domingo, 28 de fevereiro de 2016
“ Um misto de sentimentos, por um lado, uma tristeza profunda, por ver uma mulher tão bonita nestas circunstâncias e por outro, profundamente envergonhado, enquanto jurista, se visse esta reportagem antes de ir para direito, se calhar tinha ido para outra coisa qualquer. Actualmente, nós temos um sistema legal que é uma autêntica vergonha nesta matéria, trata as pessoas basicamente como lixo, como é o caso desta senhora. Esta senhora diz uma coisa que é importante, pode estar nesta situação por ter sido obrigada a trabalhar num local que tinha amiantos, toda a gente sabe perfeitamente que havia muitas escolas e que ainda há muitas escolas, que tem nas suas infraestruturas peças de amianto, uma senhora que é vítima do seu próprio trabalho, devia-se haver por parte do estado outro tipo de atenção e não merece. Vamos tentar perceber o enquadramento legal disto; no séc 19 houve um filólogo alemão Diefen Bier que disse isto; “O trabalho liberta”, para esse filólogo alemão uma pessoa deve trabalhar até ao fim, independentemente das circunstâncias de estar a morrer ou não estar a morrer, tem de trabalhar até morrer, porque o trabalho é libertador, liberta o espírito para uma coisa superior, é o auto sacrifício de nós termos capacidade de trabalhar até ao fim. Diefen Bier, foi depois aproveitado por quem? pelos nazis! Em auschwitz, e noutros campos de concentração. Se bem se recordam, é muito visto nos filmes e documentários, quando aquela gente desgraçada chegava aos campos de concentração tinham um letreiro a dizer; “ o trabalho liberta” o que é que isto quer dizer? vais trabalhar até ao fim, até à morte, é isto que este sistema legal promove. Esta senhora está obrigada a trabalhar até à morte. E nós temos um sistema legal, que considera uma pessoa cancerosa em último grau, que tenha resistido a todas as tentativas de cura, já com um período de vida muito curto para viver, a lei não considera isto, com 100% de incapacidade para trabalhar. Não considera, está lá escrito. Situam entre 80 e 95 de incapacidade para trabalhar. O que dá margem a estes senhores das juntas médicas para vir dizer, não tem 100% de incapacidade, ainda tem condições para trabalhar. Isto é vergonhoso. Eu tenho vergonha do estado em que vivo. Isto é uma lógica nazi. Isto é uma lógica numérica. Eu vou recuperar aqui uma frase que foi dita por uma senhora professora de Ovar, que em 2007 se viu envolvida numa circunstância desta natureza. Esta senhora professora de Ovar, não tinha metade da língua, tinha cancro na língua, era professora e a junta médica apesar da senhora só ter metade da língua, considerou que ela tinha de trabalhar. Esta senhora veio para a comunicação social dizer o seguinte;” É muito mais barato para a Caixa Geral de Aposentações que eu morra do que estar a aceitar a aposentação”. Esta é a lógica numérica. O estado mama. E esta senhora que em 2007 se viu nestas circunstâncias, de ter que ser obrigada a trabalhar como professora. Eu não percebo o que estes senhores da junta médica percebem disto, porque uma professora precisa da língua para falar. É o seu instrumento, é uma coisa que não pode ser mais óbvia. Até dizia que fazia um esforço para falar e lhe saía sangue pela boca na frente dos alunos. O governo na altura sensibilizou-se com a situação e foi perguntar à junta médica” Mas ouça lá isto, não é um bocado de exagero, estarem a obrigar esta senhora a trabalhar?”E a resposta da junta médica; havia um papelinho onde dizia, capaz para trabalhar ou incapaz para trabalhar? Sim ou não? E parece que o senhor doutor na altura veio explicar que se enganou. Eram muitos papéis que estavam à frente dele e então pôs a cruzinha no sítio errado. As juntas médicas são integralmente da responsabilidade da Caixa Geral de Aposentações, até 2007 não eram médicos. Era uma composição mista, em que havia um presidente da junta que não era médico, agora são todos médicos. E os médicos não se sensibilizam com esta questão, porque são pessoas muito felizes, estes senhores doutores que tomam uma decisão destas, são felizes, porque nunca tiveram de trabalhar depois de fazer uma sessão de quimioterapia ou radioterapia. Se tivessem a infelicidade de serem obrigados a trabalhar, atenção, que não estou a fazer um ataque à classe médica, depois de fazerem uma sessão de quimioterapia ou radioterapia, se calhar tinham uma opinião completamente diferente. Estes senhores têm uma lei que é permissiva. Bastava haver uma lei que dissesse a estes senhores em concreto o seguinte; “ Doentes como esta senhora, nestas circunstâncias; três cancros, a serem submetidas a radioterapia e quimioterapia, são obrigados a mandar as pessoas para a aposentação”. Estas pessoas não têm condição, tem de ter uma dignidade enquanto seres humanos que a lei não lhes dá, e depois agravado pelo facto desses senhores das juntas médicas, não terem a sensibilidade para perceber que têm na sua mão o poder de dar a aposentação a estas pessoas e não o dão, porque sai caro ao estado, como é óbvio. Assisti a um caso, de um senhor que estava a sair de uma junta médica, em muletas, que não tinha as duas pernas. O senhor estava revoltado e estavam a insultar os médicos porque o senhor sem as duas pernas foi considerado apto para trabalhar. Aquilo que digo é basicamente isto, isto, é uma linha de extermínio, isto é nazi, por isso tens de trabalhar até às últimas, porque se não trabalhares até as ultimas, tiramos-te o pão para a boca. Estas pessoas que são consideradas aptas para trabalhar se não aparecem no trabalho no dia seguinte, ficam automaticamente, por lei, debaixo de um regime, de licença sem vencimento. Há limites de prazo, no caso desta senhora, depois foi a várias juntas médicas que lhe renovaram sistematicamente uma baixa, até ao limite previsto na lei. A seguir tem que se apresentar obrigatoriamente a uma junta médica da Caixa Geral de Aposentações, sob pena de ir automaticamente para os regimes de licença sem vencimento. E as pessoas podem perguntar “ E uma pessoa nestas circunstâncias, o que é que pode fazer, para reagir a uma situação destas?” Antes de 2007, foi criada a junta de recurso, esta pessoa pode pedir a realização de uma nova junta médica, em recurso da decisão da primeira, que vai ser integrada por médicos diferentes daqueles que apreciaram a 1ª vez o caso, com excepção do médico privado que pode estar na junta médica e esse pode ser o mesmo, mas depois se houver uma reconfirmação da decisão, se o caso for obviamente de incapacidade, e atenção senhores da segurança social, se for um caso permanente, então a senhora pode recorrer aos tribunais administrativos, e dizer, há uma acção específica que é muito utilizada; uma acção de intimação para a defesa dos direitos, liberdades e garantias de cada um, e os tribunais o que é que dizem? Quando são casos tão crassos, tão evidentes que mesmo para um leigo, se perceba que não há condições para esta senhora continuar a trabalhar, o tribunal, decreta efectivamente a aposentação. Noutros casos o tribunal diz basicamente que foi uma decisão discricionária dos médicos, é uma decisão técnica, científica e o tribunal não se mete. O tribunal só se mete quando há casos tão gritantes, tão grosseiros. Esta senhora tem de lutar pelos seus direitos e lamentar uma vez mais, nós vivemos num estado em que as pessoas ou tem de trabalhar até a ultima ou então são condenadas à fome.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
sábado, 23 de janeiro de 2016
MAIS DESIGUALDADES
1% dos mais ricos do
mundo concentram já mais riqueza que os restantes 99% por cento do planeta.
Alerta da Organização
Oxfam que pede medidas urgentes e concretas aos governos para travar esta
desigualdade crescente, a começar pelo fim dos paraísos fiscais.
A riqueza dos
mais ricos aumentou 44% desde 2010, enquanto a riqueza dos mais pobres diminuiu
41%.
Um mundo desigual cada
vez mais marcado pelo fosso entre ricos e pobres. É que é de cifrões ou da
falta deles que se fala. A organização não governamental, Oxfam quantifica esta
distancia também em números:
Pela primeira vez em
2015, 1% mais ricos do mundo têm mais riqueza que os restantes 99% da
população.
“ Não estamos a falar aqui numa questão de pobres e ricos, nós neste
momento já temos uma situação que é os mais ricos entre os ricos contra o
conjunto da sociedade.”
Carlos Farinha
Rodrigues, professor universitário, especialista em desigualdades, afirma que
este fosso tem consequências concretas:
“ As desigualdades na
distribuição da riqueza e no rendimento, são hoje um entrave ao desenvolvimento
económico, a concentração da riqueza num conjunto muito restrito de pessoas
acaba por desviar recursos que poderiam ser utilizados para a melhoria da
sociedade, a melhoria das condições de vida das pessoas”
O relatório divulgado
muito recentemente pela Oxfam, organização britânica que trabalha no combate à
pobreza, faz um desenho; em 2010 havia 388 multimilionários que tinham a mesma
riqueza do que metade do resto do mundo. Cabiam num avião. Em 2014, o número
ficou ainda mais concentrado, 80 pessoas, já bastava, um autocarro de dois
andares. Em 2015, apenas 62, um autocarro negrice detêm tanto dinheiro como
metade da população mundial; 3,5 mil milhões de pessoas. A riqueza dessas 62
pessoas cresceu 44% desde 2010, antes que estes multimilionários caibam dentro
de um táxi, a Oxfam internacional exige que sejam tomadas medidas concretas,
como o fim dos paraísos fiscais por onde passa quase sem pagar impostos grande
parte da riqueza mundial.
“ Uma parte significativa
destas fortunas em termos relativos paga menos impostos que um trabalhador que
no dia a dia, executa as suas tarefas. Já não há dúvidas quanto ao que esta
concentração de riqueza significa. Os dados estão aí, todos os dias a
demonstrá-lo. Falta vontade política”.
Recados para mais um
fórum económico mundial em dados que começa esta quarta feira ( já começou a
semana passada)
Telejornal da RTP1
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
sábado, 9 de janeiro de 2016
Chamamento...
Foto-PN
…na pressa…na pressa….os pés têm pressa…
os sapatos…os sapatos pesados e gangrenados
puxam o passo para o fundo, fundo, fundo….
a lama viscosa trava a passada,
o sujo resvala
os pés rolam , rolam… nos sapatos apertados de solas batidas
ai os sapatos andrajosos
atiram o esqueleto à cama
e o combalido sono serve-me um chá morno,
uma chávena abocanhada e encardida
antes mesmo dos delírios nocturnos
Quando a tampa do quarto se abre…
lá por cima, volteiam pássaros sem norte… pássaros que sondam
o mistério da morte
Meus olhos doridos e pedrados de insónia
bocejam copiosos na demora,
estafados de bater na mesma tecla; em surdina, em som
esbracejado,
em gritos brandos, em
brados coléricos…,
sofrida retina, estala em fissuras crispadas de pesar
sonolência tardia… o repouso que não chega
a paz desejada… remota, sempre afastada…
Os pássaros descem, percorrem o quadro, esboçam linhas
curvas
voos rasos à minha volta…
Masco a poalha amarga das visões trágicas… cenas sem
remédio, irremediavelmente perdidas,
outras; luzes, de grande porte, desmedidamente cintilantes;
o doce a derreter-se na saliva … uma pequena luz bruxuleante
dentro da boca…
É hora… e os pássaros… os pássaros levam o meu espírito com
eles…,
eles sabem, sabem onde depositar, no lugar que perpetuamente
sonhei.
PN
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Então é Natal...
O espírito evoca
fenómenos passados
trazidos em grãos
de esferovite
Omo branco de neve
pura
embebido em água
límpida e fresca
o líquido
corriqueiro
escorre porta
abaixo
corre quintal
adentro
galga escadaria
acima…
A frescura com
cheiro
a ar próprio
arromba as portas
antigas da velha casa
lambe as vidraças
em gestos vigorosos
e friccionados
Os tapetes com
desenhos orientais
submergem no
lavadouro
O escaparate
comprado ao rei D. Carlos
abre gavetas e saem
prateleiras
As loiças tombam, mergulham
dentro do alguidar
num baptismo de
água em bolhas coloridas
A massa da farinha
incha nos tachos
ao calor da lareira
O sino da capela chama
para a missa do parto
E ao fim da noite princípios
do dia
olhos pestanejam de
sono por dormir
e lábios bocejam
A faca espeta-se
nas goelas do porco
E o furo jorra
sangue quente
Pobre animal atraiçoado
e sacrificado na festa.
E eis que surge a
passo lento
Num silêncio devoto
A mãe…
Traz a criança nos
braços
A seu lado, ombro
com ombro
o pai numa fiel
cumplicidade.
A vaca e o burro
acercam-se
Cada um toma a sua
posição
Como se uma
fotografia os retratasse
Os pastores andam trauteando
quadras ao vento…
e ao avistarem tão
lindo quadro
curvam-se e adoram
maravilhados
o nascimento do
menino.
O anjo chega
atrasado
e revela
atarantado:
- Os reis Magos vêm
chegando…
A vaca molengona
exclama presunçosa:
- E trazem ouro!
O burro atento
completa vaidoso:
- Esqueceste o
incenso e a mirra…
O pinheiro alto
rompe o telhado da
sala
espeta-se numa
estrela
Outros astros
estremecem
resvalam de comoção
prendendo-se nos
galhos
do esguio pinho.
A espiguilha
enlaça-se
E a gambiarra
também
O pinheiro
alvoroçado
pulsa de agitação
O canto anuncia a
missa do galo
Depois
A canja é servida
quente
O peru recheado jaz
sobre a mesa
Ao lado a travessa
de carne vinho e alhos
não faltam as
sobremesas
Bolo de laranja,
Bolo de família, Bolo de mel…
Broas de manteiga,
broas de mel…
Licores viscosos e
doces
Sumos…
Vinhos caros
O alvoroço toma
conta da família
As crianças brincam
sobre o soalho polido de cera
O aroma de ensaião,
o aroma do alegra campo,
o aroma das manhãs
de Páscoa
e o aroma dos
junquilhos
cruzam-se
e misturam-se…
O regato chorão
contorna
rochas de papelão
o luar solene sopra
compaixão…
Cantam rouxinóis hinos de louvor
e assim o presépio
lembra o céu…
Àquela hora bendita
a campainha ressoa
Apressam-se a
atender
É a “muda”, a pobre
que vem de longe
De uma outra
esquina para pedir de comer
Repartem o pão e o
vinho
E estendem-lhe a
mão.
Saciada a fome do
corpo e da alma
A pobre triste e
remendada
Sai dali de alma
cheia
E bem alimentada.
E o regato chorão
contorna
rochas de papelão
o luar solene sopra
compaixão…
cantam os rouxinóis hinos de louvor
e assim o presépio
lembra o céu…
Dez de 2010-12-22
PN
(Reedição; poema e ilustração)
Nota : Desejo aos Amigos e a todos os viajantes que por cá passam, um SANTO NATAL!
PN
sábado, 28 de novembro de 2015
Sua eminência arrocha-se no trono
lembra uma construção românica;
rude, sisudo, encorpado, baixote …
Epiderme escura, cabelo curto grisalho
barba farta, queimada pelo fumo…
charuto atarraxado nos lábios balofos .
O caderno, manual de explicação
de Estética, tão clássico…
sempre o mesmo, desde longa data…
réplica de si mesmo;
amarelo encardido , anotações
desbotadas, nem vírgula a mais, nem vírgula a menos,
nem ponto a mais, nem ponto a
menos…
O génio da sabedoria, sem nenhuma
evolução à vista,
enquadra a armação grossa dos
óculos na fachada escura
e discursa num tom ilustre e altaneiro:
- Excluindo meia dúzia de provas,
o resto é pura burrice, vão plantar batatas, dediquem-se à terra. Que fazem
aqui? Como é que se lembraram de tirar um curso superior? Não percebem nada de
Estética!
e vibra de riso, um regozijo
escarninho, uma gargalhadinha enervante…
as suas anotações sobrepõem-se às
respostas dadas
e imiscuem-se nelas, de tal forma
profícuas
que não se distingue nada … não
existem olhos para leituras sobrepostas…
luta titânica de grafismos
Sua eminência informa com algum
enfastio:
- Quem obteve a classificação
acima de oito, ainda se pode propor à oral, os outros, penso que nem vale a
pena!
Imediatamente, olhos jovens
debruçam-se para a folha de teste, em busca da confirmação:
Escutam-se sussurros: - Oito,
virgula dois…por um triz …quase …quase que…, o meu foi nove… consigo chegar à oral…
O dia veio, como outro qualquer,
nem maior, nem mais pequeno…
Naquele castelo de muralhas já muito
envelhecidas e corroídas pela traça
acontece a chamada oral;
a quem entra, a pose de Sua eminência
intimida…
dois fieis escudeiros guardam
aquela relíquia sem brilho, mais caduca que o
caduco dos homens
Os cães a postos, espreitam os
pupilos, um a um …
- Vai começar… – uma voz sussurra
- Somos só quatro?! – outra
rumoreja
-
Que tortura… estou em frangalhos! – a seguinte suspira
- Cala-te! – ordena a quarta
amedrontada
- Medricas! – galhofa uma delas
Sua eminência nomeia quem enceta
o interrogatório.
À medida que questiona, zomba das
respostas dadas e lança bombas de escárnio e maldizer.
Até que irritado, solta mesmo
desadequado:
- Então quer dizer que um
cagalhão é uma obra de arte?
- Não!...não!
- Ah! – exclama numa risota
displicente.
- Diz que sim! Diz que sim! Depende
do rabo que faz!
Olhos escancaram de susto, não
fosse sua eminência ouvir aquela barbaridade
e tudo o que fora dito, anulado.
PN
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