terça-feira, 22 de setembro de 2020

Haverá feitiço?

 

As nuvens aguareladas descem bêbadas de alegria
são ainda rapariguinhas novas e leves;  baloiços sacudidos
brandamente pelo vento, baloiçam-se suavemente  e lançam-se
sozinhas  céu  aberto...
... pés de bailarina desengonçada,  esticam-se e rasgam o ar , flutuam
desacertadas...
Uma seta de cupido enganosamente, enterra- se
num galho
 A donzela, estendida ao relento,
no sopé da árvore, dorme um  sono profundo
respira tranquilamente de boquinha aberta. O  fruto
tomba e estatela-se entre os lábios. Assustada e aflita ergue-se, tronco acima ...
O fruto salta-lhe da boca  sem freio e vai parar, cristalino, às  mãos do vidente que se ri feliz, da sua sorte. Examina atentamente   e torna a examinar  a poderosa bola de cristal, que vaticína a chegada de um príncipe
Um jovem destinado a ser  líder ,  não  sem antes  passar por provações com sabor a sangue, a fel, a mágoa ....! 
Pranterá lágrimas de dor e desencanto
Será traído e humilhado, cuspido e escarrado, depois  de caído, erguer-se-á um homem novo,
limpo,  diferente, cauteloso, pronto para desafios e ciladas .
O seu coração  há-de compreender o valor do perdão, o valor do amor,
  o valor das pequenas coisas e outros mais em desuso...
Repentinamente, a bola de cristal salta sem aviso e rola apressadamente
enquanto o vidente,  persegue-a em bicos de pés , receoso  do pior...
Tenta alcançá-la com dedos de pinça,  gatinha no chão mas a bola de cristal é  redonda, lisa e veloz...
Apesar das artroses, da lombalgia, da cervicalgia, das contraturas,
...que o apanham por inteiro,
levanta-se desajeitado e não  desiste de alcançar o precioso  achado
que lhe veio parar às mãos
Entretanto,  o pé resvala sobre o esférico e o corcunda perde
o equilíbrio,  cai de costas... a bola segue indiferente o seu percurso,
A arfar doidamente e num esforço medonho, o rosto  descorado, enrugado como uma folha de papel amarrotada
põe-se de pé zonzo ...
ainda assim, persegue-a
O seu ângulo de visão permite ver uma falha grande  mais à  frente
antecipa o pior, ainda tenta um esforço  derradeiro
Mas a  bola rola, salta  e precipita-se para lá :
- Não, não,  não pode acontecer e o feitiço!?- a voz fina, enrouquece desalentada...
Estende-se ao comprido,   finca o olho escuro, por outro orifício, mais perto de si... Nada!
Na queda vertical,   o cristal desfaz-se e esmaga-se sobre a testa de um passante que,  pisca os olhos estremecidos, resvala até à ponta do nariz.  Não é tempo de chuva  ... É tempo de sol. Admiradíssimo, ergue as duas luas a boiar,  leva os dedos ao nariz molhado, uma bola de sabão, cheia de água!? a interrogação; de onde teria vindo? !Provavelmente uma brincadeira de criança...  de um qualquer andar, dos edifícios citadinos.
PN

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Instantâneos

Antes de subir o tabuleiro da ponte
no início, do lado esquerdo,
há  uma árvore esguia,
tronco fino; pinceladas amorfas.
Nela, avisto folhas; algumas  cruelmente queimadas 
ou as tratadas com aspereza e perseguidas...
outras ;muito amarelas, enfrentam os últimos dias
 certas;  quase negras, exóticas, beleza rara,
as  verdes; tonalidades exuberantes ; pouco frequentes
Dali, colho um pensamento
demasiado estranho!
  Sem ser ácido,  um  doce indefinido ...?
Amargo ? definitivamente não! 
Reencarnação?  Creio pouco nessa versão
 Assalta-me esta sensação efémera
assaz profunda, de tão intensa e minha...
Inexprimível , secreta, íntima...! 

PN