As nuvens aguareladas descem bêbadas de alegria
são ainda rapariguinhas novas e leves; baloiços sacudidos
brandamente pelo vento, baloiçam-se suavemente e lançam-se
sozinhas céu aberto...
... pés de bailarina desengonçada, esticam-se e rasgam o ar , flutuam
desacertadas...
Uma seta de cupido enganosamente, enterra- se
num galho
A donzela, estendida ao relento,
no sopé da árvore, dorme um sono profundo
respira tranquilamente de boquinha aberta. O fruto
tomba e estatela-se entre os lábios. Assustada e aflita ergue-se, tronco acima ...
O fruto salta-lhe da boca sem freio e vai parar, cristalino, às mãos do vidente que se ri feliz, da sua sorte. Examina atentamente e torna a examinar a poderosa bola de cristal, que vaticína a chegada de um príncipe
Um jovem destinado a ser líder , não sem antes passar por provações com sabor a sangue, a fel, a mágoa ....!
Pranterá lágrimas de dor e desencanto
Será traído e humilhado, cuspido e escarrado, depois de caído, erguer-se-á um homem novo,
limpo, diferente, cauteloso, pronto para desafios e ciladas .
O seu coração há-de compreender o valor do perdão, o valor do amor,
o valor das pequenas coisas e outros mais em desuso...
Repentinamente, a bola de cristal salta sem aviso e rola apressadamente
enquanto o vidente, persegue-a em bicos de pés , receoso do pior...
Tenta alcançá-la com dedos de pinça, gatinha no chão mas a bola de cristal é redonda, lisa e veloz...
Apesar das artroses, da lombalgia, da cervicalgia, das contraturas,
...que o apanham por inteiro,
levanta-se desajeitado e não desiste de alcançar o precioso achado
que lhe veio parar às mãos
Entretanto, o pé resvala sobre o esférico e o corcunda perde
o equilíbrio, cai de costas... a bola segue indiferente o seu percurso,
A arfar doidamente e num esforço medonho, o rosto descorado, enrugado como uma folha de papel amarrotada
põe-se de pé zonzo ...
ainda assim, persegue-a
O seu ângulo de visão permite ver uma falha grande mais à frente
antecipa o pior, ainda tenta um esforço derradeiro
Mas a bola rola, salta e precipita-se para lá :
- Não, não, não pode acontecer e o feitiço!?- a voz fina, enrouquece desalentada...
Estende-se ao comprido, finca o olho escuro, por outro orifício, mais perto de si... Nada!
Na queda vertical, o cristal desfaz-se e esmaga-se sobre a testa de um passante que, pisca os olhos estremecidos, resvala até à ponta do nariz. Não é tempo de chuva ... É tempo de sol. Admiradíssimo, ergue as duas luas a boiar, leva os dedos ao nariz molhado, uma bola de sabão, cheia de água!? a interrogação; de onde teria vindo? !Provavelmente uma brincadeira de criança... de um qualquer andar, dos edifícios citadinos.
PN