domingo, 21 de outubro de 2018

Aula número 100


Aquela manhã outonal acordou resmungona,
cara  enfarruscada  , nauseada, esgazeada
cabelo desmanchado ,
tecido do roupão amarfanhado, eriçado.
Crescia a suspeita  de que  rega  abundante chegaria
em breve...
e a terra até já  cheirava a molhada.
À  medida que a manhã cerrava o punho,
as gentes corriam para a azáfama quotidiana.
Quando a campainha soou sibilante,
a massa de estudantes dirigiu-se às  respetivas salas.
Um grupo de alunos parou junto à sala vinte e sete A,
Enquanto aguardavam a presença da professora;
desataram em provocações mútuas;
desafiaram-se para cenas de pugilismo
que cessavam  quase sempre de forma séria;
alguém acabava por prantear ou a gotejar sangue
e foram gritos, guinchos, risadas e gargalhadas
Uma mescla de grande vozearia, algazarra, sangria desatada
Alguns avistaram a docente, depressa
avisaram os outros, mas
nem assim a gritaria abrandou.
Ela passou cuidadosamente
para não  ser apanhada por um empurrão
eles e elas seguiram-na num tumulto,
sem mudar a organização;
perante tal cenário, a professora  cruzou os braços,  séria:
- Agradecia que se acalmassem! - apelou
Sem ver o pedido acatado,
a docente endereçou-os de novo à  rua
e voltar a entrar como de  gente se tratasse,
Num motim desconcertante e a contestar:
-  Outra vez sair? Que seca!
- Vamos passar a aula nisto ?
-Havia de ser bom !
-Cala-te seu caralho!
-  Não  me mandas calar, burro!
- Ainda não te calaste, o teu dia de falar era ontem!
Entraram na sala com mais correção.
Paulatinamente foram as vozes baixando
como maré  vaza silenciando.
A professora deu indicações:
- Abram os manuais no capitulo das energias ,
façam a  leitura em silêncio  das duas primeiras páginas
seguido de resumo, utilizando palavras vossas.
Novo protesto; fazer síntese? que aborrecimento!
coisa dificil de elaborar! Que chatice! Mais valia ter ficado em casa!
-Professora, posso ir à  casa de banho? – desatou um rapaz alto, de cabelo claro.
-Por favor, Gabriel , és  sempre o mesmo, já  avisei do teu limite
de idas à  casa de banho. Eu atrasei-me, aproveitasses o tempo
para esse efeito. E já  sabes as regras!
Depois, segurou o livro e ignorou o respetivo discente:
- Mas professora, preciso de ir urgentemente à casa de banho! - insistiu num tom jocoso  e de seguida lançou   olhares  zombeteiros à  turma, em busca de compadrio.
- Professora, deixe o pequeno ir à  casa de banho, coitado! -  exclamou uma rapariga rindo para Gabriel.
- É  que ele pode fazer nas calças. -  acrescentou outra.
- Olhe, se isso acontecer a sra é a responsável - diz outro muito divertido.
Risada da turma. A professora ignora as infelizes manifestações.
Resolve iniciar a leitura de um parágrafo que considerou interessante e esperou que a rapaziada fizesse silêncio. Em vão.
Começaram a falar uns com os outros a propósito do mesmo assunto.
Gabriel voltou à  carga:
- Senhora, é  que estou mesmo apertadinho! - simulou desespero.
- Não  conheces as regras? - lembrou a professora.
- Eu conheço as regras mas já esqueci algumas delas... – colocou um ar inocente.
- Gabriel, já  falta pouco para fazer participação. 
- Não  professora,    estou tapado! - dramatizou o momento - mais uma e vou para casa, a minha mãe  mata-me e o meu pai esfola-me!
Nova risada geral.  
- Professora deixe o Gabriel ir à  casa de banho e resolve logo o assunto, depois, alguns professores deixam. – um deles  trocista e arrogante. 
- Em  primeiro lugar, a professora aqui sou eu, em segundo lugar, as  regras foram feitas para cumprir, servem para regular o comportamento humano. As duas páginas já foram lidas? Estou à  espera!
- Não! -  disse a maioria da deles.
- Só  mais cinco minutos, para iniciarem os resumos e avançarmos para
a questão de aula.
Uma chuva de protestos por julgarem ser pouco tempo.
- Professora,  vou fazer chichi aqui! - ameaçou Gabriel novamente num tom dissimulado.
- Faz, faz , quero ver ! - acrescentou outro.
Riram-se todos novamente.
Gabriel de olhos  esbugalhados.:
- Por favor, professora!
A turma desfez-se em riso, surgiu nova oportunidade para conversas,
provocações, brincadeiras .
- Gabriel, imediatamente para o seu lugar.  Chega desta  palhaçada !
- Professora, o Pedro está-se a rir de mim! -lamuriou-se o aluno inventando zanga.
Gabriel fixa  oblíquo os olhos da  professora  enquanto  retoma o seu lugar,
 vai olhando para os colegas   e rindo:
- Olhe, olhe o Filipe... estão todos a rir de mim!
- Não é  esse o teu objetivo ? Ser bobo da corte e deixar a turma rir às tuas custas?
- Não  senhora! Agora é  o João, veja, olhe!
- Vê  se te calas, estúpido! – atira o João.
- Eu não fiz nada e ele chama-me nomes?
- Sei que  estão  a perder tempo com brincadeiras sem nenhum sentido e eu vou avançar. 
-Espere, espere professora ! - pediram alguns.
- Oh, perdi o caderno! – explicou Gabriel aparentando preocupação.
- Perdeste, então  trata de o encontrar o mais breve possível, caso contrário, terás  um zero como nota, tenciono avaliar os cadernos na próxima aula. 
- Então  não  faço  resumo nenhum.
- Fazes sim, pede uma folha a um colega e começa  a trabalhar! – ordenou a docente. 
-Ele tem o caderno, sim, está  dentro da mochila! - disparou o Carlos.
- Nao tenho nada! - respondeu mal humorado.
- Tens sim,  tonto de  merda, agora ele vai chorar!
- Moderem a linguagem por favor, já ando a chamar à atenção
desde o início do ano. Tratem-se bem e com respeito!
- Eu vou chorar, seu caralho!?
- Gabriel, eu acabei de falar desse assunto! Por favor, estás numa sala de aula! Andas sempre a pisar o risco, vê lá!
-Desculpe professora, mas deixe-me ir à casa de banho. 
-Muda de assunto, rapaz! Chega dessa ladainha e  o trabalho que mandei fazer em casa?
- Oh , nao fiz .
- Vou tomar nota dessa falha. E terás zero!
- Eu trago na próxima aula!                 
- Já  passou o prazo de entrega.
- Possa professora, só passou duas vezes...
- Comigo não existe terceira, quinze dias, Gabriel! Da última vez nem entregaste!
-A senhora é má! - resmungou
- Nem vou comentar !
- Há  professores que são  bonzinhos e aceitam e  até aumentam a nota! E digo-lhe mais, até  faço  copy past e eles também aceitam e nem me perguntam se li o trabalho ou não ! Está  a ver!
- Eu sou a professora  má.  Ponto final!
-Obriga-nos a fazer resumos!
- É  verdade professora, ele tem razão, exige muito de nós !
- A professora que me dê negativa, tanto faz, já sei que passo de ano na mesma.
- Basta dessa conversa, agora  faz o teu resumo.
- Eu só faço se for à casa de banho.
- A minha resposta mantém-se.
-  Tira as calças e mostra a bichota.
Naquele momento fez-se silêncio.  A professora disse:
- Eu ouvi a frase e toda a gente ouviu, ela veio do fundo. Não  foste tu, Tiago?
- Não !- respondeu aterrado.
- À  esquerda e à  direita do Tiago, todos negaram.
- Eu tenho a impressão que foi o Tiago...- rematou a professora.
- Não,  não  fui eu, nem sei quem foi - os braços apontaram para um lado e para o outro. E desatou a chorar convulsivamente, - juro que não fui eu, nem sei quem foi.
A docente pediu à calma a todos. Tiago continuou debulhado em lágrimas. Colocou ambas  as mãos no rosto e continuou num pranto intenso. 
- Tem calma, rapaz! Se não  foste tu, porque ficas assim?
Quando a turma atingiu um nível de tranquilidade satisfatório,  a professora, 
viu  o aluno , lá atrás,  muito folgazão.
- Tiago, vem cá à frente, por favor.
- Para quê?
-Quero falar contigo.
- Nao fui eu ! - e desatou novamente num choro convulsivo.
- Vem cá ! – tornou a professora tranquilamente
Houve um relativo silêncio, então criou-se
uma atmosfera íntima entre eles:
- Foste tu que proferiste aquela frase, não foi? – murmurou a docente
- Não,  juro que não ...e a professora vai mandar recado para casa?
- Não, prometo que não, diz  a verdade, mais nada! Confessa!
- Vai escrever na caderneta?
- Já  te respondi, sê  sincero e isto fica entre nós. 
- Fui eu que disse! - declara por receio, não arrependimento.
- Mais uma e uso mesmo a caderneta. -admoestou-o
- Peço desculpa, mas se os meus pais sabem… apanho castigos
- Vai –te sentar!
Enquanto caminhava em direção ao lugar, ria triunfante para Gabriel.

PN
Nota: Baseado em factos reais

Breve nota:
1- O tema causa-me náuseas
2- Este sistema já  bateu no fundo do poço  e todos os intervenientes fingem não  ver, é  mais fácil. 
3- A boa educação vem de casa , os professores são  formadores ou deviam ser.
4- Encarregados de E., professores , funcionários; todos estão  a falhar demasiado, o bom exemplo vem de cima.
5 - Os alunos reflectem a sociedade em que vivemos.
6- Atenção à  comunicação social, quando faz publicidade a certas escolas, desconfiem. 
7 - Existem alunos muito problemáticos porque é  que as escolas não apostam na Saúde Mental! Na Recuperação  destes alunos?
8- Professores não  devem infantilizar as crianças , elas merecem mais respeito, depois,cada vez mais apresentam atitudes estranhas, em nada adequadas à  sua faixa etária .
9 - Os professores são  uma classe desunida, comem-se vivos nas reuniões mas nas aulas repreendem os discentes,  porque os miúdos não  sabem trabalhar em grupo. Só  querem ter no seu grupo os amigos mais chegados.
10 - Os bons professores , muitas vezes são  negligenciados porque defendem uma política diferente daquela que o órgão de gestão  da escola defende. Liberdade de expressão ? Ou pequenas ditaduras ? Em nome de Deus ou do diabo?
11 - Currículos desatualizados ou desfasados das vocações.
Acrescentei mais estes pontos porque considero que merecem atenção por parte de todos. Quanto mais verdadeiro e profissional, mais açoitado e crucificado! Quanto mais rico a nível  de bens materiais, protagonismo,  mas não cumpre as suas funções, mais aplaudido, mais bajulado. Há  órgãos  de gestão  que gerem mal, contudo atribuem cargos para comprar e calar a verdade, e, há  mais ... eu fico por aqui!
Grata pela atenção .