Hoje, a meio da manhã, avistei
Amélia numa rua … tive de correr para alcançá-la. Há algum tempo que não sabia
dela. Quando lhe toquei no ombro, ela parou e voltou-se, assim que me viu,
emitiu um cumprimento efusivo! Convidei-a para um café; uma esplanada à beira
mar.
- Que bem que se está aqui! –
comentou Amélia, mostrando a bela fileira de dentes alvos, tão bem esculpidos.
- Nem corre fresco, nada, tudo calmo!
– comentei relaxada.
- Marta, sabes, é nestes momentos
em que reflicto mais!
- Encontras aqui alguma
serenidade?! …há gente a passar à nossa frente à nossa volta!
- … consigo… abstraio-me das
gentes e entro noutra esfera…
- Mas não pensas em nada? Nem em
problemas?
- Nada de nada!
- E os ruídos?
- Deixo de escutá-los…
- Tens de me ensinar como atinges
esse estado…
- Desliga completamente o motor…
- riu-se marota.
- Não sei se consigo… e depois de
um dia de trabalho, como é? fazes o
mesmo exercício, Amélia?
- Marta, somos ambas docentes,
sabemos como funciona… chegar a casa; preparar jantar para marido e filhos, mal
termino, sento-me com eles, verifico a mochila de ambos, folheio os cadernos,
passo os olhos na caderneta da escola dos dois… fico a par das novidades do
dia…eles fazem os trabalhos de casa…xixi, lavar dentes e caminha.
- Entretanto o pai faz o quê? –
questionei com um sorriso curioso
- O paizinho cuida da cozinha,
arruma, lava a loiça, e estende a roupa.
- Ei, que sortuda! – exclamei com
uma pontinha inofensiva de inveja
- Divisão de tarefas é isto! –
declarou triunfante.
- E tu, Marta? – quis saber de
mim.
- Não casei mas é como se… e já descasei
– comuniquei divertida.
- Separada, é isso?
- Sim. Não cheguei a casar,
vivemos juntos cerca de dez anos…
- Sem filhos? – Apressou-se a
saber.
- Não posso ter filhos e nem
tenho muita paciência para crianças… não causou transtorno!
- E agora? Estás só?
- Sim, estou só, p´ra aí… há uns cinco anos!
- E isso é para manter assim ou…
- Por enquanto, estou bem! De
nada me lastimo!
- Durante a semana tens a escola…
sempre te distrais e aos sábados e domingos?
- Pego no carro, vou à minha mãe,
depois… tenho vida social activa, dedico-me às arrumações, adoro decorar a casa,
vejo pouca televisão ou opto de quando em vez por um bom cinema, sempre
acompanhada…! – esclareci-a.
- Não levas trabalhos da escola
para fazeres em casa?
- Julgas que não?! O problema é
que os professores levam imenso trabalho para casa, mais que os próprios
alunos…
- Se bem que, a avaliar pela vida
escolar dos meus filhos, e dos meus alunos…nem trabalho de casa deviam fazer…
afinal passam o dia na escola e como se não bastasse ainda carregam com mais
trabalhos, em casa bastaria o tempo para estudar… - concluiu séria
- Eu também penso assim…mas a
maioria dos professores não pensa, Amélia…
- Acredito que não! Muitos deles
não têm vida própria e ensinam os filhos dos outros, em detrimento dos seus…
enfim…
- Aposto que falas de cargos! –
entusiasmei-me.
- Falo sim, só querem cargos e
depois? Alguns ficam doentes, tanta burocracia que não abona nada em favor da
nossa prática lectiva, tornamo-nos tóxicos! A perspectiva de vida afunilada,
que horror… os meus fins de semana são para a família!
- Aplaudo-te por essa iniciativa!
– tornei a incentivar.
- Dá-se a mão, querem o braço,
depois a perna e depois o tronco e quando nos damos conta, já estamos
integrados no maldito sistema!
- As escolas são núcleos muito
contraditórios, enfim…abundância de lixo! – declarei convicta.
- Já fui directora de turma,
delegada de grupo, coordenadora de departamento, directora de instalações, fiz
parte da avaliação interna da escola e ao fim de alguns anos, perdi a minha
paciência e desisti! Deixem-me ser uma simples professora!Nunca mais me apanham
noutra!-confessou com uma pontinha de revolta.
- Mas todos os cargos em
simultâneo? – perguntei estupefacta.
- Não! Alguns sim, outros não! Eu
própria pedi a demissão!
- De todos os cargos? – volvi
estarrecida
- Todos! Cansei-me, saturei-me,
porque comecei a perceber que não tinha tempo nem para o marido, nem para os
filhos, nem para mim mesma! Tornei-me impaciente,
intolerante…intragável…prefiro esquecer o assunto.
- Isso não é saudável! – finalizei
- Nada saudável! Sabes porquê? A
burocracia é informatizada e passas horas ao computador, a preencher tretas
inúteis!
- Há quem goste e até sinta
vaidade nisso! – acrescentei
- Há gente para tudo, Marta,
coitados, são vazios, com vidas familiares destroçadas…os professores também
são pais e mães.
- Por isso os miúdos são como
são!
- Exactamente; instáveis, sem
regras, insolentes, mal educados… tenho dois filhos, nós, eu o Rui, educamo-los
da melhor forma possível, ambos cometemos erros, eles não são perfeitos…mas o
que observo hoje é aterrador!
- Noto o mesmo, e pertenço a
outra escola!
- Isto vai ter de mudar, as
escolas precisam tomar medidas, medidas urgentes, não podem deixar certos
alunos, com comportamentos desajustados, destruírem uma turma inteira! E os
pais! – exclamou – quem não tem vocação, não seja pai nem mãe!
- Já percebeste que o professor é
sempre o culpado! – disse eu
- Ai, Marta – pronunciou num tom
desolado, colocou a mão sobre o meu ombro! - Todos somos culpados, ninguém é
totalmente inocente! Uns com mais culpas que outros…se cada qual fizesse a sua
parte… afinal estamos a falar sobre a educação! Isto deveria ser diferente, não
achas?
- Acho… muito melhor do que é!
Educação e saúde!
- Marta, por favor, vamos mudar
de assunto! Ui, não me faz bem tocar sequer nestes temas e fora do tempo
lectivo, muito menos – gracejou – Olha, quero pagar a conta…
- Eu é que te convidei! – atalhei
de repente
- Não importa, para a próxima
pagas tu! Apetece-me pagar, aproveita a oportunidade e não te preocupes com
isso!
Levantamo-nos, Amélia colocou o
braço em torno da minha cintura:
- Tens programa para sábado?
- Não! Ainda não pensei nisso!
- Então vem jantar a minha casa,
assim ficas a conhecer a minha família, que tal?
- Pode ser! – aceitei satisfeita.
Antes de nos despedirmos,
caminhamos rente ao mar, cavaqueamos sobre as obras que decorriam à nossa
frente e foi nessa altura que vi melhor Amélia; bonita, morena, cabelo comprido
negro, elegante, charmosa, camiseta com decote acentuado, a saia florida e leve
que lhe caía da cintura e percorria as pernas até às sandálias finas. Desde que a conhecera sempre notara o seu
gosto aprimorado na forma de vestir, desde a cor da bolsa, ao fio que trazia ao
pescoço, aos anéis, aos ornamentos nos braços! Uma perfeita Lady!
- Vou por aqui, e tu? - apontou
para uma rua estreita
- Em frente!
- Ah, um pormenor importante,
sabes onde moro?
- Sei!
- Então, depois das três, a tarde
é tua! Aparece! Está bem?
- Com certeza! – respondi alegre
Acenamos uma à outra e eu segui
devagar, deliciando os meus olhos nas ondas do mar salpicadas de brilho intenso.
PN
Pintura de Minjae Lee