Eles andam a fugir de
casa em casa
E a culpa naturalmente
é das casas; mal projetadas,
mal construídas, mal
situadas; a frente de costas para o sol
Depois, começam a
incomodar-se com sinais estranhos;
Vultos passam nas
paredes, espantalhos a gargalharem
no cimo de escadas,
janelas que se abrem
sem a mão do vento,
portas que rangem nos
gonzos sem ninguém lhes mexer…
objetos a deslizar sem
serem tocados, outros desaparecem
do seu lugar e
reaparecem noutro sítio.
Escutam-se risinhos de
crianças, diálogos entre adultos,
numa linguagem
impercetível, diluída...
E o sistema nérveo
começa a criar medo de fantasmas, de velhos,
de monstros; receio do
escuro e emergem pontas soltas de dúvidas…
a irritação surge ininterruptamente,
as insónias povoam as noites
de intrusos, num assalto de paredes e tetos.
As discórdias esquecem
os diálogos pacientes e prazerosos.
O caos toma forma e
sobe vidas a trote desastrado;
questionam-se, acusam-se,
tornam-se intolerantes e vulneráveis;
Por fim; tomam uma
decisão; Procurar um padre exorcista; é preciso oração.
Levar para longe
aqueles incómodos; A casa é benzida.
Não tarda nada as
manifestações assombradas regressam.
É pedido ao padre uma
explicação;
não tem resposta para a ineficácia dos seus
métodos.
Que fazer então?
Voltar-se para onde?
O clérigo aponta na
direção da floresta, no fim, há uma bruxa;
muito procurada para
casos sem remédio algum.
Sem mais delongas, metem-se
na viatura e lá vão.
Começam a perceber que
a distância é mais longa
do que a indicada:
- Porque não fazemos
mais paragens, há estalagens… - diz a mulher
- Temos urgência em
chegar lá, não temos? - responde o homem
- Tenho fome e estou
cansada!
- Aguenta-te! – Conclui
seco.
A mulher cerra os dentes
contrariada
Finalmente chegam, os
faróis do carro iluminam um letreiro com a inscrição; “Fim da Floresta”
Há um largo, o carro
derrapa com alguma violência; a mulher assusta-se:
- Ui! termina aqui?! –
pergunta ela estremunhada
- Parece que sim!
Apeiam-se na escuridão,
sobem uns quantos degraus de pedra e eis que surge nova tabuleta com a seta;
“Bem vindos à casa de Heloise”.
- A bruxa tem nome! -
comenta o homem entre dentes.
- A nossa sorte é a luz
elétrica, mas ainda temos de subir o caminho de terra batida para chegar à casa?
- Vamos embora! -
decide ele.
Duas longas curvas:
- Olha, ali está ela e
é rústica, um bom prédio!? - aponta a mulher.
Sobem mais degraus e ela
pára:
- Não será vergonhoso
virmos pedir ajuda a uma hora destas?
- Estamos aflitos, não
estamos?
- Pois…mas …
- Isto são horas de
chegar?!- da sombra surge um papagaio de cores exuberantes.
Apavoram-se ambos:
- Ai o raio do bicho! -
irrita-se o homem
O pássaro chama:
- Heloise, tens visitas!
Uma figura feminina aparece
à entrada:
- Que quereis?
- Precisamos de uma
consulta urgente!- explica o homem
- A esta hora não faço
consultas.
- É que viemos de muito
longe, passei o dia inteiro a conduzir…
e a minha mulher
precisa descansar…por favor!
- Isto aqui não é uma
estalagem, mas…está bem, entrem!- convida hesitante
- Não são confiáveis,
não são confiáveis - repete o papagaio falante
O casal segue a dona da
casa até ao andar de cima
Uma sala ampla,
agradável, acolhedora e bem decorada.
Heloise indica os
lugares aos recém chegados;
acomodam-se os três à
volta de uma mesa redonda.
Foi aí que ambos
notaram a beleza rara da anfitriã, elegantemente vestida, alta, magra, uma
vintage. Sem vestígios da tradicional bruxa.
- Do que se trata? - pronuncia
num tom baixo e sedutor
O homem toma a palavra
e descreve tudo minuciosamente;
desde a passagem deles
e dos três filhos pelas três moradias;
as constantes fugas, os fantasmas a
incomodarem dia e noite,
a preocupação com as
crianças, os sustos, as angustias, as frustrações
vividas, o fadiga sentida
pela família.
Heloise escuta-o
atentamente, os seus grandes olhos pestanudos saltam do homem para a mulher e
vice versa:
- Que sugerem que faça?
- Liberte-nos desta
maldição! - solicita a mulher- não vai atirar
cartas? búzios? Nada?!
- Eu vejo nos olhos das
pessoas - esclarece Heloísa.- onde estão as crianças?
- Deixamos em casa de
um vizinho de confiança - clarifica o homem.
- Felizmente - remata a
dona da casa.
- Então, tem algo de novo
para dizer? - pergunta a outra mulher
- Tenho novos dados, muito
elucidativos! - exclama Heloise intimidatória
- Então, exponha,
estamos expectantes! - entusiasma-se o homem
- Tem a certeza que
precisa da minha resposta? Que caso insólito…
- Não percebi! – o
homem pôs-se boquiaberto.
- Vocês sabem
perfeitamente a que me estou a referir. Quem criou toda esta barafunda dos
fantasmas, dos monstros e das almas?!
- Viemos aqui com o
intuito que nos dissesse! – adianta-se o homem surpreendido.
- São vocês os dois! -
afirma peremptória
Ambos trocam olhares
cúmplices, ele ergue-se num salto, como se fosse ter uma síncope, pálido e
cadavérico, ela encolhe-se desfeita:
- Que brincadeira vem a
ser esta? O vosso jogo termina aqui. Não sei quais os propósitos de tamanha
loucura…mas acaba já!
- A senhora é louca! -
e avança para Heloise, que nesse preciso instante
estala os dedos e
assomam do nada dois homens robustos,
a presença daquela
força bruta, detém o homem.
- Vou ligar ao xerife,
ele virá cá ainda esta noite e levá-los-á
à delegacia mais
próxima e tomarão as diligências necessárias.
- Quem vai acreditar em
si? Sua bruxa
mentirosa, charlatã,
somos acusado de quê ?
- Cale-se homem!
Remeta-se ao silêncio, como
faz a sua esposa! Está
preocupado porquê? Não têm vergonha
de andar a atormentar a
vida dos seus filhos, a enloquecê-los?
- E porque faríamos
isso?
- Vocês é que devem
saber, não eu! Falta de equilíbrio mental…não sei…
O xerife saberá encaminhar
o caso.
Num gesto de cabeça
pede aos indivíduos para os amarrar.
Entretanto, o homem
grita furioso há-de vingar-se dela, a mulher
permanece em silêncio.
Heloise dá as costas e
sai da sala perturbada, desce e aproxima-se do papagaio:
- Tu já sabias?
- Soube assim que os vi
chegar.
- Boa noite, meu
espertalhão.
PN
Retirada da Internet - desconheço o autor.