Foi a meados de Agosto e o sol caía a pique,
apesar do intenso calor, o cais apinhado de gente;
gente de mão
dada, gente numa tagarelada,
gente de olhos postos no sossego das ondas.
Alguns passeavam, outros sentados em grupo, ou
solitários, um; cabeça pendida, a dormitar a sesta...
As gaivotas, desenlaçadas, soltavam ânsias de gritos
Entrou no cais, um homem alto, bem apessoado,
massa de cabelo escura, densa, corte moderno.
Sem bigode, barba grisalha, fato impecável,
Óculos graduados, com armadura fina,
a equilibrar
com o formato do rosto.
Mãos nos bolsos
das calças , descontraído ...
Subitamente voltou a cabeça para o lado esquerdo:
- Inês! – chamou surpreendido.
Ela aparentava ser da mesma idade que ele;
Cabelo louro médio, às pontas, meã de altura.
Túnica de capulana, floreada em tons quentes e calça
branca de tecido mole.
Sandália e bolsa a condizer.
- Hum? É quem estou a pensar? - gracejou
- E em quem estás a pensar? - questionou rindo
- Amaro Paixão! - exclamou sorridente.
- Em pessoa. – inclinou a cabeça numa reverência.
Riram-se
divertidos e cumprimentaram-se delicadamente.
- Há quantos
anos?! - acrescentou a mulher estarrecida.
- É verdade. -
aquiesceu.
- Então, que é feito de ti ? - avançou com
naturalidade.
- Tanta coisa aconteceu... – proferiu vaidoso.
- Que tens feito? - não resistiu à
curiosidade de saber.
- Desde a última vez que trabalhamos juntos ; namorei,
casei, tenho dois filhos,
fui professor,
passei por todos os cargos até
chegar a diretor- rematou triunfante
- Parabéns. Que percurso, Amaro! Realizado?
- Obrigado. Invejável, não? Realizado? Sem sombra de
dúvida, a nível pessoal e profissional.
- Talhado para o sucesso! - constatou sem reservas
- Sei que sou bom profissional, quando fui avaliado, a
minha nota
foi mais alta de todos os grupos da escola e a minha
mulher é igual;
excelente em História.
Os meus dois filhos têm as melhores notas
da escola, tanto ele, como ela. Muito aplicados
e os resultados estão
à vista. Ambos receberam vários
prémios.
-Isso é ser um felizardo!
- lisonjeou- Em que escola estão?
- Todos na minha! E ai de algum colega que atravesse o
meu caminho!
- Que queres dizer com isso? - franziu o sobrolho
- Nós somos pais atentos, sabemos perfeitamente o que
valem.
Nenhum diretor de turma ou outro colega, se atreve,
sequer a baixar as notas
aos meus filhos. A minha família é sagrada, mexem com
ela, mexem comigo.
Caso
contrário, uma conversinha de gabinete
e olha, desfaço qualquer um. Em última instância, nesse ano
convido a sair e há muitas formas de o fazer...
Se insistir em regressar, vai arrepender-se amargamente!
- Tu não pensavas assim! - exclamou estupefacta
- E como é que eu pensava? - pronunciou com uma
pontinha de sarcasmo.
- Discordavas da atribuição de prémios, detestavas que
Encarregados de
Educação interviessem nas tuas avaliações,
consideravas falta de
respeito pelo teu trabalho...
- Olha Inês, não
me recordo de nada disso! E digo-te mais, o ensino,
em certas escolas é
um autêntico cancro, uma putrefação,
cheira muito mal.
- Referes-te a todas as escolas?
- Algumas por onde passei e a minha também.
Entrei em
funções de diretor, coloquei a casa em ordem;
é preciso pulso firme; procedi a uma desinfeção.
Conheço bem os vícios de muita gente que ali trabalha.
Assumi cargos e fiquei
por dentro de toda a imundície que circulava naquele
edifício.
Comigo não brincam, nem vale a pena tentar.
- Espera, referia-me ...
-Sei a que te referias e não se pode mudar de ideias?!
- a tonalidade da voz irritada
- Não te parece que entregar prémios, a partir do
segundo ciclo,
é demasiado
cedo? um exagero? Habitua-se mal, estudar é um dever, em casa, a mãe
quando pedir ajuda, vem sempre a contrapartida ? Não é por isso
que os resultados são
melhores, o comportamento uma
lástima!
Era assim que também pensavas...
- Mudei, os meus filhos trabalham e esforçam-se para
alcançar prémios.
Almejam, até entre eles disputam...
- Falas de competição!
- E qual o problema? O ser humano foi feito para
competir e que vença o melhor.
- Não te parece que já existe muita competição…
- Porque paramos aqui?... - atalhou de repente -
desapertou o nó da gravata
- De facto…podemos nos refugiar numa esplanada - sugeriu imediatamente
- Estou com pressa e aflito com o calor... agora tenho
de ir.
Ainda tens o meu contacto? Liga-me um dia destes.
Cumprimentaram-se e separaram-se rapidamente.
Ela ficou parada, e murmurou:
“Nem
perguntou por mim, telefonar, para quê?
Para continuar a ser cesto do teu lixo?
Fui
muito amiga sem receber nenhuma amizade em troca.
Devia
ter-me esquivado, cúmulo do egoísmo
e
do oportunismo, sugado pelo sistema. Não
tarda,
será mais um escravo acomodado.”
Após um gesto contrariado, resolveu finalmente seguir
o seu caminho,
ainda perturbada
com aquela conversa, zangada e a ciciar
baixinho.
- Inês, espera! - chamou outra voz
Voltou-se e o rosto clareou.
- Alice, que prazer! - e abriu os braços
Alice; quarentona, olhos verdes, tez morena, cabelo
apanhado e desgrenhado.
Uma simpatia extraordinária, alegre e divertida.
Chamariz para homens e mulheres!
Muito carismática; bom gosto, moderna, desenvolta,
dava nas vistas pela beleza e requinte.
Beijaram-se desmedidamente e Alice elogiou meio a
sério, meio a brincar:
- Estás bem! Muito bem! Alguma plástica?
- Já amealhei bastante, vou pensar no assunto!
Acharam graça ao assunto.
- Diz-me, Inês, continuas a dar explicações?- quis
logo saber.
- Sim, continuo, porquê?
- A minha filha vai precisar! - disse séria.
- É só ligar a combinar. Tens o meu contacto…
- Com certeza, tu és uma sortuda! Desejava poder fazer o mesmo! Estou
farta de tanta
incoerência, falta
de justiça, intolerância…
- A sério?
- Sim, muita burocracia, um sistema obsoleto, caduco,
a precisar de reformas
estruturais profundas,
nem as tecnologias o salvam! Remendo aqui, ali, acolá!
Na minha opinião está tudo às avessas! Todos têm
consciência que já bateu no fundo
mas alguém tem
coragem para travar ou alterar alguma coisa? Não!
É no início que se mexe, quando as coisas começam a vergar.
Não prestam
atenção aos indícios! Tal como os fogos; devem ser combatidos imediatamente
Acão rápida! Antes que se propaguem …
Ai Inês , vejo coisas, ouço coisas que é de bradar aos
céus…
- Os meus explicandos também contam histórias…
e queixam-se
dos pais, dos professores, dos funcionários…. dos colegas…
os professores queixam-se do mesmo… sabes Alice, há
muita falta de saúde mental,
muito mais do que se julga… e é transversal à
sociedade,
as pessoas
dissimulam, mas sentem e negam.
- Tens razão, querida, toda a razão, repara no que
move os docentes;
A prioridade; a
progressão na carreira; os ordenados; o que não foi pago!
É só dinheiro? E os outros problemas? Tábua rasa!
Os pais não
colaboram, os colegas não apoiam os seus pares,
os miúdos a cada ano são mais violentos e mal educados
Não respeitam ninguém! Não querem saber da escola para
nada!
Se um professor
quer se defender, a escola encobre o aluno…
O nível de atrocidades é inacreditável… e ainda aqui
vamos! Se soubesse
que chegaríamos a este estado de coisas , jamais teria
optado por esta profissão.
Aos pais,
interessa-lhes apenas um lugar para depositar os pequenos e as notas; que
transitem de ano,
o resto passa-lhes ao lado… Isto assemelha-se a um novelo de lã,
cujos fios
andam misturados e quanto mais se estica, pior fica, mais amarrado,
sem solução à vista!
- Arrependida?
- Muito, a sério! Vamos tomar café, esquecer este
filme de terror.
Vá, agora quero saber de ti! Conta-me as tuas
novidades!
Voltaram para trás, enquanto caminhavam para uma
esplanada bem perto do mar, Alice
enlaçou Irene pela cintura, num abraço afável.
PN
Nota :
Com este texto poético, quis apenas levantar algum pó, problemáticas que surgem na malha ...como se vai "costurando" o Ensino.
Só para acrescentar que nesta altura do campeonato, os professores ainda não sabem para onde vão leccionar....
Os que já sabem, são colocados na " terra do nunca", muito distante de casa, às vezes os respectivos cônjuges, enviados para lugares opostos, com casas, bens e filhos pelo meio...
Não compreendo porque razão a abertura dos concursos é tão tardia e no mês de férias; Agosto.
Todos os anos, a abertura do ano lectivo é sempre conturbada, desastrosa, ineficaz...?!Sem a Tranquilidade necessária?!
Nota :
Com este texto poético, quis apenas levantar algum pó, problemáticas que surgem na malha ...como se vai "costurando" o Ensino.
Só para acrescentar que nesta altura do campeonato, os professores ainda não sabem para onde vão leccionar....
Os que já sabem, são colocados na " terra do nunca", muito distante de casa, às vezes os respectivos cônjuges, enviados para lugares opostos, com casas, bens e filhos pelo meio...
Não compreendo porque razão a abertura dos concursos é tão tardia e no mês de férias; Agosto.
Todos os anos, a abertura do ano lectivo é sempre conturbada, desastrosa, ineficaz...?!Sem a Tranquilidade necessária?!


