O tempo que demorámos frente a
frente…
um tempo só nosso!
Anos e anos a fio;
pacientemente, a puxar nós
na mais completa escuridão.
Um imbróglio sufocado em lixo
tóxico,
a garganta apertada, urze áspera
Tinhas tanto para me ensinar
e eu tanto a escutar,
a minha concentração;
um tecido esponjoso
a absorver ; cada sílaba, cada gesto
cada silêncio,cada sorriso
cada riso,cada provocação.
Ganhei asas; experimentei voos
rasos e outros altos
Espantei os torpes, os
deselegantes
Espantei os ambiciosos, os
altivos
Espantei os covardes, os
maliciosos
Espantei os intriguistas, os
inimigos
Despertei iras, cobiças e ciúmes
Rasguei-me nos espinhos,
piquei-me na sarça
E nesta tortura desencantada
masquei travo, vomitei azedume
Sangrei por dentro, chorei fundo e
num frio leito me deitei
Baixei aos invernos e busquei salvação;
tua chegada,
a mão estendida, carinhosamente
compreensiva
Uma dádiva dos céus;…
ora navegando na vaga alterosa,
ora submergindo na profundidade
da dor
a estrebuchar aflita e a querer
respirar
E neste penoso agitar-se, contra galés
invencíveis
com cordas a apertar, a sufocar
as abdominais…
soltei-me das amarras!
Depois, depois falhaste,
manobraste o destino da barca;
primeiro chegaram os atrasos, raramente
prontidão…
Vinha sempre colada nos teus lábios
sorridentes uma nota de arrependimento,
trazias sempre uma desculpa engendrada
pronta a enfiar,
e eu mesmo a explodir, fingia que
em mim não crescia uma fúria colossal
Não me quiseste dar a
independência, teria de permanecer cega, de olhos
postos em ti, só em ti… Tinhas a
ilusão que estaríamos uma para a outra até ao fim dos nossos dias…
Deusa, dona e
senhora do meu destino, tu sabias tudo;
Panaceia dos
iluminados,
queimámos etapas,
ora podia ser, ora não podia ser.
farta do jogo
de ilusionismo, manipulada até ao tutano,
depois de
muito conjecturar, mudei de rumo.
Agora vou navegar
sem ti,
não sozinha, vou errar, vou acertar,
levo comigo
tudo o que de ti aprendi!
PN
Feliz Páscoa a todos os que me visitam!





