quinta-feira, 3 de março de 2016

Sem título

Atrás de mim, uns passos?
um alvoroço…sem ser alto, sem ser baixo
assim…provocador.
Passou por mim uma baforada de ar,
vinha lenta, pela frente, bem fininha
senti e voltei a sentir aquele friozinho…
De novo, a mesma farfalhada?
Voltei-me, nada de nada!
A rua deserta, na hora certa…
Segui mais ligeira
movida pela inclinação da descida…
Outra vez? o som de alguém?
De quem?
Quem seria quem me seguia
no encalço das minhas pegadas?
Os cabelos puseram-se de pé
no arrepio do caminho,
outra baforada do mesmo arzinho
diria mesmo; 
uma serrinha cortante, um canivete afinadinho
  um pouco mais que fresquinho…
Troquei a passada larga por outra ainda mais apressada
Agora, no fim do declive, início da recta do caminho,
subitamente, a tal ramalhada; um ruidozinho de tecidos? uma arranhada ?
Que raio de bicho me perseguia?!
Quando a baforada cessou, voltei-me sempre eriçada
foi então, que se me deparou
uma folha seca, que comigo brincou…
Uma simples folha que me assustou e na traquinice
à minha frente passou!
PN    

                                             Foto: Net









domingo, 28 de fevereiro de 2016

                                                       A ENTREVISTA

“Marta, quase o rosto da bandeira de tanta insensibilidade”


 “ Um misto de sentimentos, por um lado, uma tristeza profunda, por ver uma mulher tão bonita nestas circunstâncias e por outro, profundamente envergonhado, enquanto jurista, se visse esta reportagem antes de ir para direito, se calhar tinha ido para outra coisa qualquer. Actualmente, nós temos um sistema legal que é uma autêntica vergonha nesta matéria, trata as pessoas basicamente como lixo, como é o caso desta senhora. Esta senhora diz uma coisa que é importante, pode estar nesta situação por ter sido obrigada a trabalhar num local que tinha amiantos, toda a gente sabe perfeitamente que havia muitas escolas e que ainda há muitas escolas, que tem nas suas infraestruturas peças de amianto, uma senhora que é vítima do seu próprio trabalho, devia-se haver por parte do estado outro tipo de atenção e não merece. Vamos tentar perceber o enquadramento legal disto; no séc 19 houve um filólogo alemão Diefen Bier que disse isto; “O trabalho liberta”, para esse filólogo alemão uma pessoa deve trabalhar até ao fim, independentemente das circunstâncias de estar a morrer ou não estar a morrer, tem de trabalhar até morrer, porque o trabalho é libertador, liberta o espírito para uma coisa superior, é o auto sacrifício de nós termos capacidade de trabalhar até ao fim. Diefen Bier, foi depois aproveitado por quem? pelos nazis! Em auschwitz, e noutros campos de concentração. Se bem se recordam, é muito visto nos filmes e documentários, quando aquela gente desgraçada chegava aos campos de concentração tinham um letreiro a dizer; “ o trabalho liberta” o que é que isto quer dizer? vais trabalhar até ao fim, até à morte, é isto que este sistema legal promove. Esta senhora está obrigada a trabalhar até à morte. E nós temos um sistema legal, que considera uma pessoa cancerosa em último grau, que tenha resistido a todas as tentativas de cura, já com um período de vida muito curto para viver, a lei não considera isto, com 100% de incapacidade para trabalhar. Não considera, está lá escrito. Situam entre 80 e 95 de incapacidade para trabalhar. O que dá margem a estes senhores das juntas médicas para vir dizer, não tem 100% de incapacidade, ainda tem condições para trabalhar. Isto é vergonhoso. Eu tenho vergonha do estado em que vivo. Isto é uma lógica nazi. Isto é uma lógica numérica. Eu vou recuperar aqui uma frase que foi dita por uma senhora professora de Ovar, que em 2007 se viu envolvida numa circunstância desta natureza. Esta senhora professora de Ovar, não tinha metade da língua, tinha cancro na língua, era professora e a junta médica apesar da senhora só ter metade da língua, considerou que ela tinha de trabalhar. Esta senhora veio para a comunicação social dizer o seguinte;” É muito mais barato para a Caixa Geral de Aposentações que eu morra do que estar a aceitar a aposentação”. Esta é a lógica numérica. O estado mama. E esta senhora que em 2007 se viu nestas circunstâncias, de ter que ser obrigada a trabalhar como professora. Eu não percebo o que estes senhores da junta médica percebem disto, porque uma professora precisa da língua para falar. É o seu instrumento, é uma coisa que não pode ser mais óbvia. Até dizia que fazia um esforço para falar e lhe saía sangue pela boca na frente dos alunos. O governo na altura sensibilizou-se com a situação e foi perguntar à junta médica” Mas ouça lá isto, não é um bocado de exagero, estarem a obrigar esta senhora a trabalhar?”E a resposta da junta médica; havia um papelinho onde dizia, capaz para trabalhar ou incapaz para trabalhar? Sim ou não? E parece que o senhor doutor na altura veio explicar que se enganou. Eram muitos papéis que estavam à frente dele e então pôs a cruzinha no sítio errado. As juntas médicas são integralmente da responsabilidade da Caixa Geral de Aposentações, até 2007 não eram médicos. Era uma composição mista, em que havia um presidente da junta que não era médico, agora são todos médicos. E os médicos não se sensibilizam com esta questão, porque são pessoas muito felizes, estes senhores doutores que tomam uma decisão destas, são felizes, porque nunca tiveram de trabalhar depois de fazer uma sessão de quimioterapia ou radioterapia. Se tivessem a infelicidade de serem obrigados a trabalhar, atenção, que não estou a fazer um ataque à classe médica, depois de fazerem uma sessão de quimioterapia ou radioterapia, se calhar tinham uma opinião completamente diferente. Estes senhores têm uma lei que é permissiva. Bastava haver uma lei que dissesse a estes senhores em concreto o seguinte; “ Doentes como esta senhora, nestas circunstâncias; três cancros, a serem submetidas a radioterapia e quimioterapia, são obrigados a mandar as pessoas para a aposentação”. Estas pessoas não têm condição, tem de ter uma dignidade enquanto seres humanos que a lei não lhes dá, e depois agravado pelo facto desses senhores das juntas médicas, não terem a sensibilidade para perceber que têm na sua mão o poder de dar a aposentação a estas pessoas e não o dão, porque sai caro ao estado, como é óbvio. Assisti a um caso, de um senhor que estava a sair de uma junta médica, em muletas, que não tinha as duas pernas. O senhor estava revoltado e estavam a insultar os médicos porque o senhor sem as duas pernas foi considerado apto para trabalhar. Aquilo que digo é basicamente isto, isto, é uma linha de extermínio, isto é nazi, por isso tens de trabalhar até às últimas, porque se não trabalhares até as ultimas, tiramos-te o pão para a boca. Estas pessoas que são consideradas aptas para trabalhar se não aparecem no trabalho no dia seguinte, ficam automaticamente, por lei, debaixo de um regime, de licença sem vencimento. Há limites de prazo, no caso desta senhora, depois foi a várias juntas médicas que lhe renovaram sistematicamente uma baixa, até ao limite previsto na lei. A seguir tem que se apresentar obrigatoriamente a uma junta médica da Caixa Geral de Aposentações, sob pena de ir automaticamente para os regimes de licença sem vencimento. E as pessoas podem perguntar “ E uma pessoa nestas circunstâncias, o que é que pode fazer, para reagir a uma situação destas?” Antes de 2007, foi criada a junta de recurso, esta pessoa pode pedir a realização de uma nova junta médica, em recurso da decisão da primeira, que vai ser integrada por médicos diferentes daqueles que apreciaram a 1ª vez o caso, com excepção do médico privado que pode estar na junta médica e esse pode ser o mesmo, mas depois se houver uma reconfirmação da decisão, se o caso for obviamente de incapacidade, e atenção senhores da segurança social, se for um caso permanente, então a senhora pode recorrer aos tribunais administrativos, e dizer, há uma acção específica que é muito utilizada; uma acção de intimação para a defesa dos direitos, liberdades e garantias de cada um, e os tribunais o que é que dizem? Quando são casos tão crassos, tão evidentes que mesmo para um leigo, se perceba que não há condições para esta senhora continuar a trabalhar, o tribunal, decreta efectivamente a aposentação. Noutros casos o tribunal diz basicamente que foi uma decisão discricionária dos médicos, é uma decisão técnica, científica e o tribunal não se mete. O tribunal só se mete quando há casos tão gritantes, tão grosseiros. Esta senhora tem de lutar pelos seus direitos e lamentar uma vez mais, nós vivemos num estado em que as pessoas ou tem de trabalhar até a ultima ou então são condenadas à fome.
Apelo aos senhores políticos que estão no governo, lembrem-se que temos uma lei que só dá duas alternativas às pessoas que estão nestas circunstâncias “ Ou trabalham ou morrem à fome”, escolham!
Drº P.P.
(A Marta foi avaliada pela junta médica da Caixa Geral de Aposentações e, mesmo sem a docente ter estado presente no encontro, determinou que ela estaria apta para desempenhar funções como professora, apesar de se sentir incapaz para trabalhar. Marta não foi considerada absolutamente incapaz para o exercícios das suas funções. Os responsáveis pelo programa de TV, pediram esclarecimentos à Caixa Geral de Aposentações e ate ao fim da entrevista, não obtiveram qualquer resposta).




terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Lembrar este dia ...

 Foto e arranjos de PN

sábado, 23 de janeiro de 2016

MAIS DESIGUALDADES

1% dos mais ricos do mundo concentram já mais riqueza que os restantes 99% por cento do planeta.

Alerta da Organização Oxfam que pede medidas urgentes e concretas aos governos para travar esta desigualdade crescente, a começar pelo fim dos paraísos fiscais.

A riqueza dos mais ricos aumentou 44% desde 2010, enquanto a riqueza dos mais pobres diminuiu 41%.

Um mundo desigual cada vez mais marcado pelo fosso entre ricos e pobres. É que é de cifrões ou da falta deles que se fala. A organização não governamental, Oxfam quantifica esta distancia também em números:
Pela primeira vez em 2015, 1% mais ricos do mundo têm mais riqueza que os restantes 99% da população.

Não estamos a falar aqui numa questão de pobres e ricos, nós neste momento já temos uma situação que é os mais ricos entre os ricos contra o conjunto da sociedade.”

Carlos Farinha Rodrigues, professor universitário, especialista em desigualdades, afirma que este fosso tem consequências concretas:
“ As desigualdades na distribuição da riqueza e no rendimento, são hoje um entrave ao desenvolvimento económico, a concentração da riqueza num conjunto muito restrito de pessoas acaba por desviar recursos que poderiam ser utilizados para a melhoria da sociedade, a melhoria das condições de vida das pessoas”

O relatório divulgado muito recentemente pela Oxfam, organização britânica que trabalha no combate à pobreza, faz um desenho; em 2010 havia 388 multimilionários que tinham a mesma riqueza do que metade do resto do mundo. Cabiam num avião. Em 2014, o número ficou ainda mais concentrado, 80 pessoas, já bastava, um autocarro de dois andares. Em 2015, apenas 62, um autocarro negrice detêm tanto dinheiro como metade da população mundial; 3,5 mil milhões de pessoas. A riqueza dessas 62 pessoas cresceu 44% desde 2010, antes que estes multimilionários caibam dentro de um táxi, a Oxfam internacional exige que sejam tomadas medidas concretas, como o fim dos paraísos fiscais por onde passa quase sem pagar impostos grande parte da riqueza mundial.

“ Uma parte significativa destas fortunas em termos relativos paga menos impostos que um trabalhador que no dia a dia, executa as suas tarefas. Já não há dúvidas quanto ao que esta concentração de riqueza significa. Os dados estão aí, todos os dias a demonstrá-lo. Falta vontade política”.

Recados para mais um fórum económico mundial em dados que começa esta quarta feira ( já começou a semana passada) 

Telejornal da RTP1 



Imagens- Internet 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

sábado, 9 de janeiro de 2016

Chamamento...

                                                                                                                      Foto-PN
…na pressa…na pressa….os pés têm pressa…
os sapatos…os sapatos pesados e  gangrenados
puxam o passo para o fundo, fundo, fundo….
a lama viscosa trava a passada,
o sujo resvala
os pés rolam , rolam… nos sapatos apertados de solas batidas
ai os sapatos andrajosos  atiram o esqueleto à cama
e o combalido sono serve-me um chá morno,
uma chávena abocanhada e encardida
antes mesmo dos delírios nocturnos
Quando a tampa do quarto se abre…
lá por cima, volteiam pássaros sem norte… pássaros que sondam o  mistério da morte
Meus olhos doridos e pedrados de insónia
bocejam copiosos na demora,
estafados de bater na mesma tecla; em surdina, em som esbracejado,
em  gritos brandos, em brados coléricos…,
sofrida retina, estala em fissuras crispadas de pesar
sonolência tardia… o repouso que não chega
a paz desejada… remota, sempre afastada…
Os pássaros descem, percorrem o quadro, esboçam linhas curvas
voos rasos à minha volta…
Masco a poalha amarga das visões trágicas… cenas sem remédio, irremediavelmente perdidas,
outras; luzes, de grande porte, desmedidamente cintilantes;
o doce a derreter-se na saliva … uma pequena luz bruxuleante dentro da boca…
É hora… e os pássaros… os pássaros levam o meu espírito com eles…,
eles sabem, sabem onde depositar, no lugar que perpetuamente sonhei.
  
PN
  




segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Então é Natal...


O espírito evoca fenómenos passados
trazidos em grãos de esferovite
Omo branco de neve pura
embebido em água límpida e fresca
o líquido corriqueiro
escorre porta abaixo
corre quintal adentro
galga escadaria acima…
A frescura com cheiro
a ar próprio
arromba as portas antigas da velha casa
lambe as vidraças
em gestos vigorosos e friccionados
Os tapetes com desenhos orientais
submergem no lavadouro
O escaparate comprado ao rei D. Carlos
abre gavetas e saem prateleiras
As loiças tombam, mergulham
dentro do alguidar
num baptismo de água em bolhas coloridas
A massa da farinha incha nos tachos
ao calor da lareira
O sino da capela chama para  a missa do parto
E ao fim da noite princípios do dia
olhos pestanejam de sono por dormir
 e lábios bocejam
A faca espeta-se nas goelas do porco
E o furo jorra sangue quente
Pobre animal atraiçoado e sacrificado na festa.
E eis que surge a passo lento
Num silêncio devoto
A mãe…
Traz a criança nos braços
A seu lado, ombro com ombro
o pai numa fiel cumplicidade.
A vaca e o burro acercam-se
Cada um toma a sua posição
Como se uma fotografia os retratasse
Os pastores andam trauteando
quadras ao vento…
e ao avistarem tão lindo quadro
curvam-se e adoram maravilhados
o nascimento do menino.
O anjo chega atrasado
e revela atarantado:
- Os reis Magos vêm chegando…
A vaca molengona exclama presunçosa:
- E trazem ouro!
O burro atento completa vaidoso:
- Esqueceste o incenso e a mirra…
O pinheiro alto
rompe o telhado da sala
espeta-se numa estrela
Outros astros estremecem
resvalam de comoção
prendendo-se nos galhos
do esguio pinho.
A espiguilha enlaça-se
E a gambiarra também
O pinheiro alvoroçado
pulsa de  agitação
O canto anuncia a missa do galo
Depois
A canja é servida quente
O peru recheado jaz sobre a mesa
Ao lado a travessa de carne vinho e alhos
não faltam as sobremesas
Bolo de laranja, Bolo de família, Bolo de mel…
Broas de manteiga, broas de mel…
Licores viscosos e doces
Sumos…
Vinhos caros
O alvoroço toma conta da família
As crianças brincam sobre o soalho polido de cera
O aroma de ensaião, o aroma do alegra campo,
o aroma das manhãs de Páscoa
e o aroma dos junquilhos
 cruzam-se  e misturam-se…
O regato chorão contorna
rochas de papelão
o luar solene sopra compaixão…
Cantam  rouxinóis hinos de louvor
e assim o presépio lembra o céu…
Àquela hora bendita a campainha ressoa
Apressam-se a atender
É a “muda”, a pobre que vem de longe
De uma outra esquina para pedir de comer
Repartem o pão e o vinho
E estendem-lhe a mão.
Saciada a fome do corpo e da alma
A pobre triste e remendada
Sai dali de alma cheia
E bem alimentada.
E o regato chorão contorna
rochas de papelão
o luar solene sopra compaixão…
 cantam os rouxinóis hinos de louvor
e assim o presépio lembra o céu…

Dez  de 2010-12-22

PN




(Reedição; poema e ilustração)

Nota : Desejo aos Amigos e a todos os viajantes que  por cá passam, um SANTO NATAL! 
PN