No
decurso de uma aula prática, a vozearia subiu para lá do limite tolerável; Amélia,
a docente, já havia chamado à atenção várias vezes, inclusive, dirigira-se em
particular aos mais perturbadores e nada. Advertiu que iria usar a caderneta,
as respostas não se fizeram esperar; - “O que é que eu estou a fazer?!” - Meta recado, pensa que me importo”, “- Faça
isso e levo mais uma tareia.”
Amélia
voltara para junto de um rapazinho que sentia imensas dificuldades, após uns
cinco minutos, decidiu que se tornara imperativo fazer uma pausa.
-
Ei, turma, vamos acalmar, parou por aqui, sentem-se todos no seu lugar. Isto
não é um circo, é uma sala de aula. Não podem ir todos lavar pincéis e paletas.
Saibam esperar pela vossa vez. Lembrem-se das regras! – apelou.“-
Esta professora é uma chata…” A frase chegou aos ouvidos de Amélia que a
ignorou. Sabia que naquele momento precisava disciplinar a turma, apenas isso.
-
Já posso ir?-
Não, tem calma.-
Assim, assim nunca mais vou lavar o que é meu!
-
Victor, todos vão fazer essa tarefa mas a pia só tem lugar para duas pessoas.
Quantas lá estavam?-
Sei lá!
-
Tu não sabes mas eu sei! contei sete! … e sabem que só podem ir a par, caso
contrário pintam-se uns aos outros, brincam, zangam-se, machucam-se e depois
choram…
-Não
sou dos que choram! – lastimou-se galhofeiro.Algumas
risadas.-
Acabou, Victor!Ainda
com algum ruído perturbador:-
Toda a gente sentada, se faz favor!Amélia
cruzou os braços e esperou que o ambiente regressasse à normalidade:-
Eu própria vou nomear quem vai à pia, de forma ordeira, compreendido?Quando
todos se tinham sentado, e o ruído baixara, um aluno pôs-se de pé a meio da
sala e levantou o dedo:-
Diz, António!
-
O meu trabalho está borrado!-
Como foi que isso sucedeu?
-
Estava na pia a lavar os pincéis … - pronunciou com voz trémula, quase a chorar
– quando voltei, vi isto….Amélia,
encaminhou-se ao lugar do aluno e pôde constatar que haviam sujado o trabalho
do mais aplicado da turma. Ficou incrédula:-
Quem fez isto?!
-
“Não fui eu!”; - “Não vi nada! “-
Parem imediatamente, isso não me interessa, quero saber quem sujou o trabalho do António!
De
novo o alarido, todos comentava o sucedido, outros riram e acharam graça:-
Coitadinho do bonzinho….-
Por favor, silêncio! – ordenou enervada.
-
Outra vez? Ei…nunca mais chego à pia! – os olhos do Paulo deambulavam trocistas pela turma procurando
cumplicidade. – Não pode ser agora? Olhe, não está lá ninguém! É a minha oportunidade…não
percebe professora?-
Senta-te e cala-te!
-
Olha, senta-te e cala-te?! Está lindo! – repetiu as palavras da professora - O
que é que eu fiz agora?
-
Paulo, deixa de ser o meu eco, ocupa o teu lugar até esclarecermos este
assunto!-
Está bem, a senhora é que sabe! – proferiu num tom folgazão enquanto se ria
para os colegas.-
Agora que os ânimos acalmaram, quero
saber rapidamente a verdade.
-
Qual verdade? – tornou Paulo.Amélia
não lhe prestou qualquer atenção, já que a maioria havia feito o mesmo.António,
sentado, ar desolado. Não queria acreditar no estado em que ficara a tarefa que
já tinha sido iniciada na semana anterior ….Paulo
levantou-se muito atabalhoado, encaminhou-se desarticulado para junto de
António e da professora e falou num tom jocoso:
-
Deixe-me ver professora! – Paulo, era um aluno que já contava com várias
participações pelo mau comportamento; pai alcoólico, desempregado, mãe prostituta.
Vivia aos cuidados da avó, como esta trabalhava e o resto do tempo ninguém sabia
ao certo onde se metia, Paulo, passava a maior parte do tempo sozinho, entregue
a si próprio, sem regras nem afecto.
Novamente
uma risada geral e alguns gritos à mistura.
Amélia
sentia-se muito desgastada para reagir às provocações constantes daquele estudante.-
Olhe professora, a tinta é a que o Duarte está a usar! Veja, tenho razão! – e apontou o dedo para o colega imediatamente
a seguir.Duarte
elevou-se no auge da raiva e contestou de forma muito agressiva:-
Não fui eu, parvo! Queres que te parta esses dentes todos que tens na boca!?
Mentiroso do caneco! – ainda tentou aproximar-se de Paulo com o punho cerrado,
prestes a esmurrá-lo. Duarte vivia com os avós, não conhecia o pai, a mãe
abandonara-o e fugira com um amante para a Inglaterra, levando o filho mais
novo com ela.
-
Calma Duarte, não é assim que se resolve coisa alguma! – Amélia colocou-se
entre os dois rapazes.-
E eu tenho medo de ti, não? – desafiou o outro.-
Paulo, ocupa o teu lugar. Fica quieto!-
Eu quero lanchar…tenho fome! – lastimou-se com um sorriso matreiro – vai tocar
e estamos nisto…! – enquanto puxava a t-shirt, e mostrava o abdómen .Outra
risada geral.-
Vá, por favor, acalmem-se! Pela última vez, apelo ao bom senso! Vou levar este
caso à direcção da escola! Quem foi que se acuse, pede desculpa ao colega e
terminamos por aqui!-
Foi o Luís! – acusou de novo o Paulo.
Luís
levantou-se muito sereno e declarou:-
Estás enganado, a tinta até podia ser a minha… uso uma igual …. No entanto, seria
incapaz de borrar o trabalho de um amigo!-
E desde quando tu e o António são amigos – voltou Paulo à carga.-Já
percebi que não saímos daqui! – comentou a professora-
Posso mexer no telemóvel? – inquiriu uma aluna
-
É óbvio que não! – esclareceu Amélia.-
Isto nunca mais acaba! Assim vou jogando…- riu-se descaradamente.-
Margarida, não dificultes mais as coisas ….certo?-
A senhora já mete nojo! – exclamou a mesma.Ouviu-se:
“Oh…”em uníssono e um silêncio perturbador caiu como uma bomba.Amélia
aproximou-se da rapariga e estendeu-lhe a mão:-
A caderneta se faz favor!Em
silêncio, Margarida, aluna sinalizada pela Comissão de Protecção de Menores,
como sendo violenta, mal educada e perigosa, vivia com os pais e mais sete
irmãos, toda a família com um historial de desacatos e furtos.
Depois
recuou, sentou-se na sua mesa, enquanto escrevia a mensagem na caderneta da
aluna, ia indicando quem deveria lavar os materiais de pintura e arrumar a
mochila. Entretanto,
a turma tinha acalmado mais, mal tinha terminado de escrever o recado, começou
a indicar quem deveria sair.Foi
o caos, a maioria incitava a professora a ser o próximo: apontavam as mais
diversas razões: Uns tinham fome, outros aludiam que precisam de tempo para
carregar o cartão, outros inventavam que os Encarregados de Educação
esperavam-nos.-
Se continuam com essa postura, ficam mesmo para o fim!De
repente estalou a campainha… os que ainda faltavam, levantaram-se à pressa, arrastaram
as cadeiras e empurraram-nas para debaixo da mesa, provocando um ruído medonho
e correram como doidos para a porta, Amélia assistiu impotente à algazarra, os
berros, os assobios, os atropelos, pretendiam sair todos em simultâneo por uma
porta demasiado estreita.
Entretanto,
um aluno permaneceu, a professora colocou-lhe a mão no ombro:António,
não te preocupes, vou agora mesmo ao
director.-
Obrigada, professora!Saíram
ambos, cá fora, Tiago, o mais tímido, aproximou-se de Amélia quando esta ficara
só:-
Posso falar consigo?-
Sim!-
Eu sei quem sujou o trabalho do António!-
Viste?-
Sim, vi, foi o Luís!-
Não disseste nada…?!-
Tenho medo do pai dele! – declarou.
-
Porquê?
-
O meu pai conhece o pai dele e diz que ele é mau.
-
Já te aconteceu algum episódio com esse senhor?-
Comigo não, mas sei de outros casos com alunos desta escola…
-
Está bem, obrigada por me teres dito!
No
gabinete do director, Amélia explicou o sucedido:-
Esquece, Amélia! O pai do Luís é meu amigo e vai dar confusão!
-
Mas…-
Tu não sabes com quem te estás a meter! É gente complicada! Não vale a pena,
conheço bem a pessoa.-
E que digo ao António?-
Ele que tenha paciência, acontece… faz outro trabalho! Para todos os efeitos
não sabes quem foi. Ponto final!-
E o Luís não vai ter nenhuma repreensão, ele mentiu na aula…-
Vai à tua vida! – atalhou de repente o director e sem lhe prestar mais atenção,
concentrou-se na papelada sobre a secretária.
-
Bom dia – Amélia despediu-se frustrada, revoltada e atormentada com tanta
injustiça à sua volta.
PN
Desejo Boas Férias para quem vai ou já se encontra a descansar!