que te parta esses dentes todos que tens na boca!? Mentiroso do caneco! – ainda tentou aproximar-se de Paulo com o punho cerrado, prestes a esmurrá-lo. Duarte vivia com os avós, não conhecia o pai, a mãe abandonara-o e fugira com um amante para a Inglaterra, levando o filho mais novo com ela.
- Calma Duarte, não é assim que se resolve coisa alguma! – Amélia colocou-se entre os dois rapazes.- E eu tenho medo de ti, não? – desafiou o outro.- Paulo, ocupa o teu lugar. Fica quieto!- Eu quero lanchar…tenho fome! – lastimou-se com um sorriso matreiro – vai tocar e estamos nisto…! – enquanto puxava a t-shirt, e mostrava o abdómen .Outra risada geral.- Vá, por favor, acalmem-se! Pela última vez, apelo ao bom senso! Vou levar este caso à direcção da escola! Quem foi que se acuse, pede desculpa ao colega e terminamos por aqui!- Foi o Luís! – acusou de novo o Paulo.
Luís levantou-se muito sereno e declarou:- Estás enganado, a tinta até podia ser a minha… uso uma igual …. No entanto, seria incapaz de borrar o trabalho de um amigo!- E desde quando tu e o António são amigos – voltou Paulo à carga.-Já percebi que não saímos daqui! – comentou a professora- Posso mexer no telemóvel? – inquiriu uma aluna
- É óbvio que não! – esclareceu Amélia.- Isto nunca mais acaba! Assim vou jogando…- riu-se descaradamente.- Margarida, não dificultes mais as coisas ….certo?- A senhora já mete nojo! – exclamou a mesma.Ouviu-se: “Oh…”em uníssono e um silêncio perturbador caiu como uma bomba.Amélia aproximou-se da rapariga e estendeu-lhe a mão:- A caderneta se faz favor!Em silêncio, Margarida, aluna sinalizada pela Comissão de Protecção de Menores, como sendo violenta, mal educada e perigosa, vivia com os pais e mais sete irmãos, toda a família com um historial de desacatos e furtos. 
Depois recuou, sentou-se na sua mesa, enquanto escrevia a mensagem na caderneta da aluna, ia indicando quem deveria lavar os materiais de pintura e arrumar a mochila.  Entretanto, a turma tinha acalmado mais, mal tinha terminado de escrever o recado, começou a indicar quem deveria sair.Foi o caos, a maioria incitava a professora a ser o próximo: apontavam as mais diversas razões: Uns tinham fome, outros aludiam que precisam de tempo para carregar o cartão, outros inventavam que os Encarregados de Educação esperavam-nos.- Se continuam com essa postura, ficam mesmo para o fim!De repente estalou a campainha… os que ainda faltavam, levantaram-se à pressa, arrastaram as cadeiras e empurraram-nas para debaixo da mesa, provocando um ruído medonho e correram como doidos para a porta, Amélia assistiu impotente à algazarra, os berros, os assobios, os atropelos, pretendiam sair todos em simultâneo por uma porta demasiado estreita.
Entretanto, um aluno permaneceu, a professora colocou-lhe a mão no ombro:António, não te preocupes, vou agora mesmo  ao director.- Obrigada, professora!Saíram ambos, cá fora, Tiago, o mais tímido, aproximou-se de Amélia quando esta ficara só:- Posso falar consigo?- Sim!- Eu sei quem sujou o trabalho do António!- Viste?- Sim, vi, foi o Luís!- Não disseste nada…?!- Tenho medo do pai dele! – declarou.
- Porquê?
- O meu pai conhece o pai dele e diz que ele é mau.
- Já te aconteceu algum episódio com esse senhor?- Comigo não, mas sei de outros casos com alunos desta escola…
- Está bem, obrigada por me teres dito!
No gabinete do director, Amélia explicou o sucedido:- Esquece, Amélia! O pai do Luís é meu amigo e vai dar confusão!
- Mas…- Tu não sabes com quem te estás a meter! É gente complicada! Não vale a pena, conheço bem a pessoa.- E que digo ao António?- Ele que tenha paciência, acontece… faz outro trabalho! Para todos os efeitos não sabes quem foi. Ponto final!- E o Luís não vai ter nenhuma repreensão, ele mentiu na aula…- Vai à tua vida! – atalhou de repente o director e sem lhe prestar mais atenção, concentrou-se na papelada sobre a secretária.
- Bom dia – Amélia despediu-se frustrada, revoltada e atormentada com tanta injustiça à sua volta.

PN

Desejo Boas Férias para quem vai ou já se encontra  a descansar!



  


domingo, 28 de junho de 2015

Radiografia do quotidiano


    Luísa tem catorze anos, é uma rapariguinha bonita, moderna, desempoeirada, sorriso fácil, aluna acima do razoável, postura amadurecida…. Entrou no café, praticamente vizinho da escola e ocupou uma das mesas. Não havia ninguém àquela hora…. O ambiente rústico e sonâmbulo “casava “ bem com as fotografias a preto e branco “fixadas” na parede, com sorrisos abrilhantados, fisionomias antigas e fascinantes, cabelos compridos desalinhados ou polidos e macios, ou ainda muito curtinhos e chiques, expressões que ninguém diria serem estudadas de tão aparentemente naturais!
A jovem retirou da mochila um caderno e uma esferográfica quando se ouviu:
- Luísa! - alguém exclamou.
- Olá professora! - cumprimentou simpática  e continuou - é convidada a sentar-se?
- Não sei se será boa ideia… é que  não estou só, venho acompanhada com mais duas professoras :
- Podem sentar-se aqui, as três, na minha mesa! Será um prazer! Já as conheço!
- A sério? Não incomodamos? -
- Não! assim até vai parecer que estou na sala de aula. - comentou sorrindo.
- Então Luísa, a desenhar? – perscrutou a  professora de cabelo desgrenhado e farto.
- Hoje ainda nada …é só  para me entreter, nada de especial!
- Mostra lá o que já tens, para vermos! – sugeriu a terceira, de cabelo castanho claro e ondulado.
- Peço desculpa professora, não vale a pena! É pouco para …
- Está bem, quando o concluíres, mostras?
- Combinado!
- Tens uma caneta muito bonita! – observou a professora de cabelo castanho escuro liso a apanhado.
- Foi o meu pai que me ofereceu no Natal – respondeu com uma pontinha de vaidade.
- Isso prova que o teu pai tem bom gosto – tornou a professora de cabelo apanhado.
A rapariga riu-se e acrescentou em tom calmo:
- Não foi só a caneta que ele me ofereceu, também “As cinquentas Sombras de Grey”, os volumes todos…
- E já leste algum deles? – indagou curiosa  enquanto consultava a reacção das outras pela troca de olhares.
- Já li todos! – respondeu sem qualquer perturbação.
- Isso é dirigido a um publico adulto -  comentou a professora de cabelo desgrenhado.
- Mas ela é praticamente adulta! – concluiu a professora de cabelo castanho claro e ondulado.
- O meu pai teve uma conversa comigo e disse-me, para eu não andar a espreitar na Internet mais valia ler os livros, assim decidiu oferecer-me!
- O teu pai é mente arejada, moderno e conhece bem a filha que tem! – rematou a professora de cabelo liso e apanhado com uma gargalhadinha triunfante e sempre a sondar matreira  a reacção das outras colegas.
- Concordo, concordo – repetiu a de cabelo claro e ondulado.
A professora de cabelo desgrenhado e farto permaneceu em silêncio….limitou-se a observar fixamente os rostos das presentes.
- Olha, Luísa, - começou a de cabelo liso e apanhado – não sei se é do teu conhecimento, mas a obra já foi adaptada para o cinema e já anda aí nas salas…
- Eu sei professora, foi tanta publicidade, impossível não saber!
- O teu pai que diz disso? – quis saber a  de cabelos claros e ondulados.
- Eu já fui ver o filme ao cinema. – declarou com um sorriso maroto nos lábios.
- Ah!... ele permitiu?! Tens um  pai  fora de série! – lisonjeou a de cabelo apanhado.
- Ela é uma miúda sortuda, ter o pai que tem e ele deve orgulhar-se dela! – anunciou a de cabelo ondulado.
Luísa mostrou de repente uma timidez… própria da sua idade, camuflada num sorriso forçado.
- E gostaste do filme? - interpelou a de cabelo liso e apanhado.
- Não gostei, deturparam certos detalhes da escrita e fico a preferir os livros… Desencantei-me totalmente com o filme, em nada semelhante ao que li.
- Vês, ela é da mesma opinião da grande maioria de  pessoas que viu o filme - declarou a de cabelo ondulado dirigindo-se   à de cabelo apanhado – e adiantou – Uma rapariga de catorze anos…se todos os alunos da idade dela mostrassem uma pontinha desta maturidade, seria óptimo!
A rapariga sentiu o ego atirado ao alto, ria-se mas não sabia onde meter a cara!
A professora de cabelo desgrenhado aproveitou para dizer:
- Conseguem ouvir? É a campainha – consultou o relógio – Tenho aula agora…vou, vêm comigo?
- Nós também vamos! - responderam em uníssono.
- Adeus Luísa, bom dia ! - despediram-se da jovem e saíram do café  em direcção à escola.
PN
Nota( peço desculpa pelos eventuais lapsos que poderão detectar) 



 Grafite Mulher - NET







sexta-feira, 26 de junho de 2015

Radiografia do quotidiano

   
Carlos e Beatriz formam um casal aparentemente feliz, têm uma filha de oito anos, ao Domingo é habitual saírem os três, hoje para variar, convidaram a irmã mais velha dele; a Leonor.
   São dez horas, há pouca gente na rua, o mar escorregadiço e húmido provoca as muralhas do porto com os dedos dos pés, num tinir marulhado que ressoa delicioso aos ouvidos mais atentos. Enquanto, os barcos periclitantes, naquele embalo matinal deixam-se mover meio adormecidos e anestesiados pela maresia.
Carlos volta-se para Beatriz com as mãos nos bolsos dos calções desportivos:
- Que dia convidativo! – exclama sorridente
- Hoje devíamos ter feito praia! – sentencia Beatriz
- Tens razão mãe…apetecia-me um mergulhinho… - acrescenta a pequena.
- Fica para outra altura! – finaliza Carlos.
- Não pode ser hoje porquê? – questiona a miúda.
- Bea, são dez e dez, daqui até ao carro é uma escalada …depois, ainda precisamos de ir a casa buscar as coisas de praia…. E quando chegarmos lá …já é hora de voltar…
- Costa, és um desmancha prazeres…. a miúda está empolgada…! – conclui Beatriz ligeiramente irritada.
- Não me digas que pensas ir para a praia ao meio dia! – remata incrédulo.
Leonor que até então permanecera em silêncio, resolve intervir.
- O Carlos tem razão, os conselhos da protecção civil é evitar as horas em que o calor é intenso….tenho por norma nunca me expor ao sol entre as onze e as cinco da tarde!
-  Para o teu irmão, nunca é hora … há sempre objecções ….se não é uma razão é outra …
- Ei, baixa a bola, sim? Fala mais baixo, quem não tem razão aqui, és tu!
- Pode até ser que não tenha…- admite contrafeita.
- A Bea não se pode queixar de mim! – replica sério.
- Para certas coisas… sim, é verdade….para outras és muito antiquado.
- Referes-te a quê? – indaga irritado.
- Hás-de convir que tens umas ideiazinhas ultrapassadas… - continua firme.
- Dá-me um exemplo! – desafia Carlos.
- Queres saber? Aquele assunto que já discutimos, sobre os possíveis namorados da Bea… pelo que pude deduzir, parece não te agradar muito a ideia…
- Ela tem apenas oito anos, Beatriz!
- E qual é o problema, há quem seja precoce! – explica triunfante
Leonor permanece calada, sente que o assunto não lhe diz respeito. Embora ambos lhe dirijam olhares, em busca de aprovação.
- Eu não fui explícito em relação a esse assunto…sei que a Bea já é bastante madura para a idade que tem…por isso pode acontecer algum namorico.
- Mentaliza-te que a Bea pertence a uma geração diferente da tua. Está desenvolvida, é bonita, naturalmente não demorará muito a dar de caras com alguém que se interesse por ela!
A rapariga, alheada a tudo o que os adultos vaticinam, põe os olhos nas embarcações e sorri:
- Costa, olha aquele barco! É giro não é?
- É filha, tem umas cores fortes.
Bea larga em retirada  e vai observar mais de perto o pequeno barco atracado ao a um recanto.
- Tem cuidado filha, não te aproximes muito…- Carlos avisa denotando alguma preocupação
- Ainda dá o mergulho tão desejado…- gracejou Leonor.
- Mas voltando ao assunto – retoma Carlos – Não me importo que namore… desde que não seja na minha casa.
- Como? E onde é que vai ser?
- Não quero os namorados dela lá em casa….isso é que não! Um dia mete - se com um, no dia seguinte mete-se com outro…. E quantos mais? …eu conheço a filha que tenho. Quer namorar? Muito bem! vá para a serra e namora à vontade!
- Impedida de namorar é que ela não fica! – assegurou com êxito a mãe.
Leonor fez-se ouvir num tom calmo:
- É preciso atenção para que a  Bea não venha a ter   nenhum deslize na pré adolescência, por exemplo, aos doze anos…. felizmente ainda está concentrada nas bonecas e nas brincadeiras… penso que é um assunto a adiar … para quando pedir explicações…e nessa altura…
- A Bea já sabe tudo… encarreguei-me de lhe abrir os olhos! E quanto a engravidar, não te preocupes, Leonor, ela aborta! – responde de forma categórica.
- Costa, vem cá ver isto! – grita Bea, chamando o pai.
PN   25 de Junho 2015

Foto pescada da Net( sem tempo para uma apurada selecção) e ligeiramente manipulada pelo Photoshop 
(Desculpem qualquer lapso)



  
  

  


domingo, 21 de junho de 2015

António Lobo Antunes - As mulheres têm fios desligados.

De Júlio Machado Vaz 
Roubado ao blog Crónicas Rosa Cueca.

António Lobo Antunes - As mulheres têm fios desligados.

Há uns tempos a Joana:
- Pai, acabei um namoro à homem.Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda:-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de- Já não gosto de tide- Não quero maischegam com discursos vagos, circulares- Preciso de tempo para pensar- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanasou declarações do género de- Tu mereces melhor do que eu- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua faltae aos amigos- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata- Custou-me mas foi- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu- Chora um dia ou dois e passa-lhee pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safoe depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias- As mulheres têm fios desligadose um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam- Já não gosto de tise informam-Não quero maisaí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)- O problema não está em ti, está em mima mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.Fui(espero que não muitas vezes)rasca.Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual- Mereces melhor que eulevou como resposta- Pois mereço. Rua.Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua- O que faço às cartas de amor que me escreveu?e a amiga sua- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.Fazem de certeza: é so copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga- E depois de ele se ir embora?- Depois chorei um bocado e passou-me.Ontém jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.

Boa leitura :) 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

O lugar

A construção pariu ratazanas polidas, execráveis, endeusadas…disparam dos altos cargos em descapotáveis ganhos nas contas sumptuosas da Telexfree… e alardeiam-se à Hollywoodiana.

Lugar vizinho do vazio

Sítio engolido pelo chão

Edifício roído pela podridão

E gente, gente pífia, aquários de prisão

 

Lugar, armadilha do bem

Sítio entranhado de metal e de frio…

Edifício de risos sujos e dentes sádicos

Almas agrestes, maldosas e o perigo do dinheiro na mão

 

Sem saudade deste lugar…

Liberdade em fuga

Teia de aranha fechada

Que pica e mata quem vai a par

 

Fétido lugar, sítio de falso brilho

Besuntado de estrume e olhos de través

Algema bandida, furacão soberano

Falsa oração, cúmplice da maldição viés

 

PN


Nota( Ainda não consigo retomar as visitas habituais e recíprocas .... em breve contem comigo. Com a mesma atenção de sempre... )
PN