quinta-feira, 30 de julho de 2015

Pintura de Antonio da Correggio (alterada pelo photoshop)/ Voz PN/ Poema PN





Serpente



Serpente
S s s s  serpente ….
atavio, arreio da nuca
enrosque, massagem quente
s s s  serpente
tentadora
hummm ….delícia…!
Maçã púrpura, trincada cobiçosa   
provocante … ansiosa…
Antídoto da noite
não seques o rio
abocanha aflito,
espera pelo açoite.
S s s s serpente comilona
lábios argolados
mamo de línguas
súplicas desmedidas
chupos… lambidelas
exturcos macios.
Crânio
sangue quente
corpo revestido de escamas lisas
pálpebras semicerradas
Esquiva, manhosa
Vaticínio, desdita
Esperta, matreira.
Comestível
Inteira!
Meu doce tempero
S s s s  serpente da
borracheira
Arrojo, arremesso
ímpeto de louquice.
No abismo, despenha a nudez bela
Assomo rubro
Lembrança vestida de alguém;
pele aveludada
olhos felinos
lábios pedindo…o beijo
…o beijo fresco e orvalhado
Peixe a saltar para a rocha ….
S s s s serpente fraudulenta;
afluente por onde desagua o murmurejo,
arquejo, estertor , agonizo, ofego
tição a arder; estalido
ao lume da fervura estirado
Boca mordida invoca um nome.
O cavalo peludo cai rendido
A  s s s s serpente
ordena que seja feito tudo naquela cama.
Finca o salto alto na fantasia do bicho peludo
deleita-se; o garanhão indefeso…
presa fácil
A ss s s serpente
Inclina-se, as mamas saltam
Dedos ágeis percorrem as montanhas desatas
puxam os arbustos… esticam um e outro …
reviravolta, virada e nova cabriola
luta hercúlea ,
devassa de corpos
A s s s s s serpente desliza ligeira
espera o momento certo para imobilizar a caça
 arranha as  costas do animal e ali
deposita o veneno fatal…
no  seu amado,  o bicho de estimação, sempre, sempre  cúmplice na reinação …

PN






sábado, 18 de julho de 2015

Falta a lua…

Miguel Angel Ramirez, de El Salvador

Afasta a mão e deixa o sol passar, 
não, não é assim…
se fugir a culpa será tua!
Segura bem o frasco, retira a tampa, deixa-o entrar …
agora, muito depressa…rápido 
volta a fechar …
… só precisamos d’um bocadinho de ouro
a tilintar no transparente vidro ar
Abre de novo para eu atirar para dentro água doce, doce mar 
Apetece-me uma….duas nuvens
uma é minha, outra é tua…
não para o sol cobrir 
só para criar uma certa sombrinha
Vou querer umas gotinhas de água
para ti e para mim… matar a sede se a garganta secar
Lembra-te das plantinhas
verdes , verdinhas …a água que restar será para a rega
Não posso perder nada … que nos fará falta
Sem esquecer um sopro de vento
um soprozinho basta, um hálito para empurrar calmamente
as duas nuvens alvas como a neve fria
e para travar o sol quando ficar muito forte
e fazer chover…quando chegar o vento norte
o que restar é para nos trazer alívio ao calor, aos meus e aos teus cabelos
em fios desenhados e criarem movimentos agitados … serpenteados
Espera aí…apanha uma ave … 
nossa companhia
À noite lado a lado, enrolados, deitados, calados
e ela no seu canto encanto a chamar o sono, pia
um rio…um fio basta para banhar os pés 
deixa ver….um pedaço de céu, como poderia esquecer…
e algumas estrelas… haverá noite no nosso mundo 
porque o sol precisa adormecer 
Agora entro eu, depois entras tu, fecha logo o frasco para ninguém fugir…
…oh, diz-me tu, o que está a faltar? Se alguma coisa falha não vou gostar.
                                                                                                           PN

terça-feira, 7 de julho de 2015

À noite haverá céu ?

Autor: Mota Urgeiro - " A rapariga na varanda"

O sol na tarde
escorregadio…
Os prédios a arder
brandamente, de forma tão aprazível, suavemente
digerindo aquele sentimento, bem por dentro,
as paredes sonolentas e tontas de bebedeira
Um motor, um rugido e o autocarro  na curva engolido
As crianças soltam-se como pardais, na rua
e eu fico aqui na varanda
com a vista calada
testemunha ocular
da tarde que se vai….
O horizonte nem se mexe…
sempre ali,
azul, fiel, firme, familiar, …  à minha frente…
Mar e céu, enrolados, abraçados
Lá em baixo há vento…
as ondas frisadas, crispadas …  
empurradas, lançando-se umas contra as outras…
em brincadeiras galopantes…delicadas, vibrantes 
espumando pela boca…
Grandeza de se ver!

PN

sábado, 4 de julho de 2015

Radiografia do quotidiano



No decurso de uma aula prática, a vozearia subiu para lá do limite tolerável; Amélia, a docente, já havia chamado à atenção várias vezes, inclusive, dirigira-se em particular aos mais perturbadores e nada. Advertiu que iria usar a caderneta, as respostas não se fizeram esperar; - “O que é que eu estou a fazer?!”  - Meta recado, pensa que me importo”, “- Faça isso e levo mais uma tareia.”
Amélia voltara para junto de um rapazinho que sentia imensas dificuldades, após uns cinco minutos, decidiu que se tornara imperativo fazer uma pausa.
- Ei, turma, vamos acalmar, parou por aqui, sentem-se todos no seu lugar. Isto não é um circo, é uma sala de aula. Não podem ir todos lavar pincéis e paletas. Saibam esperar pela vossa vez. Lembrem-se das regras! – apelou.“- Esta professora é uma chata…” A frase chegou aos ouvidos de Amélia que a ignorou. Sabia que naquele momento precisava disciplinar a turma, apenas isso.
- Já posso ir?- Não, tem calma.- Assim, assim nunca mais vou lavar o que é meu!
- Victor, todos vão fazer essa tarefa mas a pia só tem lugar para duas pessoas. Quantas lá estavam?- Sei lá!
- Tu não sabes mas eu sei! contei sete! … e sabem que só podem ir a par, caso contrário pintam-se uns aos outros, brincam, zangam-se, machucam-se e depois choram…
-Não sou dos que choram! – lastimou-se galhofeiro.Algumas risadas.- Acabou, Victor!Ainda com algum ruído perturbador:- Toda a gente sentada, se faz favor!Amélia cruzou os braços e esperou que o ambiente regressasse à normalidade:- Eu própria vou nomear quem vai à pia, de forma ordeira, compreendido?Quando todos se tinham sentado, e o ruído baixara, um aluno pôs-se de pé a meio da sala e levantou o dedo:- Diz, António!
- O meu trabalho está borrado!- Como foi que isso sucedeu?
- Estava na pia a lavar os pincéis … - pronunciou com voz trémula, quase a chorar – quando voltei, vi isto….Amélia, encaminhou-se ao lugar do aluno e pôde constatar que haviam sujado o trabalho do mais aplicado da turma. Ficou incrédula:- Quem fez isto?!
- “Não fui eu!”;  - “Não vi nada! “- Parem imediatamente, isso não me interessa, quero saber  quem sujou o trabalho do António!
De novo o alarido, todos comentava o sucedido, outros riram e acharam graça:- Coitadinho do bonzinho….- Por favor, silêncio! – ordenou enervada.
- Outra vez? Ei…nunca mais chego à pia! – os olhos do  Paulo deambulavam trocistas pela turma procurando cumplicidade. – Não pode ser agora? Olhe, não está lá ninguém! É a minha oportunidade…não percebe professora?- Senta-te e cala-te!
- Olha, senta-te e cala-te?! Está lindo! – repetiu as palavras da professora - O que é que eu fiz agora?
- Paulo, deixa de ser o meu eco, ocupa o teu lugar até esclarecermos este assunto!- Está bem, a senhora é que sabe! – proferiu num tom folgazão enquanto se ria para os colegas.- Agora  que os ânimos acalmaram, quero saber rapidamente a verdade.
- Qual verdade? – tornou Paulo.Amélia não lhe prestou qualquer atenção, já que a maioria  havia feito o mesmo.António, sentado, ar desolado. Não queria acreditar no estado em que ficara a tarefa que já tinha sido iniciada na semana anterior ….Paulo levantou-se muito atabalhoado, encaminhou-se desarticulado para junto de António e da professora e falou num tom jocoso:
- Deixe-me ver professora! – Paulo, era um aluno que já contava com várias participações pelo mau comportamento; pai alcoólico, desempregado, mãe prostituta. Vivia aos cuidados da avó, como esta trabalhava e o resto do tempo ninguém sabia ao certo onde se metia, Paulo, passava a maior parte do tempo sozinho, entregue a si próprio, sem  regras nem afecto.
Novamente uma risada geral e alguns gritos à mistura.
Amélia sentia-se muito desgastada para reagir às provocações constantes daquele estudante.- Olhe professora, a tinta é a que o Duarte está a usar! Veja, tenho razão!  – e apontou o dedo para o colega imediatamente a seguir.Duarte elevou-se no auge da raiva e contestou de forma muito agressiva:- Não fui eu, parvo! Queres que te parta esses dentes todos que tens na boca!? Mentiroso do caneco! – ainda tentou aproximar-se de Paulo com o punho cerrado, prestes a esmurrá-lo. Duarte vivia com os avós, não conhecia o pai, a mãe abandonara-o e fugira com um amante para a Inglaterra, levando o filho mais novo com ela.
- Calma Duarte, não é assim que se resolve coisa alguma! – Amélia colocou-se entre os dois rapazes.- E eu tenho medo de ti, não? – desafiou o outro.- Paulo, ocupa o teu lugar. Fica quieto!- Eu quero lanchar…tenho fome! – lastimou-se com um sorriso matreiro – vai tocar e estamos nisto…! – enquanto puxava a t-shirt, e mostrava o abdómen .Outra risada geral.- Vá, por favor, acalmem-se! Pela última vez, apelo ao bom senso! Vou levar este caso à direcção da escola! Quem foi que se acuse, pede desculpa ao colega e terminamos por aqui!- Foi o Luís! – acusou de novo o Paulo.
Luís levantou-se muito sereno e declarou:- Estás enganado, a tinta até podia ser a minha… uso uma igual …. No entanto, seria incapaz de borrar o trabalho de um amigo!- E desde quando tu e o António são amigos – voltou Paulo à carga.-Já percebi que não saímos daqui! – comentou a professora- Posso mexer no telemóvel? – inquiriu uma aluna
- É óbvio que não! – esclareceu Amélia.- Isto nunca mais acaba! Assim vou jogando…- riu-se descaradamente.- Margarida, não dificultes mais as coisas ….certo?- A senhora já mete nojo! – exclamou a mesma.Ouviu-se: “Oh…”em uníssono e um silêncio perturbador caiu como uma bomba.Amélia aproximou-se da rapariga e estendeu-lhe a mão:- A caderneta se faz favor!Em silêncio, Margarida, aluna sinalizada pela Comissão de Protecção de Menores, como sendo violenta, mal educada e perigosa, vivia com os pais e mais sete irmãos, toda a família com um historial de desacatos e furtos. 
Depois recuou, sentou-se na sua mesa, enquanto escrevia a mensagem na caderneta da aluna, ia indicando quem deveria lavar os materiais de pintura e arrumar a mochila.  Entretanto, a turma tinha acalmado mais, mal tinha terminado de escrever o recado, começou a indicar quem deveria sair.Foi o caos, a maioria incitava a professora a ser o próximo: apontavam as mais diversas razões: Uns tinham fome, outros aludiam que precisam de tempo para carregar o cartão, outros inventavam que os Encarregados de Educação esperavam-nos.- Se continuam com essa postura, ficam mesmo para o fim!De repente estalou a campainha… os que ainda faltavam, levantaram-se à pressa, arrastaram as cadeiras e empurraram-nas para debaixo da mesa, provocando um ruído medonho e correram como doidos para a porta, Amélia assistiu impotente à algazarra, os berros, os assobios, os atropelos, pretendiam sair todos em simultâneo por uma porta demasiado estreita.
Entretanto, um aluno permaneceu, a professora colocou-lhe a mão no ombro:António, não te preocupes, vou agora mesmo  ao director.- Obrigada, professora!Saíram ambos, cá fora, Tiago, o mais tímido, aproximou-se de Amélia quando esta ficara só:- Posso falar consigo?- Sim!- Eu sei quem sujou o trabalho do António!- Viste?- Sim, vi, foi o Luís!- Não disseste nada…?!- Tenho medo do pai dele! – declarou.
- Porquê?
- O meu pai conhece o pai dele e diz que ele é mau.
- Já te aconteceu algum episódio com esse senhor?- Comigo não, mas sei de outros casos com alunos desta escola…
- Está bem, obrigada por me teres dito!
No gabinete do director, Amélia explicou o sucedido:- Esquece, Amélia! O pai do Luís é meu amigo e vai dar confusão!
- Mas…- Tu não sabes com quem te estás a meter! É gente complicada! Não vale a pena, conheço bem a pessoa.- E que digo ao António?- Ele que tenha paciência, acontece… faz outro trabalho! Para todos os efeitos não sabes quem foi. Ponto final!- E o Luís não vai ter nenhuma repreensão, ele mentiu na aula…- Vai à tua vida! – atalhou de repente o director e sem lhe prestar mais atenção, concentrou-se na papelada sobre a secretária.
- Bom dia – Amélia despediu-se frustrada, revoltada e atormentada com tanta injustiça à sua volta.

PN

Desejo Boas Férias para quem vai ou já se encontra  a descansar!



  


domingo, 28 de junho de 2015

Radiografia do quotidiano


    Luísa tem catorze anos, é uma rapariguinha bonita, moderna, desempoeirada, sorriso fácil, aluna acima do razoável, postura amadurecida…. Entrou no café, praticamente vizinho da escola e ocupou uma das mesas. Não havia ninguém àquela hora…. O ambiente rústico e sonâmbulo “casava “ bem com as fotografias a preto e branco “fixadas” na parede, com sorrisos abrilhantados, fisionomias antigas e fascinantes, cabelos compridos desalinhados ou polidos e macios, ou ainda muito curtinhos e chiques, expressões que ninguém diria serem estudadas de tão aparentemente naturais!
A jovem retirou da mochila um caderno e uma esferográfica quando se ouviu:
- Luísa! - alguém exclamou.
- Olá professora! - cumprimentou simpática  e continuou - é convidada a sentar-se?
- Não sei se será boa ideia… é que  não estou só, venho acompanhada com mais duas professoras :
- Podem sentar-se aqui, as três, na minha mesa! Será um prazer! Já as conheço!
- A sério? Não incomodamos? -
- Não! assim até vai parecer que estou na sala de aula. - comentou sorrindo.
- Então Luísa, a desenhar? – perscrutou a  professora de cabelo desgrenhado e farto.
- Hoje ainda nada …é só  para me entreter, nada de especial!
- Mostra lá o que já tens, para vermos! – sugeriu a terceira, de cabelo castanho claro e ondulado.
- Peço desculpa professora, não vale a pena! É pouco para …
- Está bem, quando o concluíres, mostras?
- Combinado!
- Tens uma caneta muito bonita! – observou a professora de cabelo castanho escuro liso a apanhado.
- Foi o meu pai que me ofereceu no Natal – respondeu com uma pontinha de vaidade.
- Isso prova que o teu pai tem bom gosto – tornou a professora de cabelo apanhado.
A rapariga riu-se e acrescentou em tom calmo:
- Não foi só a caneta que ele me ofereceu, também “As cinquentas Sombras de Grey”, os volumes todos…
- E já leste algum deles? – indagou curiosa  enquanto consultava a reacção das outras pela troca de olhares.
- Já li todos! – respondeu sem qualquer perturbação.
- Isso é dirigido a um publico adulto -  comentou a professora de cabelo desgrenhado.
- Mas ela é praticamente adulta! – concluiu a professora de cabelo castanho claro e ondulado.
- O meu pai teve uma conversa comigo e disse-me, para eu não andar a espreitar na Internet mais valia ler os livros, assim decidiu oferecer-me!
- O teu pai é mente arejada, moderno e conhece bem a filha que tem! – rematou a professora de cabelo liso e apanhado com uma gargalhadinha triunfante e sempre a sondar matreira  a reacção das outras colegas.
- Concordo, concordo – repetiu a de cabelo claro e ondulado.
A professora de cabelo desgrenhado e farto permaneceu em silêncio….limitou-se a observar fixamente os rostos das presentes.
- Olha, Luísa, - começou a de cabelo liso e apanhado – não sei se é do teu conhecimento, mas a obra já foi adaptada para o cinema e já anda aí nas salas…
- Eu sei professora, foi tanta publicidade, impossível não saber!
- O teu pai que diz disso? – quis saber a  de cabelos claros e ondulados.
- Eu já fui ver o filme ao cinema. – declarou com um sorriso maroto nos lábios.
- Ah!... ele permitiu?! Tens um  pai  fora de série! – lisonjeou a de cabelo apanhado.
- Ela é uma miúda sortuda, ter o pai que tem e ele deve orgulhar-se dela! – anunciou a de cabelo ondulado.
Luísa mostrou de repente uma timidez… própria da sua idade, camuflada num sorriso forçado.
- E gostaste do filme? - interpelou a de cabelo liso e apanhado.
- Não gostei, deturparam certos detalhes da escrita e fico a preferir os livros… Desencantei-me totalmente com o filme, em nada semelhante ao que li.
- Vês, ela é da mesma opinião da grande maioria de  pessoas que viu o filme - declarou a de cabelo ondulado dirigindo-se   à de cabelo apanhado – e adiantou – Uma rapariga de catorze anos…se todos os alunos da idade dela mostrassem uma pontinha desta maturidade, seria óptimo!
A rapariga sentiu o ego atirado ao alto, ria-se mas não sabia onde meter a cara!
A professora de cabelo desgrenhado aproveitou para dizer:
- Conseguem ouvir? É a campainha – consultou o relógio – Tenho aula agora…vou, vêm comigo?
- Nós também vamos! - responderam em uníssono.
- Adeus Luísa, bom dia ! - despediram-se da jovem e saíram do café  em direcção à escola.
PN
Nota( peço desculpa pelos eventuais lapsos que poderão detectar) 



 Grafite Mulher - NET







sexta-feira, 26 de junho de 2015

Radiografia do quotidiano

   
Carlos e Beatriz formam um casal aparentemente feliz, têm uma filha de oito anos, ao Domingo é habitual saírem os três, hoje para variar, convidaram a irmã mais velha dele; a Leonor.
   São dez horas, há pouca gente na rua, o mar escorregadiço e húmido provoca as muralhas do porto com os dedos dos pés, num tinir marulhado que ressoa delicioso aos ouvidos mais atentos. Enquanto, os barcos periclitantes, naquele embalo matinal deixam-se mover meio adormecidos e anestesiados pela maresia.
Carlos volta-se para Beatriz com as mãos nos bolsos dos calções desportivos:
- Que dia convidativo! – exclama sorridente
- Hoje devíamos ter feito praia! – sentencia Beatriz
- Tens razão mãe…apetecia-me um mergulhinho… - acrescenta a pequena.
- Fica para outra altura! – finaliza Carlos.
- Não pode ser hoje porquê? – questiona a miúda.
- Bea, são dez e dez, daqui até ao carro é uma escalada …depois, ainda precisamos de ir a casa buscar as coisas de praia…. E quando chegarmos lá …já é hora de voltar…
- Costa, és um desmancha prazeres…. a miúda está empolgada…! – conclui Beatriz ligeiramente irritada.
- Não me digas que pensas ir para a praia ao meio dia! – remata incrédulo.
Leonor que até então permanecera em silêncio, resolve intervir.
- O Carlos tem razão, os conselhos da protecção civil é evitar as horas em que o calor é intenso….tenho por norma nunca me expor ao sol entre as onze e as cinco da tarde!
-  Para o teu irmão, nunca é hora … há sempre objecções ….se não é uma razão é outra …
- Ei, baixa a bola, sim? Fala mais baixo, quem não tem razão aqui, és tu!
- Pode até ser que não tenha…- admite contrafeita.
- A Bea não se pode queixar de mim! – replica sério.
- Para certas coisas… sim, é verdade….para outras és muito antiquado.
- Referes-te a quê? – indaga irritado.
- Hás-de convir que tens umas ideiazinhas ultrapassadas… - continua firme.
- Dá-me um exemplo! – desafia Carlos.
- Queres saber? Aquele assunto que já discutimos, sobre os possíveis namorados da Bea… pelo que pude deduzir, parece não te agradar muito a ideia…
- Ela tem apenas oito anos, Beatriz!
- E qual é o problema, há quem seja precoce! – explica triunfante
Leonor permanece calada, sente que o assunto não lhe diz respeito. Embora ambos lhe dirijam olhares, em busca de aprovação.
- Eu não fui explícito em relação a esse assunto…sei que a Bea já é bastante madura para a idade que tem…por isso pode acontecer algum namorico.
- Mentaliza-te que a Bea pertence a uma geração diferente da tua. Está desenvolvida, é bonita, naturalmente não demorará muito a dar de caras com alguém que se interesse por ela!
A rapariga, alheada a tudo o que os adultos vaticinam, põe os olhos nas embarcações e sorri:
- Costa, olha aquele barco! É giro não é?
- É filha, tem umas cores fortes.
Bea larga em retirada  e vai observar mais de perto o pequeno barco atracado ao a um recanto.
- Tem cuidado filha, não te aproximes muito…- Carlos avisa denotando alguma preocupação
- Ainda dá o mergulho tão desejado…- gracejou Leonor.
- Mas voltando ao assunto – retoma Carlos – Não me importo que namore… desde que não seja na minha casa.
- Como? E onde é que vai ser?
- Não quero os namorados dela lá em casa….isso é que não! Um dia mete - se com um, no dia seguinte mete-se com outro…. E quantos mais? …eu conheço a filha que tenho. Quer namorar? Muito bem! vá para a serra e namora à vontade!
- Impedida de namorar é que ela não fica! – assegurou com êxito a mãe.
Leonor fez-se ouvir num tom calmo:
- É preciso atenção para que a  Bea não venha a ter   nenhum deslize na pré adolescência, por exemplo, aos doze anos…. felizmente ainda está concentrada nas bonecas e nas brincadeiras… penso que é um assunto a adiar … para quando pedir explicações…e nessa altura…
- A Bea já sabe tudo… encarreguei-me de lhe abrir os olhos! E quanto a engravidar, não te preocupes, Leonor, ela aborta! – responde de forma categórica.
- Costa, vem cá ver isto! – grita Bea, chamando o pai.
PN   25 de Junho 2015

Foto pescada da Net( sem tempo para uma apurada selecção) e ligeiramente manipulada pelo Photoshop 
(Desculpem qualquer lapso)



  
  

  


domingo, 21 de junho de 2015

António Lobo Antunes - As mulheres têm fios desligados.

De Júlio Machado Vaz 
Roubado ao blog Crónicas Rosa Cueca.

António Lobo Antunes - As mulheres têm fios desligados.

Há uns tempos a Joana:
- Pai, acabei um namoro à homem.Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda:-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de- Já não gosto de tide- Não quero maischegam com discursos vagos, circulares- Preciso de tempo para pensar- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanasou declarações do género de- Tu mereces melhor do que eu- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua faltae aos amigos- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata- Custou-me mas foi- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu- Chora um dia ou dois e passa-lhee pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safoe depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias- As mulheres têm fios desligadose um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam- Já não gosto de tise informam-Não quero maisaí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)- O problema não está em ti, está em mima mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.Fui(espero que não muitas vezes)rasca.Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual- Mereces melhor que eulevou como resposta- Pois mereço. Rua.Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua- O que faço às cartas de amor que me escreveu?e a amiga sua- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.Fazem de certeza: é so copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga- E depois de ele se ir embora?- Depois chorei um bocado e passou-me.Ontém jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.

Boa leitura :)