Há uns anos senti necessidade de viajar através de outro meio de transporte. Por isso uma manhã sombria, chamei um Bolt, mas comecei muito antes pelo táxi, é um transporte de luxo, no entanto, alguns deles, o interior, é tal e qual uma sucata desleixada, normalmente o motorista é antipático, caraça de elefante indisposto, torna-se doença crónica, ar bárbaro, a dúvidas colocadas responde resmungão por monossílabos, não se perturba com a comodidade do passageiro. Outros há que conduzem carros sofisticados, mas não passam de troncos toscos. Durante remotos anos recorri ao táxi , como se não bastasse, o meio onde vivia, era um lugarejo mesquinho. A impressão de um passa para outro e começam a ver pelo mesmo retângulo e vão partilhando a intriga, a difamação e a bisbilhotice é recolhida uns para os outros, depois deixam de ser os mesmos, passam a seres adulterados. Cruzei-me igualmente com taxistas muito simpáticos e atenciosos, embora muito raros. Com alguns travei amizade. Hoje não sobra pedra sobre pedra.
Aguardo uns minutos e fico atenta ao telemóvel, para fixar principalmente a matrícula da viatura e o nome de quem está ao volante. Observo o ecrã e efetivamente está confirmada. Há os mais afáveis, risonhos, capazes de soltar uma boa gargalhada, abrir o interior com cautela e arriscar algumas confissões, especialmente se voltarem a fazer mais serviço para o mesmo passageiro. Há os sisudos, mais reservados, que se focam na direção e guardam silêncio até o fim da viagem. Surgem também aqueles que disfarçam o embaraço do silêncio com música a meio tom, ou por sentirem que é mais agradável e preferível a qualquer comunicação com alguém que desconhecem, há músicas que revelam o raso cultivo de quem as consegue escutar. Neste tipo de serviço, as senhoras são aves raras, as poucas com quem me cruzei, autênticas múmias, nem o cumprimento, nem lhes vi o rosto. lembro-me provavelmente de uma, duas ou três em que a viagem foi um prazer,
Assim que abro a porta de trás, cumprimento imediatamente o motorista. A partir daqui depende de quem vai à frente. Se lhe apetecer uma boa cavaqueada, entro também no cavaco. Tenho sido surpreendida por muitos deles, agradáveis , afáveis, bem falantes, bem dispostos, independentemente da idade. São pessoas com brio e profissionais com boas classificações. A minha experiência é rica neste aspeto. No fim da viagem sou convidada a fazer a avaliação do serviço, do grau de agradabilidade e o direito à opinião pessoal, acrescentar algo que considero adequado, valorizo a simpatia, a afabilidade, o humor, a inteligência, a educação e naturalmente o respeito. Não tolero grosserias. Há outros detalhes que se pode considerar na avaliação, o estado da viatura, a apresentação do veículo, se se encontra preparado para transporte de clientes.
Às vezes gostaria de gravar certas conversas, de tão interessantes que se tornam. Há motoristas que nos marcam pela delicadeza, pela atenção, pela diferença, pela compreensão. Há bons profissionais e boas pessoas nas áreas em que menos se espera.