- Passo a esclarecer; não penso como o senhor mas respeito as suas opiniões. Sou apologista do progresso, da modernidade, da ciência, da tecnologia. Serviu-nos bem! Homem pobre, homem rico, é a vida! não existem sistemas perfeitos.
- Vindo de um homem sobejamente imperfeito, tudo será imperfeito e falível.
- Talvez. Mas enquanto dura, é bom , faz bem e dá prazer! Olhe para os benefícios!
- Oh, já chegamos! - anunciei sobressaltado - virei-me para a mulher- é aqui, não é?
-Sim, é aqui!
O desconhecido levantou-se e deu espaço para eu passar por ele. Desejamo-nos em simultâneo um bom dia .
Eu e mulher apeamo-nos, o desconhecido ficou à espera que o autocarro retomasse o andamento.
- Olha, Josefa, eu vou entrar de novo!
- Quem é aquele fulano?
- Não sei quem é!
- No entanto, conversaram imenso!
- Nada pessoal !
- Isso é que foi abrir a boca! Tu mais do que ele!
- Andaste a espreitar os maxilares de um e de outro para ver quem abria mais vezes? ...e a fingires-te de distraída, afinal, atenta a merdas sem importância! Francamente, Josefa! Olha, eu sigo viagem!
- Como?! Perdeste a cabeça, vieste comigo, voltas comigo! Fim de conversa!
- Não, não vai ser assim!
- Estás de conchavo com esse homem?
- É óbvio que não! Nem sei o destino dele, não sei nada! Vou até ao fim e é longe que quero ficar!
- Isso cheira-me a caso, não te sabia com essas tendências...
- Josefa, inventas histórias que só existem no raio da tua cabeça, tudo para me prender, porque não aprendeste a viver só, olha, o motorista já está à minha espera...
- Vai, se é isso que pretendes mas tem cuidado para não te perderes...
- Por favor, Josefa! Cada uma, pior que a anterior!
- Li o teu relatório médico, o resultado da ressonância, há fortes indícios da doença de Alzheimer.
- Como!?
O motorista apitou e eu pedi desculpa pelo atraso e indiquei com a mão para seguir.
- Então, o resultado do exame já chegou?! Mas tenho a impressão que não era agora! Tão cedo?!
- Hoje de manhã, antes de virmos...
- Esta manhã? Quem foi levantar?
- Quando estavas a tomar banho, o teu telemóvel tocou, fui espreitar, ligaram da clínica a informar que o exame estava pronto, pedi à Elisa que fosse e quando ela chegou eu abri e li, deixei em cima da mesa do teu escritório...
- Estranho, ela nunca chega tão cedo, nem comentou nada comigo.
- Eu tinha pedido para chegar mais cedo e também para não comentar nada acerca do exame.
- Ah! Primeiro, tinhas a obrigação de me comunicar, segundo, abres o envelope, endereçado à minha pessoa? que descarada!
- Pensei que seria menos chocante saberes mais tarde...
- E dizes precisamente agora?! - berrei com ela
- Só falei porque querias seguir e se te perdesses?! - ela explicou
- Olha que desgraça! Que descanso, esquecer a miséria do que vivo! - salientei revoltado
- A minha também , não te esqueças!vá , vamos aproveitar que estamos aqui.
- Que vontade - respondi desconsolado, e em tom mais alto- tens a certeza do que leste?
- Tenho, está lá, quando regressarmos, vês!
- Por mim, voltavamos ainda hoje...
- Deixa de ser tonto, aproveita que é para isso que cá estamos.
- E se fosse contigo?
Ainda vislumbrei um riso de escárnio mas ela escondeu o rosto.