terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Lembrar este dia ...

 Foto e arranjos de PN

sábado, 23 de janeiro de 2016

MAIS DESIGUALDADES

1% dos mais ricos do mundo concentram já mais riqueza que os restantes 99% por cento do planeta.

Alerta da Organização Oxfam que pede medidas urgentes e concretas aos governos para travar esta desigualdade crescente, a começar pelo fim dos paraísos fiscais.

A riqueza dos mais ricos aumentou 44% desde 2010, enquanto a riqueza dos mais pobres diminuiu 41%.

Um mundo desigual cada vez mais marcado pelo fosso entre ricos e pobres. É que é de cifrões ou da falta deles que se fala. A organização não governamental, Oxfam quantifica esta distancia também em números:
Pela primeira vez em 2015, 1% mais ricos do mundo têm mais riqueza que os restantes 99% da população.

Não estamos a falar aqui numa questão de pobres e ricos, nós neste momento já temos uma situação que é os mais ricos entre os ricos contra o conjunto da sociedade.”

Carlos Farinha Rodrigues, professor universitário, especialista em desigualdades, afirma que este fosso tem consequências concretas:
“ As desigualdades na distribuição da riqueza e no rendimento, são hoje um entrave ao desenvolvimento económico, a concentração da riqueza num conjunto muito restrito de pessoas acaba por desviar recursos que poderiam ser utilizados para a melhoria da sociedade, a melhoria das condições de vida das pessoas”

O relatório divulgado muito recentemente pela Oxfam, organização britânica que trabalha no combate à pobreza, faz um desenho; em 2010 havia 388 multimilionários que tinham a mesma riqueza do que metade do resto do mundo. Cabiam num avião. Em 2014, o número ficou ainda mais concentrado, 80 pessoas, já bastava, um autocarro de dois andares. Em 2015, apenas 62, um autocarro negrice detêm tanto dinheiro como metade da população mundial; 3,5 mil milhões de pessoas. A riqueza dessas 62 pessoas cresceu 44% desde 2010, antes que estes multimilionários caibam dentro de um táxi, a Oxfam internacional exige que sejam tomadas medidas concretas, como o fim dos paraísos fiscais por onde passa quase sem pagar impostos grande parte da riqueza mundial.

“ Uma parte significativa destas fortunas em termos relativos paga menos impostos que um trabalhador que no dia a dia, executa as suas tarefas. Já não há dúvidas quanto ao que esta concentração de riqueza significa. Os dados estão aí, todos os dias a demonstrá-lo. Falta vontade política”.

Recados para mais um fórum económico mundial em dados que começa esta quarta feira ( já começou a semana passada) 

Telejornal da RTP1 



Imagens- Internet 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

sábado, 9 de janeiro de 2016

Chamamento...

                                                                                                                      Foto-PN
…na pressa…na pressa….os pés têm pressa…
os sapatos…os sapatos pesados e  gangrenados
puxam o passo para o fundo, fundo, fundo….
a lama viscosa trava a passada,
o sujo resvala
os pés rolam , rolam… nos sapatos apertados de solas batidas
ai os sapatos andrajosos  atiram o esqueleto à cama
e o combalido sono serve-me um chá morno,
uma chávena abocanhada e encardida
antes mesmo dos delírios nocturnos
Quando a tampa do quarto se abre…
lá por cima, volteiam pássaros sem norte… pássaros que sondam o  mistério da morte
Meus olhos doridos e pedrados de insónia
bocejam copiosos na demora,
estafados de bater na mesma tecla; em surdina, em som esbracejado,
em  gritos brandos, em brados coléricos…,
sofrida retina, estala em fissuras crispadas de pesar
sonolência tardia… o repouso que não chega
a paz desejada… remota, sempre afastada…
Os pássaros descem, percorrem o quadro, esboçam linhas curvas
voos rasos à minha volta…
Masco a poalha amarga das visões trágicas… cenas sem remédio, irremediavelmente perdidas,
outras; luzes, de grande porte, desmedidamente cintilantes;
o doce a derreter-se na saliva … uma pequena luz bruxuleante dentro da boca…
É hora… e os pássaros… os pássaros levam o meu espírito com eles…,
eles sabem, sabem onde depositar, no lugar que perpetuamente sonhei.
  
PN
  




segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Então é Natal...


O espírito evoca fenómenos passados
trazidos em grãos de esferovite
Omo branco de neve pura
embebido em água límpida e fresca
o líquido corriqueiro
escorre porta abaixo
corre quintal adentro
galga escadaria acima…
A frescura com cheiro
a ar próprio
arromba as portas antigas da velha casa
lambe as vidraças
em gestos vigorosos e friccionados
Os tapetes com desenhos orientais
submergem no lavadouro
O escaparate comprado ao rei D. Carlos
abre gavetas e saem prateleiras
As loiças tombam, mergulham
dentro do alguidar
num baptismo de água em bolhas coloridas
A massa da farinha incha nos tachos
ao calor da lareira
O sino da capela chama para  a missa do parto
E ao fim da noite princípios do dia
olhos pestanejam de sono por dormir
 e lábios bocejam
A faca espeta-se nas goelas do porco
E o furo jorra sangue quente
Pobre animal atraiçoado e sacrificado na festa.
E eis que surge a passo lento
Num silêncio devoto
A mãe…
Traz a criança nos braços
A seu lado, ombro com ombro
o pai numa fiel cumplicidade.
A vaca e o burro acercam-se
Cada um toma a sua posição
Como se uma fotografia os retratasse
Os pastores andam trauteando
quadras ao vento…
e ao avistarem tão lindo quadro
curvam-se e adoram maravilhados
o nascimento do menino.
O anjo chega atrasado
e revela atarantado:
- Os reis Magos vêm chegando…
A vaca molengona exclama presunçosa:
- E trazem ouro!
O burro atento completa vaidoso:
- Esqueceste o incenso e a mirra…
O pinheiro alto
rompe o telhado da sala
espeta-se numa estrela
Outros astros estremecem
resvalam de comoção
prendendo-se nos galhos
do esguio pinho.
A espiguilha enlaça-se
E a gambiarra também
O pinheiro alvoroçado
pulsa de  agitação
O canto anuncia a missa do galo
Depois
A canja é servida quente
O peru recheado jaz sobre a mesa
Ao lado a travessa de carne vinho e alhos
não faltam as sobremesas
Bolo de laranja, Bolo de família, Bolo de mel…
Broas de manteiga, broas de mel…
Licores viscosos e doces
Sumos…
Vinhos caros
O alvoroço toma conta da família
As crianças brincam sobre o soalho polido de cera
O aroma de ensaião, o aroma do alegra campo,
o aroma das manhãs de Páscoa
e o aroma dos junquilhos
 cruzam-se  e misturam-se…
O regato chorão contorna
rochas de papelão
o luar solene sopra compaixão…
Cantam  rouxinóis hinos de louvor
e assim o presépio lembra o céu…
Àquela hora bendita a campainha ressoa
Apressam-se a atender
É a “muda”, a pobre que vem de longe
De uma outra esquina para pedir de comer
Repartem o pão e o vinho
E estendem-lhe a mão.
Saciada a fome do corpo e da alma
A pobre triste e remendada
Sai dali de alma cheia
E bem alimentada.
E o regato chorão contorna
rochas de papelão
o luar solene sopra compaixão…
 cantam os rouxinóis hinos de louvor
e assim o presépio lembra o céu…

Dez  de 2010-12-22

PN




(Reedição; poema e ilustração)

Nota : Desejo aos Amigos e a todos os viajantes que  por cá passam, um SANTO NATAL! 
PN 












sábado, 28 de novembro de 2015

Sua eminência arrocha-se no trono
lembra uma construção românica;
 rude, sisudo, encorpado, baixote …
 Epiderme escura, cabelo curto grisalho
barba farta, queimada pelo fumo…
charuto atarraxado  nos lábios balofos .
O caderno, manual de explicação de Estética, tão clássico…
sempre o mesmo, desde longa data…
réplica de si mesmo;
amarelo encardido , anotações desbotadas, nem vírgula a mais, nem vírgula a menos,
nem ponto a mais, nem ponto a menos…
O génio da sabedoria, sem nenhuma evolução à vista,
enquadra a armação grossa dos óculos na fachada escura
e discursa num tom ilustre e altaneiro:
- Excluindo meia dúzia de provas, o resto é pura burrice, vão plantar batatas, dediquem-se à terra. Que fazem aqui? Como é que se lembraram de tirar um curso superior? Não percebem nada de Estética!
e vibra de riso, um regozijo escarninho, uma gargalhadinha enervante…
as suas anotações sobrepõem-se às respostas dadas
e imiscuem-se nelas, de tal forma profícuas
que não se distingue nada … não existem olhos para leituras sobrepostas…
luta titânica de grafismos
Sua eminência informa com algum enfastio:
- Quem obteve a classificação acima de oito, ainda se pode propor à oral, os outros, penso que nem vale a pena!
Imediatamente, olhos jovens debruçam-se para a folha de teste, em busca da confirmação:
Escutam-se sussurros: - Oito, virgula dois…por um triz …quase …quase que…, o meu foi nove… consigo chegar à  oral…

O dia veio, como outro qualquer, nem maior, nem mais pequeno…

Naquele castelo de muralhas já muito envelhecidas e corroídas pela traça
acontece a chamada oral;
a quem entra, a pose de Sua eminência intimida…
dois fieis escudeiros guardam
 aquela relíquia sem brilho, mais caduca que o caduco dos homens
Os cães a postos, espreitam os pupilos, um a um …
- Vai começar… – uma voz sussurra
- Somos só quatro?! – outra rumoreja
-  Que tortura… estou em frangalhos! – a seguinte suspira
- Cala-te! – ordena a quarta amedrontada
- Medricas! – galhofa uma delas
Sua eminência nomeia quem enceta o interrogatório.
À medida que questiona, zomba das respostas dadas e lança bombas de escárnio e maldizer.
Até que irritado, solta mesmo desadequado:
- Então quer dizer que um cagalhão é uma obra de arte?
- Não!...não!
- Ah! – exclama numa risota displicente.
- Diz que sim! Diz que sim! Depende do rabo que faz!
Olhos escancaram de susto, não fosse sua eminência ouvir aquela barbaridade
e tudo o que fora dito, anulado.
PN



                            Foto encontrada por mim na Internet e manipulada através do Photoshop 







quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Cumplicidades

Hoje, a meio da manhã, avistei Amélia numa rua … tive de correr para alcançá-la. Há algum tempo que não sabia dela. Quando lhe toquei no ombro, ela parou e voltou-se, assim que me viu, emitiu um cumprimento efusivo! Convidei-a para um café; uma esplanada à beira mar.
- Que bem que se está aqui! – comentou Amélia, mostrando a bela fileira de dentes alvos, tão bem esculpidos.
- Nem corre fresco, nada, tudo calmo! – comentei relaxada.
- Marta, sabes, é nestes momentos em que reflicto mais!
- Encontras aqui alguma serenidade?! …há gente a passar à nossa frente à nossa volta!
- … consigo… abstraio-me das gentes e entro noutra esfera…
- Mas não pensas em nada? Nem em problemas?
- Nada de nada!
- E os ruídos?
- Deixo de escutá-los…
- Tens de me ensinar como atinges esse estado…
- Desliga completamente o motor… - riu-se marota.
- Não sei se consigo… e depois de um dia de trabalho, como é?  fazes o mesmo exercício, Amélia?
- Marta, somos ambas docentes, sabemos como funciona… chegar a casa; preparar jantar para marido e filhos, mal termino, sento-me com eles, verifico a mochila de ambos, folheio os cadernos, passo os olhos na caderneta da escola dos dois… fico a par das novidades do dia…eles fazem os trabalhos de casa…xixi, lavar dentes e caminha.
- Entretanto o pai faz o quê? – questionei com um sorriso curioso
- O paizinho cuida da cozinha, arruma, lava a loiça, e estende a roupa.
- Ei, que sortuda! – exclamei com uma pontinha inofensiva de inveja
- Divisão de tarefas é isto! – declarou triunfante.
- E tu, Marta? – quis saber de mim.
- Não casei mas é como se… e já descasei – comuniquei divertida.
- Separada, é isso?
- Sim. Não cheguei a casar, vivemos juntos cerca de dez anos…
- Sem filhos? – Apressou-se a saber.
- Não posso ter filhos e nem tenho muita paciência para crianças… não causou transtorno!
- E agora? Estás só?
- Sim, estou só, p´ra aí… há uns  cinco anos!
- E isso é para manter assim ou…
- Por enquanto, estou bem! De nada me lastimo!
- Durante a semana tens a escola… sempre te distrais e aos sábados e domingos?
- Pego no carro, vou à minha mãe, depois… tenho vida social activa, dedico-me às arrumações, adoro decorar a casa, vejo pouca televisão ou opto de quando em vez por um bom cinema, sempre acompanhada…! – esclareci-a.
- Não levas trabalhos da escola para fazeres em casa?
- Julgas que não?! O problema é que os professores levam imenso trabalho para casa, mais que os próprios alunos…
- Se bem que, a avaliar pela vida escolar dos meus filhos, e dos meus alunos…nem trabalho de casa deviam fazer… afinal passam o dia na escola e como se não bastasse ainda carregam com mais trabalhos, em casa bastaria o tempo para estudar… - concluiu séria
- Eu também penso assim…mas a maioria dos professores não pensa, Amélia…
- Acredito que não! Muitos deles não têm vida própria e ensinam os filhos dos outros, em detrimento dos seus… enfim…
- Aposto que falas de cargos! – entusiasmei-me.
- Falo sim, só querem cargos e depois? Alguns ficam doentes, tanta burocracia que não abona nada em favor da nossa prática lectiva, tornamo-nos tóxicos! A perspectiva de vida afunilada, que horror… os meus fins de semana são para a família!
- Aplaudo-te por essa iniciativa! – tornei a incentivar.
- Dá-se a mão, querem o braço, depois a perna e depois o tronco e quando nos damos conta, já estamos integrados no maldito sistema!
- As escolas são núcleos muito contraditórios, enfim…abundância de lixo! – declarei convicta.
- Já fui directora de turma, delegada de grupo, coordenadora de departamento, directora de instalações, fiz parte da avaliação interna da escola e ao fim de alguns anos, perdi a minha paciência e desisti! Deixem-me ser uma simples professora!Nunca mais me apanham noutra!-confessou com uma pontinha de revolta.
- Mas todos os cargos em simultâneo? – perguntei estupefacta.
- Não! Alguns sim, outros não! Eu própria pedi a demissão!
- De todos os cargos? – volvi estarrecida
- Todos! Cansei-me, saturei-me, porque comecei a perceber que não tinha tempo nem para o marido, nem para os filhos, nem para mim mesma! Tornei-me impaciente, intolerante…intragável…prefiro esquecer o assunto.
- Isso não é saudável! – finalizei
- Nada saudável! Sabes porquê? A burocracia é informatizada e passas horas ao computador, a preencher tretas inúteis!
- Há quem goste e até sinta vaidade nisso! – acrescentei
- Há gente para tudo, Marta, coitados, são vazios, com vidas familiares destroçadas…os professores também são pais e mães.
- Por isso os miúdos são como são!
- Exactamente; instáveis, sem regras, insolentes, mal educados… tenho dois filhos, nós, eu o Rui, educamo-los da melhor forma possível, ambos cometemos erros, eles não são perfeitos…mas o que observo hoje é aterrador! 
- Noto o mesmo, e pertenço a outra escola!
- Isto vai ter de mudar, as escolas precisam tomar medidas, medidas urgentes, não podem deixar certos alunos, com comportamentos desajustados, destruírem uma turma inteira! E os pais! – exclamou – quem não tem vocação, não seja pai nem mãe!
- Já percebeste que o professor é sempre o culpado! – disse eu
- Ai, Marta – pronunciou num tom desolado, colocou a mão sobre o meu ombro! - Todos somos culpados, ninguém é totalmente inocente! Uns com mais culpas que outros…se cada qual fizesse a sua parte… afinal estamos a falar sobre a educação! Isto deveria ser diferente, não achas?
- Acho… muito melhor do que é! Educação e saúde!
- Marta, por favor, vamos mudar de assunto! Ui, não me faz bem tocar sequer nestes temas e fora do tempo lectivo, muito menos – gracejou – Olha, quero pagar a conta…
- Eu é que te convidei! – atalhei de repente
- Não importa, para a próxima pagas tu! Apetece-me pagar, aproveita a oportunidade e não te preocupes com isso!
Levantamo-nos, Amélia colocou o braço em torno da minha cintura:
- Tens programa para sábado?
- Não! Ainda não pensei nisso!
- Então vem jantar a minha casa, assim ficas a conhecer a minha família, que tal?
- Pode ser! – aceitei satisfeita.
Antes de nos despedirmos, caminhamos rente ao mar, cavaqueamos sobre as obras que decorriam à nossa frente e foi nessa altura que vi melhor Amélia; bonita, morena, cabelo comprido negro, elegante, charmosa, camiseta com decote acentuado, a saia florida e leve que lhe caía da cintura e percorria as pernas até  às sandálias finas.  Desde que a conhecera sempre notara o seu gosto aprimorado na forma de vestir, desde a cor da bolsa, ao fio que trazia ao pescoço, aos anéis, aos ornamentos nos braços! Uma perfeita Lady!
- Vou por aqui, e tu? - apontou para uma rua estreita
- Em frente!
- Ah, um pormenor importante, sabes onde moro?
- Sei!
- Então, depois das três, a tarde é tua! Aparece! Está bem?
- Com certeza! – respondi alegre
Acenamos uma à outra e eu segui devagar, deliciando os meus olhos nas ondas do mar salpicadas de brilho intenso.
 
PN
    



                                                          Pintura de Minjae Lee