Artista: Cécile Desserle
Lígia, ainda estou a repensar... a remoer no último encontro; até as paredes da minha casa silenciaram ante a nova consciência de nós dois. Juntos, seria um completo absurdo. A diferença de idades, tu querias coisas, que a mim, não vibravam. Soltei a verdade, abri o jogo, só no núcleo íntimo, devia-te isso, devia-me isso. Fui surpreendido, subitamente as minhas palavras lavraram terreno ,como um incêndio, um fogo em busca de mato, de alimento. Porquê, Lígia? Porquê esse mar de lágrimas? Saltaste do teu lugar e desataste aos berros, nem me deste tempo para justificar melhor as minhas razões, agarraste a bolsa e bateste com a porta na minha cara? !Julgo que procuraste o colo da tua mãe e logo, logo, a dor torna-se passageira. Oh, Lígia, era previsível o desfecho! É fantasia minha; ou a causa desse dramalhão é mesmo o fim deste hábito que impusemos a nós mesmos? Não pode haver outra razão ! Sabemos ambos que não há ! Ou então choras por outro motivo que desconheço. A falta de interesse, o clima pálido que nos vestia, cada um voltado para os seus interesses! Ao pequeno almoço, ocasião para nos olharmos e dialogarmos, o pouco tempo, os corpos perto, as almas distantes; eu a ler o Diário de Notícias, tu entretida ao telemóvel! Quando tentava abordar algum assunto que me perturbava, tu respondias com o que observas nos murais dos teus amigos! Por favor, Lígia! Um beijo apressado e cada um desatava a correr porta fora para os respectivos empregos. Felizmente não tivemos logo filhos . Que caminho era este? Até na hora de nos enfrentarmos nus, sem cobertas, nem lençóis, apenas dois corpos que se queriam agarrar, que se queriam apertar, que se desejavam roçar um no outro, a epiderme a chamar os lábios sorvedouros e a língua convidada a lambidelas mornas...e logo o teu brinquedo despertava, naquele som estridente e irritante ; ora, era a tua mãe... ou a tua tia, ou o teu irmão ... ou uma colega de trabalho a pedir-te explicações , ou uma amiga a querer conselhos. Faltava a desfaçatez de me dizeres na cara que a cadela lá de casa lamentava por não te ouvir e as suas vocalizações agudas e frustradas, agoniavam-te ... Lígia, a culpa era tua, eu ali à espera que tu te decidisses... como se não existisse outra ocasião mais opotuna para te ligarem . É óbvio, quando estes comportamentos se repetem , tornam-se hábitos... e depois, nenhum de nós já sequer teria forças para apanhar as sombras de um e de outro e mudar-lhes o destino. Assumimos o arrefecimento sem nos preocuparmos ou refletirmos .
Porque choraste tanto, Lígia? Nos meus olhos não havia nenhuma água para correr. Nem resquícios de mágoa ou dor , apenas senti que não tínhamos nada para dar um ao outro . A minha idade foi uma vantagem, sendo muito mais velho, sou mais racional e tive outra maturidade que um dia alcançarás e hás-de perceber a minha atitude. Amanhã, essa dor passa, passa de certeza.
Lígia, neste brando tempo, quero estar sossegado. Confesso que vou guardar tudo o que vivemos, quer em fotografias, quer na minha cabeça. O teu lugar, ninguém subtrai ou subestima .
A página virou, novo capítulo vem por aí, tempo para estar solteiro e sozinho mas quem remexer nas minhas notas, aquelas que um dia tenciono reunir em livro, encontrar-te-á de certeza.
A minha gratidão, por tudo aquilo que me fizeste sentir e no homem que ajudaste a erguer cá dentro, é imensa.
Não penses que te livras de mim facilmente, como se de um um objecto obsoleto se tratasse, que já não faz falta. Preciso da tua amizade, prezo esse sentimento, nutro por ti um grande respeito e carinho. Sobretudo, nada de confusões com outras relações do passado, eu não sou desses que te voltaram as costas, que desavergonhadamente foram próximos e posteriormente regressaram estranhos... Espero para te refazeres, terás o teu tempo. Depois disso, procurar-te-ei.
PN