Meus olhos ardem como círios piedosos…
Ai estes olhos escancarados em noites de todas as luas,
cobertos de resina, nuvens de mudança sinalética.
Olhos febris, retina fossilizada,
putrefacção da camada vegetal das pálpebras,
cílios sacudidos pelo desassossego de um vento interior
olhos lacrimosos, sem sorte e sem norte.
Cristalino prismático, pedrado, partido, no eixo da insónia
E as pupilas dilatadas, semáforos vermelhos, estáticos,
acesos , avariados …
Na eternidade do tempo, os ponteiros gotejam à passagem
pachorrenta na curva do relógio… e derrapam até ao fundo da memória…
Sempre o mesmo cansaço, enferrujado, e as rodas da carruagem
vão estalando cobertas de artrose, e a cervical vertical não dá paz ao sono que
tarda.
E meus olhos, pobres olhos, à fornalha do lixo condenados,
a queimar, a queimar…
Atiram-lhes para cima com radioactividade pura, uma poeira
granulada, incomodativa
Socorro-me aflita de uma baforada de ar puro, de uma
qualquer boca;
um doce, um beijo sem ser enganoso, sem ser amargo, sem ser
carregado, sem ser penoso.
O sono? esse, não passa à minha cabeça descoberta, um soluço magoado sai
dos meus lábios, névoa enrolada sobe à
vista escravizada .
Debato-me, adejo e fico a aguardar enferma pela claridade da
madrugada.
PN
Pinturas de Andrew Salgado



