sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Conto VIII

As horas  passaram , escondi-me nas sombras do  parque  e fiquei aguardar    a reação dela.  Perto da meia noite,devia estar muito desesperada,   veio cá fora, de um lado para outro,  encolhida de medo,  observou desconfiada  para os lados, eu nunca me tinha  ausentado de casa à  noite. A mulher  estranhou.  Percebi que gostaria de me chamar, faltou-lhe a voz, nao teve coragem e para não causar alarido.  Àquela hora, o homem fora de casa... uma efeméride. O acontecimento,  no dia seguinte, cairia na boca da vizinhança.  Ela não ia  querer isso por nada.  Muito transtornada, precipitou-se novamente para dentro, nem tentou procurar  no bar.  Grande cobardia. Armava-se em esperta,  rainha da casa e dona da minha vida.    Pernoitei  no bar,  aquela  noite, estava decidido, ela iria   sentir a minha falta.

 Inspirado no Conto de Sophia de Mello Breyner - " A viagem" in "Contos Exemplares"

Conto VII

Isso Josefa, em beleza, por acaso és  minha mãe?!eu a ser tratado   como uma criança, pela minha mulher, na frente de um estranho. Não,  não é de agora, vem de longe ; " Atrasado mental",  "  Não vales de nada ", " Nunca chegarás longe "; " Está calado, não suporto escutar a tua voz", e, outras tantas, estou certo, Josefa? Eu também errei, embrulhei-me na mesma manta de retalhos ; " Acertava-te  nesse focinho", Vai para o raio que te parta, demónio",  Está  calada que não sabes nada, estafermo" ,  entre outras... olho por olho, dente por dente. As nossas  quinquilharias  arrastam-se como fantasmas colados a nós, só uma demência para esquecer tamanha torpeza.  A própria vida a meio gás ou menos que isso. A única oportunidade que   conheço para  ser feliz, para  se realizar, outra semelhante a esta, onde?  Prendemo-nos a coisas que só  nos tornaram infelizes e quantos anos, a rondar no mesmo lixo tóxico, sem conseguir sair da sujidade,  a adoecer,  a padecer,  a apodrecer, a exalar mau odor , mau hálito,  como se as fezes nos saíssem pela boca... a consentirmos   neste  absurdo, a  envelhecemos precocemente, e a tornarmo-nos  senhores das causas impossíveis...   Pobres de espírito que somos.  Por escassos instantes estava esquecido do que iria enfrentar, a cruel e dura verdade. Até lá  precisava   desconfiar de Josefa para me aguentar. O crepúsculo foi  desaparecendo a olhos vistos. A cor esmoreceu devagar, lentamente e as lâmpadas  já acesas àquela hora,  davam um tom tão díspar da luz diurna. Para espanto meu, o desconhecido saiu na mesma paragem que nós. Apeamo-nos, na despedida o desconhecido ainda lançou o convite:
- Se quiserem, estou naquele café. Quem paga sou eu.
 - Obrigado, vamos entrar em casa e depois logo se vê!  Entrei  disparado, galguei escadas e apressei-me a rodar a maçaneta da porta, numa sofreguidão desalmada, tateei  a mesa do escritório, existia   papelada,  nada de envelope:
 - Josefa! - berrei  em plenos pulmões Desci  a correr,  procurei  a mulher e encontrei-a na cozinha:
 - Que modos são esses? - repreendeu ela . Circulei à volta da mesa, até ficar de frente para ela , eu de pé,  ela sentada:
 - Que brincadeira nojenta foi esta? 
 - Qual? - questionou com espanto 
 - Não encontrei o envelope! 
 - Deve ter sido a empregada que sem querer atirou fora!
 - Como? A empregada ia atirar fora um envelope daqueles, ela está avisada para não mexer na minha secretária. 
 - Talvez deixei na minha! 
 - Tive o cuidado de ver a tua e nada!
 - Pedes uma nova via... 
- Sabes que estás a mentir descaradamente !
 - Tu também mentes ! 
 - Assim? Como tu? É  grave o que inventaste!
  - Não faças dramas! 
 - Josefa, não tens remédio, esquece! 
 - E tu tens?
 - Antes que te parta a cara e depois seja incriminado por violência doméstica,  prefiro sair,   vou ao café da esquina, fazer companhia ao estranho. 
 - Gostas mais de estranhos  que os de dentro de casa. 
 Sem mais demoras, saí  furioso e bati com a porta ruidosamente: 
- Grande bruto!-  disparou  Josefa

Conto VI

- Dá-se bem com ela? 
 - Com quem? 
- Referia-me à rotina.
 - Dias sim, dias não. 
 - Também eu! O telemóvel do desconhecido chamou:
 - Com licença! - pediu e afastou a cabeça para o lado 
 - Toda! O desconhecido encostou-se bem à janela para  abafar melhor a  voz. Quando terminou, voltou-se para mim: 
- Felizmente que está aqui, caso contrário, eu passaria a viagem toda nos jogos, troca de mensagens, adoro  isto - e guardou-o no bolso do casaco com o mesmo zelo que se esconde uma pedra preciosa. 
 - Controlo bem esse vício, de viagem, nem pensar! Serve apenas para atender, ligar e enviar uma ou outra mensagem,   em caso de grande necessidade. Não me deixo escravizar , porque o  vício de uns é o lucro de outros. Quem ganha? Nós sabemos, sempre os mesmos.  O que poucos  sabem  é que esta panóplia do digital é uma fatura descomunal para o ambiente  e ninguém esclarece isso. - Também  é  contra a tecnologia!? - constatou entusiasmado
 - Nem a favor, nem contra, a tecnologia devia ser usada com medida.  O telemóvel é a invenção mais revolucionária, o  brinquedo de todas as gerações. - Poucos resistem à tentação. 
 - Eu sou dos que não se deixam seduzir! Sou antiquado e contra a corrente, prefiro pensar, observar tranquilamente a natureza, folhear um jornal, abrir um livro...ler. 
 - Sabe que os jornais têm páginas na Net, e pode consultar  na mesma! - riu-se
 - Gosto do papel! 
 Caiu um silêncio, calamo-nos os dois. Ele deve ter   pensado "que indivíduo estranho, não parece a mesma pessoa da vinda, de qualquer forma,  não o conheço! Deve estar cansado! Aquela deve ser a mulher dele. Terão vindo da lua de mel? Será o segundo casamento? Pelos rostos, já não têm idade para ter filhos pequenos. E se forem amantes? Provavelmente ! E vêm aqui divertir-se , longe dos olhares  curiosos." 
 - Olhe - apontou o desconhecido- pelo fumo, é incêndio! 
 - Estes incêndios dão que pensar! - acrescentei logo
 - Os incendiários andam sempre à solta, não é? - Circulam por aí umas teorias descabidas, de que as altas temperaturas provocam incêndios...a mim,  parece mais evidente, se há fogo, há mais calor!  terrorismo interno ou externo?  Ou políticas ineficientes? Remediar não é sinónimo de prevenir.
 - Você é  dramático! - Óbvio; gente, vegetação, animais, solos, habitações, toda a logística para combater as chamas... quantas perdas....e gastos desnecessários! 
A mulher voltou-se para trás e mostrou-me o rosto sisudo. Mais uma vez, fiz silêncio  até ao fim da viagem. Nem eu, nem o indivíduo ousamos sequer olhar um para o outo. 

Conto V

Aquele fim de semana foi terrível para mim , lutava desesperadamente para esquecer a  veracidade ou não daquele vaticínio, um diagnóstico que me   angustiva.  Tentei ler o jornal,  mergulhar na piscina, apanhar sol, bronzear a pele e moderar a minha tristeza. Meti-me  no quarto a ver televisão, nada me consolava, aquele prognóstico moía- me.   Ela podia estar  a mentir...E se fosse mais uma armadilha para me  manter cativo? E se fosse verdade?  Observei-a em diversas ocasiões e  censurei interiormente a  calma, a descontração invulgar, a satisfação, o  gozo lascivo. Porque raio assustar-me assim? Ela deleitava-se nos seus detalhes de higiene pessoal, demorava a comer gelado no bar, passeava à  volta da piscina. O constante sorriso nos lábios, irritante de tão provocatório. As discussões entre nós haviam suavizado imenso, a minha postura murchara, ela aproveitava a debilidade  em que me encontrava para demonstrar que não se sentia minimamente  atingida:
- Ainda estás a pensar nisso?
 - Outra vez essa pergunta?
 - Esquece isso! - e continuava liberta
Preferi calar-me,  ela que se  imaginasse  vitoriosa contrariamente ao real problema e  crescia dentro de mim a suspeita de que estaria efetivamente a faltar à verdade.  De qualquer forma, ansioso como sou e era, esta dúvida corroía e doía! No domingo, afastamo-nos ainda mais. Finalmente saí do quarto e fui me debruçar na varanda de um pequeno cais,  nas imediações.  Usava óculos de sol, precisava estar só para chorar, chorar tudo, um profundo lamento pela vida que não aproveitara... como seria esquecer a vida ? As porcarias, os bons momentos...os nomes dos filhos, o  próprio nome,  ficar dependente dela, somente dela?Ou de algum dos filhos? Como seria?  E  se me tornasse um peso na vida da família? Um lar? Que  odiosa solução ! À  mercê de gente sem escrúpulos?  gente sem preparação?  gente desumana? Eu a definhar lentamente, louco, sem juízo, à  fome, atirado à cama e amarrado  para não fugir. À minha volta, profissionais  desejosos da minha  morte! Pois,  ali, igualmente, considerado um fardo! Já tinha  vivido, o meu  tempo chegara ao limite,  a  minha vez de seguir.  Ocupar  uma cama se  não se vislumbrava qualquer melhora? Decidiriam por Deus, por mim e até pela família,   abreviariam a minha hora derradeira. Sem suportar mais aqueles pensamentos,  que me  golpeavam incessantes,  arranquei a camisola do corpo e num gemido gritante, atirei-me  à  água e nadei em braçadas furiosas. Ao fim do dia,  preparadas  as  mochilas , fomos  para o ponto, aguardar o autocarro que estava prestes a  passar.  Havia mais pessoas que à semelhança de nós,  tinham deixado o hotel e regressavam a casa. Quando chegou a altura,   colocamos as máscaras, deparamo-nos com alguns  lugares vagos mas  singulares.  Avistei o desconhecido, ainda tentei  fingir que não o reconhecera mas ele chamou-me logo com a mão 
- Então,  de volta a casa? - perguntou efusivamente 
 - Naturalmente - respondi   sem energia 
A mulher sentou-se na bancada à minha frente, imediatamente a seguir . Apesar de ser a hora crepuscular, ainda   levava o telemóvel na mão para registar qualquer situação anómala ou surpreendente.
- E  à rotina também  - adiantou o desconhecido
 - A rotina não é má, é a unica forma de organizar o quotidiano - repliquei

Conto IV

- Passo a esclarecer; não penso como o senhor mas respeito as suas opiniões. Sou apologista do progresso,  da modernidade, da ciência,  da tecnologia. Serviu-nos bem! Homem pobre,  homem rico,  é a vida!  não existem sistemas perfeitos.
 - Vindo de um homem sobejamente  imperfeito, tudo será imperfeito e falível. 
 - Talvez. Mas enquanto dura, é bom , faz bem e dá prazer! Olhe para os benefícios!
 - Oh, já chegamos! - anunciei  sobressaltado  - virei-me   para a mulher- é aqui, não é? 
 -Sim, é aqui! O desconhecido levantou-se e deu espaço para eu  passar por ele.  Desejamo-nos  em simultâneo   um  bom dia . 
Eu e mulher  apeamo-nos, o desconhecido ficou à espera que o autocarro retomasse o andamento.  
 - Olha, Josefa,  eu vou entrar de novo! 
- Quem é aquele fulano? 
- Não sei quem é!
 - No entanto,  conversaram imenso!
 - Nada pessoal !
 - Isso é que foi abrir a boca! Tu mais do que ele!
 - Andaste a espreitar os maxilares de um e de outro para ver quem abria mais vezes? ...e a  fingires-te de distraída,  afinal, atenta a merdas sem importância! Francamente, Josefa! Olha, eu sigo viagem! 
 - Como?! Perdeste a cabeça,  vieste comigo, voltas comigo! Fim de conversa!
 - Não, não vai ser assim! 
 - Estás de conchavo com esse homem?
 - É óbvio que não! Nem sei o destino dele, não sei nada!  Vou até ao fim e é longe que quero ficar! - Isso cheira-me a caso,   não te sabia com essas tendências... 
- Josefa,  inventas histórias que só existem no raio da tua cabeça, tudo para me prender,  porque não aprendeste a viver só, olha, o motorista já está à minha espera... 
- Vai, se é isso que pretendes mas tem cuidado para não te perderes... 
- Por favor, Josefa! Cada uma, pior que a anterior!
 - Li o teu relatório médico, o resultado da ressonância, há fortes indícios da doença de Alzheimer. - Como!? 
 O motorista apitou e eu  pedi desculpa pelo atraso e indiquei  com a mão para seguir.
 - Então,  o  resultado do exame já chegou?! Mas tenho a impressão que  não era agora! Tão cedo?!
 - Hoje de manhã,  antes de virmos... 
- Esta manhã? Quem foi levantar? 
 - Quando estavas a tomar banho, o teu telemóvel tocou, fui espreitar, ligaram  da clínica a informar que o exame estava pronto, pedi à  Elisa  que fosse e quando ela chegou eu abri e li, deixei em cima da mesa do teu escritório... 
- Estranho, ela nunca chega tão cedo, nem comentou nada comigo.
 - Eu tinha pedido para chegar mais cedo e também  para não comentar nada acerca do exame.
 - Ah! Primeiro,  tinhas a obrigação de me comunicar, segundo,  abres  o envelope, endereçado à minha pessoa?  que descarada! 
- Pensei que seria menos chocante saberes mais tarde... 
- E dizes precisamente agora?! - berrei  com ela 
- Só falei porque querias seguir e se te perdesses?! - ela explicou 
- Olha que desgraça! Que descanso, esquecer a miséria do que vivo! - salientei  revoltado 
- A minha também , não te esqueças!vá  , vamos aproveitar que estamos aqui.
 - Que vontade - respondi  desconsolado, e em tom  mais alto- tens a certeza do que leste? 
 - Tenho, está lá, quando regressarmos, vês! 
- Por mim, voltavamos ainda hoje... 
 - Deixa de ser tonto, aproveita  que é para isso que cá estamos.  
 - E se fosse contigo? Ainda vislumbrei um riso de escárnio mas ela escondeu o rosto. 

Conto III

-  Há sempre um pugilista de serviço - resmunguei 
-  Então o melhor é não passar perto dele! - declarou  sorridente 
-  Uma boa estratégia se bastasse passar ao largo. Eles  provocam o desacato, querem um pretexto qualquer para atacar e às vezes não estão sós. Quando se armam  em grupo, formam uma matilha descontrolada e por vezes mortífera. 
 -  Tem razão - o desconhecido concordou  e riu descontraído 
 -   Há sempre  motivos   para se ficar de costas voltadas. Qualquer coisa serve, como arma de arremesso,  infelizmente. 
 - Há casos muito  dramáticos.  - o desconhecido acrescentou
 - Exatamente. Quem fica a perder?
 - Depende das situações, talvez o menos apto, o mais vulnerável ! - exclamou o desconhecido
 - O mais baixo hierarquicamente! o pobre povo!  quem mais trabalha! quem vota massivamente! quem se submete à  vontade de quem reina e ordena.
 -  Pode ser clichê mas  foi sempre assim! - sintetizou  o desconhecido 
 - Repare na forma como diz" foi sempre assim" ... 
- E não estou certo ?- uma faísca de irritação nos olhos dele
 -  A lei do mais forte prevalece sobre o mais fraco, nós já interiorizamos como um fatalismo natural e não é,  não tem de ser! Somos uns imbecis, continuamos a repetir indefinidamente  os mesmos  erros.  Rejeitamos o passado antes de o compreender!  Rapidamente esquecemos o que comemos ontem, os acontecimentos   vão sendo colocados no museu das memórias, a mofar, até o dia da celebração e isto não quer dizer rigorosamente nada.  Se calhar  nunca  saímos verdadeiramente das cavernas. Somos primatas de fato e gravata!
 - Já me sinto um chimpanzé! - o desconhecido riu-se novamente  - Vence o mais esperto, o que sabe mexer-se, o que se adapta melhor, não lhe parece?  
 - No meu caso, vence a Josefa - tartamudeei entre dentes
 - Que disse ?
 - Vence quem tem  poder, riqueza, nobreza...  Basta prestar um pouco de atenção aos grandes  impérios; construções megalómanas, edificadas por quem? Por escravos, tempo de prosperidade à custa da chibata, da opressão, repressão,  do medo,  rituais abomináveis e diabólicos, exercício tirano  do poder . Depois, tombam os   impérios,   por  conspirações e outras e traições   internas e externas, dívidas, pobreza, ruína ..  e os pobres nunca saem da pobreza, note bem, para conseguir  adotar uma medida impopular, basta implementá-la dia após dia, ano após ano... e encaixa que nem uma luva,  caso contrário,  provocaria uma revolução, ou então apresentar essa medida como dolorosa mas necessária, assim, vai devagar... repare nas missas, sempre inclinadas a dar esperanças ingénuas, de que amanhã tudo vai mudar para melhor, um amanhã que nunca chega. Isto é dar aos cidadãos tempo para se adaptarem à ideia de que humildemente vão ter de aceitar, um sentido diferente de obrigatoriedade.   Fazem-nos de parvos e infantilizam-nos e isso é um ponto a favor de quem está na camada superior .   Por isso, os grandes impérios conseguem se manter  no topo,  à  custa do suor, lágrimas e muito sofrimento,  de uma maneira ou de outra vão tombar. Nós também perdemos a beleza e a juventude, a certa altura, o declínio... e por mais plásticas para suavizar e esconder as rugas,  a velhice chega e não há volta a dar.
 - Então não acredita  no progresso? 
 - Qual o resultado desse progresso?  Para ficarmos  soterrados  até ao pescoço? O período do ouro, termina inevitavelmente.  Na terra dos pulhas, salvam-se os ricos e poderosos. Findo o prazo de validade, amarga como fel. Gasta-se, esbanja-se... o reverso da medalha são os excessos, o tal descontrolo, que ninguém tem mão nele. Até a Santa Inquisição deslumbrou-se  com o poder ao ponto de se tornar assassina mas não está isolada.
 - O sr. é uma anedota ! - e desatou a rir desalmadamente  - muito engraçado mesmo.
 - Achou piada em mim? - teria aparentado ser palhaço
 - É a forma como se expressa, não me leve a mal - e continuou a rir sufocado
Inspirado encontrava-me, desinspirei-me  subitamente.

Conto II

Enquanto o autocarro rolava na estrada, ora aos solavancos, ora em alcatrão firme,  eu  continuei só, espreitei  algumas vezes para o lado, observei  sempre o mesmo; ela  atenta à  rua, a fotografar sofregamente  o que podia. A temperatura subiu e eu senti uma  moleza avassaladora, um desgasto, aos poucos as pálpebras começaram a pesar, não podia defender-me daquela  sonolência que me apanhava a jeito.  Um verdadeiro assalto. Ainda lancei  um olhar furtivo    à mulher e fui surpreendido,  quando vi que ela troçava de mim, tentei me  endireitar no banco,  escancarei o raio dos olhos, passei  a mão pelo rosto, quando me julguei desperto, voltei  a ser vencido  e a cabeça pendeu sobre o vidro. Não sei  quanto tempo dormi, pouco ou muito,  encolhido no assento. Acordei  sobressaltado quando outro indivíduo veio  sentar-se na bancada contígua.  Lembro-me que fiz uma careta, aquele  idiota... um autocarro com lugares vagos e tinha logo de instalar-se ao meu lado! Que chatice! A estúpida da Josefa, se aquietasse  ali,  evitava que  um estranho me visse naquele estado. Não havia necessidade! Tornei  a endireitar-me, queria parecer um senhor de respeito e não um urso desleixado. Mais à frente,  exclamei entre dentes: 
- Ah! O que é aquilo?! 
-  Uma cena de brutalidade entre dois rapazes - verbalizou o outro 
- Não gostei nada do que vi! - desabafei
- Nem eu! - anuiu o desconhecido - quase sempre acaba mal ou muito mal. 
Encarei finalmente  o desconhecido,  olhos nos olhos  e ambos estranhamo-nos. 

Conto I

O autocarro   apinhado de gente até à porta?!Ainda estávamos em pandemia! Já  pouca gente a usar focinheira ... açaimos  que não defendem  mas vendem?!Que insanidade!  Anteriormente, excesso de zelo, presentemente,  frouxidão no cumprimento de certas normas. Eu e a mulher, os únicos a usar máscara?! Com aquele  calor, gente sobre  gente a pigarrear, a lançar  espirros desalmados, a tossir desenfreadamente  para as mãos e sobre os outros! Povo desmemoriado,  a doença já não parecia assustar ninguém. Felizmente  o transporte a esvaziar, a se tornar mais leve. Já  conseguia  respirar e mexer o tronco e as pernas, sem esbarrar no vizinho do lado.  Podíamos nos ver melhor, eu e a mulher,  lado a lado, sem sermos  esmagados e espremidos, de qualquer forma,  apesar da liberdade,  fomos   parcos nos diálogos, rostos mais sisudos do que alegres.  Não sei indicar, com precisão, a  parte em que  ela  decidiu se afastar para o lado oposto, paralelamente a mim. Tirou o telemóvel da bolsa e pós-se  a fotografar através da vidraça aberta,   também  depositei  a vista lá fora,  igualmente aberta, ela baixou a máscara e eu  baixei a minha, comecei a magicar frustrado sobre o propósito esquecido da viagem. Outra que julgava amar  Deus sobre todas as coisas... apesar disso,   o telemóvel, objeto adorado, há muito substituído pela divindade. A vida da maioria das gentes  tornada  exibicionismo desejado, tudo é   fotografável,  nunca a  vida privada esteve tão exposta e por vontade  própria. Josefa, persuadida dos  seus dotes, não ia além de uma grande  manipuladora, aquilo é que era  oxigenar  as boas relações entre nós?   só miséria o que nos unia ,  perdera toda a   graça,  nem uma unha  de amizade restava, quanto mais amor!? Porcaria de casamento.   No final   da   travessia de merda , quando chegássemos ao tal lugar que  a mulher  pretendia visitar, ela saía  e eu seguia. Tinha  de me libertar das suas  manhas . Estava  velho e cansado daquela  farsa; o que havíamos  feito à relação? No tempo do encantamento e houve, desenrola-se quase sempre da  mesma forma; prendi-me à tentação; chegou em forma de   menina recatada com algum sal à mistura e eu,  tolo e parvo, caí,  ganhou-me por completo,  todavia, deitou logo  mão à  minha  garganta,  sufocou-me ; Tudo interdito: amigos, diversões,  demoras nos sítios que frequentava. Eu a pensar que era especial, que éramos especiais.  A ilusão cegou-me e tornei-me  um  prisioneiro,  um indivíduo  nulo, neutro, um animal acossado e depois,  perverso. Influenciamo-nos mutuamente, contudo,  fui colonizado, perdi tudo o que era só meu. Nas minhas  costas;uma mulher pequena e tonta como eu.  Nunca foi grande, nem me ajudou a ser. Depressa aprendemos a  usar os outros para  benefício próprio, fizemos o mesmo um ao outro, aos filhos e ensinamo-los dessa maneira.  A nossa história foi sempre  tumultuosa, toda ela. Formamos  uma equipa mesquinha, dois pulhas sem escrúpulos e tremendamente narcísicos. 

 NotaInspirado no  Conto de Sophia de Mello Breyner " A viagem" in " Contos Exemplares"

terça-feira, 13 de setembro de 2022

D. PedroII " Nos Tempos do Imperador "

"Não há alegria na guerra, Augusto ( genro) não há sequer Vitória numa guerra,eu sinto que perdi para sempre. Alegria? e ela não volta mais, é como se essa guerra tivesse me transformado numa outra pessoa, numa outra pessoa que eu desconheço. Acabou. Cartas escritas depois da guerra terminar: ... escrevo no rescaldo da batalha que travamos em Uruguaiana e que terminou, com a Vitória dos aliados, mais o preço de centenas de cadáveres, tanto do nosso lado como dos paraguaios. Esses mortos vão pesar para sempre na minha consciência, assim como o seu longo cortejo de órfãos, viúvas e mães. Solano Lopes se retirou da batalha e espero em Deus que tenha aprendido a lição e nunca mais se atreva a desafiar a nossa soberania.