O espírito evoca
fenómenos passados
trazidos em grãos
de esferovite
Omo branco de neve
pura
embebido em água
límpida e fresca
o líquido
corriqueiro
escorre porta
abaixo
corre quintal
adentro
galga escadaria
acima…
A frescura com
cheiro
a ar próprio
arromba as portas
antigas da velha casa
lambe as vidraças
em gestos vigorosos
e friccionados
Os tapetes com
desenhos orientais
submergem no
lavadouro
O escaparate
comprado ao rei D. Carlos
abre gavetas e saem
prateleiras
As loiças tombam, mergulham
dentro do alguidar
num baptismo de
água em bolhas coloridas
A massa da farinha
incha nos tachos
ao calor da lareira
O sino da capela chama
para a missa do parto
E ao fim da noite princípios
do dia
olhos pestanejam de
sono por dormir
e lábios bocejam
A faca espeta-se
nas goelas do porco
E o furo jorra
sangue quente
Pobre animal atraiçoado
e sacrificado na festa.
E eis que surge a
passo lento
Num silêncio devoto
A mãe…
Traz a criança nos
braços
A seu lado, ombro
com ombro
o pai numa fiel
cumplicidade.
A vaca e o burro
acercam-se
Cada um toma a sua
posição
Como se uma
fotografia os retratasse
Os pastores andam trauteando
quadras ao vento…
e ao avistarem tão
lindo quadro
curvam-se e adoram
maravilhados
o nascimento do
menino.
O anjo chega
atrasado
e revela
atarantado:
- Os reis Magos vêm
chegando…
A vaca molengona
exclama presunçosa:
- E trazem ouro!
O burro atento
completa vaidoso:
- Esqueceste o
incenso e a mirra…
O pinheiro alto
rompe o telhado da
sala
espeta-se numa
estrela
Outros astros
estremecem
resvalam de comoção
prendendo-se nos
galhos
do esguio pinho.
A espiguilha
enlaça-se
E a gambiarra
também
O pinheiro
alvoroçado
pulsa de agitação
O canto anuncia a
missa do galo
Depois
A canja é servida
quente
O peru recheado jaz
sobre a mesa
Ao lado a travessa
de carne vinho e alhos
não faltam as
sobremesas
Bolo de laranja,
Bolo de família, Bolo de mel…
Broas de manteiga,
broas de mel…
Licores viscosos e
doces
Sumos…
Vinhos caros
O alvoroço toma
conta da família
As crianças brincam
sobre o soalho polido de cera
O aroma de ensaião,
o aroma do alegra campo,
o aroma das manhãs
de Páscoa
e o aroma dos
junquilhos
cruzam-se
e misturam-se…
O regato chorão
contorna
rochas de papelão
o luar solene sopra
compaixão…
Cantam rouxinóis hinos de louvor
e assim o presépio
lembra o céu…
Àquela hora bendita
a campainha ressoa
Apressam-se a
atender
É a “muda”, a pobre
que vem de longe
De uma outra
esquina para pedir de comer
Repartem o pão e o
vinho
E estendem-lhe a
mão.
Saciada a fome do
corpo e da alma
A pobre triste e
remendada
Sai dali de alma
cheia
E bem alimentada.
E o regato chorão
contorna
rochas de papelão
o luar solene sopra
compaixão…
cantam os rouxinóis hinos de louvor
e assim o presépio
lembra o céu…
Dez de 2010-12-22
PN
(Reedição; poema e ilustração)
Nota : Desejo aos Amigos e a todos os viajantes que por cá passam, um SANTO NATAL!
PN