sábado, 15 de fevereiro de 2025

Viagem VI

 Havia algumas cabeças à minha frente de homens, de mulheres, cabeças mais velhas, cabeças mais jovens , umas mais interessantes e escultóricas, outras menos atrativas, carecas, toscas e gastas. Dir-se-ia que eram cabeças de vários  tamanhos  e formatos ,  cabelos de tons diferentes, penteados diversos, vi  raros apanhados no alto, enrolados em caracol,  no feminino ou no masculino torna-se exótico assenta extremamente bem, dá um toque poético e sensual à  caixa craniana,  ao pescoço, à figura.   Avistei clássicos; perucas a revistir a moleira, vi grande quantidade de  lisos esticados, lisos espadas, lisos mal lavados, até lisos  ondulados  para tomarem o aspeto que a moda exige,  uma tendência que atravessa gerações inteiras.   Atrás de mim, mais  alguns bustos  que naturalmente eu não via. Numa das paragens, subiu  um indivíduo, alto, folgazão, provavelmente, um quarentão de óculos de sol,  as lentes  tão escuras  que os olhos eram dois buracos negros, cara rapada quadrada.  Exalava um perfume intenso. Calça de ganga azul e por cima um polo rosa claro.   Numa das mãos o telemóvel, na outra, não havia nada. Usou-a para se segurar por onde passava até chegar ao lugar que ocupou, à minha frente. Cumprimentou o indivíduo que já  se encontrava no assento colado ao seu: 

-  Xavier, onde tens andado, nunca mais te pus os olhos em cima! ?

- Olha, quem chegou? O Carlos! Ando sempre pelos mesmos lugares. 

Eu mal via o Xavier,  de cima eu conseguia ver a camisa xadrez  vermelha e preta a  percorrer os ombros largos , já que se  encontrava mesmo na minha direção, de qualquer forma  percebia a sua  cabeleira ondulada, fresca e luzidia, o rosto de perfil, fazia imaginar  que talvez fosse um rapaz carinhoso,  com alguns pêlos na pele fina. Tinha voz aguda e tom baixo, ao contrário do outro, que tinha uma  sonoridade grave e descuidada. 

- Como é que vai isso? 

- Uma bosta, Carlos , uma bosta. E tu? 

- A mesma porcaria, cheira tão mal como a tua! 

-  Como sabes que a minha e a tua têm o mesmo cheiro? 

- Não sei, calculo...

- Carlos, estou numa merda de separação...

- Xavier e eu meti o pé na fossa e agora fui expulso de casa. 

- Sendo assim, nós  os dois estamos metidos em apuros! 

- Pois estamos , cada um à sua maneira. 

- Talvez não tenha nascido  para ser pai! Nem sei  se estou a agir bem, já que  a minha mulher todos os dias faz-me sentir um verdadeiro paspalho!  O meu pai foi de outra geração, ele mandava e a minha mãe calava-se, foi educado para ser servido, obedecido e eu quando vim ao mundo, as minhas irmãs mais velhas faziam tudo por mim, até a minha mãe entendia que a família mais próxima deveria se curvar  a  mim como se eu fosse uma majestade! 

Apesar de estar a escutá-los, voltei o rosto para o lado da  janela, para que, se olhassem para mim, desconfiados eu não demonstrasse que estaria  realmente a ouvi-los, sentia-me envergonhada. 

- Xavier! Um reizinho em casa! - risos 

- Mas não foi bom para mim. Só me estragou! Uma pessoa habitua-se e depois torna-se depende dos outros e segue pela vida fora assim...

- Deixa-me ver se percebi, foste mimado? E agora és um homem que tomou consciência disso, é só tirares a fralda e vestir a cueca!  não é facil? 

- A sério,  Carlos, eu não sei fazer nada em casa. 

- Aprendes com a mulher! 

- Eu não gosto de ser arrumado. Não tenho paciência, não tenho inclinação para trabalhos domésticos  e ela é da opinião que deve ser partilhado. 

- Mas gostas de estar casado? 

- Gosto de estar casado com ela, gosto dela, todavia, não chega. Ela precisa de um homem e eu...

- Não és  homem?! - risos 

- Sou homem, sou macho! A questão não é essa! - defende-se

- Hum?! 

- Não sou o tipo dela! 

- Vocês namoraram e conheceram-se, não? 

- Eu prometi que mudaria...

- Nós somos como os politicos, mentimos muito, quando nunca o devíamos fazer.

- Tens razão, Carlos, mentimos a nós e enganamos os outros. 

- Esquecemos que já estamos a dar mau exemplo. Passamos a vida a cair em descrédito, um dia quando falarmos a verdade, ninguém acredita em nós.  

- Por isso, esta separação está  a custar-me muito. 

- Foi ela que te  pediu a separação? 

 - Sim , foi ela e cometi outra gafe, tentei convencê-la a ficar pelo dinheiro que herdei da  minha mãe. 

- Eu, no lugar dela teria ficado...o dinheiro é o deus do mundo e faz imensa  falta- risos  

- Ela não pensa assim, discutimos feio, foi  bravo,   a corda esticou e rebentou.  

- Foi para os braços de outro? 

- Não, vive com a mãe dela. Sei que ainda gosta de mim. 

- E o teu filho? 

- Está com ela e a avó! 

- Julgas que volta para ti? 

- Não volta, Carlos, com muita pena minha! 

- Mas se gosta de ti...

- Esta mulher tem fibra,  conhece-me. Sabe o que quer num homem


- O que é que ela quer  num homem ?

- Maturidade,  responsabilidade,  cumplicidade, respeito

- Tens a certeza que não reunes nenhuma? 

- Não, não sou maduro, nem responsável, como posso ser cúmplice? E como posso respeitá-la se ela é a força única de trabalho e educação em casa e eu vou fazer parte apenas das horas de lazer? 

- Não consegues ser nada disso? ! -  voz de espanto e galhofa

 - Ela  é exigente e tem razão! 

 - Ela deve ter defeitos que tu não aprovas,  Xavier,  já  pensaste nisso? 

- Espera aí,  não há nada nela que seja insuportável! Que me cause repulsa.

- E no teu caso, sim? 

- Uma mulher que não pode contar  com o apoio do marido nas questões principais da casa... sirvo para quê? 

- Xavier, sei se mulheres que aceitariam as tuas condições! 

- Carlos, há muita mulher parva, então quer um companheiro ou adoptar  um filho? 

- Repito, conheço algumas que te aceitariam sem pestanejar.  

 - Infelizmente sou muito imaturo e muito medroso. Mulher que se preze não me aceita. 

- Xavier, não és traidor?

- Não! 

- Não és mau carácter?

- Não! 

- Não lhe foste infiel?

- Não!

- Então porque é que ela se separa por essas razões? 

- Para ela as razões  pesam, entendes? 

- Pensa comigo, Xavier, a tua forma de ser não é grave, é o que me parece! Eu sim, tenho a família toda  contra mim, porque traí a confiança da minha mulher e o respeito dos meus filhos, primeiramente deveria ter tido a coragem para um diálogo franco com a ela, para sair de casa de cabeça erguida, tu , tu és...

- Eu sou um inútil que não sabe ser de outra forma! E isto mexe com o sistema nervoso das pessoas, principalmente o dela. 

- Tu é que sabes, Xavier! É a tua vida!

-  Não tem como...

Cheguei ao meu destino.