terça-feira, 22 de março de 2016

A ENTREVISTA I


"Buscas continuam no Tejo pelo corpo da segunda criança que desapareceu na noite de segunda feira. Foto:DR

    " Vamos começar com um caso em Caxias que não deixou ninguém indiferente, com a morte de duas crianças:"

     “Eu gosto mais de pensar na miséria do que na maldade. É muito perigoso e muito grave julgarmos à priori uma coisa que não conhecemos, que não conseguimos perceber, que não temos os dados todos, nenhum de nós tem ainda hoje os dados todos e mesmo quando tivermos, provavelmente não vamos saber de facto o que se passava ou se passou naquela família.

     A relação dos pais nunca foi muito saudável, não ouvimos a mãe, a mãe está detida para interrogatório e ouvimos várias coisas …vamos ter imenso cuidado sobretudo porque não é uma brincadeira, são vidas…são vidas de pessoas que passam ao nosso lado, o dia inteiro. Nós passamos todos por imensas vidas de pessoas que estão a sofrer profundamente e não imaginamos, e, muitas vezes fingimos não ver, não é? Esse é o primeiro pensamento que nós devemos ter; como é que nós estamos a olhar para as pessoas? Olhar umas para as outras, nós, cada um de nós, na nossa responsabilidade de todos os dias. O estado em geral nas suas ferramentas e nos seus instrumentos. O que é que estamos a fazer para que não se chegue a este extremo? E porque estamos a chegar a estes extremos? Essa é a grande pergunta e é o que pode ser a nossa conversa, até conversa de café, Portugal parou, toda a gente falava sobre isto…


     Ficamos cegos e nós não nos podemos esquecer, digo muitas vezes isto e não me canso de dizer, o simples olhar para a outra pessoa nos olhos, devolve existência e nós fazemos questão de não ver imensas coisas, na rua, no trabalho, nos sítios onde estamos, e com o desespero que foi acumulando nos últimos anos em Portugal, existe muita gente desesperada, algumas pessoas a disfarçar muito bem, outras pessoas a não disfarçar de todo, outras pessoas a abusar e a aproveitar-se disso para se fazer de desesperado, mas nós não devemos nunca esquecer desta coisa extraordinária que é diferença de sermos humanos em relação aos outros animais, não é a inteligência, é a dignidade. É a forma como nós podemos interligar-mo-nos uns aos outros, acrescentando raciocínio a isso.

      Eu acredito que quando as pessoas estiverem a falar do que se passou esta semana, temos sempre que pensar em dignidade, e no outro, e não somos animais isolados, somos animais gregários e vamos ter cuidado com o julgamento… e sobretudo isto alerta-nos e há sempre coisas para aprender quando nós detectamos e já nos detectamos com vários, com dramas sociais que não nos dizem respeito, no sentido que não é ninguém que a gente conheça mas aconteceu, aconteceu aqui, aconteceu em Portugal em 2016. 
     Então se calhar isto deve-nos servir pura e simplesmente para pormos a mão cá dentro e começarmos a pensar, o que é que eu estou a fazer em relação às pessoas que eu conheço? O que é que eu estou a fazer em relação aos ruídos que ouço? Em relação às imagens que vejo? Em relação aos outros? Não estou a perguntar à minha vizinha se aquilo que ouço é animação lá em casa ou não? Até que ponto nós nos devemos meter…intrigar ou prestar atenção? São coisas diferentes. E nós temos uma enorme dificuldade em distingui-las porque somos um povo que gosta de saber, gosta de comentar, é cusco, é curioso, mas, não podemos também ignorar. "
M.P.C.
(Cont)

segunda-feira, 7 de março de 2016

Ode às Mulheres





Ode às mulheres

"Ode às Mulheres. (Ler embalado ao
som da música que vem aqui escondida)
Mulheres cor café com leite,
 misturadas
,  mulheres de face encardida que caminham nas ruas
obscuras,  mulheres anorécticas que escondem maças verdes nas
algibeiras e pesam os sonhos,   mulheres redondas que dão
gargalhadas gulosas por entre os sacos transparentes barulhentos
recheados de gomas coloridas,  mulheres compridas com
pernas esbeltas de gazela que fazem os olhos parar,  mulheres pequenas portuguesas,
 mulheres enrugadas
 que escrevem no rosto cada página, mulheres-menina ansiosas,
reluzentes e vivas, mulheres com muitos anosmulheres-vendidas, orfãs
de si mesmas, mulheres de pés descalços, encardidos, duros,
cicatrizados,  mulheres de saltos agulha que ecoam num
caminhar frenético pelos corredores de tecto alto, mulheres-chefe imponentes, mulheres
de saia
 a bater nos pés, mulheres despidas, sem
pudores, mulheres da terra,com mãos calejadas pela enxada e unhas
sujas, mulheres da casa que salpicam o avental já desbotado de
água quente fervilhante das panelas de todos os dias.
Mulheres-prisoneiras de sonhos
rasgados, débeis, pálidas, mulheres do mundo que riem por
entre outras mulheres numa tarde de esplanada, mulheres curiosas que
sussurram a vida de outras mulheres, mulheres mesquinhas que
se escondem atrás das lentes escuras dos óculos de sol, mulheres
sonhadoras
 que pintam nuvens no tecto do quarto, mulheres
pobres
 que gritam sozinhas.

Mulheres-professoras que desenham sublimemente as letras do
abecedário com pau de giz, mulheres-carteiras que debaixo de
chuva deixam um pedaço de vida em cada caixa do correio, mulheres-cozinheiras que
têm braços fortes de remexer a sopa, mulheres-prostitutas que
abanam a alma em troca de uma nota, mulheres-presidente que marcham
à frente dos homens, mulheres-surfistas que se deitam nas
ondas e se encostam no colo da areia...
Mulheres de si mesmas, mulheres dos
homens, mulheres dos filhos, mulheres dos filhos dos
filhos, mulheres de outras mulheres, mulheres dos outros.
Mulheres há muitas... (como já
alguém dizia)

Às Mulheres-Maria, Mulheres-Rita,
Mulheres-Ana, Mulheres-Sofia e a todas as mulheres que conheço, que não conheço
e talvez vá conhecer, e às que jamais irei conhecer.
À Mulher-menina que trago comigo, que
seja um pouco de tudo..."



quinta-feira, 3 de março de 2016

Sem título

Atrás de mim, uns passos?
um alvoroço…sem ser alto, sem ser baixo
assim…provocador.
Passou por mim uma baforada de ar,
vinha lenta, pela frente, bem fininha
senti e voltei a sentir aquele friozinho…
De novo, a mesma farfalhada?
Voltei-me, nada de nada!
A rua deserta, na hora certa…
Segui mais ligeira
movida pela inclinação da descida…
Outra vez? o som de alguém?
De quem?
Quem seria quem me seguia
no encalço das minhas pegadas?
Os cabelos puseram-se de pé
no arrepio do caminho,
outra baforada do mesmo arzinho
diria mesmo; 
uma serrinha cortante, um canivete afinadinho
  um pouco mais que fresquinho…
Troquei a passada larga por outra ainda mais apressada
Agora, no fim do declive, início da recta do caminho,
subitamente, a tal ramalhada; um ruidozinho de tecidos? uma arranhada ?
Que raio de bicho me perseguia?!
Quando a baforada cessou, voltei-me sempre eriçada
foi então, que se me deparou
uma folha seca, que comigo brincou…
Uma simples folha que me assustou e na traquinice
à minha frente passou!
PN    

                                             Foto: Net









domingo, 28 de fevereiro de 2016

                                                       A ENTREVISTA

“Marta, quase o rosto da bandeira de tanta insensibilidade”


 “ Um misto de sentimentos, por um lado, uma tristeza profunda, por ver uma mulher tão bonita nestas circunstâncias e por outro, profundamente envergonhado, enquanto jurista, se visse esta reportagem antes de ir para direito, se calhar tinha ido para outra coisa qualquer. Actualmente, nós temos um sistema legal que é uma autêntica vergonha nesta matéria, trata as pessoas basicamente como lixo, como é o caso desta senhora. Esta senhora diz uma coisa que é importante, pode estar nesta situação por ter sido obrigada a trabalhar num local que tinha amiantos, toda a gente sabe perfeitamente que havia muitas escolas e que ainda há muitas escolas, que tem nas suas infraestruturas peças de amianto, uma senhora que é vítima do seu próprio trabalho, devia-se haver por parte do estado outro tipo de atenção e não merece. Vamos tentar perceber o enquadramento legal disto; no séc 19 houve um filólogo alemão Diefen Bier que disse isto; “O trabalho liberta”, para esse filólogo alemão uma pessoa deve trabalhar até ao fim, independentemente das circunstâncias de estar a morrer ou não estar a morrer, tem de trabalhar até morrer, porque o trabalho é libertador, liberta o espírito para uma coisa superior, é o auto sacrifício de nós termos capacidade de trabalhar até ao fim. Diefen Bier, foi depois aproveitado por quem? pelos nazis! Em auschwitz, e noutros campos de concentração. Se bem se recordam, é muito visto nos filmes e documentários, quando aquela gente desgraçada chegava aos campos de concentração tinham um letreiro a dizer; “ o trabalho liberta” o que é que isto quer dizer? vais trabalhar até ao fim, até à morte, é isto que este sistema legal promove. Esta senhora está obrigada a trabalhar até à morte. E nós temos um sistema legal, que considera uma pessoa cancerosa em último grau, que tenha resistido a todas as tentativas de cura, já com um período de vida muito curto para viver, a lei não considera isto, com 100% de incapacidade para trabalhar. Não considera, está lá escrito. Situam entre 80 e 95 de incapacidade para trabalhar. O que dá margem a estes senhores das juntas médicas para vir dizer, não tem 100% de incapacidade, ainda tem condições para trabalhar. Isto é vergonhoso. Eu tenho vergonha do estado em que vivo. Isto é uma lógica nazi. Isto é uma lógica numérica. Eu vou recuperar aqui uma frase que foi dita por uma senhora professora de Ovar, que em 2007 se viu envolvida numa circunstância desta natureza. Esta senhora professora de Ovar, não tinha metade da língua, tinha cancro na língua, era professora e a junta médica apesar da senhora só ter metade da língua, considerou que ela tinha de trabalhar. Esta senhora veio para a comunicação social dizer o seguinte;” É muito mais barato para a Caixa Geral de Aposentações que eu morra do que estar a aceitar a aposentação”. Esta é a lógica numérica. O estado mama. E esta senhora que em 2007 se viu nestas circunstâncias, de ter que ser obrigada a trabalhar como professora. Eu não percebo o que estes senhores da junta médica percebem disto, porque uma professora precisa da língua para falar. É o seu instrumento, é uma coisa que não pode ser mais óbvia. Até dizia que fazia um esforço para falar e lhe saía sangue pela boca na frente dos alunos. O governo na altura sensibilizou-se com a situação e foi perguntar à junta médica” Mas ouça lá isto, não é um bocado de exagero, estarem a obrigar esta senhora a trabalhar?”E a resposta da junta médica; havia um papelinho onde dizia, capaz para trabalhar ou incapaz para trabalhar? Sim ou não? E parece que o senhor doutor na altura veio explicar que se enganou. Eram muitos papéis que estavam à frente dele e então pôs a cruzinha no sítio errado. As juntas médicas são integralmente da responsabilidade da Caixa Geral de Aposentações, até 2007 não eram médicos. Era uma composição mista, em que havia um presidente da junta que não era médico, agora são todos médicos. E os médicos não se sensibilizam com esta questão, porque são pessoas muito felizes, estes senhores doutores que tomam uma decisão destas, são felizes, porque nunca tiveram de trabalhar depois de fazer uma sessão de quimioterapia ou radioterapia. Se tivessem a infelicidade de serem obrigados a trabalhar, atenção, que não estou a fazer um ataque à classe médica, depois de fazerem uma sessão de quimioterapia ou radioterapia, se calhar tinham uma opinião completamente diferente. Estes senhores têm uma lei que é permissiva. Bastava haver uma lei que dissesse a estes senhores em concreto o seguinte; “ Doentes como esta senhora, nestas circunstâncias; três cancros, a serem submetidas a radioterapia e quimioterapia, são obrigados a mandar as pessoas para a aposentação”. Estas pessoas não têm condição, tem de ter uma dignidade enquanto seres humanos que a lei não lhes dá, e depois agravado pelo facto desses senhores das juntas médicas, não terem a sensibilidade para perceber que têm na sua mão o poder de dar a aposentação a estas pessoas e não o dão, porque sai caro ao estado, como é óbvio. Assisti a um caso, de um senhor que estava a sair de uma junta médica, em muletas, que não tinha as duas pernas. O senhor estava revoltado e estavam a insultar os médicos porque o senhor sem as duas pernas foi considerado apto para trabalhar. Aquilo que digo é basicamente isto, isto, é uma linha de extermínio, isto é nazi, por isso tens de trabalhar até às últimas, porque se não trabalhares até as ultimas, tiramos-te o pão para a boca. Estas pessoas que são consideradas aptas para trabalhar se não aparecem no trabalho no dia seguinte, ficam automaticamente, por lei, debaixo de um regime, de licença sem vencimento. Há limites de prazo, no caso desta senhora, depois foi a várias juntas médicas que lhe renovaram sistematicamente uma baixa, até ao limite previsto na lei. A seguir tem que se apresentar obrigatoriamente a uma junta médica da Caixa Geral de Aposentações, sob pena de ir automaticamente para os regimes de licença sem vencimento. E as pessoas podem perguntar “ E uma pessoa nestas circunstâncias, o que é que pode fazer, para reagir a uma situação destas?” Antes de 2007, foi criada a junta de recurso, esta pessoa pode pedir a realização de uma nova junta médica, em recurso da decisão da primeira, que vai ser integrada por médicos diferentes daqueles que apreciaram a 1ª vez o caso, com excepção do médico privado que pode estar na junta médica e esse pode ser o mesmo, mas depois se houver uma reconfirmação da decisão, se o caso for obviamente de incapacidade, e atenção senhores da segurança social, se for um caso permanente, então a senhora pode recorrer aos tribunais administrativos, e dizer, há uma acção específica que é muito utilizada; uma acção de intimação para a defesa dos direitos, liberdades e garantias de cada um, e os tribunais o que é que dizem? Quando são casos tão crassos, tão evidentes que mesmo para um leigo, se perceba que não há condições para esta senhora continuar a trabalhar, o tribunal, decreta efectivamente a aposentação. Noutros casos o tribunal diz basicamente que foi uma decisão discricionária dos médicos, é uma decisão técnica, científica e o tribunal não se mete. O tribunal só se mete quando há casos tão gritantes, tão grosseiros. Esta senhora tem de lutar pelos seus direitos e lamentar uma vez mais, nós vivemos num estado em que as pessoas ou tem de trabalhar até a ultima ou então são condenadas à fome.
Apelo aos senhores políticos que estão no governo, lembrem-se que temos uma lei que só dá duas alternativas às pessoas que estão nestas circunstâncias “ Ou trabalham ou morrem à fome”, escolham!
Drº P.P.
(A Marta foi avaliada pela junta médica da Caixa Geral de Aposentações e, mesmo sem a docente ter estado presente no encontro, determinou que ela estaria apta para desempenhar funções como professora, apesar de se sentir incapaz para trabalhar. Marta não foi considerada absolutamente incapaz para o exercícios das suas funções. Os responsáveis pelo programa de TV, pediram esclarecimentos à Caixa Geral de Aposentações e ate ao fim da entrevista, não obtiveram qualquer resposta).




terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Lembrar este dia ...

 Foto e arranjos de PN

sábado, 23 de janeiro de 2016

MAIS DESIGUALDADES

1% dos mais ricos do mundo concentram já mais riqueza que os restantes 99% por cento do planeta.

Alerta da Organização Oxfam que pede medidas urgentes e concretas aos governos para travar esta desigualdade crescente, a começar pelo fim dos paraísos fiscais.

A riqueza dos mais ricos aumentou 44% desde 2010, enquanto a riqueza dos mais pobres diminuiu 41%.

Um mundo desigual cada vez mais marcado pelo fosso entre ricos e pobres. É que é de cifrões ou da falta deles que se fala. A organização não governamental, Oxfam quantifica esta distancia também em números:
Pela primeira vez em 2015, 1% mais ricos do mundo têm mais riqueza que os restantes 99% da população.

Não estamos a falar aqui numa questão de pobres e ricos, nós neste momento já temos uma situação que é os mais ricos entre os ricos contra o conjunto da sociedade.”

Carlos Farinha Rodrigues, professor universitário, especialista em desigualdades, afirma que este fosso tem consequências concretas:
“ As desigualdades na distribuição da riqueza e no rendimento, são hoje um entrave ao desenvolvimento económico, a concentração da riqueza num conjunto muito restrito de pessoas acaba por desviar recursos que poderiam ser utilizados para a melhoria da sociedade, a melhoria das condições de vida das pessoas”

O relatório divulgado muito recentemente pela Oxfam, organização britânica que trabalha no combate à pobreza, faz um desenho; em 2010 havia 388 multimilionários que tinham a mesma riqueza do que metade do resto do mundo. Cabiam num avião. Em 2014, o número ficou ainda mais concentrado, 80 pessoas, já bastava, um autocarro de dois andares. Em 2015, apenas 62, um autocarro negrice detêm tanto dinheiro como metade da população mundial; 3,5 mil milhões de pessoas. A riqueza dessas 62 pessoas cresceu 44% desde 2010, antes que estes multimilionários caibam dentro de um táxi, a Oxfam internacional exige que sejam tomadas medidas concretas, como o fim dos paraísos fiscais por onde passa quase sem pagar impostos grande parte da riqueza mundial.

“ Uma parte significativa destas fortunas em termos relativos paga menos impostos que um trabalhador que no dia a dia, executa as suas tarefas. Já não há dúvidas quanto ao que esta concentração de riqueza significa. Os dados estão aí, todos os dias a demonstrá-lo. Falta vontade política”.

Recados para mais um fórum económico mundial em dados que começa esta quarta feira ( já começou a semana passada) 

Telejornal da RTP1 



Imagens- Internet 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016