segunda-feira, 14 de abril de 2025

Viagem VIII

 A manhã apresentava-se límpida, o azul  matinal borrifado de nuvens  espumosas.    Porém,  corria a pique,  um vento gélido da montanha para a cidade. Um fresco cortante levava a subir as golas e os zíperes dos casacos. Um inverno já fora de época,  todo comprometido com a primavera. Chegou enregelado,  fazia imaginar que ainda estaríamos em Dezembro. Outrora lugar das  chuvadas , das  ventanias fortes, das trovoadas,  pedregulhos céu fora, do granizo inesperado, da neve a cobrir as serras e acercar-se da vidraça  e deslumbrar-se com a estação do frio. Agora, pusera-se  seca e  imiscuída a um sol morno.  A rua inclinada, larga e lisa. Curvas e mais curvas , quase todas muito apertadas. O autocarro a descer desalmadamente, parecendo um doido a querer espetar-se numa qualquer parede que lhe surjisse à frente.  Fez uma breve paragem  para um grupo de residentes e estrangeiros entrarem. Eu fui me instalar no andar de cima, o andar de baixo está indicado para pessoas mais velhas. De qualquer forma não deveria ser assim , já que os velhos não têm nenhuma segurança ali. 

De repente ouço uma voz rouca, sedutora e singular que diz : 

- Ontem, na  loja, na parte da manhã,  tive uma aparição!

- Uma aparição?  - perguntou outra voz masculina, tom médio, corriqueira. 

- Sim, uma aparição! - sublinhou a voz rouca e melodiosa 

Escutei uma risada divertida do outro indivíduo. 

- Que aparição foi essa? - ria-se à vontade 

- A loura dos nossos tempos de liceu. - explicou o da voz rouca e sensual 

- Qual loura? - perguntou rindo 

- Uma loura da nossa turma de décimo primeiro  ano! - explicou  num tom sério. 

- Jorge, isso foi há quinhentos anos! - tornou  à gargalhada - nem me lembro de nenhuma gaja dessa altura! 

-Flávio, tu e as gajas no lado norte da escola fizeram coisinhas lindas que eu sei.

- Eu , os outros da turma, e elas  foram connosco!  Tu nunca alinhaste nessas curtidas. 

- Andava à procura de algo mais sério.  

- Naquela altura poucos queriam saber de seriedades. Fizemos de tudo; sexo, álcool, fumámos, snifámos. 

- Depois foram apanhados ! - exclamou o da voz roqueira 

- E expulsos ! - adiantou o da voz corriqueira 

- Nenhuma delas engravidou? 

- Julgo que não! Não sei! 

-  Provavelmente tens um filho de alguma  delas e não sabes ! 

- Não quero saber! E essa loura ?...

- A loura  que não me ligava nenhuma...

- E foi uma aparição? Explica-me isso melhor! 

- Conheces a Sharon Stone? 

- Quem não conhece aquele cruzar  de pernas? Foi uma beleza! Um sonho de qualquer homem.

- E não te lembras da Sharon Stone do liceu?! 

- Ah, espera aí ! Penso que sei a quem te referes! Eu não simpatizava com essa gaja! Lembro-me vagamente dela! 

- Não simpatizavas  porquê?     

- Ela era nariz empinado! Muito distante de nós! 

- Não era nariz empinado! Era reservada! 

- Conheci algumas reservadas que depois da reserva, não passavam de umas grandes cabras! Essa loura  já  deve estar casada. 

- Não sei! 

- Mas viste-a na loja? 

- Vi-a, entrou sozinha!  Não  lhe vi nenhuma aliança no dedo. 

- Solteira? Aquela gaja deve ter um fulano por noite! Sozinha? ! Estranho! 

- O que eu  me afligi, por ser tão  apaixonado por ela...

-  Só tu mesmo para te apaixonares. Como foi dentro da loja, tu e ela? Ao fim destes anos todos como é que ela está? 

- Está mais velha, como eu, mais gordinha como eu. Perguntou-me por  armadilhas para baratas. 

- Que romântico! - exclamou o outro à gargalhada - conta desde o início. 

- Naquele momento estava sentado a tratar da papelada, quando levantei os olhos percebi nitidamente de quem se tratava e  ela também me reconheceu. 

- E ela ao fim destes anos todos, vai-te pedir justamente armadilhas para baratas?!Que sorte malvada! - e divertia-se imenso, enquanto o da voz roqueira, ria de forma muito mais controlada ou nem  ria e falava  com voz serena.

- Não havia na loja, ela teve de se dirigir à loja do meu tio, que fica  mesmo em frente.

- E depois? Voltou a ti ? 

- Não,  não voltou! 

- Ah! Mais uma razão para esqueceres Stone de vez! 

 -  Flávio, alguma vez te apaixonaste a sério ? 

-  Nos primeiros anos da minha relação com a mulher, talvez, depois, passa a ser um hábito. Casei porque quase toda gente casa.  Para ficar amparado. Depois vêm os filhos, uma tremenda dor de cabeça! Vais me dizer que não foi o teu caso!...

- Confesso, casei a  pensar  na Sharon Stone. 

- Ah! Só nela? 

- Só  nela! Mais nenhuma outra! 

- Foste fiel à gaja porquê? Vocês chegaram a comunicar naquela altura? 

- Eu vi-a muitas vezes mas nunca nos aproximámos um do outro! 

- Estás a gozar comigo? Isso é paixão platónica! Tu nem a conheces! Estás louco?

- Talvez seja louco por sentir assim! 

- Acorda Jorge, tu sabes lá quem ela  é,   pode ser  tudo menos o que tu idealizas. Imagina que seja lésbica! 

- Por favor, Flávio! 

- Até pode ser trans... tens a gaja muito idealizada, percebes isso? 

- Está bem! Percebo! - respondeu irritado 

- Agora estás casado, tens filhos como eu...

- Oh! Oh! Oh! - exclamação aflitiva

- O que foi, Jorge? 

- Ela vai ali , no passeio! Não acredito!

- Quem ?! 

- A  minha Sharon Stone! 

- Fala-se no diabo, a cauda aparece! Esquece isso, Jorge! Tira essa ideia maluca da cabeça! Vais te dar mal! 

- Flávio, não sei de nada, vou tentar a minha sorte. Não adio mais isto! Depois ligo-te. Até um dia destes. 

 Segui viagem e quando saí, fui à minha vida.