A viagem seguia, uma das primeiras daquela manhã. Já havia abundância de sol àquela hora do dia, tão precoce. O autocarro descia nas calmas, das várias janelas, através do vidro, eu via-o e durante os vários intervalos de sombra, saltava de lugar em lugar, dependendo das habitações mais próximas de nós, das árvores, dos muros altos, então, corria um ar desagradável, para depois voltar a sentir um calor intenso, todavia, prazeroso. Dava gozo contemplar os imensos reflexos que entravam olhos adentro, numa magia explosiva de luz, enquanto me concentrava neste jogo entre luz e sombra, pensava que ali estava uma forma de esquecer as agruras da vida, a escravidão de certas situações familiares, o sofrimento por não encontrar quem se procura, por não viver com quem se ama, entristecer porque a existência se vai escoando na companhia de quem não tem o dom da compreensão. É triste estar tão perto, e as almas estranharem- se mutuamente, até aquelas que usam o mesmo sobrenome, estranho quando almas estão juntas, porque julgam se conhecer mas e na realidade se desconhecem por completo. Quantos dramas numa manhã banhada de sol , muitos, tantos, espalhados pela agonia da espera, diante de uma porta que nunca se abre, das intrigas feiticeiras, da difamação malidecente, do grotesco, das guerras sangrentas que ceifam vidas inocentes, soldados confusos sob ordens absurdas, forçados a matar. Há oportunidades que mirram bem antes de refilar. O mistério da vida e da morte, tão antagónicos , em princípio, díspares. A vida completa de vicissitudes amargas e doces e no fim todos vamos passar por esse portal, de uma maneira ou de outra, que nenhuma teoria consegue desvendar, por mais de sofisticada que seja a tecnologia, não chega para adivinhar. A porta do fim permanece desde sempre, do início dos tempos, na total obscuridade, eterna, no mais cerrado segredo, quiçá desvendado só por aqueles que por ela passam, jamais regressaram para contar o que é efetivamente passar para o lado de lá. Alguém veio ocupar o banco ao meu lado:
- Bom dia! - cumprimentou uma senhora
- Bom dia! - cumprimentei eu
É raro pessoas estranhas me saudarem. Já não é moda. Se fosse, tratariam de colocar na ordem do dia. Até se deixa de cumprimentar quem já se conhece, sem nenhuma razão, ou quando a saudação acontece dia sim , dia não, julgo ser mais correto decidir entre o sempre e o nunca.
- A Sra também vai lá abaixo? - começou simpática todavia, felina
- Sim, vou!
Era uma senhora já de idade avançada, muito magra, o rosto iluminado por um sorriso plástico, tez amarela, muito expressiva, o cabelo castanho claro armado como uma peruca, saia longa e plissada castanha escura, muito abaixo do joelho, casaco em malha, justo, de um castanho mais claro que a saia, por dentro uma blusa de um amarelo muito suave. Nos pés, um par de sapatos de verniz e a bolsa da mesma cor.
De repente fiquei admirada quando voltou a dirigir-me a palavra:
- Lindo dia de sol! - tom de voz baixo e fino, lembrava uma nota musical, de um qualquer velho piano.
- Digo o mesmo!- respondi eu
- Por esta altura, antigamente, chovia muito! - diz sem olhar para mim, como se estivesse a resmungar para si mesma
- Também na minha altura! - acrescentei
- Não entendo esses alertas cada vez que chove!
- É que as chuvas são muito intensas!
- Lá isso é verdade. No meu tempo chovia um dia inteiro, semanas e um mês! A diferença parece que está na quantidade e na velocidade.
- É isso mesmo, agora são diluvianas e de curta duração.
- Olhe, isto anda tudo alterado, em praticamente todos os sentidos, às avessas, vai pensar que é por eu ser velha, ando minimamente informada, é mesmo o mínimo, afetam-me certas imagens, afetam-me certos ruídos, a TV quase sempre está desligada. Tenho os meus filhos e netos, tenho a amizade do meu ex marido, tenho amigos, conhecidos e vizinhos, tenho o meu jardim, tenho o meu cão e o meu gato que até são amigos, tenho os meus livros, tenho o meu piano, gosto de cantar também, tenho que responder às cartas dos familares embarcados e amigos que viajaram para o exterior.
- Toca e canta onde?
- Na minha casa, na casa de certos familiares, na casa de alguns amigos...sem nenhuma pretensão. Dá-me prazer, apenas isso.
Enquanto falava, não olhava para mim, a cabeça, sempre a observar em frente, como se procurasse saber em que lugar estava a passar. Agarrada às costas da bancada da frente, ora com uma mão ora com as duas. Por breves instantes, calou-se, como se estivesse muito entretida no que acabara de ver. Ou se esquecesse que me encontrava ali, ou se pura e simplesmente se aborrecesse da conversa. Subitamente senti que a ligação àquela senhora ficou suspensa, nem me atrevi a quebrar o direito dela de se manter em silêncio.
A certa altura, já eu percorria outros mundos quando ouço-lhe a voz :
- Isto, de viajar assim, também tem o seu interesse!
- Diga? - surpreendi-me com a iniciativa
- Estou a gostar disto.
- Nunca andou de autocarro?
- Eu tenho o meu Carocha ! - pronunciou entusiasmada
- Então conduz?
-Sim, adoro, é a liberdade, é a independência, é a autonomia ...fascina-me. Você não?
- Não!
- Então não sabe o que perde!
- Sei sim , mas não posso alterar isso.
- Alguma razão especial?
- Saúde.
- Que pena! É muito raro eu viajar de autocarro mas acho-lhe muita piada.
Fiquei calada, sem saber muito bem o que responder, porque não tem piada nenhuma viajar de autocarro, a senhora não deve saber como são os pontos de paragem, abertos, preparados para o Verão, sem nenhuma proteção para o inverno, os passageiros ficam molhados, o que é extremamente desagradável e revoltante. Como ignora certas zonas em que o autocarro passa superlotado de gente, porque o motorista parece que transporta mercadoria ou carne pendurada para um qualquer talho. A força necessária para se segurar e não tombar devido às curvas apertadas. Também não deve imaginar o que é o massacre da espera quando se atrasam, nem quando se perde uma viagem e é necessário esperar pela próxima. Subitamente, retomou a narrativa :
- Não tenho medo de praticamente nada nesta vida, a não ser a doença e depender da boa ou má vontade dos outros. É o que mais me assusta. A morte ? vamos passar por ela...- rematou num encolher de ombros
- Mas... será que o porta é o mesma para todos? E vamos passar de igual forma? Será a morte idêntica para toda a gente ? É que falar da morte, imensa gente fala, tudo conjeturas de acordo com crenças, de acordo com teorias - senti-me no direito de expressar a minha opinião
- Quem sabe? Nem a senhora sabe, nem eu, essa é a sua teoria também ! - respondeu irritadiça, todavia, não compreendi a reação dela.
- Exatamente, não sei, do outro mundo, nenhuma alma embarcada , voltou sequer para me segredar o que se passou ou o que se passa...
- Não sabe de nada. A senhora e eu estamos empatadas! - continuou com uma pontinha de sarcasmo
Não me apeteceu responder, nem havia nada a acrescentar. Ela rompeu de novo:
- A minha sorte é ter uma família maravilhosa, uma perfeita almofadinha. Há sempre umas coisinhas...mas nada que não seja superável - e riu-se cínica
- Refere-se quando ficar sem faculdades, quem cuidará conta de si.
- Percebeu o que eu quis dizer! - agora , a senhora aparentava ser uma boneca insuflada de vaidade.
- E se a família falhar?
- Ainda coloca essa hipótese! - argumentou beliscada, com uma vermelhidão espalhada pelas faces e com os olhos esbugalhados, semelhante aos de um morcego.
- Desculpe, não quis ofendê -la mas continuo pondo a hipótese da família não ter disponibilidade. Um lar ou cuidadora?
- Venha o diabo e escolha! Um lar, jamais !essa hipótese é o pior dos cenários, a cuidadora, depende da formação, que pode ser em Geriatria, do caráter.
- Sei de casos complicados que envolvem cuidadoras, se a família optar pela formação da cuidadora, tem de pagar mais caro, nem sempre ao alcance do cidadão médio. A grande maioria não possui formação, nem caráter, nem dignidade. É necessária a supervisão de um familiar próximo. À falta dos requisitos que lhe mencionei, ainda se pode acrescentar a instabilidade, às vezes acontece, pelas mais variadas razões, a cuidadora sai sem avisar.
- A legislação não é respeitada?!
- Nem por sonhos, se não há supervisão!
- No meu caso, não tenho de me preocupar com isso!
- Que bom para si!
- Vamos mudar de assunto, este deixa-me enervada!
- Não, não vamos continuar, eu já vou sair aqui mesmo.
- Oh! Emitiu um som contrariado. Saudei-a, a senhora mastigou qualquer coisa semelhante a um cumprimento, saltei e segui a pé.