Não teremos democracia em casa apoiando
ditaduras alheias
Na Islândia, o
governo anunciou a disponibilidade para receber 50 refugiados sírios. Indignada
com a mesquinhez dos números, a escritora Bryndís Björgvinsdóttir lançou um
apelo através do Facebook para que os seus compatriotas se pronunciassem sobre
o assunto. Em menos de 24 horas, dez mil islandeses prontificaram-se a abrir as
portas das suas casas para receber refugiados. A impressionante vaga de
solidariedade levou o governo a rever a proposta original. A Islândia, importa
realçar, é um pequeno país, com apenas 330 mil habitantes, metade da população
de João Pessoa.
Há várias
lições que se podem retirar deste episódio: a primeira tem a ver com vergonha e
redenção. A enorme tragédia em curso, com vagas de refugiados, de diversas
proveniências, que tentam todos os dias alcançar solo seguro, expôs ao mundo
uma Europa dividida, enfraquecida e moralmente degradada. Durante décadas, os
europeus orgulharam-se da sua suposta superioridade moral. É verdade que a
Europa deixou de ser o centro do mundo — reconheciam eles. — É verdade que
perdeu os impérios e vem perdendo, a cada dia, influência política e cultural;
contudo, é ainda uma referência ética. Vemos grupos de polícias a perseguirem e
espancarem velhos, mulheres, crianças, que conseguiram fugir de um país em
guerra. Vemos, pois, polícias a espancarem vítimas. Vemos a seguir os cadáveres
flutuando no mediterrâneo, porque ninguém os quis socorrer. A imagem do corpo de
um menino de três anos, numa praia da Turquia, correu mundo com a legenda: “a
Humanidade deu à costa”. Vemos tudo isto e compreendemos, horrorizados, que,
afinal, os bárbaros já tomaram a Europa. Os bárbaros estão instalados no poder,
na Hungria, mas também em Portugal. Os bárbaros governam o Reino Unido, a
França e a Itália. Os bárbaros triunfaram.
A atitude do
povo da Islândia devolve-nos alguma esperança na Humanidade, ao mesmo tempo que
salva o rosto envergonhado da Europa.
Com a sua
resposta rápida e generosa os islandeses mostraram-nos que a indignação, bem
dirigida, ainda pode (co)mover as verdadeiras democracias. As democracias —
tantas vezes nos esquecemos disto — fazem-se com o povo.
Há poucos dias
a Al Jazeera entrevistou um refugiado de 13 anos, Kinan Masalmeh. “Tem alguma
mensagem para os europeus?” — foi uma das perguntas. O menino não hesitou:
“Nós não
queremos vir para a Europa.” — disse. — “Só queremos que ajudem a parar a
guerra na Síria”.
Simples assim.
Não teremos democracia em casa, apoiando ditaduras alheias. Não teremos paz, se
não houver paz na casa dos vizinhos. Não haverá desenvolvimento para uns, se
não houver para todos. A Hungria bem pode erguer os mais altos muros. Israel
pode erguer muros. Os Estados Unidos podem erguer muros. Muros degradam
sobretudo aqueles que os erguem. Além disso não têm conseguido evitar que
milhares de pessoas desesperadas os ultrapassem. O desespero encontra sempre
soluções para vencer os piores obstáculos.
O que virá
depois dos muros? Ordena-se o fuzilamento dos migrantes? Afundam-se a tiros de
canhão as pequenas embarcações que os trazem? Prendem-se os refugiados
sobreviventes e todos aqueles que os procurem ajudar?
Não basta que
nos horrorizemos ao ver a imagem do menino morto na praia. “Não consigo olhar
para aquelas fotografias” — queixam-se centenas de pessoas nas redes sociais.
Não conseguem?! Pois é bom que olhem! É bom que vejam o menino morto, e que
vejam também todo o imenso horror que o trouxe até àquela praia turca. Somos
todos culpados pela morte dele, seja devido à nossa cumplicidade direta,
apoiando guerras, ou pela nossa inércia, sempre que desviamos o olhar. Aquele
menino continuará a morrer nessa mesma praia, em outras praias do mundo,
enquanto não nos mobilizarmos em conjunto para impedir que prossiga a
devastação da Síria. Enquanto não nos mobilizarmos todos para que a democracia
triunfe em Angola, no Zimbábue ou na China. Enquanto não nos mobilizarmos para
impor modelos de desenvolvimento mais justos, que respeitem o ambiente, e
ajudem a arrancar da miséria milhões de pessoas em todo o mundo.
Vale a pena
recordar aqui o artigo 14 da Declaração Universal dos Direitos do Homem: “Toda
a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de
asilo em outros países”.
O menino morto,
nessa famosa foto que tantos não conseguem encarar, chamava-se Aylan Kurdi.
Tinha um irmão de cinco anos, Galip. A mãe chamava-se Riha. Só o pai, Abdullah,
sobreviveu ao desastre. Espero que um dia ele nos consiga perdoar.
Enviaram-me por email e não resisti à tentação de o publicar.