Aquela manhã outonal acordou resmungona,
cara
enfarruscada , nauseada,
esgazeada
cabelo desmanchado ,
tecido do roupão amarfanhado, eriçado.
Crescia a suspeita de
que rega
abundante chegaria
em breve...
e a terra até já
cheirava a molhada.
À medida que a manhã cerrava
o punho,
as gentes corriam para a azáfama quotidiana.
Quando a campainha soou sibilante,
a massa de estudantes dirigiu-se às respetivas salas.
Um grupo de alunos parou junto à sala vinte e sete A,
Enquanto aguardavam a presença da professora;
desataram em provocações mútuas;
desafiaram-se para cenas de pugilismo
que cessavam quase
sempre de forma séria;
alguém acabava por prantear ou a gotejar sangue
e foram gritos, guinchos, risadas e gargalhadas
Uma mescla de grande vozearia, algazarra, sangria desatada
Alguns avistaram a docente, depressa
avisaram os outros, mas
nem assim a gritaria abrandou.
Ela passou cuidadosamente
para não ser apanhada
por um empurrão
eles e elas seguiram-na num tumulto,
sem mudar a organização;
perante tal cenário, a professora cruzou os braços, séria:
- Agradecia que se acalmassem! - apelou
Sem ver o pedido acatado,
a docente endereçou-os de novo à rua
e voltar a entrar como de gente se tratasse,
Num motim desconcertante e a contestar:
- Outra vez sair? Que
seca!
- Vamos passar a aula nisto ?
-Havia de ser bom !
-Cala-te seu caralho!
- Não me mandas calar, burro!
- Ainda não te calaste, o teu dia de falar era ontem!
Entraram na sala com mais correção.
Paulatinamente foram as vozes baixando
como maré vaza
silenciando.
A professora deu indicações:
- Abram os manuais no capitulo das energias ,
façam a leitura em
silêncio das duas primeiras páginas
seguido de resumo, utilizando palavras vossas.
Novo protesto; fazer síntese? que aborrecimento!
coisa dificil de elaborar! Que chatice! Mais valia ter
ficado em casa!
-Professora, posso ir à
casa de banho? – desatou um rapaz alto, de cabelo claro.
-Por favor, Gabriel , és
sempre o mesmo, já avisei do teu
limite
de idas à casa de
banho. Eu atrasei-me, aproveitasses o tempo
para esse efeito. E já
sabes as regras!
Depois, segurou o livro e ignorou o respetivo discente:
- Mas professora, preciso de ir urgentemente à casa de
banho! - insistiu num tom jocoso e de
seguida lançou olhares zombeteiros à
turma, em busca de compadrio.
- Professora, deixe o pequeno ir à casa de banho, coitado! - exclamou uma rapariga rindo para Gabriel.
- É que ele pode
fazer nas calças. - acrescentou outra.
- Olhe, se isso acontecer a sra é a responsável - diz outro
muito divertido.
Risada da turma. A professora ignora as infelizes
manifestações.
Resolve iniciar a leitura de um parágrafo que considerou
interessante e esperou que a rapaziada fizesse silêncio. Em vão.
Começaram a falar uns com os outros a propósito do mesmo
assunto.
Gabriel voltou à
carga:
- Senhora, é que
estou mesmo apertadinho! - simulou desespero.
- Não conheces as
regras? - lembrou a professora.
- Eu conheço as regras mas já esqueci algumas delas... –
colocou um ar inocente.
- Gabriel, já falta
pouco para fazer participação.
- Não
professora, já estou tapado! - dramatizou o momento - mais
uma e vou para casa, a minha mãe mata-me
e o meu pai esfola-me!
Nova risada geral.
- Professora deixe o Gabriel ir à casa de banho e resolve logo o assunto,
depois, alguns professores deixam. – um deles trocista e
arrogante.
- Em primeiro lugar,
a professora aqui sou eu, em segundo lugar, as
regras foram feitas para cumprir, servem para regular o comportamento
humano. As duas páginas já foram lidas? Estou à
espera!
- Não! - disse a
maioria da deles.
- Só mais cinco
minutos, para iniciarem os resumos e avançarmos para
a questão de aula.
Uma chuva de protestos por julgarem ser pouco tempo.
- Professora, vou
fazer chichi aqui! - ameaçou Gabriel novamente num tom dissimulado.
- Faz, faz , quero ver ! - acrescentou outro.
Riram-se todos novamente.
Gabriel de olhos
esbugalhados.:
- Por favor, professora!
A turma desfez-se em riso, surgiu nova oportunidade para
conversas,
provocações, brincadeiras .
- Gabriel, imediatamente para o seu lugar. Chega desta
palhaçada !
- Professora, o Pedro está-se a rir de mim! -lamuriou-se o
aluno inventando zanga.
Gabriel fixa oblíquo
os olhos da professora enquanto
retoma o seu lugar,
vai olhando para os
colegas e rindo:
- Olhe, olhe o Filipe... estão todos a rir de mim!
- Não é esse o teu objetivo
? Ser bobo da corte e deixar a turma rir às tuas custas?
- Não senhora! Agora
é o João,
veja, olhe!
- Vê se te calas,
estúpido! – atira o João.
- Eu não fiz nada e ele chama-me nomes?
- Sei que estão a perder tempo com brincadeiras sem nenhum
sentido e eu vou avançar.
-Espere, espere professora ! - pediram alguns.
- Oh, perdi o caderno! – explicou Gabriel aparentando
preocupação.
- Perdeste, então
trata de o encontrar o mais breve possível, caso contrário, terás um zero como nota, tenciono avaliar os
cadernos na próxima aula.
- Então não faço
resumo nenhum.
- Fazes sim, pede uma folha a um colega e começa a trabalhar! – ordenou a docente.
-Ele tem o caderno, sim, está dentro da mochila! - disparou o Carlos.
- Nao tenho nada! - respondeu mal humorado.
- Tens sim, tonto de merda, agora ele vai chorar!
- Moderem a linguagem por favor, já ando a chamar à atenção
desde o início do ano. Tratem-se bem e com respeito!
- Eu vou chorar, seu caralho!?
- Gabriel, eu acabei de falar desse assunto! Por favor,
estás numa sala de aula! Andas sempre a pisar o risco, vê lá!
-Desculpe professora, mas deixe-me ir à casa de banho.
-Muda de assunto, rapaz! Chega dessa ladainha e o trabalho
que mandei fazer em casa?
- Oh , nao fiz .
- Vou tomar nota dessa falha. E terás zero!
- Eu trago na próxima aula!
- Já passou o prazo
de entrega.
- Possa professora, só passou duas vezes...
- Comigo não existe terceira, quinze dias, Gabriel! Da última
vez nem entregaste!
-A senhora é má! - resmungou
- Nem vou comentar !
- Há professores que
são bonzinhos e aceitam e até aumentam a nota! E digo-lhe mais, até faço
copy past e eles também aceitam e nem me perguntam se li o trabalho ou
não ! Está a ver!
- Eu sou a professora
má. Ponto final!
-Obriga-nos a fazer resumos!
- É verdade
professora, ele tem razão, exige muito de nós !
- A professora que me dê negativa, tanto faz, já sei que
passo de ano na mesma.
- Basta dessa conversa, agora faz o teu resumo.
- Eu só faço se for à casa de banho.
- A minha resposta mantém-se.
- Tira as calças e
mostra a bichota.
Naquele momento fez-se silêncio. A professora disse:
- Eu ouvi a frase e toda a gente ouviu, ela veio do fundo.
Não foste tu, Tiago?
- Não !- respondeu aterrado.
- À esquerda e à direita do Tiago, todos negaram.
- Eu tenho a impressão que foi o Tiago...- rematou a
professora.
- Não, não fui eu, nem sei quem foi - os braços
apontaram para um lado e para o outro. E desatou a chorar convulsivamente, -
juro que não fui eu, nem sei quem foi.
A docente pediu à calma a todos. Tiago continuou debulhado
em lágrimas. Colocou ambas as mãos no
rosto e continuou num pranto intenso.
- Tem calma, rapaz! Se não
foste tu, porque ficas assim?
Quando a turma atingiu um nível de tranquilidade
satisfatório, a professora,
viu o aluno , lá
atrás, muito folgazão.
- Tiago, vem cá à frente, por favor.
- Para quê?
-Quero falar contigo.
- Nao fui eu ! - e desatou novamente num choro convulsivo.
- Vem cá ! – tornou a professora tranquilamente
Houve um relativo silêncio, então criou-se
uma atmosfera íntima entre eles:
- Foste tu que proferiste aquela frase, não foi? – murmurou
a docente
- Não, juro que não
...e a professora vai mandar recado para casa?
- Não, prometo que não, diz a verdade, mais nada! Confessa!
- Vai escrever na caderneta?
- Já te respondi,
sê sincero e isto fica entre nós.
- Fui eu que disse! - declara por receio, não
arrependimento.
- Mais uma e uso mesmo a caderneta. -admoestou-o
- Peço desculpa, mas se os meus pais sabem… apanho castigos
- Vai –te sentar!
Enquanto caminhava em direção ao lugar, ria triunfante para
Gabriel.
PN
Nota: Baseado em factos reais
Breve nota:
1- O tema causa-me náuseas
2- Este sistema já bateu no fundo do poço e todos os intervenientes fingem não ver, é mais fácil.
3- A boa educação vem de casa , os professores são formadores ou deviam ser.
4- Encarregados de E., professores , funcionários; todos estão a falhar demasiado, o bom exemplo vem de cima.
5 - Os alunos reflectem a sociedade em que vivemos.
6- Atenção à comunicação social, quando faz publicidade a certas escolas, desconfiem.
7 - Existem alunos muito problemáticos porque é que as escolas não apostam na Saúde Mental! Na Recuperação destes alunos?
8- Professores não devem infantilizar as crianças , elas merecem mais respeito, depois,cada vez mais apresentam atitudes estranhas, em nada adequadas à sua faixa etária .
9 - Os professores são uma classe desunida, comem-se vivos nas reuniões mas nas aulas repreendem os discentes, porque os miúdos não sabem trabalhar em grupo. Só querem ter no seu grupo os amigos mais chegados.
10 - Os bons professores , muitas vezes são negligenciados porque defendem uma política diferente daquela que o órgão de gestão da escola defende. Liberdade de expressão ? Ou pequenas ditaduras ? Em nome de Deus ou do diabo?
11 - Currículos desatualizados ou desfasados das vocações.
Acrescentei mais estes pontos porque considero que merecem atenção por parte de todos. Quanto mais verdadeiro e profissional, mais açoitado e crucificado! Quanto mais rico a nível de bens materiais, protagonismo, mas não cumpre as suas funções, mais aplaudido, mais bajulado. Há órgãos de gestão que gerem mal, contudo atribuem cargos para comprar e calar a verdade, e, há mais ... eu fico por aqui!
Grata pela atenção .