domingo, 12 de novembro de 2023

Confissões de mulheres/ mães

 


 Houve uma  paixão incendiária na minha vida que  me arrastou para o fundo do poço  e eu fui porque quis. Não devia.  Queria imensamente  continuar na relação... Perdi a noção dos limites, da minha dignidade, fui a única que sofreu, a maior e principal   culpada, desrespeitei-me como até então não tinha sucedido.
Tudo começou porque certa noite   vi uns olhos castanhos brilhantes numa face  bem esculpida,  uns  dentes brancos, alinhados em conformidade e em harmonia com a cabeleira lisa,  tudo nele   era belo e novo, até a barba rala  assentava bem e tornava-o ainda mais desejável, um doce encanto.   Lembro-me como se fosse agora... de o ver entrar no "Altas horas". Havia música agradável. Não era tarde, nem era cedo.  Os olhos dos amigos precipitaram-se  para a figura que acabara de chegar,  entrou no bar  acompanhado por outro,  que por sinal, era conhecido de alguém do meu grupo. Um rapaz  semelhante na jovialidade, na beleza, na altura,  cabelo grosso e ondulado, com um ar ponderado, tez  clara e olhos profundos.  Por incrível que pareça convidaram-nos a ficar na nossa mesa  e o homem  sentou-se  mesmo  à  minha frente; Acendi toda como um fósforo,   por mais que tentasse ser discreta, a minha concentração focou-se no seu riso, evidentemente que ele se apercebeu e respondia ao sorrir de forma magnética.  Os nossos olhos cruzaram-se diversas vezes e fixavam-se  numa linguagem lasciva. Ele expressava-se com eloquência,  muito mais que o outro. O tom de voz rouco e quente enloqueceu-me, depois mostrou o quanto era combativo, erguia a voz numa verve melodiosa. A minha atenção prendeu-se aquele homem de tal forma hipnótica, que  quando todos se foram embora, do grupo, só eu restava. Éramos só nós os três. O homem que servia à mesa avisou brandamente que tinha de fechar. Saímos . Ele perguntou-me se vivia perto ou precisava que me levassem a casa. Aceitei o convite.  Era o outro que conduzia, ele sentou-se ao lado, eu ocupei o banco de trás. Imaginava uma forma de tornar a vê-lo. A conversa era entre eles,  deixei- os e fiquei a escutá-los.  Não havia dúvida que  era um indivíduo interessante e inteligente.  Quando me apeei, não resisti e sugeri a troca de contatos. Toda a noite recordei   os  detalhes daquela noite e a figura dele sobrepunha-se a tudo o resto. Passaram quinze dias e sem sinal dele. Não entrara em contato comigo... Não tive coragem de ser eu a primeira a dar o passo em frente,  entao entrei em contato   com uma  conhecida, a ponte de ligação ao amigo. Por coincidência, ela já tinha pensado em ligar-me, pois, ia convidar o grupo e os dois rapazes para a sua festa de aniversário. Não podia ser mais oportuno. Senti uma  enorme excitação,  então ía encontrá-lo muito em breve. Estava convencida que ele se sentia  atraído  por mim, tal como eu por ele.
Foi uma festa bonita; houve luz, cor, alegria, dança, muitas prendas à aniversariante. Como é óbvio,  impacientei-me  para voar até  aos braços daquela perdição,  doida para receber o convite.  O meu coração  acelerou quando aconteceu.  Finalmente ele tinha vindo na minha direção e puxou- me para si com aquele ar roqueiro ou pirata, ou a mistura dos dois, já nem sei, foi como se pulasse  diretamente  para as nuvens. Ele exalava um odor a tabaco imiscuído com perfume, um peitoril  robusto com  medidas exatas,  apoiei-me nos ombros espaçosos. Que rosto perfeito, agora mais próxima, podia ver com mais acuidade os olhos  castanhos mel. A expressão  com que me fitava, era uma verdadeira tentação. Foi bom ouvir aquela voz quente e rouca só para mim. Ele dominava vários assuntos e expunha  com ponderação, calma e firmeza   admiráveis. Aquela noite, os meus olhos não o largaram. Os deles requebrados  para mim, nem me apercebi de mais nada. Trocamos de par, dancei com o amigo dele, um rapaz bonito e atraente, contudo, muito  calado e sério. Talvez triste, pensei eu na altura.  No fim da festa levaram-me a casa. Quando entrei , só me apeteceu dançar sozinha de tão feliz que me sentia.
No dia seguinte tomou a iniciativa de me  convidar para sair
. Nem queria acreditar. Repetiu no dia  posterior o mesmo; Espantoso, era aquilo pelo qual aguardava.  Quando chegou, a dirigir o jipe, fiquei ligeiramente desapontada, o mesmo amigo à frente, ao lado, eu a imaginar que seríamos só nós os dois.
Começamos a sair com alguma frequência,  os três. Calei a decepção e esperei que o tal amigo se afastasse naturalmente. Quando uma tarde, fui mais longe, tentei abordar a questão de forma diplomática, a resposta imediata; o amigo tinha sido diagnosticado  com  autismo desde os tempos de escola e era discriminado por isso. Ele  sentia-se responsável pelo outro. Arrastava-o  consigo para todo o lado, não ia deixá-lo sozinho em casa. Abandonado. Mostrei a minha complacência, então,  o amigo sofria  de autismo?...sim, tudo nele era estranho.  Demasiado  introvertido, parcas conversas, sem risos... sem alegria... devia ser isso.
Não obstante, a  justificação não me havia convencido totalmente, ainda não se tinha aberto a oportunidade de ficarmos a sós. O amigo rondava por perto, como se fosse um fantasma ou ficava mesmo ao nosso lado. Outra pergunta subiu-me aos lábios, o amigo também acompanhava-o ao ateliê? Partilhavam o mesmo quarto?   Surgiu outra pergunta, quando, em que momentos não estariam juntos? Nessa altura, lembro-me que ele se  levantou da mesa do café a correr. Não percebi o que teria sucedido,  parecia assustado. Afinal perdera-o de vista.
Quando voltou à  mesa mostrou-se  inquieto. De repente, saímos à pressa. Não me agradava aquele paternalismo excessivo,  aquela dependência.


 De repente criou-se em mim um desejo enorme que aquele amigo desaparecesse. Se  perdesse numa esquina qualquer, numa rua sem fim ou se ele encontrasse uma amiga  e se encostasse nela ... Desta forma alcancaríamos  o tão almejado sossego. Quando eu conduzia, ele torcia o tronco, de frente para mim,  uma forma  mais fácil de  comunicar  com o amiguinho  sentado atrás,  eu percebia  o braço avançar  e  a mão  tocar a perna do outro, num afago. Aquilo era deveras um massacre para mim. O amigo, era um homem, não se tratava de uma criança, para ser tratado como tal,  nem sofria de  autismo profundo. Então porquê toda aquela devoção?  Os beijos que trocávamos eram quase sempre apressados, superficiais, com pouco  ardor. Ele era extremamente carinhoso e afável, porém intimidava-se na  presença do outro. Eu notava esse embaraço. O namoro prosseguiu, se é que se pode   chamar de namoro ao que tínhamos. A minha impressão, é que eu  tinha um   romance  com dois homens; um ativo e um passivo.
Uma tarde, saí do trabalho mais cedo,  passei na confeitaria, comprei um bolo e dirigi-me à casa deles. Quando entrei, ouvi sons que me assustaram, julguei que o autista se tinha engasgado, talvez uma crise.  Abri  a porta com algum medo e pela fresta observei o impensável,  levei um tremendo baque; estavam sentados, um ao lado do outro. Havia entre os dois homens uma cumplicidade maliciosa. O autista;  de  zip das calças aberto, a mão do outro a acariciar o órgão genital. Até a masturbação?!Que nojento! O autista  não usava as próprias mãos?!Tremi toda, voltei a sair devagar, puxei a campainha com força. Surgiram à porta com um ar surpreendido por haver tocado  com semelhante força.
Fiz um  tremendo esforço  para dissimular o desapontamento  sentido . Nessa noite, ele questionou-me sobre o que me teria acontecido. Afirmei que nada me afetara. Quando regressei deixei cair a máscara e pude  carpir à vontade. Nem queria acreditar no  que me tinha envolvido.  Deveria ter colocado um ponto final.  Infelizmente quis me enganar e convenci-me que  provavelmente não tinha visto com clareza...  provavelmente a   imaginação galopante a pregar partidas.
Nos dias subsequentes, tudo decorreu normalmente, quando chegava  até eles puxava a campainha com raiva. Ele estranhou esta  atitude, afinal a minha pessoa já era familiar. De forma alguma desejaria passar pelo mesmo constrangimento, as saídas continuaram a três;   ao cinema , a simples passeio,  ao café, a jantares. Eu encontrava-me à  beira de um ataque de nervos, ficou óbvio que não suportava mais aquele estado de coisas. Certa vez, convidou-me para passar a noite com ele, fiquei empolgada. Fantasiei se o amigo estaria por ali. Não o conhecia na intimidade,  superou as minhas expectativas. Um autêntico expert em conduzir, em seduzir, muito criativo.  Fiquei rendida, haveria de arranjar maneira de apagar aquele episódio da minha memória  custasse o que custasse. Na vez seguinte, chegou novo convite e acendi toda por dentro. Subitamente julguei  que o rumo  da situação estava prestes a mudar. 
 
Íamos  muito bem,  na intimidade ele mostrava uma mestria digna de registo. Mas  pressenti que havia mais alguém no quarto . Sobressaltei-me  e ergui-me, foi quando    vi o amigo a nos filmar,  só me apeteceu  partir a câmara na cara dele. Ainda me olhou calmo e sereno como se nada se passasse , então, o outro gentilmente  pediu que  se retirasse. Subitamente saiu da cama  também e envolto num roupão cravou em  mim os seus belos olhos  crespados e discorreu num tom desagradado e estranho; que nós não combinavamos, que eu era do contra, não alinhava em nada, a filmagem tratava-se de uma brincadeira inofensiva, para ele eu não compreendia o Autismo. Envolvi-me igualmente num roupão e disparei enraivecida que aquela situação era insuportável. Uma relação a três para mim, não resultava. Estava farta e cansada daquela sombra fantasmagórica, inusitada.
Subitamente, ele baixou a defesa,  pediu-me paciência e  desculpou-se da forma grosseira  como me tinha tratado. Que compreendia as  minhas razões. Apaixonada como estava, fechei os olhos mais uma vez. A verdade é que fui tão estúpida que voltei à cama com ele e o amigo pouco tempo depois surgiu,  ali ao lado, a assistir. Tentei me abstrair  . Quando  quis protestar, ele com um sorriso encantador e gestos subtis, conseguiu apaziguar os ânimos.   Os encontros sucederam-se  mais vezes . Até que chegou a uma altura em que o amigo já participava e transformou-se em ménage à  trois; não sei dizer quem beijava quem, quem abraçava quem, quem penetrava quem. Comecei a perceber que  não ia conseguir mudar nada. Pelo contrário,  estava tudo errado. Certa vez fitei-me ao espelho e senti vergonha, nojo e  estranhei-me.  Não podia continuar assim. Sentia-me suja, eu não era assim. Nunca tinha sido  assim. Comecei a recolher os meus pertences e pretendi sair definitivamente dali. Havia um portátil ligado, coloquei a mão inadvertidamente e eis que surge a foto do amigo a ocupar  o ecrã inteiro . O meu coração teve um estremecimento.  De repente a imagem  desaparece e dá lugar a um texto;  li  aterrorizada,  afinal os dois eram mesmo  homossexuais e mantinham uma relação aberta,   descobri também  que pertenciam a uma rede pornográfica. Saí a correr e a soprar como um touro.  O encantamento quebrara -se no meu rosto. Já  em casa,  não queria acreditar onde me tinha metido. Tinha-me iludido,  havia sinais por todo o lado. Não podia culpar ninguém,  a não ser eu própria. Sim, ele e o outro eram dois  perversos. E eu a meio,  vi tudo desde o início e participei.  A paixão assolapada manteve-me cativa.

Lembro-me que tomei um  banho demorado e nem assim me livrei  da sujidade que o corpo e a alma carregavam. Bebi, bebi muito. Queria esquecer, apagar, expulsar  o indivíduo e aquele maldito amigo de dentro de mim. Soltei palavrões, todos os que sabia, espumei  raiva,  frustração, ódio, choro, muito choro. O rebanho das  imagens porcas seguiam-se umas às outras. Baixei ao inferno. O telemóvel tocou, era ele. Desliguei. Apaguei o número . Foram dias péssimos...;  Recolhi-me durante uma longa temporada. Ele tentou  contactar comigo, por diversas diversas vezes, acabei por bloqueá-lo e risquei-o definitivamente  da minha vida. O que me revolta ainda   é pensar como a sociedade desculpa o comportamento de certa gente, por ser conhecida,  importante, figura pública. Então se eu fosse alguém das altas esferas e tivesse  ido pelo mesmo caminho ....  poucos se atreveriam a mirar-me  de esguelha. Aos grandes tudo lhes é  perdoado e esquecido.  Nos dias de hoje, não é trágico ser promíscuo, nem mau carácter, pouco importa se  fere, pouco importa se abusa, pouco importa se provoca danos irreversíveis, pouco importa se maltrata quem está próximo, não é grave, porque   a fama já se ergueu e o mal feito não tem peso  e pouco altera a vida dessa gente, mesmo sendo do sexo feminino. Muito tempo depois  soube  por uma amiga que  os dois  tinham viajado,  saí à rua e respirei de alívio.  Por causa desta "droga" perdi grandes amigos, alguns nunca mais me vão olhar como antes, nem eu própria.