domingo, 23 de dezembro de 2018

Verdadeira Demonstração de Amor


A mão afastou a nuvem de mansinho
e o rosto sorridente aflorou à janela do presente;
Lembranças remetidas para o lugar do esquecimento,
aquelas que despedaçam, pungem, fazem tremer…
devem ficar por lá; no próprio entorpecimento
deixá-las; poalha dissolvida no tempo.
O milagre torna-se real e reconhece de novo
um rosto familiar e aplaude veemente;
Alguém abriu portas e foi mais além;
debateu-se por entre fendas, fisgas, frinchas
gretas ásperas…
e assim foi puxando para a luz quem na escuridão se perdeu
O amor andou próximo, soube? Sentiu?
Ocasiões houve , em que as ervas daninhas imiscuíram-se
na vegetação sã, rondando, entrelaçando, asfixiando e
criando enormes confusões.
As mãos foram desatando o nó que as apertava,
impercetivelmente  uma das mãos foi-se perdendo da outra,
a mais velha tornou-se  frouxa, cansada, descrente…
os olhos cegaram; espetos de galhos secos, mato enganoso
meteu-se de permeio…
A outra, sempre vigilante, seguiu a rota torta da mão resvaladiça.
Hoje, talvez quis Deus, que mais uma personagem fizesse parte
 da história; pequena de altura, grande em sabedoria
sem aparatos de pujança, sem verniz de rainha,
modéstia comovente, pitada acutilante de humor.
As vicissitudes prenderam e aprisionaram quem desejaria ter voado…
A misteriosa figura trouxe com ela um sol
que só alguém avista; grandioso na imaginação…
desperta muito interesse,
atenção, provoca palmas e vivas,
bem-estar e deslumbramento
gritinhos de exclamação.
E quem trouxe esse “milagre”?
A memória reaviva e reconhece; as mãos reencontram-se e atam-se uma à outra;
Aquela que esperou pacientemente,  conquistou mais uma vez o seu lugar
num coração algo "distanciado"…
Chegou a hora; saída do “coma”;
 a benévola mão
inadvertidamente sujeita à rejeição, é outra vez considerada;
Agora sim, o sentimento é por inteiro; de novo amada.

PN 

Amigos, desejo-vos  Boas Festas! Divirtam-se em Família! Sejam cúmplices nos Afectos!  



quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Mãe, eu tenho tantas lágrimas apertadas nos olhos...



Nota: Frase a pensar em muitos filhos que sofrem em silêncio  e que as mães nem imaginam. Alguns deles  riem  para não chorar. Para todos os efeitos, são alegres, bem dispostos, aparentemente, apenas aparentemente e só aparentemente, felizes. 

Para esses, que passam por nós, despercebidos; MUITA ESPERANÇA.

Boas Festas e até já. 

PN

domingo, 2 de dezembro de 2018

Desterro


E desenterro-me numa palidez chocante,
Ziguezagueante !
Busco sair do espesso enredo
Tacteando as paredes molhadas e frias,
Arrancando o lodo com
As unhas em sangue
Os olhos em chama, mortiços
Febris de desencanto
E as imagens passam num relâmpago
Nem lhes consigo tocar
Os dedos ardem por ti!
Apaziguadores, fraternos.
Nenhum laço nos aperta,
Nenhum rio aproxima,
Os lobos afastaram-nos e tu quieto ficaste?!

PN

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O covil


São bruxas com dentes de riso cínico;

monstrinhas endiabradas mexeriqueiras,

com a vida dos outros naquelas bocas de tesoura,

cabeças piolhentas de invenção,  abaixo de cão.

Aquelas cadelas fracas derrapam a  velocidades sem freio

Não existe reciclagem que as salve, cérebros acéfalos …

Limitam-se a consumir livros e mais livros, numa sofreguidão sem nenhuma expressão;

e não limpam o pó preto dos móveis, das estantes, das cadeiras, do chão

Sopram a poalha granulada das mesas, para cima;

com sorte o gato sai da história e lambe por engano os ácaros de dentes afiados,

continuam as leituras, olhos em bico, olhos traiçoeiros,  a  instruírem-se; as ratazanas;

 é moda, é elegante; verniz pelintra rachado

Ler e arrotar com a boca podre de satisfação;

 adoram autores, livros e livrarias, basta um mexerico e  as baratas tontas correm

em todas as direções, elas querem avidamente saber!

 De repente o livro jaz abandonado sobre a secretária  

Armadas em doutoras cultas, à procura de histórias do alheio,

a dar palpites sabedores e a trepar a vedação para o desconhecido, que atrevimento!

 Ignorantes, carregam um poço de miséria às costas, cujas águas cheiram muito mal

Revestem-se de falso brilho, deslizam com língua de cobra a cada canto, tudo para chegar em lugar primeiro;

a tentar seduzir com aqueles olhos bicudos de enxofre e maldade pura;

maldade crua mas  bem camuflada à mais incauta das criaturas inocentes

E, lá andam sobre os andaimes, a esconder as dívidas que lhes vergam a espinha;

Convencer através da indumentária faustosa e a lixeira a vir bater-lhes à mão...

Puta que as pariu, negra sorte cruzar-se com semelhantes entes; ratoeiras

Infestam o ar com o bafo daquelas vozes desengonçadas, mal resolvidas, altifalantes

Traiçoeiras, tiranas, acham-se senhoras, madames, rainhas;


É ver aquelas mosquinhas babarem felizes, a estremecer de gozo

Enfartadas na própria aleivosia e ignorância…
Assaltam as ideias dos outros e vendem como sendo propriedade sua,

dão ordens contraditórias, chafurdam na lama … e é tudo o que sabem fazer!
Coitadas!
  
PN





domingo, 21 de outubro de 2018

Aula número 100


Aquela manhã outonal acordou resmungona,
cara  enfarruscada  , nauseada, esgazeada
cabelo desmanchado ,
tecido do roupão amarfanhado, eriçado.
Crescia a suspeita  de que  rega  abundante chegaria
em breve...
e a terra até já  cheirava a molhada.
À  medida que a manhã cerrava o punho,
as gentes corriam para a azáfama quotidiana.
Quando a campainha soou sibilante,
a massa de estudantes dirigiu-se às  respetivas salas.
Um grupo de alunos parou junto à sala vinte e sete A,
Enquanto aguardavam a presença da professora;
desataram em provocações mútuas;
desafiaram-se para cenas de pugilismo
que cessavam  quase sempre de forma séria;
alguém acabava por prantear ou a gotejar sangue
e foram gritos, guinchos, risadas e gargalhadas
Uma mescla de grande vozearia, algazarra, sangria desatada
Alguns avistaram a docente, depressa
avisaram os outros, mas
nem assim a gritaria abrandou.
Ela passou cuidadosamente
para não  ser apanhada por um empurrão
eles e elas seguiram-na num tumulto,
sem mudar a organização;
perante tal cenário, a professora  cruzou os braços,  séria:
- Agradecia que se acalmassem! - apelou
Sem ver o pedido acatado,
a docente endereçou-os de novo à  rua
e voltar a entrar como de  gente se tratasse,
Num motim desconcertante e a contestar:
-  Outra vez sair? Que seca!
- Vamos passar a aula nisto ?
-Havia de ser bom !
-Cala-te seu caralho!
-  Não  me mandas calar, burro!
- Ainda não te calaste, o teu dia de falar era ontem!
Entraram na sala com mais correção.
Paulatinamente foram as vozes baixando
como maré  vaza silenciando.
A professora deu indicações:
- Abram os manuais no capitulo das energias ,
façam a  leitura em silêncio  das duas primeiras páginas
seguido de resumo, utilizando palavras vossas.
Novo protesto; fazer síntese? que aborrecimento!
coisa dificil de elaborar! Que chatice! Mais valia ter ficado em casa!
-Professora, posso ir à  casa de banho? – desatou um rapaz alto, de cabelo claro.
-Por favor, Gabriel , és  sempre o mesmo, já  avisei do teu limite
de idas à  casa de banho. Eu atrasei-me, aproveitasses o tempo
para esse efeito. E já  sabes as regras!
Depois, segurou o livro e ignorou o respetivo discente:
- Mas professora, preciso de ir urgentemente à casa de banho! - insistiu num tom jocoso  e de seguida lançou   olhares  zombeteiros à  turma, em busca de compadrio.
- Professora, deixe o pequeno ir à  casa de banho, coitado! -  exclamou uma rapariga rindo para Gabriel.
- É  que ele pode fazer nas calças. -  acrescentou outra.
- Olhe, se isso acontecer a sra é a responsável - diz outro muito divertido.
Risada da turma. A professora ignora as infelizes manifestações.
Resolve iniciar a leitura de um parágrafo que considerou interessante e esperou que a rapaziada fizesse silêncio. Em vão.
Começaram a falar uns com os outros a propósito do mesmo assunto.
Gabriel voltou à  carga:
- Senhora, é  que estou mesmo apertadinho! - simulou desespero.
- Não  conheces as regras? - lembrou a professora.
- Eu conheço as regras mas já esqueci algumas delas... – colocou um ar inocente.
- Gabriel, já  falta pouco para fazer participação. 
- Não  professora,    estou tapado! - dramatizou o momento - mais uma e vou para casa, a minha mãe  mata-me e o meu pai esfola-me!
Nova risada geral.  
- Professora deixe o Gabriel ir à  casa de banho e resolve logo o assunto, depois, alguns professores deixam. – um deles  trocista e arrogante. 
- Em  primeiro lugar, a professora aqui sou eu, em segundo lugar, as  regras foram feitas para cumprir, servem para regular o comportamento humano. As duas páginas já foram lidas? Estou à  espera!
- Não! -  disse a maioria da deles.
- Só  mais cinco minutos, para iniciarem os resumos e avançarmos para
a questão de aula.
Uma chuva de protestos por julgarem ser pouco tempo.
- Professora,  vou fazer chichi aqui! - ameaçou Gabriel novamente num tom dissimulado.
- Faz, faz , quero ver ! - acrescentou outro.
Riram-se todos novamente.
Gabriel de olhos  esbugalhados.:
- Por favor, professora!
A turma desfez-se em riso, surgiu nova oportunidade para conversas,
provocações, brincadeiras .
- Gabriel, imediatamente para o seu lugar.  Chega desta  palhaçada !
- Professora, o Pedro está-se a rir de mim! -lamuriou-se o aluno inventando zanga.
Gabriel fixa  oblíquo os olhos da  professora  enquanto  retoma o seu lugar,
 vai olhando para os colegas   e rindo:
- Olhe, olhe o Filipe... estão todos a rir de mim!
- Não é  esse o teu objetivo ? Ser bobo da corte e deixar a turma rir às tuas custas?
- Não  senhora! Agora é  o João, veja, olhe!
- Vê  se te calas, estúpido! – atira o João.
- Eu não fiz nada e ele chama-me nomes?
- Sei que  estão  a perder tempo com brincadeiras sem nenhum sentido e eu vou avançar. 
-Espere, espere professora ! - pediram alguns.
- Oh, perdi o caderno! – explicou Gabriel aparentando preocupação.
- Perdeste, então  trata de o encontrar o mais breve possível, caso contrário, terás  um zero como nota, tenciono avaliar os cadernos na próxima aula. 
- Então  não  faço  resumo nenhum.
- Fazes sim, pede uma folha a um colega e começa  a trabalhar! – ordenou a docente. 
-Ele tem o caderno, sim, está  dentro da mochila! - disparou o Carlos.
- Nao tenho nada! - respondeu mal humorado.
- Tens sim,  tonto de  merda, agora ele vai chorar!
- Moderem a linguagem por favor, já ando a chamar à atenção
desde o início do ano. Tratem-se bem e com respeito!
- Eu vou chorar, seu caralho!?
- Gabriel, eu acabei de falar desse assunto! Por favor, estás numa sala de aula! Andas sempre a pisar o risco, vê lá!
-Desculpe professora, mas deixe-me ir à casa de banho. 
-Muda de assunto, rapaz! Chega dessa ladainha e  o trabalho que mandei fazer em casa?
- Oh , nao fiz .
- Vou tomar nota dessa falha. E terás zero!
- Eu trago na próxima aula!                 
- Já  passou o prazo de entrega.
- Possa professora, só passou duas vezes...
- Comigo não existe terceira, quinze dias, Gabriel! Da última vez nem entregaste!
-A senhora é má! - resmungou
- Nem vou comentar !
- Há  professores que são  bonzinhos e aceitam e  até aumentam a nota! E digo-lhe mais, até  faço  copy past e eles também aceitam e nem me perguntam se li o trabalho ou não ! Está  a ver!
- Eu sou a professora  má.  Ponto final!
-Obriga-nos a fazer resumos!
- É  verdade professora, ele tem razão, exige muito de nós !
- A professora que me dê negativa, tanto faz, já sei que passo de ano na mesma.
- Basta dessa conversa, agora  faz o teu resumo.
- Eu só faço se for à casa de banho.
- A minha resposta mantém-se.
-  Tira as calças e mostra a bichota.
Naquele momento fez-se silêncio.  A professora disse:
- Eu ouvi a frase e toda a gente ouviu, ela veio do fundo. Não  foste tu, Tiago?
- Não !- respondeu aterrado.
- À  esquerda e à  direita do Tiago, todos negaram.
- Eu tenho a impressão que foi o Tiago...- rematou a professora.
- Não,  não  fui eu, nem sei quem foi - os braços apontaram para um lado e para o outro. E desatou a chorar convulsivamente, - juro que não fui eu, nem sei quem foi.
A docente pediu à calma a todos. Tiago continuou debulhado em lágrimas. Colocou ambas  as mãos no rosto e continuou num pranto intenso. 
- Tem calma, rapaz! Se não  foste tu, porque ficas assim?
Quando a turma atingiu um nível de tranquilidade satisfatório,  a professora, 
viu  o aluno , lá atrás,  muito folgazão.
- Tiago, vem cá à frente, por favor.
- Para quê?
-Quero falar contigo.
- Nao fui eu ! - e desatou novamente num choro convulsivo.
- Vem cá ! – tornou a professora tranquilamente
Houve um relativo silêncio, então criou-se
uma atmosfera íntima entre eles:
- Foste tu que proferiste aquela frase, não foi? – murmurou a docente
- Não,  juro que não ...e a professora vai mandar recado para casa?
- Não, prometo que não, diz  a verdade, mais nada! Confessa!
- Vai escrever na caderneta?
- Já  te respondi, sê  sincero e isto fica entre nós. 
- Fui eu que disse! - declara por receio, não arrependimento.
- Mais uma e uso mesmo a caderneta. -admoestou-o
- Peço desculpa, mas se os meus pais sabem… apanho castigos
- Vai –te sentar!
Enquanto caminhava em direção ao lugar, ria triunfante para Gabriel.

PN
Nota: Baseado em factos reais

Breve nota:
1- O tema causa-me náuseas
2- Este sistema já  bateu no fundo do poço  e todos os intervenientes fingem não  ver, é  mais fácil. 
3- A boa educação vem de casa , os professores são  formadores ou deviam ser.
4- Encarregados de E., professores , funcionários; todos estão  a falhar demasiado, o bom exemplo vem de cima.
5 - Os alunos reflectem a sociedade em que vivemos.
6- Atenção à  comunicação social, quando faz publicidade a certas escolas, desconfiem. 
7 - Existem alunos muito problemáticos porque é  que as escolas não apostam na Saúde Mental! Na Recuperação  destes alunos?
8- Professores não  devem infantilizar as crianças , elas merecem mais respeito, depois,cada vez mais apresentam atitudes estranhas, em nada adequadas à  sua faixa etária .
9 - Os professores são  uma classe desunida, comem-se vivos nas reuniões mas nas aulas repreendem os discentes,  porque os miúdos não  sabem trabalhar em grupo. Só  querem ter no seu grupo os amigos mais chegados.
10 - Os bons professores , muitas vezes são  negligenciados porque defendem uma política diferente daquela que o órgão de gestão  da escola defende. Liberdade de expressão ? Ou pequenas ditaduras ? Em nome de Deus ou do diabo?
11 - Currículos desatualizados ou desfasados das vocações.
Acrescentei mais estes pontos porque considero que merecem atenção por parte de todos. Quanto mais verdadeiro e profissional, mais açoitado e crucificado! Quanto mais rico a nível  de bens materiais, protagonismo,  mas não cumpre as suas funções, mais aplaudido, mais bajulado. Há  órgãos  de gestão  que gerem mal, contudo atribuem cargos para comprar e calar a verdade, e, há  mais ... eu fico por aqui!
Grata pela atenção .





sábado, 29 de setembro de 2018

O paraíso dos pinóquios



 A hora do recreio é sempre de grande euforia; risadas, gritos, berros, empurrões, ameaças de agressões, rasteiras, murros, correrias e também vasculhar sofregamente o objeto pequeno, cujo visor, seduz e atrai a presa mais firme.

Até que um espertalhão,
com ares de rufião
sobe um   palanque e toma a palavra em altos brados:
- Ei malta, atenção! Venham cá!
- O que é que tu queres, ó caramelo? - pergunta outra voz no mesmo tom.
Rapazes e raparigas, numa falácia de abelhas vai sucumbindo
aos apelos daquele que parece um dançarino vivaço:
- Calem-se, pá! Eu quero falar! - grita no auge da fúria.
- Então, diz tonto!
O outro, impetuoso, lança-se para baixo, a mão em punho cerrado:
- Repete o que me chamaste e quebro-te esses dentes rançosos, porco de merda!
Os outros agarram-no e puxam-no:
-Vai para o teu lugar, rapaz! e içam-no ao cimo do estrado de madeira.
Enquanto, cá em baixo, um outro:
- Não lhe ligues, ele é que é um  porco de merda. Agora que nos
representa, acha-se o máximo mas tem participações…
- Os professores bajulam-no e ele faz o que quer dentro da sala!
- Nem todos, alguns fazem participações, nem todos aturam aquele cabrão!  
Entretanto,
a onda de estudantes cede e chega-se  para mais perto do moreno:
- Ouçam! - de nada lhe valem os apelos, e entre dentes;
“grandes cabroes, filhos da puta...”
Chovem assobios, palavrões, risadas, conversas paralelas.
Apesar da proximidade, ninguém lhe presta atenção. 
Cá  de baixo, alguém atira um apito, ele agarra-o
e mete-o apressadamente nos lábios grossos,
o som agudo fá-los silenciar, alguns queixam-se dos
tímpanos.  O moreno espertalhão aproveita depressa
a brecha e apressa-se a dizer:
- É para comunicar que se aceitarmos as aulas de substituição vamos
ser premiados.  
- Nós não queremos aulas de substituição, antes de prostituição,
e se for com a prof. de  Ciências… ela também dá prostituição, não dá?
Novas risadas, a celeuma instala-se de novo.
- Medalhas? Diplomas? É isso? - berra outra voz.
- Ó rapaz, impõe-te, caraças! – uma voz censura o anunciante.
O moreno sopra o apito, novas queixas dos tímpanos.
- Calem, deixem-me falar! 
o prémio são telemóveis,  vídeos jogos, entendem?
- Sendo assim, já aceitamos essa porcaria de aulas mas
com uma condição,  terminadas as tarefas propostas,
nós  queremos brincar com os telemóveis. 
- Isso depende do professor de Substituição- esclarece o moreno.
- Eu não gosto da escola e muito menos de professores de substituição!
- E quanto aos vídeos jogos?
- Podem levar para casa ou usar na ludoteca! - explica o moreno.
- Era essa a novidade que querias dar? - grita um deles.
- E não é bom? - acrescenta o moreno.
- O bom, bom mesmo, era não haver mais aulas hoje! – e cai um  tumulto
clamoroso.
- Melhor que isso, era não haver mais aulas de nada! Ahhhhh! Fazermos o que nos
apetecesse.
-Sem mãe, nem pai, nem professores a mandar.
A vozearia tinha atingido o seu ponto máximo.
- Na minha casa quem manda é meu pai; tudo treme à frente dele.
Quando bebe, dorme, é um descanso. Depois acorda mal disposto. Ui, nem te digo nada.Bate em todos, fugimos de casa e de vingança parte loiça. Uma fera! É de loucos! Florido pá! No amontoado de alunos, o baixinho vai se expressando aos gritos para se fazer ouvir.
- Estás lixado, caraças! eu também estou, meu pai tem outras mulheres, até já  tentou matar a minha mãe com uma faca de cozinha, o gajo é  nojento. O meu caso está a ser analisado pela comissão de proteção de menores...
- Forca-se! Porra! Não te invejo a sorte!
- Os meus pais separaram-se quando eu era bebé. A professora disse à minha mãe
que deve ser por isso que sou como sou – pronunciou-se outro que ouvira a conversa.
- Como é que tu és?
- Sou bom aluno mas não me apetece estudar, notas baixas, se quisesse facilmente tirava cinco a tudo! O meu pai até já me comprou um carro para quando eu fizer dezoito anos.
- Mas os teus pais são ricos?
- Sim, somos uma família com dinheiro. 
Enfrentam-se os três em silêncio no meio daquela vozearia grosseira.
Subitamente, por detrás do aglomerado, abre-se a porta:
- Fujam depressa! Corram! A funcionária! - indica o moreno apavorado.
Disparam numa rajada de pássaros, ante o olhar estupefato da empregada que murmura para si mesma:
- O que é isto? Perderam a cabeça? Eu bem me parecia ter escutado  um ruído fora do normal, esta canalha! E consultando o relógio, continua:
- Ainda bem que está quase a tocar! Já vão entrar, não há quem possa com este tipo de pequenos. Qualquer dia meto baixa! Ai a minha cabeça!

PN 

(Inspirado em factos reais)

Nota : Se encontrar qualquer gralha, avise por favor. Obrigada.

sábado, 15 de setembro de 2018

"A miúda do café "

O "lugar" desta entrevista não é aqui.Há espaços meus, próprios para este tipo de publicação,  de qualquer forma, a pertinência do que é dito, apaixonou-me de tal forma que não resisti à tentação. Vale a pena ler! Faça isso!


- Qual a história desta canção?

ML- É a história de uma miúda que trabalha num café e acho que tem a ver um bocadinho com aquilo que nós vivemos, de imagem, aquela pressão da imagem, que nós temos que estar sempre espetaculares e fabulosas, com o cabelo arranjado e todas maquilhadas e todas produzidas e só assim é que parece que tens a atenção de alguém. Nós quisemos nesta miúda do café e o vídeo explica isso, é uma miúda normal que está a trabalhar, num dia normal e entra um rapaz que ela acha que é o James Dean, que está igual ao James Dean, ele não lhe liga nenhuma porque ela é uma miúda normal, como todas nós quando acordamos de manhã. Então ela decide arranjar-se e tornar-se a mulher que supostamente é aquilo que todas deveríamos ser e ele começa a vê-la e começa a ter algum interesse por ela. Isso não chega para ela. Então ela dá-lhe um grande “baile” e vai-se embora. A mensagem é, estarmos seguros daquilo que somos e não daquilo que aparentamos ser, eu acho que é mais importante; mais do que aquilo que tu tens e daquilo que tu aparentas, é o que tu és e isso não há maquilhagem que te disfarce.

Eu acho que tenho vindo a descobrir que não sou nada politicamente correta, portanto acho que há muita coisa que não está bem, e que tem de ser alterado, eu sou uma pessoa indignada com uma data de coisas, mas não sou revoltada, e não vou fazer nada? Quero fazer alguma coisa e apercebi-me disso nas letras que escrevo, imagina que a letra era triste, eu chegava ao final da letra, tinha de alguma forma acabar aquela letra com uma nota positiva e comecei a pensar sobre isso; isto é uma limitação a nível artístico brutal, porque há histórias que são só tristes, são só tristes e acabam ali. Não há nada, nem com pó perlimpimpim, de repente aquela história fica feliz. Há histórias que são só tristes. E eu tento de uma forma à Disney, dentro da minha cabeça, acabar sempre com uma nota positiva para quem me estiver a ouvir, porque eu acho que há sempre a possibilidade duma história triste virar uma história feliz.

Apercebi-me muito cedo que não tinha necessidade que ninguém me dissesse que sim. A única pessoa que tinha que dizer sim, era eu. Mesmo que o mundo inteiro me dissesse que não. Se eu acreditasse que sim, não havia ninguém que fosse mais forte, que tivesse um não mais forte que o meu sim. Não há e não me sentia menor, porque não estava a tentar ser ninguém. Porque não conseguia. Não estava a tentar ganhar nada porque é isso que eu digo aos meus filhos muitas vezes, eu acho que na vida não perdes, ou ganhas ou aprendes. Com dois filhos menores, os pais a trabalharem juntos, não é fácil mas consegues fazer as coisas. O tempo parece sempre pouco para tudo, exceto quando tu utilizas bem. A prioridade são sempre os meus miúdos e as pessoas que trabalham há minha volta sabem disso, há certas coisas que são regras. Eu não trabalho no dia de anos dos meus filhos. Há certas coisas, pela tua profissão ou pelos timings que eu não deveria fazer mas eu faço porque são os meus filhos, como tirar férias na pior altura de sempre. Eu vou tirar, porque eles não vão voltar a ter esta idade. Tens um maior volume de concertos mas tens que gerir e tens que pensar; são concertos, é óptimo, é a nossa vida, queremos mostrar a nossa música mas são os meus filhos, não há comparação possível. A minha filha tem 10 anos e tem aulas daquilo que ela quer, ela gosta de ginástica, gosta de dança. Está na idade de experimentar tudo, é nesta idade que se experimenta tudo, não acho que seja bom definir ou deixar que as crianças se definam quando são crianças e nós só temos uma vida, quem é que sou eu, mesmo que seja mãe dela para decidir o que está correto. Qual o caminho normal d'uma vida de uma pessoa? É fazer o décimo segundo ano? é  ir trabalhar? é  casar? é  ter filhos? Isso é definição de sucesso na nossa sociedade. O sucesso para mim não é isso.



Portanto, não é isso que passo aos meus filhos. Ter sucesso não é ter filhos, não é estar casado, não é sequer teres uma relação. O sucesso é ser feliz. Até podes estar a trabalhar e o teu trabalho é limpar lixo, o teu trabalho é estar sozinha, a tua vida toda a compor uma música no teu estúdio. Tu és feliz. És uma pessoa bem sucedida, que interessa se tens uma relação há cinquenta anos? Mas depois para os outros que não têm, os outros sentem-se uns falhados. Eu sou uma falhada porque não tenho uma família, não tenho filhos, tenho uma profissão que até nem gosto muito, se calhar adoro a minha profissão mas como não ganho muito dinheiro, os outros acham que eu não sou uma pessoa de sucesso. Porquê? É quase como tu perguntares a alguém, "- o que é que tu fazes?" -"Trabalho num café. " -"Ai é! Ah, está bem.”  Como se fosse....percebes?...

 Estive a falar com uma pessoa que tem um banco, tem montes de dinheiro e não faz nada daquilo que quer. Sabes porquê? Todos os dias tem que de ir trabalhar para não perder dinheiro.



Voltando à minha filha, ela tem aulas de muita coisa e quando ela decidir ser aquilo que ela quiser, até pode mudar aos trinta anos, aos quarenta e dizer; "- Olhe, Tirei estes cursos todos mas na realidade o que eu quero mesmo fazer é ser tratadora de golfinhos " "- Então vai filha".



Os meus filhos estão sempre a ver-me, eu acho que eles o direito de ter um descanso da mãe. Eu acho que a mãe que eles querem não é aquela que está a cantar e quando estou em casa nem quero mostrar-lhes nada do que eu fiz. " -Olha a mãe na televisão, olha a mãe a fazer isto"... Não quero!