A manhã apresentava-se límpida, o azul matinal borrifado de nuvens espumosas. Porém, corria a pique, um vento gélido da montanha para a cidade. Um fresco cortante levava a subir as golas e os zíperes dos casacos. Um inverno já fora de época, todo comprometido com a primavera. Chegou enregelado, fazia imaginar que ainda estaríamos em Dezembro. Outrora lugar das chuvadas , das ventanias fortes, das trovoadas, pedregulhos céu fora, do granizo inesperado, da neve a cobrir as serras e acercar-se da vidraça e deslumbrar-se com a estação do frio. Agora, pusera-se seca e imiscuída a um sol morno. A rua inclinada, larga e lisa. Curvas e mais curvas , quase todas muito apertadas. O autocarro a descer desalmadamente, parecendo um doido a querer espetar-se numa qualquer parede que lhe surjisse à frente. Fez uma breve paragem para um grupo de residentes e estrangeiros entrarem. Eu fui me instalar no andar de cima, o andar de baixo está indicado para pessoas mais velhas. De qualquer forma não deveria ser assim , já que os velhos não têm nenhuma segurança ali.
De repente ouço uma voz rouca, sedutora e singular que diz :
- Ontem, na loja, na parte da manhã, tive uma aparição!
- Uma aparição? - perguntou outra voz masculina, tom médio, corriqueira.
- Sim, uma aparição! - sublinhou a voz rouca e melodiosa
Escutei uma risada divertida do outro indivíduo.
- Que aparição foi essa? - ria-se à vontade
- A loura dos nossos tempos de liceu. - explicou o da voz rouca e sensual
- Qual loura? - perguntou rindo
- Uma loura da nossa turma de décimo primeiro ano! - explicou num tom sério.
- Jorge, isso foi há quinhentos anos! - tornou à gargalhada - nem me lembro de nenhuma gaja dessa altura!
-Flávio, tu e as gajas no lado norte da escola fizeram coisinhas lindas que eu sei.
- Eu , os outros da turma, e elas foram connosco! Tu nunca alinhaste nessas curtidas.
- Andava à procura de algo mais sério.
- Naquela altura poucos queriam saber de seriedades. Fizemos de tudo; sexo, álcool, fumámos, snifámos.
- Depois foram apanhados ! - exclamou o da voz roqueira
- E expulsos ! - adiantou o da voz corriqueira
- Nenhuma delas engravidou?
- Julgo que não! Não sei!
- Provavelmente tens um filho de alguma delas e não sabes !
- Não quero saber! E essa loura ?...
- A loura que não me ligava nenhuma...
- E foi uma aparição? Explica-me isso melhor!
- Conheces a Sharon Stone?
- Quem não conhece aquele cruzar de pernas? Foi uma beleza! Um sonho de qualquer homem.
- E não te lembras da Sharon Stone do liceu?!
- Ah, espera aí ! Penso que sei a quem te referes! Eu não simpatizava com essa gaja! Lembro-me vagamente dela!
- Não simpatizavas porquê?
- Ela era nariz empinado! Muito distante de nós!
- Não era nariz empinado! Era reservada!
- Conheci algumas reservadas que depois da reserva, não passavam de umas grandes cabras! Essa loura já deve estar casada.
- Não sei!
- Mas viste-a na loja?
- Vi-a, entrou sozinha! Não lhe vi nenhuma aliança no dedo.
- Solteira? Aquela gaja deve ter um fulano por noite! Sozinha? ! Estranho!
- O que eu me afligi, por ser tão apaixonado por ela...
- Só tu mesmo para te apaixonares. Como foi dentro da loja, tu e ela? Ao fim destes anos todos como é que ela está?
- Está mais velha, como eu, mais gordinha como eu. Perguntou-me por armadilhas para baratas.
- Que romântico! - exclamou o outro à gargalhada - conta desde o início.
- Naquele momento estava sentado a tratar da papelada, quando levantei os olhos percebi nitidamente de quem se tratava e ela também me reconheceu.
- E ela ao fim destes anos todos, vai-te pedir justamente armadilhas para baratas?!Que sorte malvada! - e divertia-se imenso, enquanto o da voz roqueira, ria de forma muito mais controlada ou nem ria e falava com voz serena.
- Não havia na loja, ela teve de se dirigir à loja do meu tio, que fica mesmo em frente.
- E depois? Voltou a ti ?
- Não, não voltou!
- Ah! Mais uma razão para esqueceres Stone de vez!
- Flávio, alguma vez te apaixonaste a sério ?
- Nos primeiros anos da minha relação com a mulher, talvez, depois, passa a ser um hábito. Casei porque quase toda gente casa. Para ficar amparado. Depois vêm os filhos, uma tremenda dor de cabeça! Vais me dizer que não foi o teu caso!...
- Confesso, casei a pensar na Sharon Stone.
- Ah! Só nela?
- Só nela! Mais nenhuma outra!
- Foste fiel à gaja porquê? Vocês chegaram a comunicar naquela altura?
- Eu vi-a muitas vezes mas nunca nos aproximámos um do outro!
- Estás a gozar comigo? Isso é paixão platónica! Tu nem a conheces! Estás louco?
- Talvez seja louco por sentir assim!
- Acorda Jorge, tu sabes lá quem ela é, pode ser tudo menos o que tu idealizas. Imagina que seja lésbica!
- Por favor, Flávio!
- Até pode ser trans... tens a gaja muito idealizada, percebes isso?
- Está bem! Percebo! - respondeu irritado
- Agora estás casado, tens filhos como eu...
- Oh! Oh! Oh! - exclamação aflitiva
- O que foi, Jorge?
- Ela vai ali , no passeio! Não acredito!
- Quem ?!
- A minha Sharon Stone!
- Fala-se no diabo, a cauda aparece! Esquece isso, Jorge! Tira essa ideia maluca da cabeça! Vais te dar mal!
- Flávio, não sei de nada, vou tentar a minha sorte. Não adio mais isto! Depois ligo-te. Até um dia destes.
Segui viagem e quando saí, fui à minha vida.