quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Viagem III

 Sento-me devagar  no banco .  Por enquanto,   não há sombra de  passageiros  para  seguir viagem.  Aguardo a hora pacientemente.  Há  imensa gente a passar diante dos meus olhos. Uns para um lado,  outros para o outro.   Estrangeiros e residentes.  Mesmo à minha frente, uma faixa , duas filas de carros para a direita, a meio a separar as faixas , jardins estreitos e compridos, do outro lado,  uma faixa, duas filas de carros, em sentido inverso.   O movimento e o ruído das gentes, dos automóveis e autocarros , as respectivas   buzinas  disparam e ensurdecem.  Sobre mim pesa uma   abóboda de responsabilidades,   a erosão das preocupações,  das patologias crónicas, das amarguras e incompreensões, das injustiças persistentes e  como consequência,  um  sistema nervoso debilitado. Apesar de em parte ser proveniente do  histórico herdado, mas  sou forçada a  seguir  sobre o lodo obscuro e incerto, sem nenhum corrimão  ou vão de porta ou janela  a que tivesse podido deitar a mão,  não obstante, sigo agarrada à prática do bem, da verdade e a um facho de esperança. 

Os  transeuntes, residentes e estrangeiras vão  chegando, homens, mulheres e  jovens.   Entretanto, aglomeram-se frente à porta ainda fechada. O motorista prepara- se para a nova viagem. Subitamente a porta abre e lá  vou eu na minha vez.                   

Ocupo  um  lugar ,pouso os meus olhos embaciados de cansaço   através da vidraça,  lá fora   a cidade continua a respirar;  os seus habitantes,  visitantes,  movimentos e ruídos, sons sibilantes e distantes...quedo-me  esquecida   da fila de gente que ainda  dá entrada no autocarro. O transporte continua parado. O relógio roda lento.  

E ouço nitidamente atrás das minhas costas: 
- Sr.  Sousa ! 
- Sr. Celestino! 
Os dois homens cumprimentam-se efusivamente, deduzo apertos de mãos e escuto palmadinhas nas costas.
- Como vai a vida? A sua saúde, Sr. Celestino?
- A vida... razoável,  a saúde? Ai a saúde... Necessitar de médicos é uma tremenda chatice!  O sistema é antigo,  poupa os afortunados e queima os fracos. Aqui , na terra, o dinheiro é a salvação dos grandes! A não ser uma daquelas doenças graves e sem remédio, aí  não há medicina  que lhes  possa valer. Isto nunca foi  diferente e nunca será. Desengane-se quem se ilude. 
- É  preciso ter algum algum conforto a nível económico, não ser apanhado por essas  patologias cabeludas, senão o indivíduo está arrumado. Sem dinheiro é mais complicado. As hipóteses reduzem-se substancialmente. A minha situação é ligeiramente mais  desanuviada porque o meu salário e o da minha esposa permitem certos investimentos...
- E  a família como está,  Sr. Sousa?
-  Confesso que nem lhe sei dizer... Nenhum dos meus filhos mora por baixo da ponte, cada um tem  habitação própria,  no entanto, são muito desunidos, puxaram o lado da mãe, é uma gente estranha,são  rancorosos uns para os outros.  sempre foram e quando aconteceu a divisão de  bens, a casa da minha mãe foi vendida,  o humor foi de feras. Como pai sinto pena, nunca pensei falar semelhante coisa...
- Não se preocupe, Sro Sousa, fique à vontade! 
Concentro- me ainda mais na conversa daqueles dois homens , não lhes vejo  o rosto, nem as características fisicas. Apenas as vozes, timbres sem nada de relevante, apenas vozes de dois conhecidos. 
  - ...Pelo menos a minha mulher tem sido  muito companheira, ela é diferente daquela família. Já não posso dizer o mesmo dos  nossos filhos... a educação deles falhou, infelizmente cometemos alguns erros... chatice!  Casei cedo, não sabia nada de nada, nem ela... não estavámos ainda preparados, éramos dois imaturos, com muitos ideais na cabeça. O casamento deve ser celebrado quando  os dois  já adquiriram  uma boa maturidade. .. caso contrário vão  tramar as próprias vidas e tramar a dos seres  que vão gerar, para além da genética. 
- No meu caso, como sabe, eu  e a Celina   não tivemos filhos, por impossibilidades da saúde dela. No entanto,tem razão,  quando se é jovem não se faz  ideia das intempéries que  vamos enfrentar e da coragem necessaria para lidar com esses obstáculos  e problemas de toda a ordem. As dores de cabeça começam aí e  dificilmente desaparecem, é preciso arregaçar as mangas  e enfrentar o touro pelos cornos ... 
- É  isso mesmo, Sr Celestino!  
- Sabe, ontem, o seu genro foi me procurar ao escritório  para  lhe facilitar a burocracia e despachar um documento relativo à casa. Neguei-me porque não está nas minhas mãos.  
- Ah sim? 
- Sr Sousa, não imagina a cena que ele me fez ! Eu a explicar e ele a desconfiar da minha palavra. 
- Imagino, Sr.  Celestino... aquele urso fora da toca...dentro da toca ele baixa mais  o volume, tem mais calma...
- Porquê? 
- Teme  que a minha filha o deixe, ainda não percebeu que  ela nunca vai se separar dele! O patife nem isso atinge. 
-  É  um tipo deveras estranho... parece um louco. A sua filha de que se agradou... desculpe, Sr Sousa falar do seu genro desta forma! 
- Ele merece, sr Celestino, a minha filha deu a maior cabeçada da vida dela, é uma casmurra! Foi casar  com aquele  autêntico bandido, um tipo sem escrúpulos e sem interesse nenhum. Ele vive na sombra dela, fareja  o que ela ganha e  o que ela herdou da família. Tudo o que ela possui também é dele. Casaram com comunhão de bens, belo serviço!Ele chegou sem nada e continua sem nada. Que ele não  possuísse bens materiais, nem dinheiro mas ao menos carácter e dignidade, neste caso, é nada mesmo! 
- Diga-me,  como é que a sua filha consegue estar casada com ele? 
- Todos pensam que ele é quem manda, ele  é demasiado prepotente, espalhafatoso,  dá nas vistas, pobre diabo! Ali, quem comanda é  ela, ele executa. 
- Ninguém diria! 
- Ela sabe jogar com as fraquezas dele! 

- Então a sua filha é habilidosa?
- Não, é uma criança num corpo adulto, estúpida e cheia de birra. 
- Mas se ela tem jogo de cintura é uma mais valia para ela, não? 
- Sim, é , logicamente ele aprendeu a fazer o mesmo com ela. 
- Ela gosta dele assim? 
- Ela gosta quando lhe convém, inferioriza-o quando convém , incapacita-o e chinga-o quando convém ...e dá-lhe  ordens. 
- Sr Sousa, eles alguma vez  se amaram ? 
- Nem sei se alguma vez se amaram,  ela serve-se dele como um capacho, um serviçal,  desde o começo que anulou  toda a liberdade dele! Asfixiou-o completamente ! Ele permitiu porque se apercebeu que ela era um passaporte para uma vida melhor. Como ele veio do zero... está a ver... ela não fez dele um homem melhor porque ela também é do mal. Transformou-o num ser idêntico a ela, no entanto, ela é que tem  de brilhar ou julga que  brilha,  sempre brilhou mais porque  atira todo o lixo para ele, o  lixo é  sempre dele, até o dela! Ele nunca poderá estar acima, terá de se contentar com a inferioridade e tem uma forma de lidar com a família e o exterior, muito esquisita. 
- Que quer dizer?
- Ela vive numa realidade fictícia, que não existe, criou uma bolha, onde só ela está dentro... ninguém mais. Ali ela reina e sente-se superior diante dos fracos e  curva-se aos fortes. Sendo o eco dela, ele faz o mesmo...
- Como é que lida com essa filha?
- Nós não nos damos bem. Quando  vão  lá a casa, procuro ausentar-me. Se tentarmos conversar, acontece sempre  discussão. Somos o oposto. Ela combina bem com a mãe. Apaparicam-se uma à outra mas isso não me perturba. Convivo bem com a relação das duas. São mãe e filha, por isso...
- Que é feito do seu neto? 
- O filho deles é um caso muito complicado. E poderíamos esperar que assim não fosse?  Está trancado dentro de casa para não causar problemas à mãe. 
- Sr. Sousa que quer dizer?
- O rapaz não convive com ninguém, está voltado para os dois, pai e mãe. Só vem para o exterior na companhia deles. E eles compram-lhe tudo, efetivamente ele não precisa de fazer nada...
- Então não trabalha? 
- Não,  não consegue ! 
- Esse rapaz é seguido por algum ...? 
- Até a psicóloga foi escolhida pela mãe! 
- A sua filha como mãe está a prejudicar muito o filho! O que vai ser do futuro dele?
- O problema é que nem um, nem outro  parecem preocupados com isso. Eles preferem assim. 
- Que horror ! Pobre rapaz... na flor da  juventude a perder tudo a que tem direito e sem aprender o que é a vida!  que pena! 

Concentrei-me de tal forma naqueles dois homens,  que  tornei-me alheia a todo o percurso da viagem, quando me preparo para sair, olho de esguelha para saciar a minha curiosidade , de nada serve a intenção,  não consigo, naquele instante, as cabeças de ambos viradas  para a vidraça. Em sentido contrário do que posso visualizar .  Pelo que ouvi, o Sousa ocupa o lugar da janela e o Celestino,  do lado de fora. Sem mais demoras, preciso apear rapidamente. Por algum tempo, aquela conversa fica a dar voltas à minha cabeça.