A manhã, fruto de um parto prematuro
decidiu soltar-se, qual égua, a pular do bucho da mãe;
Uma criança traquina, fios de oiro a saltitar, na
aragem fresca matutina;
correu ruas, pintou paredes, trepou telhados.
Havia aromas suaves a entrelaçarem-se uns nos outros;
Inebriantes e festivos.
Subitamente a porta de uma cabine telefónica abriu-se,
um homem entrou
retirou o auscultador do gancho
e digitou o número
- Sim? – atendeu uma voz feminina
- Hum? É a Graça? – a voz denotou alguma certeza
- Não é não!
- Importa-se de conferir o número?
- Diga.
- .. … .. ..
- Efetivamente é o meu!
- Ai estas linhas…andam a brincar comigo. Já é a
terceira vez que tento,
primeiro foi a
voz de uma criança, depois a de um homem e agora a sua…
-Então desista de tentar!
- Mais uma razão para tentar conhecê-la melhor! –
exclamou contente
- Perguntou-me se eu também queria?
Ou esse interesse todo é porque o meu tom de voz é
semelhante ao dessa senhora para quem tentou ligar?
- Pode ser… não sei qual a sua disponibilidade, se
estou a incomodar….
- Por acaso, hoje folgo…por isso…
- Apresento-me; Sou o Marco, locutor de rádio –
adiantou-se rapidamente
- Lídia.
- Bonito nome, sim senhora, e que faz a nível
profissional?
- Balconista numa loja de roupa.
- Como sou atrevido, arrisco mais uma, a Lídia é de
Lisboa?
-Sim e você?
- Idem! Até podíamos marcar um café, que tal?
- Demasiado apressadinho para o meu gosto…- respondeu
firme
- Ok, ok, ok! Esqueça. Olhe, tenho quarenta anos e a
Lídia? - continuou impaciente.
- Trinta e cinco! – respondeu lacónica
- Quer se descrever fisicamente? – disparou de rajada
- Que absurdo! Porque o faria?
- Gostaria de ficar com uma ideia da pessoa que é,
faço mal?
- Nem bem, nem mal. Qual o sentido? Importa?
- Importa, antes que eu delire e faça mil esboços a
seu respeito… a Lídia ajuda-me
a construir o seu retrato? Antecipo-me; Eu; estatura alta,
magro, moreno, olhos verdes,
cabelo escuro aos caracóis médio, barba rala, descontraído, adoro o
preto. Vê como é fácil!
- Por essa descrição… só lhe falta a guitarra para ser
cantor rock – observou com algum louvor
- Posso considerar um elogio? – mostrou-se vaidoso
- Se quiser…
- Deixe-me adivinhar, a Lídia é uma mulher da minha
altura, não, um pouco mais baixa…silhueta proporcional, cabelo comprido, liso,
olhos mel, expressivos, trigueira, rosto oval. Alegre, sedutora, extrovertida…
acertei?
- Lamento informar que se enganou; sou muito baixa,
roliça, cabelo negro quadrado, sem atrativos e nenhuma preocupação com isso. Tenho
buço mas tiro-o…
- Está a mentir! – exclamou a rir – e sabe
porquê? Todas as balconistas são
raparigas jeitosas ou mulheres bonitas. É
mais uma estratégia de marketing.
- Compreendo e é verdade mas eu trabalho na loja do
meu pai e não estou sujeita a esse tipo de escrutínio.
- Não acredito no que diz! - comentou meio desiludido.
- Acredite que é verdade! Ou procura em mim essa
senhora, qual o nome dela?
- Graça!
- Deve ser isso, essa Graça, ela é como me idealizou?
- Por acaso, é! – proferiu orgulhoso
- Bateu à porta errada! – acrescentou firme.
- Podemos nos manter em linha na mesma?
- Enquanto eu não ficar farta… que aconteceu a essa mulher?
- Não faço ideia, há uns dez anos que não sei dela. Se
casou, se tem filhos, pelo andar da carroça já se divorciou, e haverá filhos do primeiro e do segundo casamento!
- Se isso se verificar, quer dizer que ela é mais uma
irresponsável.
- Que quer dizer com isso? – a voz pareceu perturbada
- Não vê o que se passa à sua volta? O número de
divórcios é espantoso e filhos de um e de outro? Tenha paciência, que
descalabro!
- Isso é um facto! – admitiu
- É um facto lamentável, nestas ocasiões alguém pensa
nas crianças?
- Tem razão! Não tinha refletido sobre isso!
- A Graça que faz?
- É jornalista num canal de TV.
- Que havia entre você e essa Graça?
- Sintetizando; Eu estava noivo da Graça havia cinco
anos, tudo corria bem, contudo, um amigo comum arrastava uma asa por ela. Em
conversa de homens, convenceu-me a entrar em sites de namoro. E eu caí!
- Foi apanhado? Que chatice … frequentava esses meios
e ainda frequenta?!
- Apanhado mesmo, no sentido literal da palavra. Saí
da cama, enquanto ela dormia, pus-me à conversa com uma gaja e sobressaltei-me quando
pressenti um vulto nas minhas costas, colada ao espaldar da cadeira! Tentei me
defender… Como? E o histórico da conversa, uma aberração, nem parecia meu e a Graça não perdoou e o amiguinho naturalmente
deu uma ajuda.
- O que lhe deu para se meter nessas tretas?
- Curiosidade, o Ângelo tentou-me e eu fui ver de
perto … dei-me mal, ele casou com outra, não demorou muito a passar para o lado
dos divorciados! Depois deste incidente, tornei-me um viciado em relações
virtuais! Julgo que procurei a Graça em
todas as mulheres.
- Ficou preso a esse relacionamento…
- Fiquei.
- Você vai ser sempre um caso bicudo! Pobre da mulher
com quem se relacionar!
- Sei o que quer dizer!
- Ainda se mete nessas salas de namoro?
- Não, estou limpo e livre, desintoxiquei-me daquela porcaria!
- Há quanto tempo se livrou dessa praga?
- Há cinco anos!
- A que conclusão chegou dessas experiências malucas?
- Não me vou desculpar, fiz, não posso voltar atrás e
apagar o mal feito! Assumo, pelo menos assumo. Não lhe passa pela cabeça a
quantidade de homens solteiros, noivos, casados que por lá anda! E mulheres!
Acredite se quiser! É a mais pura verdade.
- Refere-se a que classes sociais? Classe baixa? Sem
estudos, sem formação?!
- Qual quê? Desde a base ao topo da pirâmide!
- A sério? – a voz soou estufecta
- Sim! Cruzei-me com todo o género de pessoas. E
casais à procura de jovens raparigas?!
- Gente como nós?
- Gente como nós os dois! o Ângelo, o tal que me
iniciou nisso, também perdeu a relação que tinha, devido ao mundo virtual e
segundo sei, continua.
- Coisa de doidos! – exclamou incisiva
- E digo-lhe mais, cheguei a entrar em sites de lésbicas
e bi, encontrei homens a se fazerem passar por mulheres, só para saberem como era
… a maioria dos homens casados, adora lésbicas … alguns até sabem que as
mulheres são… e querem continuar casados com elas…
- Porquê? Que aberração! – a voz cada vez mais pasma
- Segundo o que me contaram, não sei se é verdade, as
lésbicas não têm problemas em praticar sexo oral, coisa que a maioria das
mulheres hétero se recusa a fazer… e os
homens adoram, por isso não se importam de ser traídos.
- Por causa de sexo?! Você concorda com isso?! – no
auge do horror
- Eu concordo com a prática, desde que ambos estejam
devidamente protegidos. A camisinha existe para isso. A Lídia é contra?
- Não vamos falar agora de mim! Gente tarada! A sua
família soube disso?
- A minha família soube… o meu pai enfureceu-se
comigo, quis interditar a minha entrada em casa. A minha mãe, pelo contrário,
desculpou-me logo e passou a mão pela minha cabeça. Tem filhos, Lídia?
- Não interessa. Continue!
As mulheres são muito moles, como mães são espertas,
passam a parte pior para o pai e este coloca o capuz de demónio, enquanto elas,
são as santas… as boazinhas, quantas enlouquecem o marido ao ponto de os
colocar num manicómio? Ao ponto deles perderem a cabeça e agredirem-nas e a
culpa é sempre dos homens, os maus da fita somos nós!
- Defende homens que agridem mulheres?!
- É óbvio que não! Mas elas são terríveis, algumas
provocam mesmo as brigas …e colocam-se no lugar das vítimas e eles, os
parvalhões, engrossam a lista dos carrascos…
- As coisas não são bem assim! – atalhou descrente
- Então agora podemos marcar um encontro?
- Vou pensar no assunto.
- Mãe, já vou para a escola!
-Tem um filho?! – questionou deveras surpreso
Não houve tempo para uma resposta.
- Graça, não encontro a minha gravata! – era uma voz
masculina
- Graça?! – vociferou desorientado o locutor de rádio
Subitamente a ligação caiu.
PN