E ouço nitidamente atrás das minhas costas:
- Sr. Sousa !
- Sr. Celestino!
Os dois homens cumprimentam-se efusivamente, deduzo apertos de mãos e escuto palmadinhas nas costas.
- Como vai a vida? A sua saúde, Sr. Celestino?
- A vida... razoável, a saúde? Ai a saúde... Necessitar de médicos é uma tremenda chatice! O sistema é antigo, poupa os afortunados e queima os fracos. Aqui , na terra, o dinheiro é a salvação dos grandes! A não ser uma daquelas doenças graves e sem remédio, aí não há medicina que lhes possa valer. Isto nunca foi diferente e nunca será. Desengane-se quem se ilude.
- É preciso ter algum algum conforto a nível económico, não ser apanhado por essas patologias cabeludas, senão o indivíduo está arrumado. Sem dinheiro é mais complicado. As hipóteses reduzem-se substancialmente. A minha situação é ligeiramente mais desanuviada porque o meu salário e o da minha esposa permitem certos investimentos...
- E a família como está, Sr. Sousa?
- Confesso que nem lhe sei dizer... Nenhum dos meus filhos mora por baixo da ponte, cada um tem habitação própria, no entanto, são muito desunidos, puxaram o lado da mãe, é uma gente estranha,são rancorosos uns para os outros. sempre foram e quando aconteceu a divisão de bens, a casa da minha mãe foi vendida, o humor foi de feras. Como pai sinto pena, nunca pensei falar semelhante coisa...
- Não se preocupe, Sro Sousa, fique à vontade!
Concentro- me ainda mais na conversa daqueles dois homens , não lhes vejo o rosto, nem as características fisicas. Apenas as vozes, timbres sem nada de relevante, apenas vozes de dois conhecidos.
- ...Pelo menos a minha mulher tem sido muito companheira, ela é diferente daquela família. Já não posso dizer o mesmo dos nossos filhos... a educação deles falhou, infelizmente cometemos alguns erros... chatice! Casei cedo, não sabia nada de nada, nem ela... não estavámos ainda preparados, éramos dois imaturos, com muitos ideais na cabeça. O casamento deve ser celebrado quando os dois já adquiriram uma boa maturidade. .. caso contrário vão tramar as próprias vidas e tramar a dos seres que vão gerar, para além da genética.
- No meu caso, como sabe, eu e a Celina não tivemos filhos, por impossibilidades da saúde dela. No entanto,tem razão, quando se é jovem não se faz ideia das intempéries que vamos enfrentar e da coragem necessaria para lidar com esses obstáculos e problemas de toda a ordem. As dores de cabeça começam aí e dificilmente desaparecem, é preciso arregaçar as mangas e enfrentar o touro pelos cornos ...
- É isso mesmo, Sr Celestino!
- Sabe, ontem, o seu genro foi me procurar ao escritório para lhe facilitar a burocracia e despachar um documento relativo à casa. Neguei-me porque não está nas minhas mãos.
- Ah sim?
- Sr Sousa, não imagina a cena que ele me fez ! Eu a explicar e ele a desconfiar da minha palavra.
- Imagino, Sr. Celestino... aquele urso fora da toca...dentro da toca ele baixa mais o volume, tem mais calma...
- Porquê?
- Teme que a minha filha o deixe, ainda não percebeu que ela nunca vai se separar dele! O patife nem isso atinge.
- É um tipo deveras estranho... parece um louco. A sua filha de que se agradou... desculpe, Sr Sousa falar do seu genro desta forma!
- Ele merece, sr Celestino, a minha filha deu a maior cabeçada da vida dela, é uma casmurra! Foi casar com aquele autêntico bandido, um tipo sem escrúpulos e sem interesse nenhum. Ele vive na sombra dela, fareja o que ela ganha e o que ela herdou da família. Tudo o que ela possui também é dele. Casaram com comunhão de bens, belo serviço!Ele chegou sem nada e continua sem nada. Que ele não possuísse bens materiais, nem dinheiro mas ao menos carácter e dignidade, neste caso, é nada mesmo!
- Diga-me, como é que a sua filha consegue estar casada com ele?
- Todos pensam que ele é quem manda, ele é demasiado prepotente, espalhafatoso, dá nas vistas, pobre diabo! Ali, quem comanda é ela, ele executa.
- Ninguém diria!
- Ela sabe jogar com as fraquezas dele!
- Então a sua filha é habilidosa?
- Não, é uma criança num corpo adulto, estúpida e cheia de birra.
- Mas se ela tem jogo de cintura é uma mais valia para ela, não?
- Sim, é , logicamente ele aprendeu a fazer o mesmo com ela.
- Ela gosta dele assim?
- Ela gosta quando lhe convém, inferioriza-o quando convém , incapacita-o e chinga-o quando convém ...e dá-lhe ordens.
- Sr Sousa, eles alguma vez se amaram ?
- Nem sei se alguma vez se amaram, ela serve-se dele como um capacho, um serviçal, desde o começo que anulou toda a liberdade dele! Asfixiou-o completamente ! Ele permitiu porque se apercebeu que ela era um passaporte para uma vida melhor. Como ele veio do zero... está a ver... ela não fez dele um homem melhor porque ela também é do mal. Transformou-o num ser idêntico a ela, no entanto, ela é que tem de brilhar ou julga que brilha, sempre brilhou mais porque atira todo o lixo para ele, o lixo é sempre dele, até o dela! Ele nunca poderá estar acima, terá de se contentar com a inferioridade e tem uma forma de lidar com a família e o exterior, muito esquisita.
- Que quer dizer?
- Ela vive numa realidade fictícia, que não existe, criou uma bolha, onde só ela está dentro... ninguém mais. Ali ela reina e sente-se superior diante dos fracos e curva-se aos fortes. Sendo o eco dela, ele faz o mesmo...
- Como é que lida com essa filha?
- Nós não nos damos bem. Quando vão lá a casa, procuro ausentar-me. Se tentarmos conversar, acontece sempre discussão. Somos o oposto. Ela combina bem com a mãe. Apaparicam-se uma à outra mas isso não me perturba. Convivo bem com a relação das duas. São mãe e filha, por isso...
- Que é feito do seu neto?
- O filho deles é um caso muito complicado. E poderíamos esperar que assim não fosse? Está trancado dentro de casa para não causar problemas à mãe.
- Sr. Sousa que quer dizer?
- O rapaz não convive com ninguém, está voltado para os dois, pai e mãe. Só vem para o exterior na companhia deles. E eles compram-lhe tudo, efetivamente ele não precisa de fazer nada...
- Então não trabalha?
- Não, não consegue !
- Esse rapaz é seguido por algum ...?
- Até a psicóloga foi escolhida pela mãe!
- A sua filha como mãe está a prejudicar muito o filho! O que vai ser do futuro dele?
- O problema é que nem um, nem outro parecem preocupados com isso. Eles preferem assim.
- Que horror ! Pobre rapaz... na flor da juventude a perder tudo a que tem direito e sem aprender o que é a vida! que pena!
Concentrei-me de tal forma naqueles dois homens, que tornei-me alheia a todo o percurso da viagem, quando me preparo para sair, olho de esguelha para saciar a minha curiosidade , de nada serve a intenção, não consigo, naquele instante, as cabeças de ambos viradas para a vidraça. Em sentido contrário do que posso visualizar . Pelo que ouvi, o Sousa ocupa o lugar da janela e o Celestino, do lado de fora. Sem mais demoras, preciso apear rapidamente. Por algum tempo, aquela conversa fica a dar voltas à minha cabeça.