sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Conto IV

- Passo a esclarecer; não penso como o senhor mas respeito as suas opiniões. Sou apologista do progresso,  da modernidade, da ciência,  da tecnologia. Serviu-nos bem! Homem pobre,  homem rico,  é a vida!  não existem sistemas perfeitos.
 - Vindo de um homem sobejamente  imperfeito, tudo será imperfeito e falível. 
 - Talvez. Mas enquanto dura, é bom , faz bem e dá prazer! Olhe para os benefícios!
 - Oh, já chegamos! - anunciei  sobressaltado  - virei-me   para a mulher- é aqui, não é? 
 -Sim, é aqui! O desconhecido levantou-se e deu espaço para eu  passar por ele.  Desejamo-nos  em simultâneo   um  bom dia . 
Eu e mulher  apeamo-nos, o desconhecido ficou à espera que o autocarro retomasse o andamento.  
 - Olha, Josefa,  eu vou entrar de novo! 
- Quem é aquele fulano? 
- Não sei quem é!
 - No entanto,  conversaram imenso!
 - Nada pessoal !
 - Isso é que foi abrir a boca! Tu mais do que ele!
 - Andaste a espreitar os maxilares de um e de outro para ver quem abria mais vezes? ...e a  fingires-te de distraída,  afinal, atenta a merdas sem importância! Francamente, Josefa! Olha, eu sigo viagem! 
 - Como?! Perdeste a cabeça,  vieste comigo, voltas comigo! Fim de conversa!
 - Não, não vai ser assim! 
 - Estás de conchavo com esse homem?
 - É óbvio que não! Nem sei o destino dele, não sei nada!  Vou até ao fim e é longe que quero ficar! - Isso cheira-me a caso,   não te sabia com essas tendências... 
- Josefa,  inventas histórias que só existem no raio da tua cabeça, tudo para me prender,  porque não aprendeste a viver só, olha, o motorista já está à minha espera... 
- Vai, se é isso que pretendes mas tem cuidado para não te perderes... 
- Por favor, Josefa! Cada uma, pior que a anterior!
 - Li o teu relatório médico, o resultado da ressonância, há fortes indícios da doença de Alzheimer. - Como!? 
 O motorista apitou e eu  pedi desculpa pelo atraso e indiquei  com a mão para seguir.
 - Então,  o  resultado do exame já chegou?! Mas tenho a impressão que  não era agora! Tão cedo?!
 - Hoje de manhã,  antes de virmos... 
- Esta manhã? Quem foi levantar? 
 - Quando estavas a tomar banho, o teu telemóvel tocou, fui espreitar, ligaram  da clínica a informar que o exame estava pronto, pedi à  Elisa  que fosse e quando ela chegou eu abri e li, deixei em cima da mesa do teu escritório... 
- Estranho, ela nunca chega tão cedo, nem comentou nada comigo.
 - Eu tinha pedido para chegar mais cedo e também  para não comentar nada acerca do exame.
 - Ah! Primeiro,  tinhas a obrigação de me comunicar, segundo,  abres  o envelope, endereçado à minha pessoa?  que descarada! 
- Pensei que seria menos chocante saberes mais tarde... 
- E dizes precisamente agora?! - berrei  com ela 
- Só falei porque querias seguir e se te perdesses?! - ela explicou 
- Olha que desgraça! Que descanso, esquecer a miséria do que vivo! - salientei  revoltado 
- A minha também , não te esqueças!vá  , vamos aproveitar que estamos aqui.
 - Que vontade - respondi  desconsolado, e em tom  mais alto- tens a certeza do que leste? 
 - Tenho, está lá, quando regressarmos, vês! 
- Por mim, voltavamos ainda hoje... 
 - Deixa de ser tonto, aproveita  que é para isso que cá estamos.  
 - E se fosse contigo? Ainda vislumbrei um riso de escárnio mas ela escondeu o rosto.