terça-feira, 24 de abril de 2018

Fugitivos de si mesmos


Eles andam a fugir de casa em casa
E a culpa naturalmente é das casas; mal projetadas,
mal construídas, mal situadas; a frente de costas para o sol
Depois, começam a incomodar-se com sinais estranhos;
Vultos passam nas paredes, espantalhos a gargalharem
no cimo de escadas,
janelas que se abrem sem a mão do vento,
portas que rangem nos gonzos sem ninguém lhes mexer…
objetos a deslizar sem serem tocados, outros desaparecem
do seu lugar e reaparecem noutro sítio.
Escutam-se risinhos de crianças, diálogos entre adultos,
numa linguagem impercetível, diluída...
E o sistema nérveo começa a criar medo de fantasmas, de velhos,
de monstros; receio do escuro e emergem pontas soltas de dúvidas…
a irritação surge ininterruptamente, as insónias povoam as noites
de  intrusos, num assalto de  paredes e tetos.
As discórdias esquecem os diálogos pacientes e prazerosos.
O caos toma forma e sobe vidas a trote desastrado;
questionam-se, acusam-se, tornam-se intolerantes e vulneráveis;
Por fim; tomam uma decisão; Procurar um padre exorcista; é preciso oração. 
Levar para longe aqueles incómodos; A casa é benzida.
Não tarda nada as manifestações assombradas regressam.
É pedido ao padre uma explicação;
 não tem resposta para a ineficácia dos seus métodos.
Que fazer então? Voltar-se para onde?
O clérigo aponta na direção da floresta, no fim, há uma bruxa;
muito procurada para casos sem remédio algum.
Sem mais delongas, metem-se na viatura e lá vão.
Começam a perceber que a distância é mais longa
do que a indicada:
- Porque não fazemos mais paragens, há estalagens… - diz a mulher
- Temos urgência em chegar lá, não temos? - responde o homem
- Tenho fome e estou cansada!
- Aguenta-te! – Conclui seco.
A mulher cerra os dentes contrariada
Finalmente chegam, os faróis do carro iluminam um letreiro com a inscrição; “Fim da Floresta”
Há um largo, o carro derrapa com alguma violência; a mulher assusta-se:
- Ui! termina aqui?! – pergunta ela estremunhada
- Parece que sim!
Apeiam-se na escuridão, sobem uns quantos degraus de pedra e eis que surge nova tabuleta com a seta;
“Bem vindos à casa de Heloise”.
- A bruxa tem nome! - comenta o homem entre dentes.
- A nossa sorte é a luz elétrica, mas ainda temos de subir o caminho de terra batida para chegar à casa? 
- Vamos embora! - decide ele.
Duas longas curvas:
- Olha, ali está ela e é rústica, um bom prédio!? - aponta a mulher.
Sobem mais degraus e ela pára:
- Não será vergonhoso virmos pedir ajuda a uma hora destas?
- Estamos aflitos, não estamos?
- Pois…mas …
- Isto são horas de chegar?!- da sombra surge um papagaio de cores exuberantes. 
Apavoram-se ambos:
- Ai o raio do bicho! - irrita-se o homem
O pássaro chama:
- Heloise, tens visitas!
Uma figura feminina aparece à entrada:
- Que quereis?
- Precisamos de uma consulta urgente!- explica o homem
- A esta hora não faço consultas.
- É que viemos de muito longe, passei o dia inteiro a conduzir…
e a minha mulher precisa descansar…por favor!
- Isto aqui não é uma estalagem, mas…está bem, entrem!- convida hesitante
- Não são confiáveis, não são confiáveis - repete o papagaio falante
O casal segue a dona da casa até ao andar de cima
Uma sala ampla, agradável, acolhedora e bem decorada.
Heloise indica os lugares aos recém chegados;
acomodam-se os três à volta de uma mesa redonda.
Foi aí que ambos notaram a beleza rara da anfitriã, elegantemente vestida, alta, magra, uma vintage. Sem vestígios da tradicional bruxa.
- Do que se trata? - pronuncia num tom baixo e sedutor
O homem toma a palavra e descreve tudo minuciosamente;
desde a passagem deles e dos três filhos pelas três moradias;
 as constantes fugas, os fantasmas a incomodarem dia e noite,
a preocupação com as crianças, os sustos, as angustias, as frustrações
vividas, o fadiga sentida pela família.
Heloise escuta-o atentamente, os seus grandes olhos pestanudos saltam do homem para a mulher e vice versa:
- Que sugerem que faça?
- Liberte-nos desta maldição! - solicita a mulher- não vai atirar
cartas? búzios? Nada?!
- Eu vejo nos olhos das pessoas - esclarece Heloísa.- onde estão as crianças?
- Deixamos em casa de um vizinho de confiança - clarifica o homem.
- Felizmente - remata a dona da casa.
- Então, tem algo de novo para dizer? - pergunta a outra mulher
- Tenho novos dados, muito elucidativos! - exclama Heloise intimidatória
- Então, exponha, estamos expectantes! - entusiasma-se o homem
- Tem a certeza que precisa da minha resposta? Que caso insólito…  
- Não percebi! – o homem pôs-se boquiaberto.
- Vocês sabem perfeitamente a que me estou a referir. Quem criou toda esta barafunda dos fantasmas, dos monstros e das almas?!
- Viemos aqui com o intuito que nos dissesse! – adianta-se o homem surpreendido.
- São vocês os dois! - afirma peremptória
Ambos trocam olhares cúmplices, ele ergue-se num salto, como se fosse ter uma síncope, pálido e cadavérico, ela encolhe-se desfeita:
- Que brincadeira vem a ser esta? O vosso jogo termina aqui. Não sei quais os propósitos de tamanha loucura…mas acaba já!
- A senhora é louca! - e avança para Heloise, que nesse preciso instante
estala os dedos e assomam do nada dois homens robustos,
a presença daquela força bruta, detém o homem.
- Vou ligar ao xerife, ele virá cá ainda esta noite e levá-los-á
à delegacia mais próxima e tomarão as diligências necessárias.
- Quem vai acreditar em si? Sua bruxa
mentirosa, charlatã, somos  acusado de quê ?
- Cale-se homem! Remeta-se ao silêncio, como
faz a sua esposa! Está preocupado porquê? Não têm vergonha
de andar a atormentar a vida dos seus filhos, a enloquecê-los?
- E porque faríamos isso?
- Vocês é que devem saber, não eu! Falta de equilíbrio mental…não sei…
O xerife saberá encaminhar o caso.
Num gesto de cabeça pede aos indivíduos para os amarrar.
Entretanto, o homem grita furioso há-de vingar-se dela, a mulher
permanece em silêncio.
Heloise dá as costas e sai da sala perturbada, desce e aproxima-se do papagaio:
- Tu já sabias?
- Soube assim que os vi chegar.
- Boa noite, meu espertalhão.
PN   

  
 Retirada da Internet -  desconheço o autor. 

 











sábado, 31 de março de 2018

“_Pai, Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem!”





Foto: PN
(Reedição)

Mais de dois mil anos depois, a frase continua atual! Fez-se História; inventos, transformações, desenvolvimentos, escritos, estudos. A tecnologia invadiu o quotidiano, o homem tornou-se mais frio, mais vil, mais mesquinho, mais demolidor e destrutivo, mortífero até. E as profecias antigas começam a fazer sentido! E não há volta a dar; o homem continua a insistir na política do remedeio, sem regras, sem freio, sem respeito por nada, insensível e gelado!
O dinheiro é o rei deste mundo. A grande maioria idolatra-o! Aqueles que ostentam riqueza são adorados! Pobre povo enganado, fascinado pelo falso ouro!
PN

“ Todo aquele que acredita em mim, viverá para sempre”

Nota-Desejo a todos os que passam por este espaço; Uma Feliz Páscoa ! Em meu nome, obrigada pela sua presença.  PN

segunda-feira, 19 de março de 2018

Ele e Ela



















Pablo Picasso

Ele, um funcionário da Câmara, pintor autodidacta desconhecido. Ela, uma famigerada escritora e jornalista.

Ele mostrou uma série de trabalhos a um colega e o parecer foi favorável, para quê esconder o seu talento? Podia ir mais longe, apostar a sério, arriscar mais!
- Conheces alguém do meio?
- Conhecer, conhecer, não conheço, mas posso te indicar uma pessoa muito próximo de outra, essa sim, navega nesses mares. Posso dar o contacto dele, no entanto, espera para eu confirmar se ele está interessado.

O encontro deu-se numa esplanada à beira mar. Uma ligação de telemóvel e rapidamente localizou um homem magro, barba farta, óculos de sol, boné escuro, que prontamente acenou. Cumprimentaram-se e o recém chegado também pediu um café. Trocaram algumas palavras habituais. Logo a seguir passaram a outro assunto:
- Onde estão essas maravilhas?
Ele retirou de uma pasta grande, umas folhas grossas.
- Oh, um aguarelista!? Que bem! Deixe cá dar uma vista de olhos.
O outro permaneceu na expectativa.
- Tem conhecimentos de arte?
- Não, apenas o que vou pesquisando na Internet. 
- Sendo assim, tem feito bom uso dessa pesquisa. O que me é dado apreciar é assaz interessante, revela sensibilidade e bom gosto! Tem de continuar! Já pensou numa exposição?
- Sim... também, o meu interesse passa mais  por entrar em contacto com um  artista que foi convidado a semana passada,  no programa " Espaço  Criativo”, transmitido na TV. No fim da entrevista apelou àqueles que se sentissem a mesma vocação ou com dificuldades em ingressar no mundo das artes, que o procurassem.
- Qual o seu interesse nesse artista?
- Os trabalhos dele estão na mesma linha dos meus e fiquei fascinado.
- Um momento, já sei de quem se trata, é o senhor James William, nunca falei com ele pessoalmente, ou sequer tive algum tipo de aproximação... Sei que é casado com a senhora Rachel, professora universitária e vivem em Londres...
- Gostou das minhas aguarelas?
- Sim, sim, excelentes! Como se propõe entrar em contacto com o pintor?
- Não sei, esperei até ao fim do programa, a ver se alguém mencionava algum contacto mas nada. Liguei para a RTP mas não estão autorizados a revelar dados a estranhos.
- Era de prever.
- Lembrei-me agora, esse programa é apresentado pela Maria Bravo, uma amiga minha. Ela faz rádio e televisão.
- Então vou lá procurá-la?
- Faça isso. Entretanto eu aviso-a da sua ida lá.
Cumprimentaram-se com um aperto de mão e despediram-se. A manhã continuava brilhante, cortada em gumes pelos voos verticais, horizontais e oblíquos das gaivotas e as embarcações atracadas baloiçavam-se e roçavam-se deliciadas umas nas outras.
No dia seguinte, ele aguardava ansioso pela presença da tal jornalista, um nervoso miudinho mordia-o bem por dentro. Ela atrasava-se com frequência. Dez horas e trinta da manhã, meia hora depois do esperado; Ei-la, muito apressada, as mãos ocupadas a carregar tralha. Assim que mencionaram o nome dela, ele ergueu-se num salto, colocou-se à frente; uma mulher possante, roliça, pesada. Um rosto nem bonito, nem feio. Sem carisma. Cabelo apanhado atrás. Estatura média. Olhos redondos e distraídos:
- Diga!?
- Foi um amigo seu que...
- Pois! Deixe cá ver! Sabe, estou demasiado atrasada. Um colega meu já começou o meu programa... Disponho de apenas uns minutinhos….
Sentou-se numa cadeira, havia nela traços vincados da tradicional mulher camponesa. Segurou desajeitadamente na capa, nos trabalhos e quando os passava, declarou:
- Tem aqui sumo do bom...
De repente, todos os trabalhos tombaram do colo e espalharam-se pelo chão e o queixo dele também andou ali a saltitar aflito, tamanha fora a desilusão sentida. Ela levantou-se rapidamente da cadeira, chamou e pediu:
- Sr. António, ajude-me a levantar isso e leve a pasta para cima, obrigada. 
Voltou-se para ele e rematou:
- Tome, aqui tem o meu cartão, ligue-me ao final do dia para combinarmos qualquer coisa.
- E os meus trabalhos?
- Não se preocupe, estão comigo! Até logo!
Ele ficou ali, meio aturdido, desconfiado da boa fé daquela mulher, contraiu o rosto e abandonou o local, desagradado.

Em casa com a mulher. 
- Filó, hoje não te vou levar à tua mãe!
- Já sei, disseste assim que chegaste. Tens que te encontrar com a tal senhora. Eu vou de autocarro.

Combinaram de se encontrar no Café Teatro às nove e meia. Ele preparou um discurso breve, para arrumar a questão. Afinal bastava dar-lhe um mero contacto e tudo ficaria resolvido. 
Ela chegou dez horas, pediu um copo para si e para ele. Ele não gostou da ideia, pretendia passar na casa da sogra pelas dez e quinze. Cada vez que ele abria a boca, ela fechava-a com conversas que não lhe interessavam; os temas foram variados; desde a planificação e das regras de urbanismo, das obras da zona velha da cidade. E ele cada vez mais aflito. E deve ter sido bem visível porque a certa altura, ela questionou:
- Não lhe agrada a minha companhia?
- Não se trata disso, fiquei de apanhar a minha mulher às dez e quinze e já são dez e cinquenta e cinco.
- Vá lá então, continuamos a nossa conversa amanhã. 

Quando a mulher entrou no carro:
- Então, assunto resolvido?
- Nada!
- Porquê?
- A senhora é um massacre! Tagarela dos diabos!
- Pois, é muito culta! Exibiu-se para ti! E nada acerca das tuas pinturas?
- Julgas que sim?
- Tens de ter paciência, essa gente é cheia de nove horas... é  tudo como querem, precisas dela...  Esclarece-me um pormenor, ela é bonita?
- Não conheces a figura?
- Já ouvi falar dela mas nunca a vi.
- Não tem qualquer pinta, é um bloco de gordura cozido por um qualquer forno caseiro, lá do norte.
- Assim fico mais sossegada.
- Somos casados há dois anos, estamos praticamente em lua de mel, nem filhos chegaram ainda.
- Isso quer dizer que és fiel?
- Fosse a senhora bonita ou feia!
O rosto dela correu para o dele e selaram aquela harmonia com um terno beijo de lábios.

O segundo encontro foi no mesmo café às vinte e duas e quarenta e cinco. Repetiu-se mais um prato cultural, à meia noite e meia, ela tinha tragado cinco copos, ele dois. Era quase forçado a acompanhá-la. Começava a impacientar-se. Sempre que ia ao assunto para terminar aquele imbróglio, ela contornava as palavras dele e ia por outro atalho. Ele ansiava o desfecho daquela questão, era só isso.
- Suponho que hoje não haverá problemas com horários...
- Não e a minha mulher, é do conhecimento dela que estou consigo!
- Sabe qual é o seu problema? Ser demasiado certinho! Vire a mesa, solte-se homem!
- Gosto de ser como sou, não quero mudar nada!
- Com certeza, esqueça a observação. Diga-me, tem pintado?
- Como? Depois do trabalho, estou consigo...
- Tem de pensar num tema para fazer uma exposição.
-Que quer dizer?
- O Sr. James já viu as suas pinturas e convida-o a ir a Londres expor no atelier dele.
- Isso é ótimo! Quero muito ir até lá, amealhei para esse efeito!
- Você é demasiado apressadinho. Tenha calma. Vamos comemorar!
- Desculpe, já bebi o suficiente para mim, sou fraquinho no que diz respeito a álcool. Depois vou conduzir, nem pensar!
- Fique descansado, eu levo-o a casa!
- Agradeço a gentileza mas prefiro conduzir o meu carro.
- Como é medricas… não se aventura, ai que tédio de homem!
Ele não respondeu, preferiu calar-se.

Durante dias e dias consecutivos foi um tormento para ele, saltitaram de bar em bar, copos e mais copos, ela ria-se de forma descomunal, havia sempre um motivo para celebrar. Chegava a casa de madrugada, atingiu níveis de álcool a que não estava habituado. Começou a ressacar frequentemente.

Ele e a mulher:
- Filó, se quiseres, desisto disto, nem me reconheço ao espelho... De repente fiquei velho e cansado.
- A tipa é lixada mesmo!
- Um osso duro de roer, ainda não devolveu o que é meu, não dá o contacto do inglês. E ando aqui de mãos atadas!
- Não desistas! O pior já passou, penso eu!
- Será?!
- Agarra essa oportunidade para te lançares, também a mim custa! Passaste por tanto para nada!? Coloca-te a bem com ela, tu é que perdes se te afastares, ela pode negar a entrega desses trabalhos, entendes? Sabes que estou contigo. Não te preocupes com mais nada. Cede no que puderes, para sairmos disto o mais breve possível. 
- Efetivamente parece não haver outra alternativa.
E os dois selaram o acordo com outro beijo apaixonado.  

O novo encontro aconteceu na casa de um amigo da jornalista. Foi o filho que veio abrir a porta. O pai ainda não chegara. Encaminhou-os a uma sala onde havia um bar. Ela serviu-se logo e perguntou se ele podia acompanhá-la no primeiro copo, ao princípio da noite. Ele recusou, alegando indisposição gástrica. Ela riu-se:
- Você é terrível! Fisicamente nada para atirar fora, pena essa cabeça tacanha. Tão jovem e pouco sedutor.
- A sua observação não faz mossa.
- Se continua com essas atitudes duvido que vá longe!
- Chego a onde devo chegar!
- E eu, como mulher sou atraente para si?
- Muito!
- Isso dito assim é pouco cavalheiro e mente mal!
- Disse aquilo que a Sra. queria ouvir!
- Também não sabe representar! Demasiado certinho, careta, qual foi a última loucura que cometeu?
- Qual foi a minha última loucura? É melhor não perguntar!
- Está a ver como tenho razão?! Se não fosse eu, a sua vida seria uma verdadeiro desastre.

Subitamente a porta abriu-se. Era o dono da casa. Ambos calaram-se. Um homem bem parecido, cabelos médios despenteados, olhos claros, braços tatuados, esfregava as mãos enquanto se aproximava deles:
- É este o artista? - riu-se.
- É, mas muito tacanho! Falta iniciá-lo nas nossas regras.
Ele ficou em silêncio, temeroso do rumo daquela conversa.
- Posso dar início ao ritual! - rematou o mais velho.
- Parece que está na hora - pronunciou divertida- hoje é todo teu!
O homem coçou o queixo quadrado:
- Já vais? – perguntou.
- Sim, tenho outro compromisso!- respondeu Maria Bravo
E trocaram olhares cúmplices que ele nem se apercebeu.
- Ótimo, sabe - começou dirigindo-se ao mais jovem- os seus trabalhos estão ali no meu atelier. Está interessado em ir a Londres fazer a tal exposição, não?
- Sim, mortinho por isso.
- Venha comigo -entretanto Maria Bravo já se havia retirado. Ele seguiu o mais velho, ali cheirava a tintas, a óleo de linhaça, a aguarás, terebintina, quadros por todos os lados. Um ambiente fascinante:
- Está a ver, acolá estão os seus trabalhos, dê uma olhada!
Ele conferiu todo entusiasmado.
- Sim, estão cá!
- Sem razões para desconfianças, certo?
- Certo!
- Antes que escorregue para ouros lados e profira alguma asneira ou mostre arrependimento, vá tirar a roupa toda, quero pinta-lo nu.
- Como? Estou fora da proposta!
- E como pensa ir para Londres? Estamos na recta final, é que sabe...
O entusiasmo gelou! Como contaria a Filó aquela loucura, aquela aberração? Sentiu-se um animal acossado. Nada o forçava a semelhante coisa mas por outro lado receava que a mulher se dececionasse com ele.
- Antes vou enviar uma mensagem à minha mulher, depois dou a minha resposta.
- Faça isso.
Contou o essencial, queria pô- la a par da verdade. Esperou e a resposta foi:
- Não vaciles agora meu amor! Estamos nas mãos deles. Pensa no nosso futuro! Há sacrifícios que valem a pena correr! Estou contigo, sempre estarei! Amo-te muito!
Depois de ler a mensagem, cerrou os olhos com imensa força. Uma sombra confusa pairou sobre ele. Esperava que ela se opusesse.
- Então, em que ficamos?
A resposta veio pesada, custosa e contrariada:
- Fico.
O outro colocou a mão direita sobre o ombro dele:
- Gosto das suas linhas corporais e quero contorná-las uma a uma com todo o prazer!

No dia seguinte acordou esgotado. Viu-se nu e o outro a seu lado ressonava e cheirava a bebida. Nauseabundo levantou-se e enquanto se vestia, observou um envelope em seu nome, sobre uma pequena mesa. Abriu-o e dentro constavam as duas passagens, a dele e a da mulher. A pasta das aguarelas, ali mesmo, tudo conforme acordado. Quando retirou o envelope havia uma nota sobre a mesa " Adorei a noite que passei consigo e passaria mais noites como esta. Quando voltar de viagem, se me quiser encontrar, sabe onde fica a casa, fofo".
Ele amarrotou a nota e atirou-a para o balde do lixo. 

Saiu o mais depressa possível, ligou a ignição e o carro desapareceu ao fundo da estrada, embrulhado numa nuvem de pó.

Viajaram para Londres, foram muito bem recebidos pelo casal inglês, a exposição concretizou-se e foi um sucesso de tal forma que decidiram ficar mais tempo por lá.
Ele nunca mais foi o mesmo homem.

PN 

Nota: Baseado em factos reais. 




sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018


Imagem retirada da INTERNET 


Ele, um conceituado jornalista do Diário de Notícias de uma pacata cidade e docente de Geometria Descritiva de décimo segundo ano. Ela, uma aluna discreta e muito aplicada.
Numa aula:

Ele - Apraz-me observar como unes os pontos, não se encontra mácula, borrão ou imperfeição nessas sombras perfeitas e traços sem hesitações. 
Ela - Obrigada pela apreciação, professor. É importante para mim atingir o grau máximo de exigência.
Ele - Há muito tempo que venho a reparar em ti, és muito dedicada e perfeccionista; desde a marcação de pontos, linhas, planos, sombras... Parabéns!
Ela - Agradecida!
Ele - Deduzo que terás em casa mais exercícios do gênero, não?
Ela - Sim, tenho.
Ele - Apresentas- me na próxima aula?
Ela - Com certeza

Na aula seguinte, ele passou a maior parte do tempo a lançar- lhe olhares sorridentes; ela respondia inibida. A campainha soou e depois de todos saírem, eles ficaram a sós:
Ele - Então, trouxeste o que te pedi?
Ela - Sim, sim, está aqui e pousou sobre a mesa um bloco de folhas e deixou-o folhear.
Ele - Que maravilha, gosto muito disto. Tens um talento inato! São dignos de uma exposição pública. 
Ela - Refere-se aqui na escola? - arriscou com as faces em fogo.
Ele - Mais que isso, não sei se sabes, mas sou diretor do Diário de Notícias e responsável pela revista semanal, penso que conheces a mesma, não?
Ela – Sou leitora assídua da revista e igualmente do diário, mas só ao fim de semana, quando o meu pai compra. Não fazia ideia que fosse o diretor do diário, nem o responsável pela revista. Fiquei a saber neste preciso momento.
Ele - Agora já sabes! E olha, isto vai ser publicado na revista. Que me dizes?
Ela - Nem sei o que dizer…!
Ele - Não carece de resposta. O teu semblante diz tudo; irradia alegria! Vem comigo à redação do DN.

Saíram ambos numa passada larga. Atravessaram ruas, subiram passeios, passaram semáforos. Estavam a meio de uma tarde cinzenta. Rapidamente entraram num edifício antigo e escuro. No interior, abriram e fecharam portas e foram dar a uma sala repleta de homens sentados às respetivas secretárias. Ergueram o rosto, entreolharam-se e sorriram cúmplices, de seguida, cravaram os olhos nela. Foi notório a perturbação e inquietação sentidas, ela queria desaparecer dali o mais depressa possível. Não compreendia o significado daqueles olhares, como se ela fosse um caso dele. Que absurdo! Quando ele voltou, ela respirou de alívio, ele sempre muito apressado:
Ele - Vamos?
Ela - Para onde?
Ele - Vem, para falarmos num lugar mais calmo.
Uma interrogação pairava no ar, por que razão não poderiam conversar ali, na sala, onde supostamente teria estado, ou noutra qualquer.
A rapidez dele não lhe deu tempo para argumentar.
Tornaram a atravessar ruas, galgar passeios, passar semáforos. Subitamente indicou:
Ele - Entra, é o meu carro.
Apeteceu-lhe recusar o convite mas as palavras enlearam-se nas cordas vocais sem que tivesse energia para articular fosse o que fosse.
Ele - Coloca o cinto.
Ela - Para onde pensa levar-me?
Ele - Seguimos até ao hotel Duas Torres e depois regressamos, um pequeno passeio. Olha, quanto à tua situação, é assim; já está tudo resolvido; terás duas páginas só para ti. Colocarás dois a três trabalhos, guardarás uma parte para te descreveres, só coisas que te favoreçam. Não é bom?

Ela não respondeu, os lábios rasgaram-se até aos cantos da cara; expressão de felicidade. Entretanto, o automóvel continuou a rolar devagar. Houve um silêncio momentâneo e subitamente a mão direita despegou-se do volante e pôs no joelho dela, sem dar tempo a nada, correu perna acima até à coxa apertando-a, sem observar a estupefação da rapariga. Como ela não teve reação, ele agarrou- lhe a mão esquerda, abriu-lhe os dedos com os dedos dele e apertou na sua. Algo ali mesmo estilhaçou, num clarão de relâmpago. Incrédula, disparou finalmente:
Ela - Para conversar é preciso tocar?
Ele - Não se pode?
Ela - Não. 
Imediatamente retirou a mão e juntou à outra que permanecera ao volante.
Ela - Posso sair?
Ele - Vou voltar o carro ao hotel.
Olhou-o estarrecida, ele não precisava ir tão distante. Havia no centro da cidade imensos lugares onde podia fazer inversão de marcha. Entre eles desceu um silêncio ensurdecedor. Ele tornou-se imperturbável, indiferente, frio. Ela, ao contrário, demasiado nervosa, inquieta, assustada. E desatou a tagarelar sobre assuntos corriqueiros de escola, ele nem olhava para ela, concentrado na condução, sem um único movimento de músculos faciais. Quando chegaram ao ponto de partida, sem mexer a cabeça, a olhar em frente:
Ele - Agora podes sair. - pronunciou num tom médio  e  impessoal.
Ela abriu a porta mas antes de sair, espreitou de esguelha, ele de perfil.
Ela - E a sua intenção de publicar os meus trabalhos como é que fica?
Sem mover a cabeça:
Ele - Vou pensar no assunto.
Ela - Está bem.

As aulas de Geometria prosseguiram como se ela não existisse dentro da sala. Ele mantinha uma relação cordial com os outros colegas mas ela fora literalmente banida. Ela deixou de participar, desistiu de expor dúvidas, evitava olha-lo quando ele fazia exposições orais. A nota final foi média. 

Durante muito tempo guardou aquele episódio só para si. Anos mais tarde vieram contar-lhe outros semelhantes ao seu e alguns muito piores com o mesmo docente. Chegou a assediar alunas dentro da sala de aula. Também soube que no ano que fora aluna dele, a esposa encontrava-se grávida. As poucas vezes que se cruzaram nas ruas, ela virou o rosto para o lado. Detestara-o! Depois, durante anos a fio, notou a ausência e regozijou-se. Há pouco tempo, aconteceu ler a notícia da sua morte, causa; cancro. Assistiu a um programa de informação em que os intervenientes elogiaram o jornalista que se opunha ao regime instituído, o professor exímio, o homem honesto e recto!

Só maravilhas de um ser tão abominável e asqueroso.

PN

Nota : Baseado em factos reais


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Infeliz acaso




(Durante dias, ela foi visitar o jardim, admirar a obra dele mas  e ele só tinha olhos para a beleza dela   . Agora, ela à janela, ele mesmo por baixo)

Ele- Peregrinava agora mesmo entre o jardim da minha mansão, onde sou rei e senhor, entre flores e cantos, distraído saí e conectei-me com outros jardins do mundo, depois de uma vigilância noturna dos meus sonhos, senti repentinamente, espontaneamente, abrir-se-me um rasgo de brilho fino na minha boca e os meus olhos nutriram-se de um gosto delicioso e lindo para a beleza desta manhã de domingo. Obrigado pela tua magia, rapariga.

 Ela- Ante um rosto inclinado, consumido pela vertigem da cultura e do conhecimento, coisa que já lhe conheço, sondei intrigada, e bebi o perfume… a elegância da novidade furou os meus olhos como um raio de luz... A magia deste domingo é recíproca. “Tudo vale a pena quando a alma não é míope" - atrevo-me!

Ele- Que lindo rapariga! Obrigado!
Ela - Parece que ambos somos adeptos da arte do belo!
Ele- É verdade rapariga, agradeço a tua amizade, senti logo uma simpatia muito especial por ti. O caminho ditará. Foi espontâneo, coisas belas… quando a formosura nos surge ou nos atrai imprevisivelmente.
 Ela - Às vezes acontece assim...Surge do nada...
Ele - Sim, do nada...de algum lado naturalmente, não sei donde, que mexe connosco e nos põe em movimento interior, e, a escrever...palavras vindas de lugares secretos, encerradas nos nossos mistérios, que se libertam na sua necessidade sem nós termos qualquer controlo, voam vindas de dentro de nós. Querem expressar-se, dar-te as boas vindas, sorrir para ti e mostrar-te a sua beleza atraída pela tua. É um simples gesto atraído pela simpatia.
Ela- Onde viu o rei e senhor, perdido entre as flores e os cantos do seu jardim, a tal magia de um domingo, um domingo delicioso, que rasgo foi esse? Que brilho?! Foi uma simpatia tão especial, vinda de lugares secretos. Onde moram os mistérios quase insondáveis. O mais estranho, é que o rei centrou-se apenas em mim, viu-me, digeriu rapidamente toda a beleza...num trago só... Esqueceu, no entanto, de se debruçar sobre a essência, nem um toque, nem uma remexida, qualquer coisa que mostrasse que por aqui andou...nada de nada até hoje, tudo no maior secretismo. Podia ter sido mais simpático ao mostrar um real interesse pelas “coisas” que "semeio como pregos por aqui". 
Ou Sua Eminência é narcísico ao ponto de sentir prazer em ser apreciado e não saber apreciar o que tenho meu?

Ele- Sabes sua essência, não fui eu que me dirigi a ti, foste tu que surgiste à janela quando passei e me cumprimentaste. É natural que eu veja o teu rosto e aprecie a sua beleza. A beleza também existe no exterior de alguma coisa, senão porque andas sempre de olhos atentos? Captas essências ou captas a beleza exterior? Bom, o meu olhar é como a lente dos teus olhos, captei-te a ti e memorizei a tua beleza antes da tua essência ou a essência desses pregos que espetas por ai, porque nem isso me deste tempo de apreciar, pela tua conversa insensível, o que fiz foi poetar, uma forma amistosa  de me aproximar de ti. Não tive segundas intenções. Se te choca um elogio à tua pessoa lamento, és de natureza insensível e grosseira. Depois eu não sou narcisista, se reparares eu não tenho nada do meu rosto a descoberto, nada exposto para me contemplarem a mim ou contemplarem as palavras elogiosas ou não que me possam fazer, isso é-me indiferente. Agora tu, deves ser sim, narcisista e um pouco mais, és egocentrista, senão que sentido faz permaneceres continuamente a essa janela, exposta para que os outros te vejam, comentem de uma forma bajulatória? Uma forma de visibilidade estranha e doentia de quem não quer que a vejam ou lhe façam um elogio, não te parece? Ao contrário de mim, não sinto essa necessidade de me expor aos outros, pelo contrário, ao não me expor à visibilidade dos outros, só tenho a revelar a minha essência pelo meu jardim, não é assim? Tu nunca me viste, mas já viste o meu jardim, foste espreitar e como podes  te dirigir a mim, ser minha amiga, uma pessoa que nunca viste, nem sequer conheces o meu rosto! Deduzo que seja pelo meu jardim, ou seja, por aquilo que eu demonstro ser interiormente, não tiveste a oportunidade de me ver como sou exteriormente, como fazes quando estás aí a essa janela. Tu és narcísica e egocêntrica ao ponto de te expores, para gostares de ser apreciada e não saberes apreciar a essência, a simplicidade e a minha amabilidade. Pois é. Mas aqui comigo, só tenho mesmo beleza, carácter distinto, sensibilidade e sobretudo simpatia. Não vou estragar o que existe de bom comigo e alterar o mundo lindo de gente que me rodeia  desde ; artistas, poetas, filósofos, uma massa cultural de pessoas que sabem ser sensíveis, fica com a tua grosseria. Adeus minha pseudo – amiga, para sempre.

Ela fechou a janela e deu-lhe as costas. 

PN


Nota: Inspirado em factos reais, e igualmente a pensar no que tem sucedido quer nos EUA, e também no  nosso país, há demasiado assédio sobre mulheres e homens! Parte sempre de quem tem poder! Este diálogo serve  para mostrar que se pode dizer NÃO! Dar as costas à estupidez, à sobranceria, à insensibilidade,  à má educação, à grosseria. Ele projecta nela o que ele é! Bastou ela fazer-lhe uma critica justíssima  que ele faz o qualquer fanfarrão faz; destrata-a. Há homens que justificam o injustificável, se a mulher usa mini- saia, é porque está mesmo a pedir... se usa decote, é porque está mesmo a pedir, se vai a uma discoteca, é porque está mesmo a pedir! Não digo com isto, que as mulheres são santas, não são, se aceitam certas condições, quem cala, consente! Refiro-me àquelas que se tornam presas  indefesas! Há mulheres que se oferecem, já presenciei!Ou então é necessário um jogo de cintura para conviver sem se envolver. 
PN