terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Viagem XVII

 Há uns anos senti necessidade de viajar através de outro meio de transporte. Por isso uma manhã sombria, chamei um Bolt, mas  comecei muito antes  pelo  táxi, é um transporte de luxo, no entanto, alguns deles, o interior,  é tal e qual uma sucata desleixada,   normalmente o motorista é antipático,  caraça  de elefante indisposto, torna-se  doença crónica, ar bárbaro,  a dúvidas colocadas responde resmungão  por monossílabos, não  se perturba com a comodidade do passageiro. Outros há que conduzem carros  sofisticados,  mas não passam de troncos toscos.   Durante remotos  anos recorri ao táxi ,  como se não bastasse, o meio onde vivia,  era um lugarejo  mesquinho.  A impressão de um passa para outro  e  começam a ver pelo mesmo retângulo e vão  partilhando a  intriga, a difamação e a bisbilhotice  é recolhida  uns para os outros, depois deixam de ser os mesmos, passam a seres adulterados.  Cruzei-me igualmente com taxistas muito simpáticos e atenciosos, embora muito raros. Com alguns  travei amizade. Hoje não sobra pedra sobre pedra. 

Aguardo uns minutos e fico atenta ao telemóvel, para fixar principalmente a matrícula da viatura e o nome de quem está ao volante.  Observo o ecrã e efetivamente está confirmada.   Há os mais  afáveis, risonhos,  capazes de soltar uma boa gargalhada,  abrir  o interior com cautela e arriscar  algumas confissões, especialmente se voltarem a fazer mais serviço para o mesmo passageiro.  Há os sisudos, mais reservados, que se focam na direção e  guardam  silêncio até o fim da viagem.  Surgem também aqueles que disfarçam o embaraço do silêncio com música a meio tom, ou por  sentirem que  é mais agradável e preferível  a qualquer  comunicação com alguém que desconhecem,   há músicas  que revelam o raso cultivo  de quem as consegue escutar.  Neste tipo de serviço, as senhoras são aves raras, as poucas com quem me cruzei,  autênticas  múmias,  nem o cumprimento, nem  lhes  vi o rosto.  lembro-me provavelmente   de uma, duas ou três  em que a viagem foi um prazer, 

Assim que abro a porta de trás, cumprimento imediatamente  o motorista. A partir daqui depende de quem vai à frente.  Se lhe apetecer uma boa cavaqueada, entro  também  no cavaco. Tenho sido  surpreendida  por  muitos deles, agradáveis , afáveis,  bem falantes, bem dispostos,  independentemente da idade. São pessoas com brio e profissionais com  boas classificações.  A minha experiência é rica neste aspeto. No fim da  viagem    sou convidada a fazer a avaliação do serviço,  do grau de agradabilidade e o direito à opinião pessoal, acrescentar  algo que considero adequado, valorizo a simpatia, a afabilidade, o humor, a inteligência, a educação e naturalmente o respeito. Não tolero grosserias. Há outros detalhes que se pode considerar na avaliação,  o estado da viatura, a  apresentação   do veículo, se se encontra preparado  para transporte de clientes. 

Às vezes gostaria de gravar certas conversas, de tão interessantes que se tornam. Há motoristas que nos marcam pela delicadeza, pela atenção, pela diferença, pela compreensão. Há  bons profissionais e boas pessoas nas áreas em que menos se espera.