Seria uma viagem tranquila, sem nenhum percalço na tarde sombria, havia uma humidade sufocante, lá em cima, as nuvens iam-se armando, agregadas, como átomos ligados uns aos outros. O sol refugiava-se entre elas, espreitava com aquele olho redondo de pirata rebelde, a cobiçar ingenuamente a vida terrena. Imaginava-o a ruminar; " Que beleza de liberdade...tanta gente a passear na rua, o coração sem aflições ou outras privações, nem contradições. Aquela gente até corre de peito aberto. Que imensa alegria, festejar assim o dia. A diferença entre eles e eu é que eu sou um rei só, mas o céu é todo meu, todo para mim, este imenso céu, pensando bem, tenho a companhia das nuvens. Todavia, é diferente! Tento apanhá- las e encontro o vazio das minhas próprias mãos. Será que lá em baixo, falam uns com os outros? E se dão bem? Ah! Invejo tamanha felicidade! Ansiava ser humano por um dia ao menos para..."
Subitamente entrou um grupo de quatro jovens, dois rapazes e duas raparigas, o autocarro seguia mais vazio que o habitual e eles foram se instalar nos bancos das pessoas mais velhas. Dois, um rapaz e uma rapariga, frente aos outros dois muito eufóricos. Julgo que a galhofa dos quatro chamou a atenção dos outros passageiros:
- Ei, essa é a minha namorada, javardo! - disse o moreno ao louro
- Então ela que saia daqui! - respondeu o louro e empurrou a rapariga para cima da outra
A namorada do moreno desatou:
- És parvo, estúpido de merda! - respingou para o louro
- Eu também quero a minha aqui! - exclamou o louro, abrindo as pernas, descontraído, peito cheio, numa atitude altaneira.
E foi feita a troca.
- Agora sim, apalpa a tua que eu apalpo a minha! - continuou o louro de mau humor
- És tão tonto, cala-te de uma vez! - ordenou a namorada do louro
- Ei, que queres? - o louro segurou o braço da namorada com força
- Deixa-me em paz, fack you !
- Vaca, se não estás bem comigo, desaparece!
- Deixa-te de cenas merdosas! - admoestou o moreno
- A conversa é com ela, não é contigo!
- Ela também é minha amiga, chanfrado do caralho!
- Tu tratas bem a tua, javardo?
- Vá, deixem-se dessas porcarias, porra!- disse a namorada do moreno
- Aquele caralho tá bem contigo? Foda-se! - tu e ele são duas bufas! - disparou o moreno
- És mesmo uma bosta de vaca! ...- respondeu a namorada do louro num riso de troça esganiçado.
- Oh, pá, acabem com essas merdices, metem nojo! - zangou-se de novo a namorada do moreno.
- Ok amor!
O moreno barbudo, que por sinal até era jeitoso, voltou-se para a namorada, agarrando-a a jeito, esmagou-a contra as costas do banco e juntando os lábios dele aos dela, beijou-a sofregamente. Foi um beijo longo, apaixonado e correspondido. O louro, não suportou ver a cena do outro casal e tentou igualar só que a namorada recusou:
- Deixa-te de tontices, burro!
- Qual o problema, não és a minha namorada?
- Ah! - exclamou erguendo o braço, contrariada - Não há paciência!
- Copiadeiro ! - exclamou rindo a namorada do moreno
O moreno juntou o riso ao da namorada
À minha volta havia rumores dos outros passageiros:
"O motorista não vai fazer nada? ", " Ele tem medo!", " Medo?!", " Se eles lhe montam uma armadilha, ah! Lindo!" , "Como assim?", " Basta ser apanhado só, ou de noite, numa esquina, numa rua isolada... não está a ver o perigo!? ", " Isso está assim?", " Pois, não sabia?", " É por isso que ele não abre a boca?", "Então?!", "Se é assim, é muito grave!"...
O foco deslocou-se novamente para os mesmos protagonistas :
- Tu és um imitador! - declarou o moreno
- Sei beijar melhor que tu ! - declarou o louro arrojado.
Foi um momento alto entre eles; emergiram risadas, apupos, grunhidos trocistas.
- Isto está bué divertido! - acrescentou a namorada do moreno, uma rapariga de pele semelhante à do namorado, apesar a tonalidade ser diferente, mais para o chocolate , o cabelo liso comprido, negro, muito bem tratado, usava calções de ganga casuais com bainha dobrada e rasgada, na parte superior, uma camiseta de três botões ao peito, leve e elegante azul clara. Calçava uns ténis que me pareciam azuis escuros.
Os olhos dos passageiros, cruzaram-se novamente indignados:
" Não aparecer um polícia aí e mandar esta canalha para fora!", " Estupores! Filhos da puta, uma caceta na cabeça de cada um, enviá-los para o hospital para aprenderem!", "Que desrespeito por nós, esta gente frequenta a escola? Não parece!"..." O motorista merece uma cabeçada de um desses gajos, ia acordar de vez".
O moreno, dirigiu-se ao louro:
- Beija! - desafiou-o
- Queres que eu beije a minha namorada? Se ela não quer, não posso fazer nada!
- Tás a me chatear com essa conversa!- disse a morena ao namorado e golpeou-o com uma palmada bem forte nas costas, causando um forte ruído, no momento em que o moreno estava derreado para o louro.
O moreno, ressentido e humilhado com a pancada fez-se pálido e enfrentou a namorada com o sobrolho carregado:
- És louca? Vais me bater? O que te deu?
Os outros dois desataram à gargalhada.
A morena inclinou a cabeça para o lado, como se uma câmara de filmar a captasse naquele exato momento, fez um sorriso meio trocista, meio inocente:
- Desculpa, mor! - pediu sem nenhum sentimento e continuou em voz firme: - A minha mãe ensinou-me quando o namorado te chatear, não fiques por baixo, nunca! Se deixares, eles colocam a pata deles por cima e se ele te der uma, tu acertas-lhe duas. Entendes?
- O que foi que eu te fiz a ti? - o rosto de espanto
- Tavas a chatear os cornos!
O moreno continuou com olhos arregalados:
- Shit!
O louro, tipo possante, forte como um touro, as asas das narinas escancaradas, a bocarra de imensos labios grossos, os dentes grandes e com intervalos desalinhados, a cara salpicada de sardas, uma massa de cabelo forte . Todo de branco, desde a t' sirt larga, à sua medida, com letras garrafiais ao centro, em vermelho e amarelo, na parte inferior umas calças semijustas em algodão leves, quase brancas , sapatilhas brancas enormes. Tudo nele era grande, até ele próprio.
A namorada, tinha cabelo claro, ondulante, óculos quadrados grandes e grossos, lábios finos e rosto oval. Vestia uma saia muito curta, clara de napa,a blusa fina às riscas na vertical, o colete acolchoado fino e calcava ténis clássicos de cano alto brancos.
Por breves instantes, o moreno, recolheu-se num semblante triste, foi quando ergueu a cabeça na minha direção aí pude vê-lo melhor, os olhos, o rosto perfeito, as linhas belas, o cabelo curto, moderno, a barba bem aparada. Era um jovem carismático, interessante fisicamente e saudável, musculos salientes e bem vestido, um Shorts simples de cor verde acinzentado claro, de tecido, tinha um ar limpo e perfumado, nos pés uns ténis cinzentos claros, pareceu-me ser Nike. E uma Pepe Jeans t' shirt manga comprida branca, colada aos músculos.
A morena lançou o repto:
- Hoje vamos almoçar ao Mcdonald's!
- Fixe! - respondeu o louro
As duas raparigas entusiasmaram-se, o moreno não reagiu, então a morena avançou:
- Vá seu desmancha prazeres!
- Não é isso!
- Então o que é?
- Não posso ir com vocês! Depois, já fomos lá muitas vezes...
- O que é que tem? Qual o problema, idiota?
- É que não posso mesmo!
- Dá-me uma razão! Uma boa razão! - exigiu a namorada
- Tu és teimosa! - enervou-se o moreno
- Qual o problema? Fala!
- Vou almoçar com o meu pai! - disse contrariado
- Como? O teu pai? Estás a brincar!
- O meu pai veio de viagem e...
- O teu pai nem se dá com vocês!
- O que é que tu sabes? Foda-se!
Entretanto os outros dois ficaram em silêncio.
- Sim, não mintas, o teu pai está longe! Nem sabes dele!
- Deixa-me em paz! Sei sim, veio ontem a casa!
- Ele fugiu para o estrangeiro..!
- O que é que tu sabes? Sabes mais do que eu?!
- Tu odiavas esse homem!
- Pára já com isso!
- Eu parar? Só paro se eu quiser. Tu a mim não me mandas! Vais tocar a campainha? Não vamos sair aqui!
- Quero lá saber, vai comer uma tonelada de bosta!
- Isso, és um cobarde!
- Vai te foder, caralho!
Após o moreno ter saído, como na janela não havia fecho de abertura, a morena pôs-se a bater com força no vidro e a mostrar a língua.
De repente o louro e a namorada continuaram calados