quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O covil


São bruxas com dentes de riso cínico;

monstrinhas endiabradas mexeriqueiras,

com a vida dos outros naquelas bocas de tesoura,

cabeças piolhentas de invenção,  abaixo de cão.

Aquelas cadelas fracas derrapam a  velocidades sem freio

Não existe reciclagem que as salve, cérebros acéfalos …

Limitam-se a consumir livros e mais livros, numa sofreguidão sem nenhuma expressão;

e não limpam o pó preto dos móveis, das estantes, das cadeiras, do chão

Sopram a poalha granulada das mesas, para cima;

com sorte o gato sai da história e lambe por engano os ácaros de dentes afiados,

continuam as leituras, olhos em bico, olhos traiçoeiros,  a  instruírem-se; as ratazanas;

 é moda, é elegante; verniz pelintra rachado

Ler e arrotar com a boca podre de satisfação;

 adoram autores, livros e livrarias, basta um mexerico e  as baratas tontas correm

em todas as direções, elas querem avidamente saber!

 De repente o livro jaz abandonado sobre a secretária  

Armadas em doutoras cultas, à procura de histórias do alheio,

a dar palpites sabedores e a trepar a vedação para o desconhecido, que atrevimento!

 Ignorantes, carregam um poço de miséria às costas, cujas águas cheiram muito mal

Revestem-se de falso brilho, deslizam com língua de cobra a cada canto, tudo para chegar em lugar primeiro;

a tentar seduzir com aqueles olhos bicudos de enxofre e maldade pura;

maldade crua mas  bem camuflada à mais incauta das criaturas inocentes

E, lá andam sobre os andaimes, a esconder as dívidas que lhes vergam a espinha;

Convencer através da indumentária faustosa e a lixeira a vir bater-lhes à mão...

Puta que as pariu, negra sorte cruzar-se com semelhantes entes; ratoeiras

Infestam o ar com o bafo daquelas vozes desengonçadas, mal resolvidas, altifalantes

Traiçoeiras, tiranas, acham-se senhoras, madames, rainhas;


É ver aquelas mosquinhas babarem felizes, a estremecer de gozo

Enfartadas na própria aleivosia e ignorância…
Assaltam as ideias dos outros e vendem como sendo propriedade sua,

dão ordens contraditórias, chafurdam na lama … e é tudo o que sabem fazer!
Coitadas!
  
PN





domingo, 21 de outubro de 2018

Aula número 100


Aquela manhã outonal acordou resmungona,
cara  enfarruscada  , nauseada, esgazeada
cabelo desmanchado ,
tecido do roupão amarfanhado, eriçado.
Crescia a suspeita  de que  rega  abundante chegaria
em breve...
e a terra até já  cheirava a molhada.
À  medida que a manhã cerrava o punho,
as gentes corriam para a azáfama quotidiana.
Quando a campainha soou sibilante,
a massa de estudantes dirigiu-se às  respetivas salas.
Um grupo de alunos parou junto à sala vinte e sete A,
Enquanto aguardavam a presença da professora;
desataram em provocações mútuas;
desafiaram-se para cenas de pugilismo
que cessavam  quase sempre de forma séria;
alguém acabava por prantear ou a gotejar sangue
e foram gritos, guinchos, risadas e gargalhadas
Uma mescla de grande vozearia, algazarra, sangria desatada
Alguns avistaram a docente, depressa
avisaram os outros, mas
nem assim a gritaria abrandou.
Ela passou cuidadosamente
para não  ser apanhada por um empurrão
eles e elas seguiram-na num tumulto,
sem mudar a organização;
perante tal cenário, a professora  cruzou os braços,  séria:
- Agradecia que se acalmassem! - apelou
Sem ver o pedido acatado,
a docente endereçou-os de novo à  rua
e voltar a entrar como de  gente se tratasse,
Num motim desconcertante e a contestar:
-  Outra vez sair? Que seca!
- Vamos passar a aula nisto ?
-Havia de ser bom !
-Cala-te seu caralho!
-  Não  me mandas calar, burro!
- Ainda não te calaste, o teu dia de falar era ontem!
Entraram na sala com mais correção.
Paulatinamente foram as vozes baixando
como maré  vaza silenciando.
A professora deu indicações:
- Abram os manuais no capitulo das energias ,
façam a  leitura em silêncio  das duas primeiras páginas
seguido de resumo, utilizando palavras vossas.
Novo protesto; fazer síntese? que aborrecimento!
coisa dificil de elaborar! Que chatice! Mais valia ter ficado em casa!
-Professora, posso ir à  casa de banho? – desatou um rapaz alto, de cabelo claro.
-Por favor, Gabriel , és  sempre o mesmo, já  avisei do teu limite
de idas à  casa de banho. Eu atrasei-me, aproveitasses o tempo
para esse efeito. E já  sabes as regras!
Depois, segurou o livro e ignorou o respetivo discente:
- Mas professora, preciso de ir urgentemente à casa de banho! - insistiu num tom jocoso  e de seguida lançou   olhares  zombeteiros à  turma, em busca de compadrio.
- Professora, deixe o pequeno ir à  casa de banho, coitado! -  exclamou uma rapariga rindo para Gabriel.
- É  que ele pode fazer nas calças. -  acrescentou outra.
- Olhe, se isso acontecer a sra é a responsável - diz outro muito divertido.
Risada da turma. A professora ignora as infelizes manifestações.
Resolve iniciar a leitura de um parágrafo que considerou interessante e esperou que a rapaziada fizesse silêncio. Em vão.
Começaram a falar uns com os outros a propósito do mesmo assunto.
Gabriel voltou à  carga:
- Senhora, é  que estou mesmo apertadinho! - simulou desespero.
- Não  conheces as regras? - lembrou a professora.
- Eu conheço as regras mas já esqueci algumas delas... – colocou um ar inocente.
- Gabriel, já  falta pouco para fazer participação. 
- Não  professora,    estou tapado! - dramatizou o momento - mais uma e vou para casa, a minha mãe  mata-me e o meu pai esfola-me!
Nova risada geral.  
- Professora deixe o Gabriel ir à  casa de banho e resolve logo o assunto, depois, alguns professores deixam. – um deles  trocista e arrogante. 
- Em  primeiro lugar, a professora aqui sou eu, em segundo lugar, as  regras foram feitas para cumprir, servem para regular o comportamento humano. As duas páginas já foram lidas? Estou à  espera!
- Não! -  disse a maioria da deles.
- Só  mais cinco minutos, para iniciarem os resumos e avançarmos para
a questão de aula.
Uma chuva de protestos por julgarem ser pouco tempo.
- Professora,  vou fazer chichi aqui! - ameaçou Gabriel novamente num tom dissimulado.
- Faz, faz , quero ver ! - acrescentou outro.
Riram-se todos novamente.
Gabriel de olhos  esbugalhados.:
- Por favor, professora!
A turma desfez-se em riso, surgiu nova oportunidade para conversas,
provocações, brincadeiras .
- Gabriel, imediatamente para o seu lugar.  Chega desta  palhaçada !
- Professora, o Pedro está-se a rir de mim! -lamuriou-se o aluno inventando zanga.
Gabriel fixa  oblíquo os olhos da  professora  enquanto  retoma o seu lugar,
 vai olhando para os colegas   e rindo:
- Olhe, olhe o Filipe... estão todos a rir de mim!
- Não é  esse o teu objetivo ? Ser bobo da corte e deixar a turma rir às tuas custas?
- Não  senhora! Agora é  o João, veja, olhe!
- Vê  se te calas, estúpido! – atira o João.
- Eu não fiz nada e ele chama-me nomes?
- Sei que  estão  a perder tempo com brincadeiras sem nenhum sentido e eu vou avançar. 
-Espere, espere professora ! - pediram alguns.
- Oh, perdi o caderno! – explicou Gabriel aparentando preocupação.
- Perdeste, então  trata de o encontrar o mais breve possível, caso contrário, terás  um zero como nota, tenciono avaliar os cadernos na próxima aula. 
- Então  não  faço  resumo nenhum.
- Fazes sim, pede uma folha a um colega e começa  a trabalhar! – ordenou a docente. 
-Ele tem o caderno, sim, está  dentro da mochila! - disparou o Carlos.
- Nao tenho nada! - respondeu mal humorado.
- Tens sim,  tonto de  merda, agora ele vai chorar!
- Moderem a linguagem por favor, já ando a chamar à atenção
desde o início do ano. Tratem-se bem e com respeito!
- Eu vou chorar, seu caralho!?
- Gabriel, eu acabei de falar desse assunto! Por favor, estás numa sala de aula! Andas sempre a pisar o risco, vê lá!
-Desculpe professora, mas deixe-me ir à casa de banho. 
-Muda de assunto, rapaz! Chega dessa ladainha e  o trabalho que mandei fazer em casa?
- Oh , nao fiz .
- Vou tomar nota dessa falha. E terás zero!
- Eu trago na próxima aula!                 
- Já  passou o prazo de entrega.
- Possa professora, só passou duas vezes...
- Comigo não existe terceira, quinze dias, Gabriel! Da última vez nem entregaste!
-A senhora é má! - resmungou
- Nem vou comentar !
- Há  professores que são  bonzinhos e aceitam e  até aumentam a nota! E digo-lhe mais, até  faço  copy past e eles também aceitam e nem me perguntam se li o trabalho ou não ! Está  a ver!
- Eu sou a professora  má.  Ponto final!
-Obriga-nos a fazer resumos!
- É  verdade professora, ele tem razão, exige muito de nós !
- A professora que me dê negativa, tanto faz, já sei que passo de ano na mesma.
- Basta dessa conversa, agora  faz o teu resumo.
- Eu só faço se for à casa de banho.
- A minha resposta mantém-se.
-  Tira as calças e mostra a bichota.
Naquele momento fez-se silêncio.  A professora disse:
- Eu ouvi a frase e toda a gente ouviu, ela veio do fundo. Não  foste tu, Tiago?
- Não !- respondeu aterrado.
- À  esquerda e à  direita do Tiago, todos negaram.
- Eu tenho a impressão que foi o Tiago...- rematou a professora.
- Não,  não  fui eu, nem sei quem foi - os braços apontaram para um lado e para o outro. E desatou a chorar convulsivamente, - juro que não fui eu, nem sei quem foi.
A docente pediu à calma a todos. Tiago continuou debulhado em lágrimas. Colocou ambas  as mãos no rosto e continuou num pranto intenso. 
- Tem calma, rapaz! Se não  foste tu, porque ficas assim?
Quando a turma atingiu um nível de tranquilidade satisfatório,  a professora, 
viu  o aluno , lá atrás,  muito folgazão.
- Tiago, vem cá à frente, por favor.
- Para quê?
-Quero falar contigo.
- Nao fui eu ! - e desatou novamente num choro convulsivo.
- Vem cá ! – tornou a professora tranquilamente
Houve um relativo silêncio, então criou-se
uma atmosfera íntima entre eles:
- Foste tu que proferiste aquela frase, não foi? – murmurou a docente
- Não,  juro que não ...e a professora vai mandar recado para casa?
- Não, prometo que não, diz  a verdade, mais nada! Confessa!
- Vai escrever na caderneta?
- Já  te respondi, sê  sincero e isto fica entre nós. 
- Fui eu que disse! - declara por receio, não arrependimento.
- Mais uma e uso mesmo a caderneta. -admoestou-o
- Peço desculpa, mas se os meus pais sabem… apanho castigos
- Vai –te sentar!
Enquanto caminhava em direção ao lugar, ria triunfante para Gabriel.

PN
Nota: Baseado em factos reais

Breve nota:
1- O tema causa-me náuseas
2- Este sistema já  bateu no fundo do poço  e todos os intervenientes fingem não  ver, é  mais fácil. 
3- A boa educação vem de casa , os professores são  formadores ou deviam ser.
4- Encarregados de E., professores , funcionários; todos estão  a falhar demasiado, o bom exemplo vem de cima.
5 - Os alunos reflectem a sociedade em que vivemos.
6- Atenção à  comunicação social, quando faz publicidade a certas escolas, desconfiem. 
7 - Existem alunos muito problemáticos porque é  que as escolas não apostam na Saúde Mental! Na Recuperação  destes alunos?
8- Professores não  devem infantilizar as crianças , elas merecem mais respeito, depois,cada vez mais apresentam atitudes estranhas, em nada adequadas à  sua faixa etária .
9 - Os professores são  uma classe desunida, comem-se vivos nas reuniões mas nas aulas repreendem os discentes,  porque os miúdos não  sabem trabalhar em grupo. Só  querem ter no seu grupo os amigos mais chegados.
10 - Os bons professores , muitas vezes são  negligenciados porque defendem uma política diferente daquela que o órgão de gestão  da escola defende. Liberdade de expressão ? Ou pequenas ditaduras ? Em nome de Deus ou do diabo?
11 - Currículos desatualizados ou desfasados das vocações.
Acrescentei mais estes pontos porque considero que merecem atenção por parte de todos. Quanto mais verdadeiro e profissional, mais açoitado e crucificado! Quanto mais rico a nível  de bens materiais, protagonismo,  mas não cumpre as suas funções, mais aplaudido, mais bajulado. Há  órgãos  de gestão  que gerem mal, contudo atribuem cargos para comprar e calar a verdade, e, há  mais ... eu fico por aqui!
Grata pela atenção .





sábado, 29 de setembro de 2018

O paraíso dos pinóquios



 A hora do recreio é sempre de grande euforia; risadas, gritos, berros, empurrões, ameaças de agressões, rasteiras, murros, correrias e também vasculhar sofregamente o objeto pequeno, cujo visor, seduz e atrai a presa mais firme.

Até que um espertalhão,
com ares de rufião
sobe um   palanque e toma a palavra em altos brados:
- Ei malta, atenção! Venham cá!
- O que é que tu queres, ó caramelo? - pergunta outra voz no mesmo tom.
Rapazes e raparigas, numa falácia de abelhas vai sucumbindo
aos apelos daquele que parece um dançarino vivaço:
- Calem-se, pá! Eu quero falar! - grita no auge da fúria.
- Então, diz tonto!
O outro, impetuoso, lança-se para baixo, a mão em punho cerrado:
- Repete o que me chamaste e quebro-te esses dentes rançosos, porco de merda!
Os outros agarram-no e puxam-no:
-Vai para o teu lugar, rapaz! e içam-no ao cimo do estrado de madeira.
Enquanto, cá em baixo, um outro:
- Não lhe ligues, ele é que é um  porco de merda. Agora que nos
representa, acha-se o máximo mas tem participações…
- Os professores bajulam-no e ele faz o que quer dentro da sala!
- Nem todos, alguns fazem participações, nem todos aturam aquele cabrão!  
Entretanto,
a onda de estudantes cede e chega-se  para mais perto do moreno:
- Ouçam! - de nada lhe valem os apelos, e entre dentes;
“grandes cabroes, filhos da puta...”
Chovem assobios, palavrões, risadas, conversas paralelas.
Apesar da proximidade, ninguém lhe presta atenção. 
Cá  de baixo, alguém atira um apito, ele agarra-o
e mete-o apressadamente nos lábios grossos,
o som agudo fá-los silenciar, alguns queixam-se dos
tímpanos.  O moreno espertalhão aproveita depressa
a brecha e apressa-se a dizer:
- É para comunicar que se aceitarmos as aulas de substituição vamos
ser premiados.  
- Nós não queremos aulas de substituição, antes de prostituição,
e se for com a prof. de  Ciências… ela também dá prostituição, não dá?
Novas risadas, a celeuma instala-se de novo.
- Medalhas? Diplomas? É isso? - berra outra voz.
- Ó rapaz, impõe-te, caraças! – uma voz censura o anunciante.
O moreno sopra o apito, novas queixas dos tímpanos.
- Calem, deixem-me falar! 
o prémio são telemóveis,  vídeos jogos, entendem?
- Sendo assim, já aceitamos essa porcaria de aulas mas
com uma condição,  terminadas as tarefas propostas,
nós  queremos brincar com os telemóveis. 
- Isso depende do professor de Substituição- esclarece o moreno.
- Eu não gosto da escola e muito menos de professores de substituição!
- E quanto aos vídeos jogos?
- Podem levar para casa ou usar na ludoteca! - explica o moreno.
- Era essa a novidade que querias dar? - grita um deles.
- E não é bom? - acrescenta o moreno.
- O bom, bom mesmo, era não haver mais aulas hoje! – e cai um  tumulto
clamoroso.
- Melhor que isso, era não haver mais aulas de nada! Ahhhhh! Fazermos o que nos
apetecesse.
-Sem mãe, nem pai, nem professores a mandar.
A vozearia tinha atingido o seu ponto máximo.
- Na minha casa quem manda é meu pai; tudo treme à frente dele.
Quando bebe, dorme, é um descanso. Depois acorda mal disposto. Ui, nem te digo nada.Bate em todos, fugimos de casa e de vingança parte loiça. Uma fera! É de loucos! Florido pá! No amontoado de alunos, o baixinho vai se expressando aos gritos para se fazer ouvir.
- Estás lixado, caraças! eu também estou, meu pai tem outras mulheres, até já  tentou matar a minha mãe com uma faca de cozinha, o gajo é  nojento. O meu caso está a ser analisado pela comissão de proteção de menores...
- Forca-se! Porra! Não te invejo a sorte!
- Os meus pais separaram-se quando eu era bebé. A professora disse à minha mãe
que deve ser por isso que sou como sou – pronunciou-se outro que ouvira a conversa.
- Como é que tu és?
- Sou bom aluno mas não me apetece estudar, notas baixas, se quisesse facilmente tirava cinco a tudo! O meu pai até já me comprou um carro para quando eu fizer dezoito anos.
- Mas os teus pais são ricos?
- Sim, somos uma família com dinheiro. 
Enfrentam-se os três em silêncio no meio daquela vozearia grosseira.
Subitamente, por detrás do aglomerado, abre-se a porta:
- Fujam depressa! Corram! A funcionária! - indica o moreno apavorado.
Disparam numa rajada de pássaros, ante o olhar estupefato da empregada que murmura para si mesma:
- O que é isto? Perderam a cabeça? Eu bem me parecia ter escutado  um ruído fora do normal, esta canalha! E consultando o relógio, continua:
- Ainda bem que está quase a tocar! Já vão entrar, não há quem possa com este tipo de pequenos. Qualquer dia meto baixa! Ai a minha cabeça!

PN 

(Inspirado em factos reais)

Nota : Se encontrar qualquer gralha, avise por favor. Obrigada.

sábado, 15 de setembro de 2018

"A miúda do café "

O "lugar" desta entrevista não é aqui.Há espaços meus, próprios para este tipo de publicação,  de qualquer forma, a pertinência do que é dito, apaixonou-me de tal forma que não resisti à tentação. Vale a pena ler! Faça isso!


- Qual a história desta canção?

ML- É a história de uma miúda que trabalha num café e acho que tem a ver um bocadinho com aquilo que nós vivemos, de imagem, aquela pressão da imagem, que nós temos que estar sempre espetaculares e fabulosas, com o cabelo arranjado e todas maquilhadas e todas produzidas e só assim é que parece que tens a atenção de alguém. Nós quisemos nesta miúda do café e o vídeo explica isso, é uma miúda normal que está a trabalhar, num dia normal e entra um rapaz que ela acha que é o James Dean, que está igual ao James Dean, ele não lhe liga nenhuma porque ela é uma miúda normal, como todas nós quando acordamos de manhã. Então ela decide arranjar-se e tornar-se a mulher que supostamente é aquilo que todas deveríamos ser e ele começa a vê-la e começa a ter algum interesse por ela. Isso não chega para ela. Então ela dá-lhe um grande “baile” e vai-se embora. A mensagem é, estarmos seguros daquilo que somos e não daquilo que aparentamos ser, eu acho que é mais importante; mais do que aquilo que tu tens e daquilo que tu aparentas, é o que tu és e isso não há maquilhagem que te disfarce.

Eu acho que tenho vindo a descobrir que não sou nada politicamente correta, portanto acho que há muita coisa que não está bem, e que tem de ser alterado, eu sou uma pessoa indignada com uma data de coisas, mas não sou revoltada, e não vou fazer nada? Quero fazer alguma coisa e apercebi-me disso nas letras que escrevo, imagina que a letra era triste, eu chegava ao final da letra, tinha de alguma forma acabar aquela letra com uma nota positiva e comecei a pensar sobre isso; isto é uma limitação a nível artístico brutal, porque há histórias que são só tristes, são só tristes e acabam ali. Não há nada, nem com pó perlimpimpim, de repente aquela história fica feliz. Há histórias que são só tristes. E eu tento de uma forma à Disney, dentro da minha cabeça, acabar sempre com uma nota positiva para quem me estiver a ouvir, porque eu acho que há sempre a possibilidade duma história triste virar uma história feliz.

Apercebi-me muito cedo que não tinha necessidade que ninguém me dissesse que sim. A única pessoa que tinha que dizer sim, era eu. Mesmo que o mundo inteiro me dissesse que não. Se eu acreditasse que sim, não havia ninguém que fosse mais forte, que tivesse um não mais forte que o meu sim. Não há e não me sentia menor, porque não estava a tentar ser ninguém. Porque não conseguia. Não estava a tentar ganhar nada porque é isso que eu digo aos meus filhos muitas vezes, eu acho que na vida não perdes, ou ganhas ou aprendes. Com dois filhos menores, os pais a trabalharem juntos, não é fácil mas consegues fazer as coisas. O tempo parece sempre pouco para tudo, exceto quando tu utilizas bem. A prioridade são sempre os meus miúdos e as pessoas que trabalham há minha volta sabem disso, há certas coisas que são regras. Eu não trabalho no dia de anos dos meus filhos. Há certas coisas, pela tua profissão ou pelos timings que eu não deveria fazer mas eu faço porque são os meus filhos, como tirar férias na pior altura de sempre. Eu vou tirar, porque eles não vão voltar a ter esta idade. Tens um maior volume de concertos mas tens que gerir e tens que pensar; são concertos, é óptimo, é a nossa vida, queremos mostrar a nossa música mas são os meus filhos, não há comparação possível. A minha filha tem 10 anos e tem aulas daquilo que ela quer, ela gosta de ginástica, gosta de dança. Está na idade de experimentar tudo, é nesta idade que se experimenta tudo, não acho que seja bom definir ou deixar que as crianças se definam quando são crianças e nós só temos uma vida, quem é que sou eu, mesmo que seja mãe dela para decidir o que está correto. Qual o caminho normal d'uma vida de uma pessoa? É fazer o décimo segundo ano? é  ir trabalhar? é  casar? é  ter filhos? Isso é definição de sucesso na nossa sociedade. O sucesso para mim não é isso.



Portanto, não é isso que passo aos meus filhos. Ter sucesso não é ter filhos, não é estar casado, não é sequer teres uma relação. O sucesso é ser feliz. Até podes estar a trabalhar e o teu trabalho é limpar lixo, o teu trabalho é estar sozinha, a tua vida toda a compor uma música no teu estúdio. Tu és feliz. És uma pessoa bem sucedida, que interessa se tens uma relação há cinquenta anos? Mas depois para os outros que não têm, os outros sentem-se uns falhados. Eu sou uma falhada porque não tenho uma família, não tenho filhos, tenho uma profissão que até nem gosto muito, se calhar adoro a minha profissão mas como não ganho muito dinheiro, os outros acham que eu não sou uma pessoa de sucesso. Porquê? É quase como tu perguntares a alguém, "- o que é que tu fazes?" -"Trabalho num café. " -"Ai é! Ah, está bem.”  Como se fosse....percebes?...

 Estive a falar com uma pessoa que tem um banco, tem montes de dinheiro e não faz nada daquilo que quer. Sabes porquê? Todos os dias tem que de ir trabalhar para não perder dinheiro.



Voltando à minha filha, ela tem aulas de muita coisa e quando ela decidir ser aquilo que ela quiser, até pode mudar aos trinta anos, aos quarenta e dizer; "- Olhe, Tirei estes cursos todos mas na realidade o que eu quero mesmo fazer é ser tratadora de golfinhos " "- Então vai filha".



Os meus filhos estão sempre a ver-me, eu acho que eles o direito de ter um descanso da mãe. Eu acho que a mãe que eles querem não é aquela que está a cantar e quando estou em casa nem quero mostrar-lhes nada do que eu fiz. " -Olha a mãe na televisão, olha a mãe a fazer isto"... Não quero! 



quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Inês, Amaro, Alice


Foi a meados de Agosto e o sol caía  a pique,
apesar do intenso calor,  o cais apinhado de gente;
gente de mão  dada, gente numa tagarelada,
gente de olhos postos no sossego das ondas.
Alguns passeavam, outros sentados em grupo, ou
solitários, um; cabeça pendida, a dormitar a sesta...
As gaivotas, desenlaçadas, soltavam ânsias de gritos
Entrou no cais, um homem alto, bem  apessoado,
 massa de  cabelo escura, densa, corte moderno.
Sem bigode, barba grisalha, fato impecável,
Óculos graduados, com armadura fina,
a equilibrar  com o formato do rosto.
Mãos  nos bolsos das calças , descontraído ...
Subitamente voltou a cabeça para o lado esquerdo:
- Inês! – chamou surpreendido.
Ela aparentava ser da mesma idade que ele;
Cabelo louro médio, às pontas, meã de altura. 
Túnica de capulana, floreada em tons quentes e calça branca de tecido mole.
Sandália e bolsa a condizer.
- Hum? É quem estou a pensar? - gracejou
- E em quem estás a pensar? - questionou rindo
- Amaro Paixão! - exclamou sorridente. 
- Em pessoa. – inclinou a cabeça numa  reverência.
Riram-se  divertidos e cumprimentaram-se delicadamente. 
- Há  quantos anos?! - acrescentou a mulher estarrecida.
- É  verdade. - aquiesceu.
- Então, que é feito de ti ? - avançou com naturalidade.
- Tanta coisa aconteceu... – proferiu  vaidoso.
- Que tens feito? - não  resistiu à  curiosidade de saber.
- Desde a última vez que trabalhamos juntos ; namorei, casei, tenho dois filhos,
fui professor,  passei por todos os cargos até  chegar a diretor- rematou triunfante
- Parabéns. Que percurso, Amaro! Realizado?
- Obrigado. Invejável, não? Realizado? Sem sombra de dúvida, a nível pessoal e profissional.
- Talhado para o sucesso! - constatou sem reservas
- Sei que sou bom profissional, quando fui avaliado, a minha nota
foi mais alta de todos os grupos da escola e a minha mulher é  igual;
excelente em História.  Os meus dois filhos têm as melhores notas
da escola, tanto ele, como ela. Muito aplicados
e os resultados estão  à  vista. Ambos receberam vários prémios.
-Isso é  ser um felizardo! - lisonjeou- Em que escola estão?
- Todos na minha! E ai de algum colega que atravesse o meu caminho!
- Que queres dizer com isso? - franziu o sobrolho
- Nós somos pais atentos, sabemos perfeitamente o que valem.
Nenhum diretor de turma ou outro colega, se atreve, sequer a baixar as notas
aos meus filhos. A minha família é sagrada, mexem com ela, mexem comigo.
  Caso contrário, uma conversinha de gabinete
e olha, desfaço qualquer  um. Em última instância, nesse ano
convido a sair e há muitas formas de o fazer...
Se insistir em regressar, vai arrepender-se amargamente!
- Tu não pensavas assim! - exclamou estupefacta
- E como é que eu pensava? - pronunciou com uma pontinha de sarcasmo.
- Discordavas da atribuição de prémios, detestavas que Encarregados de
Educação interviessem nas tuas avaliações, consideravas falta de
respeito pelo teu trabalho...
- Olha Inês, não  me recordo de nada disso! E digo-te mais, o ensino,
em certas escolas é  um autêntico  cancro, uma putrefação, cheira muito mal.
- Referes-te a todas as  escolas?
- Algumas por onde passei e a minha também.
 Entrei em funções de diretor, coloquei a casa em ordem;
é preciso pulso firme; procedi a uma desinfeção.
Conheço bem os vícios de muita gente que ali trabalha. Assumi cargos e fiquei
por dentro de toda a imundície que circulava naquele edifício.
Comigo não brincam, nem vale a pena tentar.
- Espera, referia-me ...
-Sei a que te referias e não se pode mudar de ideias?! - a tonalidade da voz irritada
- Não te parece que entregar prémios, a partir do segundo ciclo,
é  demasiado cedo? um exagero? Habitua-se mal, estudar é um dever, em casa, a mãe
quando pedir ajuda, vem sempre a contrapartida ?  Não é por isso
que os resultados são  melhores, o comportamento  uma lástima!
Era assim que também pensavas...
- Mudei, os meus filhos trabalham e esforçam-se para alcançar prémios.
Almejam, até entre eles disputam...
- Falas de competição!
- E qual o problema? O ser humano foi feito para competir e que vença o melhor.
- Não te parece que já existe muita competição…
- Porque paramos aqui?... - atalhou de repente - desapertou o nó da gravata
- De facto…podemos nos refugiar numa esplanada  - sugeriu imediatamente
- Estou com pressa e aflito com o calor... agora tenho de ir.
Ainda tens o meu contacto? Liga-me um dia destes.
Cumprimentaram-se e separaram-se rapidamente.
Ela ficou parada, e murmurou:
“Nem perguntou por mim, telefonar, para quê?
 Para continuar a ser cesto do teu lixo?
Fui muito amiga sem receber nenhuma amizade em troca.
Devia ter-me esquivado, cúmulo do egoísmo
e do oportunismo, sugado pelo sistema. Não
tarda, será  mais um escravo  acomodado.”
Após um gesto contrariado, resolveu finalmente seguir o seu caminho,
ainda perturbada  com aquela conversa, zangada e a ciciar  baixinho.
- Inês, espera! - chamou outra voz
Voltou-se e o rosto clareou.
- Alice, que prazer! - e abriu os braços
Alice; quarentona, olhos verdes, tez morena, cabelo apanhado e desgrenhado.
Uma simpatia extraordinária, alegre e divertida. Chamariz para homens e mulheres!
Muito carismática; bom gosto, moderna, desenvolta,
dava nas vistas pela beleza e requinte.
Beijaram-se desmedidamente e Alice elogiou meio a sério, meio a brincar:
- Estás bem! Muito bem! Alguma plástica?
- Já amealhei bastante, vou pensar no assunto!
Acharam graça ao assunto.
- Diz-me, Inês, continuas a dar explicações?- quis logo saber.
- Sim, continuo, porquê?
- A minha filha vai precisar! - disse séria.
- É só ligar a combinar. Tens o meu contacto…
- Com certeza, tu és uma  sortuda! Desejava poder fazer o mesmo! Estou farta de tanta
 incoerência, falta de justiça, intolerância…
- A sério?
- Sim, muita burocracia, um sistema obsoleto, caduco, a precisar de reformas
estruturais  profundas, nem as tecnologias o salvam! Remendo aqui, ali, acolá!
Na minha opinião está tudo às avessas! Todos têm consciência que já bateu no fundo
 mas alguém tem coragem para travar ou alterar alguma coisa? Não!
É no início que se mexe, quando as coisas começam a vergar.
 Não prestam atenção aos indícios! Tal como os fogos; devem ser  combatidos imediatamente
Acão rápida! Antes que se propaguem …
Ai Inês , vejo coisas, ouço coisas que é de bradar aos céus…
- Os meus explicandos também contam histórias…
 e queixam-se dos pais, dos professores, dos funcionários…. dos colegas…
os professores queixam-se do mesmo… sabes Alice, há muita falta de saúde mental,
muito mais do que se julga… e é transversal à sociedade,
 as pessoas dissimulam, mas sentem e negam. 
- Tens razão, querida, toda a razão, repara no que move os docentes;
 A prioridade; a progressão na carreira; os ordenados; o que não foi pago!
É só dinheiro? E os outros problemas? Tábua rasa!
 Os pais não colaboram, os colegas não apoiam os seus pares,
os miúdos a cada ano são mais violentos e mal educados
Não respeitam ninguém! Não querem saber da escola para nada!
Se um  professor quer se defender, a escola encobre o aluno…
O nível de atrocidades é inacreditável… e ainda aqui vamos! Se soubesse
que chegaríamos a este estado de coisas , jamais teria optado por esta profissão.
 Aos pais, interessa-lhes apenas um lugar para depositar os pequenos e as notas; que
 transitem de ano, o resto passa-lhes ao lado… Isto assemelha-se a um novelo de lã,
 cujos fios andam misturados e quanto mais se estica, pior fica, mais amarrado,
sem solução à vista!
- Arrependida?
- Muito, a sério! Vamos tomar café, esquecer este filme de terror.
Vá, agora quero saber de ti! Conta-me as tuas novidades!
Voltaram para trás, enquanto caminhavam para uma esplanada bem perto do mar, Alice
enlaçou Irene pela cintura, num abraço afável.
PN

Nota :

Com este texto poético, quis apenas levantar algum pó, problemáticas que surgem na malha ...como se vai  "costurando" o Ensino.  

Só para acrescentar que nesta altura do campeonato, os professores ainda não sabem para onde vão leccionar....

Os que já sabem, são colocados na  " terra do nunca", muito distante de casa, às vezes os respectivos cônjuges, enviados para  lugares opostos, com casas, bens e  filhos pelo meio...

Não compreendo porque razão a abertura dos concursos é tão tardia e no mês de férias; Agosto. 

Todos os anos, a abertura do ano lectivo é sempre conturbada, desastrosa, ineficaz...?!Sem a Tranquilidade necessária?! 


quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Gestões escolares e a (des)motivação escolar

Uma vez mais, a pertinência do tema faz-me deixar cá este texto que considero da maior importância. 


A motivação é a chave que abre a porta para o desempenho com qualidade. Heloísa Luck

O papel dos líderes é fundamental e de destaque nas organizações, quer através da tomada de decisões, quer na motivação dos colaboradores. Motivar equipas pressupõe liderar com eficácia e eficiência. (...)

Liderança e motivação vão de mãos dadas o que significa que uma má gestão dos recursos humanos influencia diretamente na (des) motivação e na produção.
Os gestores escolares não devem esquecer nunca que os seus professores são criaturas sociais com emoções, desejos e medos, seres humanos, motivados por necessidades humanas e que alcançam as suas satisfações através dos grupos a que pertencem. (...)

Acredita-se que um professor motivado poderá exercer as suas funções de maneira realmente produtiva e somente assim poderá motivar os seus alunos no processo ensino e aprendizagem. Para isso, a gestão escolar deve levar em conta a legislação que estabelece os verdadeiros e nobres princípios da educação. (...)
A motivação é a chave que abre a porta para o desempenho com qualidade, tanto em situações de trabalho, lazer, atividades pessoais e sociais. (...)

Chega a ser alarmante o desconhecimento de muitos órgãos de gestão escolar em Portugal sobre a necessidade imperativa e urgente de motivar os seus professores, bem como o seu despreparo na gestão dos recursos humanos mais valiosos para o processo de ensino aprendizagem: os seus professores, que merecem poder exercer suas funções num clima organizacional favorável, digno e sem sofrer constantes e diversas formas de desvalorização, humilhações, desigualdades e injustiças em nome de conveniências pessoais ou pelo abuso de poder como se detivessem, entretanto, o monopólio da verdade absoluta. A ausência de um clima laboral motivador baseado na justiça e equidade, obedecendo às bases democráticas de um estado de direito nas instituições escolares, é tão nefasto e repugnante quanto desonroso para os inerentes nobres princípios da educação.

Elisabete Pogere
Professora, Especialista em Intervenção Psicossocioeducativa 



segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A ENTREVISTA

Pela pertinência do tema, foi uma entrevista que assisti há muito tempo, julgo que é bom lermos e reflectirmos, não era aqui, neste espaço que tencionava colocar mas não posso deixar de o fazer. 

Vamos começar com o caso Caxias que não deixou ninguém indiferente, com a morte de duas crianças:


“Eu gosto mais de pensar na miséria do que na maldade. É muito perigoso e muito grave julgarmos à priori uma coisa que não conhecemos, que não conseguimos perceber, que não temos os dados todos, nenhum de nós tem ainda hoje os dados todos e mesmo quando tivermos, provavelmente não vamos saber de facto o que se passava ou se passou naquela família.
A relação dos pais nunca foi muito saudável, não ouvimos a mãe, a mãe está detida para interrogatório e ouvimos várias coisas …vamos ter imenso cuidado sobretudo porque não é uma brincadeira, são vidas…são vidas de pessoas que passam ao nosso lado, o dia inteiro. Nós passamos todos por imensas vidas de pessoas que estão a sofrer profundamente e não imaginamos, e, muitas vezes fingimos não ver, não é? Esse é o primeiro pensamento que nós devemos ter; como é que nós estamos a olhar para as pessoas? Olhar umas para as outras, nós, cada um de nós, na nossa responsabilidade de todos os dias. O estado em geral nas suas ferramentas e nos seus instrumentos. O que é que estamos a fazer para que não se chegue a este extremo? E porque estamos a chegar a estes extremos? Essa é a grande pergunta e é o que pode ser a nossa conversa, até conversa de café, Portugal parou, toda a gente falava sobre isto…
Ficamos cegos e nós não nos podemos esquecer, digo muitas vezes isto e não me canso de dizer, o simples olhar para a outra pessoa nos olhos, devolve existência e nós fazemos questão de não ver imensas coisas, na rua, no trabalho, nos sítios onde estamos, e com o desespero que foi acumulando nos últimos anos em Portugal, existe muita gente desesperada, algumas pessoas a disfarçar muito bem, outras pessoas a não disfarçar de todo, outras pessoas a abusar e a aproveitar-se disso para se fazer de desesperado, mas nós não devemos nunca esquecer desta coisa extraordinária que é diferença de sermos humanos em relação aos outros animais, não é a inteligência, é a dignidade. É a forma como nós podemos interligar mo -nos uns aos outros, acrescentando raciocínio a isso.
Eu acredito que quando as pessoas estiverem a falar do que se passou esta semana, temos sempre que pensar em dignidade, e no outro, e não somos animais isolados, somos animais gregários e vamos ter cuidado com o julgamento… e sobretudo isto alerta-nos e há sempre coisas para aprender quando nós detectamos e já nos detectamos com vários, com dramas sociais que não nos dizem respeito, no sentido que não é ninguém que a gente conheça mas aconteceu, aconteceu aqui, aconteceu em Portugal em 2016. Então se calhar isto deve-nos servir pura e simplesmente para pormos a mão cá dentro e começarmos a pensar, o que é que eu estou a fazer em relação às pessoas que eu conheço? O que é que eu estou a fazer em relação aos ruídos que ouço? Em relação às imagens que vejo? Em relação aos outros? Não estou a perguntar à minha vizinha se aquilo que ouço é animação lá em casa ou não? Até que ponto nós nos devemos meter…intrigar ou prestar atenção? São coisas diferentes. E nós temos uma enorme dificuldade em distingui-las porque somos um povo que gosta de saber, gosta de comentar, é cusco, é curioso, mas, não podemos também ignorar. "
M.P.C.
(Cont)