As gaivotas
ziguezagueiam sob uma abóbada alta, volteiam-se aladas em pontos brancos e
cinzas…
Quando os nossos olhos
descem, decifram curiosos a construção erigida sobre o monte.
Uma capela, ali, solitária,
suspensa, numa onda alterosa, coberta de verde manto; verde mocidade,
espevitado, pujante.
Depressa, aquele lugar,
atiça o meu interesse. Lá em baixo, no sopé da montanha, no vale, gargalo
apertado, raras habitações dispersas. Por aqui, há vestígios, resquícios de
ruínas, de rochas estéreis, e, ainda assim, por entre as fendas e aberturas, refila
alguma vegetação exuberante, copiosa; É o prodígio da vida.
“ A senhora perdeu-se?”
“Não, estou a apreciar
a paisagem.”
“ Ah, sim?! Já avistou
a capelinha no alto daquele monte?”
“ Já”
“Mais logo haverá uma
procissão, começa lá em baixo, sobe até lá acima, por aquele carreiro e depois
da Celebração, voltamos a descer até à praia, os barcos esperam-nos, navegamos
rente à costa e depositamos flores no mar.”
“ Celebram o quê?”
“O Senhor dos Milagres,
a vida, minha senhora, e não se pasme; é fúria de viver!”
“Fúria de viver?”
“Sim, senhora, fúria de
viver, esta terra admirável é nossa, herdada dos nossos antepassados, como tem
uma bela vista e boa situação geográfica, querem-nos daqui para fora, para quê?
Construir hotéis e outras infra-estruturas… julgam que podem tomar conta do que
é nosso…”
“ Compreendo a vossa
indignação”
“Então, fique por cá,
seja testemunha da linda procissão que aqui se faz, eu sou um dos transportam o
andor, tenho de ir, se quiser subir connosco…”
“ Subir? Não sei,
parece-me demasiado íngreme e sinuoso”
“ Não tenha medo, de
qualquer forma, o convite está feito, vai gostar! Boa tarde”
“Boa tarde”
O sol farto, o mar ali mesmo;
frente aos meus olhos… a terra lateja, o meu coração goteja …
PN






