"Buscas continuam no Tejo pelo corpo da segunda criança que desapareceu na noite de segunda feira. Foto:DR
" Vamos começar com um caso em
Caxias que não deixou ninguém indiferente, com a morte de duas crianças:"
“Eu gosto mais de pensar na
miséria do que na maldade. É muito perigoso e muito grave julgarmos à priori
uma coisa que não conhecemos, que não conseguimos perceber, que não temos os
dados todos, nenhum de nós tem ainda hoje os dados todos e mesmo quando
tivermos, provavelmente não vamos saber de facto o que se passava ou se passou naquela
família.
A relação dos pais nunca foi
muito saudável, não ouvimos a mãe, a mãe está detida para interrogatório e
ouvimos várias coisas …vamos ter imenso cuidado sobretudo porque não é uma
brincadeira, são vidas…são vidas de pessoas que passam ao nosso lado, o dia
inteiro. Nós passamos todos por imensas vidas de pessoas que estão a sofrer
profundamente e não imaginamos, e, muitas vezes fingimos não ver, não é? Esse é
o primeiro pensamento que nós devemos ter; como é que nós estamos a olhar para
as pessoas? Olhar umas para as outras, nós, cada um de nós, na nossa
responsabilidade de todos os dias. O estado em geral nas suas ferramentas e nos
seus instrumentos. O que é que estamos a fazer para que não se chegue a este
extremo? E porque estamos a chegar a estes extremos? Essa é a grande pergunta e
é o que pode ser a nossa conversa, até conversa de café, Portugal parou, toda a
gente falava sobre isto…
Ficamos cegos e nós não nos
podemos esquecer, digo muitas vezes isto e não me canso de dizer, o simples
olhar para a outra pessoa nos olhos, devolve existência e nós fazemos questão
de não ver imensas coisas, na rua, no trabalho, nos sítios onde estamos, e com
o desespero que foi acumulando nos últimos anos em Portugal, existe muita gente
desesperada, algumas pessoas a disfarçar muito bem, outras pessoas a não
disfarçar de todo, outras pessoas a abusar e a aproveitar-se disso para se
fazer de desesperado, mas nós não devemos nunca esquecer desta coisa
extraordinária que é diferença de sermos humanos em relação aos outros animais,
não é a inteligência, é a dignidade. É a forma como nós podemos
interligar-mo-nos uns aos outros, acrescentando raciocínio a isso.
Eu acredito
que quando as pessoas estiverem a falar do que se passou esta semana, temos
sempre que pensar em dignidade, e no outro, e não somos animais isolados, somos
animais gregários e vamos ter cuidado com o julgamento… e sobretudo isto
alerta-nos e há sempre coisas para aprender quando nós detectamos e já nos
detectamos com vários, com dramas sociais que não nos dizem respeito, no
sentido que não é ninguém que a gente conheça mas aconteceu, aconteceu aqui,
aconteceu em Portugal em 2016.
Então se calhar isto deve-nos servir pura e
simplesmente para pormos a mão cá dentro e começarmos a pensar, o que é que eu
estou a fazer em relação às pessoas que eu conheço? O que é que eu estou a
fazer em relação aos ruídos que ouço? Em relação às imagens que vejo? Em
relação aos outros? Não estou a perguntar à minha vizinha se aquilo que ouço é animação
lá em casa ou não? Até que ponto nós nos devemos meter…intrigar ou prestar
atenção? São coisas diferentes. E nós temos uma enorme dificuldade em
distingui-las porque somos um povo que gosta de saber, gosta de comentar, é cusco,
é curioso, mas, não podemos também ignorar. "
M.P.C.
M.P.C.
(Cont)






