sábado, 24 de dezembro de 2022

Sete e trinta da manhã

Quando os tapassois se abriram, havia  um espesso  esborratado  cinza, um denso e estático nevoeiro. Quase rente aos meus olhos, passou uma gaivota pequena, arrepiadinha, a fugir do pó ralo da chuva...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Alcovitas

 

Mesmo por trás dos prédios, 
a caminho da reta final da  tarde
Inesperadamente
surge um clarão
estala em unhadas de brilhos
Aquele  repentino apogeu
 perturba a visão dos factos
Logo de seguida esmorece
Arrefece o ânimo das alcoviteiras
Mas o vício não cessa
A obsessão teima em voltar indefinidamente,
até sacode as  pulgas sardentas dos entrefolhos
A raiva, o riso, a vingança
Pequenez sinistra  
de quem morre
antes da morte. 

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Nos Tempos do Imperador

 Pedroll sentado na cadeira do rival, Tonico Rocha permanece de pé ( um deputado sem escrúpulos e sem nenhum caráter)

- Magestade ! A que devo a honra? No meu gabinete? 

- Eu estou tentando me colocar no seu lugar. 

- Não entendi.  

- Como alguém é capaz de cometer tantos crimes e agir como se nada tivesse acontecido? O senhor não sente nenhuma dor por ter tirado a vida de outras pessoas? 

- Magestade! E quantas vidas foram perdidas nessa sua guerra ?! 

- O Brasil foi invadido, não havia alternativas e essa guerra podia ter sido evitada se não fosse a sua interferência na embaixada brasileira em Assunção. 

- Painho sempre me dizia que quando um não quer, dois não brigam...

- Seu pai dizia isso na época em que éramos crianças e que me bateu, será que naquele instante você desejava, talvez , tirar minha vida ... será que era isso que queria? 

- Não,  não,  se com aquela surra a minha vida já destrambelhou, se eu  tivesse matado o menino imperador... ai...eu seria o crápula da nação.  

- Seria?

- E vossa majestade é um santo. O modelo da virtude que trai a esposa. Sabe o que o senhor, é? Um hipócrita! 

- Sim, eu tenho defeitos.  Eu cometi erros, cometerei novos erros, porque sou humano. Já o senhor, deputado, é um criminoso, covarde, que espalha mentiras, para talvez tentar manter seu cargo público, pago pelo povo. O senhor é um sujeito nocivo, ressentido, frustrado, que dissemina o mal, para tentar ser notado. E , sabe o que ganhará com isso? O deputado será desprezado por completo, será solenemente esquecido e varrido da História. " 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Obscura sorte quem lhe calha, canalha desta...

 

O imbróglio nas mãos do inescrupulosamente
estúpido,  colocado no altar por falsos deuses e anões
pretenciosos
Desavergonhados, agarrados a quê?
Espezinham flores!
As mais delicadas? Que absurdo !
Rude gesto,  picador de gelo, ser boçal
Pretenso atingir
a casa alheia...
Provocação desnecessária
Sem medida nem   ponderação
A impor à  viva força
a altivez soberba
Discurso incisivo
E sem razão !
Gente  demoníaca , cuspindo enxofre
Impediedosa e descarada
Inestetica e  maldosa
E muito mal intencionada.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Conto VIII

As horas  passaram , escondi-me nas sombras do  parque  e fiquei aguardar    a reação dela.  Perto da meia noite,devia estar muito desesperada,   veio cá fora, de um lado para outro,  encolhida de medo,  observou desconfiada  para os lados, eu nunca me tinha  ausentado de casa à  noite. A mulher  estranhou.  Percebi que gostaria de me chamar, faltou-lhe a voz, nao teve coragem e para não causar alarido.  Àquela hora, o homem fora de casa... uma efeméride. O acontecimento,  no dia seguinte, cairia na boca da vizinhança.  Ela não ia  querer isso por nada.  Muito transtornada, precipitou-se novamente para dentro, nem tentou procurar  no bar.  Grande cobardia. Armava-se em esperta,  rainha da casa e dona da minha vida.    Pernoitei  no bar,  aquela  noite, estava decidido, ela iria   sentir a minha falta.

 Inspirado no Conto de Sophia de Mello Breyner - " A viagem" in "Contos Exemplares"

Conto VII

Isso Josefa, em beleza, por acaso és  minha mãe?!eu a ser tratado   como uma criança, pela minha mulher, na frente de um estranho. Não,  não é de agora, vem de longe ; " Atrasado mental",  "  Não vales de nada ", " Nunca chegarás longe "; " Está calado, não suporto escutar a tua voz", e, outras tantas, estou certo, Josefa? Eu também errei, embrulhei-me na mesma manta de retalhos ; " Acertava-te  nesse focinho", Vai para o raio que te parta, demónio",  Está  calada que não sabes nada, estafermo" ,  entre outras... olho por olho, dente por dente. As nossas  quinquilharias  arrastam-se como fantasmas colados a nós, só uma demência para esquecer tamanha torpeza.  A própria vida a meio gás ou menos que isso. A única oportunidade que   conheço para  ser feliz, para  se realizar, outra semelhante a esta, onde?  Prendemo-nos a coisas que só  nos tornaram infelizes e quantos anos, a rondar no mesmo lixo tóxico, sem conseguir sair da sujidade,  a adoecer,  a padecer,  a apodrecer, a exalar mau odor , mau hálito,  como se as fezes nos saíssem pela boca... a consentirmos   neste  absurdo, a  envelhecemos precocemente, e a tornarmo-nos  senhores das causas impossíveis...   Pobres de espírito que somos.  Por escassos instantes estava esquecido do que iria enfrentar, a cruel e dura verdade. Até lá  precisava   desconfiar de Josefa para me aguentar. O crepúsculo foi  desaparecendo a olhos vistos. A cor esmoreceu devagar, lentamente e as lâmpadas  já acesas àquela hora,  davam um tom tão díspar da luz diurna. Para espanto meu, o desconhecido saiu na mesma paragem que nós. Apeamo-nos, na despedida o desconhecido ainda lançou o convite:
- Se quiserem, estou naquele café. Quem paga sou eu.
 - Obrigado, vamos entrar em casa e depois logo se vê!  Entrei  disparado, galguei escadas e apressei-me a rodar a maçaneta da porta, numa sofreguidão desalmada, tateei  a mesa do escritório, existia   papelada,  nada de envelope:
 - Josefa! - berrei  em plenos pulmões Desci  a correr,  procurei  a mulher e encontrei-a na cozinha:
 - Que modos são esses? - repreendeu ela . Circulei à volta da mesa, até ficar de frente para ela , eu de pé,  ela sentada:
 - Que brincadeira nojenta foi esta? 
 - Qual? - questionou com espanto 
 - Não encontrei o envelope! 
 - Deve ter sido a empregada que sem querer atirou fora!
 - Como? A empregada ia atirar fora um envelope daqueles, ela está avisada para não mexer na minha secretária. 
 - Talvez deixei na minha! 
 - Tive o cuidado de ver a tua e nada!
 - Pedes uma nova via... 
- Sabes que estás a mentir descaradamente !
 - Tu também mentes ! 
 - Assim? Como tu? É  grave o que inventaste!
  - Não faças dramas! 
 - Josefa, não tens remédio, esquece! 
 - E tu tens?
 - Antes que te parta a cara e depois seja incriminado por violência doméstica,  prefiro sair,   vou ao café da esquina, fazer companhia ao estranho. 
 - Gostas mais de estranhos  que os de dentro de casa. 
 Sem mais demoras, saí  furioso e bati com a porta ruidosamente: 
- Grande bruto!-  disparou  Josefa

Conto VI

- Dá-se bem com ela? 
 - Com quem? 
- Referia-me à rotina.
 - Dias sim, dias não. 
 - Também eu! O telemóvel do desconhecido chamou:
 - Com licença! - pediu e afastou a cabeça para o lado 
 - Toda! O desconhecido encostou-se bem à janela para  abafar melhor a  voz. Quando terminou, voltou-se para mim: 
- Felizmente que está aqui, caso contrário, eu passaria a viagem toda nos jogos, troca de mensagens, adoro  isto - e guardou-o no bolso do casaco com o mesmo zelo que se esconde uma pedra preciosa. 
 - Controlo bem esse vício, de viagem, nem pensar! Serve apenas para atender, ligar e enviar uma ou outra mensagem,   em caso de grande necessidade. Não me deixo escravizar , porque o  vício de uns é o lucro de outros. Quem ganha? Nós sabemos, sempre os mesmos.  O que poucos  sabem  é que esta panóplia do digital é uma fatura descomunal para o ambiente  e ninguém esclarece isso. - Também  é  contra a tecnologia!? - constatou entusiasmado
 - Nem a favor, nem contra, a tecnologia devia ser usada com medida.  O telemóvel é a invenção mais revolucionária, o  brinquedo de todas as gerações. - Poucos resistem à tentação. 
 - Eu sou dos que não se deixam seduzir! Sou antiquado e contra a corrente, prefiro pensar, observar tranquilamente a natureza, folhear um jornal, abrir um livro...ler. 
 - Sabe que os jornais têm páginas na Net, e pode consultar  na mesma! - riu-se
 - Gosto do papel! 
 Caiu um silêncio, calamo-nos os dois. Ele deve ter   pensado "que indivíduo estranho, não parece a mesma pessoa da vinda, de qualquer forma,  não o conheço! Deve estar cansado! Aquela deve ser a mulher dele. Terão vindo da lua de mel? Será o segundo casamento? Pelos rostos, já não têm idade para ter filhos pequenos. E se forem amantes? Provavelmente ! E vêm aqui divertir-se , longe dos olhares  curiosos." 
 - Olhe - apontou o desconhecido- pelo fumo, é incêndio! 
 - Estes incêndios dão que pensar! - acrescentei logo
 - Os incendiários andam sempre à solta, não é? - Circulam por aí umas teorias descabidas, de que as altas temperaturas provocam incêndios...a mim,  parece mais evidente, se há fogo, há mais calor!  terrorismo interno ou externo?  Ou políticas ineficientes? Remediar não é sinónimo de prevenir.
 - Você é  dramático! - Óbvio; gente, vegetação, animais, solos, habitações, toda a logística para combater as chamas... quantas perdas....e gastos desnecessários! 
A mulher voltou-se para trás e mostrou-me o rosto sisudo. Mais uma vez, fiz silêncio  até ao fim da viagem. Nem eu, nem o indivíduo ousamos sequer olhar um para o outo. 

Conto V

Aquele fim de semana foi terrível para mim , lutava desesperadamente para esquecer a  veracidade ou não daquele vaticínio, um diagnóstico que me   angustiva.  Tentei ler o jornal,  mergulhar na piscina, apanhar sol, bronzear a pele e moderar a minha tristeza. Meti-me  no quarto a ver televisão, nada me consolava, aquele prognóstico moía- me.   Ela podia estar  a mentir...E se fosse mais uma armadilha para me  manter cativo? E se fosse verdade?  Observei-a em diversas ocasiões e  censurei interiormente a  calma, a descontração invulgar, a satisfação, o  gozo lascivo. Porque raio assustar-me assim? Ela deleitava-se nos seus detalhes de higiene pessoal, demorava a comer gelado no bar, passeava à  volta da piscina. O constante sorriso nos lábios, irritante de tão provocatório. As discussões entre nós haviam suavizado imenso, a minha postura murchara, ela aproveitava a debilidade  em que me encontrava para demonstrar que não se sentia minimamente  atingida:
- Ainda estás a pensar nisso?
 - Outra vez essa pergunta?
 - Esquece isso! - e continuava liberta
Preferi calar-me,  ela que se  imaginasse  vitoriosa contrariamente ao real problema e  crescia dentro de mim a suspeita de que estaria efetivamente a faltar à verdade.  De qualquer forma, ansioso como sou e era, esta dúvida corroía e doía! No domingo, afastamo-nos ainda mais. Finalmente saí do quarto e fui me debruçar na varanda de um pequeno cais,  nas imediações.  Usava óculos de sol, precisava estar só para chorar, chorar tudo, um profundo lamento pela vida que não aproveitara... como seria esquecer a vida ? As porcarias, os bons momentos...os nomes dos filhos, o  próprio nome,  ficar dependente dela, somente dela?Ou de algum dos filhos? Como seria?  E  se me tornasse um peso na vida da família? Um lar? Que  odiosa solução ! À  mercê de gente sem escrúpulos?  gente sem preparação?  gente desumana? Eu a definhar lentamente, louco, sem juízo, à  fome, atirado à cama e amarrado  para não fugir. À minha volta, profissionais  desejosos da minha  morte! Pois,  ali, igualmente, considerado um fardo! Já tinha  vivido, o meu  tempo chegara ao limite,  a  minha vez de seguir.  Ocupar  uma cama se  não se vislumbrava qualquer melhora? Decidiriam por Deus, por mim e até pela família,   abreviariam a minha hora derradeira. Sem suportar mais aqueles pensamentos,  que me  golpeavam incessantes,  arranquei a camisola do corpo e num gemido gritante, atirei-me  à  água e nadei em braçadas furiosas. Ao fim do dia,  preparadas  as  mochilas , fomos  para o ponto, aguardar o autocarro que estava prestes a  passar.  Havia mais pessoas que à semelhança de nós,  tinham deixado o hotel e regressavam a casa. Quando chegou a altura,   colocamos as máscaras, deparamo-nos com alguns  lugares vagos mas  singulares.  Avistei o desconhecido, ainda tentei  fingir que não o reconhecera mas ele chamou-me logo com a mão 
- Então,  de volta a casa? - perguntou efusivamente 
 - Naturalmente - respondi   sem energia 
A mulher sentou-se na bancada à minha frente, imediatamente a seguir . Apesar de ser a hora crepuscular, ainda   levava o telemóvel na mão para registar qualquer situação anómala ou surpreendente.
- E  à rotina também  - adiantou o desconhecido
 - A rotina não é má, é a unica forma de organizar o quotidiano - repliquei

Conto IV

- Passo a esclarecer; não penso como o senhor mas respeito as suas opiniões. Sou apologista do progresso,  da modernidade, da ciência,  da tecnologia. Serviu-nos bem! Homem pobre,  homem rico,  é a vida!  não existem sistemas perfeitos.
 - Vindo de um homem sobejamente  imperfeito, tudo será imperfeito e falível. 
 - Talvez. Mas enquanto dura, é bom , faz bem e dá prazer! Olhe para os benefícios!
 - Oh, já chegamos! - anunciei  sobressaltado  - virei-me   para a mulher- é aqui, não é? 
 -Sim, é aqui! O desconhecido levantou-se e deu espaço para eu  passar por ele.  Desejamo-nos  em simultâneo   um  bom dia . 
Eu e mulher  apeamo-nos, o desconhecido ficou à espera que o autocarro retomasse o andamento.  
 - Olha, Josefa,  eu vou entrar de novo! 
- Quem é aquele fulano? 
- Não sei quem é!
 - No entanto,  conversaram imenso!
 - Nada pessoal !
 - Isso é que foi abrir a boca! Tu mais do que ele!
 - Andaste a espreitar os maxilares de um e de outro para ver quem abria mais vezes? ...e a  fingires-te de distraída,  afinal, atenta a merdas sem importância! Francamente, Josefa! Olha, eu sigo viagem! 
 - Como?! Perdeste a cabeça,  vieste comigo, voltas comigo! Fim de conversa!
 - Não, não vai ser assim! 
 - Estás de conchavo com esse homem?
 - É óbvio que não! Nem sei o destino dele, não sei nada!  Vou até ao fim e é longe que quero ficar! - Isso cheira-me a caso,   não te sabia com essas tendências... 
- Josefa,  inventas histórias que só existem no raio da tua cabeça, tudo para me prender,  porque não aprendeste a viver só, olha, o motorista já está à minha espera... 
- Vai, se é isso que pretendes mas tem cuidado para não te perderes... 
- Por favor, Josefa! Cada uma, pior que a anterior!
 - Li o teu relatório médico, o resultado da ressonância, há fortes indícios da doença de Alzheimer. - Como!? 
 O motorista apitou e eu  pedi desculpa pelo atraso e indiquei  com a mão para seguir.
 - Então,  o  resultado do exame já chegou?! Mas tenho a impressão que  não era agora! Tão cedo?!
 - Hoje de manhã,  antes de virmos... 
- Esta manhã? Quem foi levantar? 
 - Quando estavas a tomar banho, o teu telemóvel tocou, fui espreitar, ligaram  da clínica a informar que o exame estava pronto, pedi à  Elisa  que fosse e quando ela chegou eu abri e li, deixei em cima da mesa do teu escritório... 
- Estranho, ela nunca chega tão cedo, nem comentou nada comigo.
 - Eu tinha pedido para chegar mais cedo e também  para não comentar nada acerca do exame.
 - Ah! Primeiro,  tinhas a obrigação de me comunicar, segundo,  abres  o envelope, endereçado à minha pessoa?  que descarada! 
- Pensei que seria menos chocante saberes mais tarde... 
- E dizes precisamente agora?! - berrei  com ela 
- Só falei porque querias seguir e se te perdesses?! - ela explicou 
- Olha que desgraça! Que descanso, esquecer a miséria do que vivo! - salientei  revoltado 
- A minha também , não te esqueças!vá  , vamos aproveitar que estamos aqui.
 - Que vontade - respondi  desconsolado, e em tom  mais alto- tens a certeza do que leste? 
 - Tenho, está lá, quando regressarmos, vês! 
- Por mim, voltavamos ainda hoje... 
 - Deixa de ser tonto, aproveita  que é para isso que cá estamos.  
 - E se fosse contigo? Ainda vislumbrei um riso de escárnio mas ela escondeu o rosto. 

Conto III

-  Há sempre um pugilista de serviço - resmunguei 
-  Então o melhor é não passar perto dele! - declarou  sorridente 
-  Uma boa estratégia se bastasse passar ao largo. Eles  provocam o desacato, querem um pretexto qualquer para atacar e às vezes não estão sós. Quando se armam  em grupo, formam uma matilha descontrolada e por vezes mortífera. 
 -  Tem razão - o desconhecido concordou  e riu descontraído 
 -   Há sempre  motivos   para se ficar de costas voltadas. Qualquer coisa serve, como arma de arremesso,  infelizmente. 
 - Há casos muito  dramáticos.  - o desconhecido acrescentou
 - Exatamente. Quem fica a perder?
 - Depende das situações, talvez o menos apto, o mais vulnerável ! - exclamou o desconhecido
 - O mais baixo hierarquicamente! o pobre povo!  quem mais trabalha! quem vota massivamente! quem se submete à  vontade de quem reina e ordena.
 -  Pode ser clichê mas  foi sempre assim! - sintetizou  o desconhecido 
 - Repare na forma como diz" foi sempre assim" ... 
- E não estou certo ?- uma faísca de irritação nos olhos dele
 -  A lei do mais forte prevalece sobre o mais fraco, nós já interiorizamos como um fatalismo natural e não é,  não tem de ser! Somos uns imbecis, continuamos a repetir indefinidamente  os mesmos  erros.  Rejeitamos o passado antes de o compreender!  Rapidamente esquecemos o que comemos ontem, os acontecimentos   vão sendo colocados no museu das memórias, a mofar, até o dia da celebração e isto não quer dizer rigorosamente nada.  Se calhar  nunca  saímos verdadeiramente das cavernas. Somos primatas de fato e gravata!
 - Já me sinto um chimpanzé! - o desconhecido riu-se novamente  - Vence o mais esperto, o que sabe mexer-se, o que se adapta melhor, não lhe parece?  
 - No meu caso, vence a Josefa - tartamudeei entre dentes
 - Que disse ?
 - Vence quem tem  poder, riqueza, nobreza...  Basta prestar um pouco de atenção aos grandes  impérios; construções megalómanas, edificadas por quem? Por escravos, tempo de prosperidade à custa da chibata, da opressão, repressão,  do medo,  rituais abomináveis e diabólicos, exercício tirano  do poder . Depois, tombam os   impérios,   por  conspirações e outras e traições   internas e externas, dívidas, pobreza, ruína ..  e os pobres nunca saem da pobreza, note bem, para conseguir  adotar uma medida impopular, basta implementá-la dia após dia, ano após ano... e encaixa que nem uma luva,  caso contrário,  provocaria uma revolução, ou então apresentar essa medida como dolorosa mas necessária, assim, vai devagar... repare nas missas, sempre inclinadas a dar esperanças ingénuas, de que amanhã tudo vai mudar para melhor, um amanhã que nunca chega. Isto é dar aos cidadãos tempo para se adaptarem à ideia de que humildemente vão ter de aceitar, um sentido diferente de obrigatoriedade.   Fazem-nos de parvos e infantilizam-nos e isso é um ponto a favor de quem está na camada superior .   Por isso, os grandes impérios conseguem se manter  no topo,  à  custa do suor, lágrimas e muito sofrimento,  de uma maneira ou de outra vão tombar. Nós também perdemos a beleza e a juventude, a certa altura, o declínio... e por mais plásticas para suavizar e esconder as rugas,  a velhice chega e não há volta a dar.
 - Então não acredita  no progresso? 
 - Qual o resultado desse progresso?  Para ficarmos  soterrados  até ao pescoço? O período do ouro, termina inevitavelmente.  Na terra dos pulhas, salvam-se os ricos e poderosos. Findo o prazo de validade, amarga como fel. Gasta-se, esbanja-se... o reverso da medalha são os excessos, o tal descontrolo, que ninguém tem mão nele. Até a Santa Inquisição deslumbrou-se  com o poder ao ponto de se tornar assassina mas não está isolada.
 - O sr. é uma anedota ! - e desatou a rir desalmadamente  - muito engraçado mesmo.
 - Achou piada em mim? - teria aparentado ser palhaço
 - É a forma como se expressa, não me leve a mal - e continuou a rir sufocado
Inspirado encontrava-me, desinspirei-me  subitamente.

Conto II

Enquanto o autocarro rolava na estrada, ora aos solavancos, ora em alcatrão firme,  eu  continuei só, espreitei  algumas vezes para o lado, observei  sempre o mesmo; ela  atenta à  rua, a fotografar sofregamente  o que podia. A temperatura subiu e eu senti uma  moleza avassaladora, um desgasto, aos poucos as pálpebras começaram a pesar, não podia defender-me daquela  sonolência que me apanhava a jeito.  Um verdadeiro assalto. Ainda lancei  um olhar furtivo    à mulher e fui surpreendido,  quando vi que ela troçava de mim, tentei me  endireitar no banco,  escancarei o raio dos olhos, passei  a mão pelo rosto, quando me julguei desperto, voltei  a ser vencido  e a cabeça pendeu sobre o vidro. Não sei  quanto tempo dormi, pouco ou muito,  encolhido no assento. Acordei  sobressaltado quando outro indivíduo veio  sentar-se na bancada contígua.  Lembro-me que fiz uma careta, aquele  idiota... um autocarro com lugares vagos e tinha logo de instalar-se ao meu lado! Que chatice! A estúpida da Josefa, se aquietasse  ali,  evitava que  um estranho me visse naquele estado. Não havia necessidade! Tornei  a endireitar-me, queria parecer um senhor de respeito e não um urso desleixado. Mais à frente,  exclamei entre dentes: 
- Ah! O que é aquilo?! 
-  Uma cena de brutalidade entre dois rapazes - verbalizou o outro 
- Não gostei nada do que vi! - desabafei
- Nem eu! - anuiu o desconhecido - quase sempre acaba mal ou muito mal. 
Encarei finalmente  o desconhecido,  olhos nos olhos  e ambos estranhamo-nos. 

Conto I

O autocarro   apinhado de gente até à porta?!Ainda estávamos em pandemia! Já  pouca gente a usar focinheira ... açaimos  que não defendem  mas vendem?!Que insanidade!  Anteriormente, excesso de zelo, presentemente,  frouxidão no cumprimento de certas normas. Eu e a mulher, os únicos a usar máscara?! Com aquele  calor, gente sobre  gente a pigarrear, a lançar  espirros desalmados, a tossir desenfreadamente  para as mãos e sobre os outros! Povo desmemoriado,  a doença já não parecia assustar ninguém. Felizmente  o transporte a esvaziar, a se tornar mais leve. Já  conseguia  respirar e mexer o tronco e as pernas, sem esbarrar no vizinho do lado.  Podíamos nos ver melhor, eu e a mulher,  lado a lado, sem sermos  esmagados e espremidos, de qualquer forma,  apesar da liberdade,  fomos   parcos nos diálogos, rostos mais sisudos do que alegres.  Não sei indicar, com precisão, a  parte em que  ela  decidiu se afastar para o lado oposto, paralelamente a mim. Tirou o telemóvel da bolsa e pós-se  a fotografar através da vidraça aberta,   também  depositei  a vista lá fora,  igualmente aberta, ela baixou a máscara e eu  baixei a minha, comecei a magicar frustrado sobre o propósito esquecido da viagem. Outra que julgava amar  Deus sobre todas as coisas... apesar disso,   o telemóvel, objeto adorado, há muito substituído pela divindade. A vida da maioria das gentes  tornada  exibicionismo desejado, tudo é   fotografável,  nunca a  vida privada esteve tão exposta e por vontade  própria. Josefa, persuadida dos  seus dotes, não ia além de uma grande  manipuladora, aquilo é que era  oxigenar  as boas relações entre nós?   só miséria o que nos unia ,  perdera toda a   graça,  nem uma unha  de amizade restava, quanto mais amor!? Porcaria de casamento.   No final   da   travessia de merda , quando chegássemos ao tal lugar que  a mulher  pretendia visitar, ela saía  e eu seguia. Tinha  de me libertar das suas  manhas . Estava  velho e cansado daquela  farsa; o que havíamos  feito à relação? No tempo do encantamento e houve, desenrola-se quase sempre da  mesma forma; prendi-me à tentação; chegou em forma de   menina recatada com algum sal à mistura e eu,  tolo e parvo, caí,  ganhou-me por completo,  todavia, deitou logo  mão à  minha  garganta,  sufocou-me ; Tudo interdito: amigos, diversões,  demoras nos sítios que frequentava. Eu a pensar que era especial, que éramos especiais.  A ilusão cegou-me e tornei-me  um  prisioneiro,  um indivíduo  nulo, neutro, um animal acossado e depois,  perverso. Influenciamo-nos mutuamente, contudo,  fui colonizado, perdi tudo o que era só meu. Nas minhas  costas;uma mulher pequena e tonta como eu.  Nunca foi grande, nem me ajudou a ser. Depressa aprendemos a  usar os outros para  benefício próprio, fizemos o mesmo um ao outro, aos filhos e ensinamo-los dessa maneira.  A nossa história foi sempre  tumultuosa, toda ela. Formamos  uma equipa mesquinha, dois pulhas sem escrúpulos e tremendamente narcísicos. 

 NotaInspirado no  Conto de Sophia de Mello Breyner " A viagem" in " Contos Exemplares"

terça-feira, 13 de setembro de 2022

D. PedroII " Nos Tempos do Imperador "

"Não há alegria na guerra, Augusto ( genro) não há sequer Vitória numa guerra,eu sinto que perdi para sempre. Alegria? e ela não volta mais, é como se essa guerra tivesse me transformado numa outra pessoa, numa outra pessoa que eu desconheço. Acabou. Cartas escritas depois da guerra terminar: ... escrevo no rescaldo da batalha que travamos em Uruguaiana e que terminou, com a Vitória dos aliados, mais o preço de centenas de cadáveres, tanto do nosso lado como dos paraguaios. Esses mortos vão pesar para sempre na minha consciência, assim como o seu longo cortejo de órfãos, viúvas e mães. Solano Lopes se retirou da batalha e espero em Deus que tenha aprendido a lição e nunca mais se atreva a desafiar a nossa soberania.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Nos Tempos do Imperador, Pedro II

" Maquiavel definiu dois géneros de combate, um com as leis e outro com a força. O primeiro, seria próprio dos homens, o segundo, dos animais, porém, como frequentemente, o primeiro não basta, convêm recorrer ao segundo, portanto, é necessário ao príncipe saber usar bem tanto animal quanto homem."

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Um recorte de alma

A tarde já vai alta/
 e o vento cheio de mar vai enrolando/
 os cabelos compridos/
 Tem fobia à liberdade/
 medo de aparar as pontas/ 
Um rosto tão bonito/
 Uma aparência sigular.../
 Estragaram-te o passo/
 Travaram-te a vontade/
 e depois indicam-te a porta/
 Um convite à saída?/ 
Mentira/ 
A gaiola prendeu-te/
 Pressinto o trovâo/
 Hás-de retomar o caminho/ 
transpondo os limites desse manicómio/
 Toma as rédeas /
 o futuro em forma de leão!/
 um enorme rasgão.../ 
É a dor a chamar por ti/
 A tua dor/

domingo, 21 de agosto de 2022

What ?!

Nem sequer havia vento Nem sequer havia calor Nem sequer havia gente Nem sequer havia condições... e o fogo galgou?!?!

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Destemperado

A terra, um imenso aquário, aguaceiro antecipado... Choveu e chove chamas! As narinas cheiram a terra queimada e das labaredas saltam os seus demónios...

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Excluído

O cabelo ? terreno baldio Os lábios ? flores murchas Os olhos? pantanais sujos A voz? um quarto iluminado sob puída tristeza de tapetes O riso? relva, ribeirinhos, malmequeres e flores de trevo Vem de ti um ar fino, forte de serra, verde pinho

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Recorte a meio da manhã

 Promessas são luzes às avessas. Pode existir esperança em promessa por cumprir? 

Recorte da manhã

 A gaiola é a perdição dos pássaros. 

domingo, 5 de junho de 2022

No Verão passado

 

Um homem jovem,  trinta e muitos anos , barbudo, olhos muitos  claros, louros, aparência cuidada, surge à janela, telemóvel ao ouvido, aguarda que a chamada seja atendida:
- Renato? - reconhece o interlocutor .
- Olá Vicente! - cumprimenta
- Como tens passado? - pergunta Vicente
- Nada bem! - declara Renato
- Que se passa contigo? - Vicente demonstra preocupação
- Nem sei!
- Problemas de saúde? - voz   surpresa
- Não,  felizmente nada ligado à  saúde! - conclui Renato
- Então,  estou curioso! - acrescenta o outro 
- Preciso falar contigo, com urgência!- remata ansioso
- Está bem! Onde e quando?
- Pode ser amanhã?
- Sim, pode ser! - concorda Vicente
- Aqui em casa, por volta das dezasseis e trinta!
- Combinado!
Os dois homens despedem-se. Vicente, encontra-se a meio de uma consulta. Aparenta alguma perturbação, é um homem  tranquilo e tolerante. Terminada a consulta, nota-se que ainda há um certo desassossego a  inquietá-lo. Vicente usa o cabelo  médio e liso, olhos negros, tez morena torrada,   estatura acima da média, espadaúdo, ombros ligeiramente inclinados.

No dia seguinte,  à hora marcada, Vicente chega a casa de Renato, toca a campainha, a porta abre-se, após o reconhecimento facial. Entra e avista o amigo no jardim, no habitual passeio  quotidiano. Encaminha-se para o outro. Renato,ao pressentir a presença do amigo, volta-se e cumprimentam-se de punhos cerrados. Renato acrescenta:
- Podes tirar a máscara ou não?
- Sim, posso!
- Agora não precisas disso,  estamos ao ar livre, somos  duas almas  saudáveis ...caso contrário não virias até aqui!
- É esse o teu grande problema, em que circunstâncias se usa a máscara?! - graceja
- A razão pela qual te chamei aqui , é outra, nunca seria por esse motivo! - remata brincalhão.
- Ah! Começava a ficar preocupado contigo! - exclama sorridente
- Podes te preocupar comigo, por outras razões!
- O que vem por aí , alguma tempestade?!
Enquanto conversam, os dois homens caminham e vão contornando os passeios do jardim, parando aqui e ali para se entenderem melhor.
- Nem sei como abordar este assunto contigo... - declara nervoso
- Dispara que logo se vê! - adianta o outro
- Pois...é um assunto delicado, daí a minha dificuldade, entendes?
- Até compreendo que seja, se não estás preparado hoje, falamos outro dia.
- Não,  nem pensar! De hoje não passa! - responde categórico
- Estou à espera! - sugere Vicente
Renato engole em seco:
- Tu não sabes de nada?! - inicia a receoso
- Sobre?
- Sobre a minha e a tua mulher? - as palavras saíram com dificuldade
- Que se passa com elas?!
- Nunca notaste nada? - questiona a tentar ganhar tempo ou a preparar terreno
- Referes-te a quê?! - fica assustado
- As nossas mulheres! As nossas mulheres  são amantes! - dispara finalmente
- Como assim,  amantes ?!- aparenta incredulidade
- Sim, as duas são amantes! -  exclama  pálido
Vicente volta-se de costas, depois de frente, coloca as mãos na cintura, fixa o chão,  ergue o rosto, passa a mão direita no queixo barbeado:
- Que dizes, rapaz?! perdeste a cabeça?! Bebeste?
- Não, não bebi, apanhei as duas em flagrante delito! - confessa
- O que é que tu viste? Provavelmente,  nada! Andas a  imaginar coisas?  - a voz tensa.
- Quisera eu que fosse tudo um engano! - profere  cansado
Os dois homens encaram-se como se desconhecessem.
 

Ambos, ali mesmo, enrugam, envelhecem. Vicente, atordoado acrescenta:
- Que  presenciaste ?
- Queres mesmo saber?
- Sim,  conta-me!
- Estávamos a dormir,eu e a Zita, de repente tinha saído do meu lado, demorou muito,por isso fui ao seu encontro,  ouvi gemidos, receoso do que pudesse ser, fui em direção ao que tinha escutado, percebi que vinha da casa de banho, baixei-me e espretei pela fechadura. Naquele momento tudo parou a minha volta, quando observei uma a fazer sexo oral na outra!
- Quem fez em quem?!
- A Susana na Zita!
- Tens a certeza que era mesmo isso?
- Esperei por ela na cama, quando chegou, atirou-se  aos lençóis, aguardei  uma confissão  mas nada. Então  resolvi abrir jogo. Falei o que tinha visto, ela respondeu que eu não tinha nada que espreitar! Assumiu e que era para eu respeitar a forma de ser dela.
 - Agora fiquei com a tarde estragada, a semana estragada, o mês estragado, o ano estragado. Estou sem norte, nem sul! Isto é   bombástico, Renato!?
- Como julgas que tenho andado?
- Ansioso e deprimido?
- Nem mais! Nós enganados pelas nossas mulheres, porque  andam enlaçadas uma na outra!
-  É  surreal! Onde foi isso? Quando descobriste?
-  No verão passado. Fiquei de sobreaviso, sabes,  pontas soltas... ninguém consegue enganar sempre!
- Há quanto tempo é que isto  sucede? Porque já  saímos juntos há uns   bons anos !...
- Não faço ideia, a esse respeito não consegui obter nenhuma  confirmação,  pressionei e não serviu de nada! Prefiro não pensar nisso!
 Vicente  passa a mão no cabelo,  estala a língua no palato, os olhos escuros sofridos  a perder de vista. O rosto quadrado tornou-se  cinza, a face crespada:
-  Foi como se tivesse levado um tiro na cara - articula  com tremor na voz
- Lamento que tenhas de passar por isto!
- Que tenhamos de passar por esta miséria! - corrige Vicente- nós os dois , as nossas esposas amantes!?
- Custa a engolir!
- Que pretendes fazer?
- Primeiramente acabaram-se as férias juntos! Ponto final.
- Estou contigo.
- Querem estar juntas, estejam, debaixo do meu nariz é que não!
-  Preciso de tempo para digerir esta porcaria , não sei como vou encarar a Susana, hoje!
-  Coragem e força, como aquela que precisei quando descobri! E sabes que podes contar comigo!
Renato coloca na mão sobre o ombro do amigo e adianta:
- Eu tenciono pedir o divórcio!
- E existe outra solução? É isso ou continuar sucessivamente a ser traído por ambas!
- Que raio de homens somos nós? A minha e a tua testa enfeitadas,  porque as nossas   mulheres  têm um romance.
- Por favor, Renato! Isto é mesmo  bombástico! - continua muito ansioso  - felizmente que eu e ela não  temos filhos! E tu, os teus filhos?
- Ainda não fui capaz , sei lá... vai  ser com muita calma! Só de pensar, fico arrasado
 - Eles habituaram-se a ver na Susana uma tia. As férias sempre com ela, criaram-se laços de ternura e de repente uma grande traição?!
- É  isso mesmo  que me faz uma enorme confusão! Será que elas começaram com esta merda antes dos teus filhos nascerem?! Então a traição vem de longa data!
- A Zita é  incapaz de me contar quando tudo iniciou.
- Renato, ainda bem que me puseste a par!
- É  óbvio que eu tinha de dividir a situação contigo! Afinal somos amigos. E diz-nos respeito, aos dois! Queres tomar uma bebida?
- Não,  vou caminhar, refrescar a cabeça...
- Então, vamos fazer o seguinte; quando tiveres novidades, liga-me e quando eu tiver novidades, ligo-te !
- Pode ser !

 Um mês depois ao telemóvel:
- Vicente , como resolveste o teu caso?
-  Renato, olha, vai parecer aquilo que é,  masoquismo, após dias a moer esta  grande chatice. A iniciativa partiu de mim, não suportei mais e falei de tudo, da nossa conversa, etc, etc. Discutimos, xingamo-nos, chafurdamos e após uns dias, resolvi expulsá-la de casa, como não estava preparado, a separação fez-me mal, fui buscá-la a casa da mãe.  Decidimos ter uma relação aberta, cada qual é livre.  Sei  que não é bom para mim porque ainda gosto muito dela. Independentemente do resto, houve muita paixão e amor entre nós.
- No meu caso , depois do furacão passar, ficou o vazio, ela mudou logo de quarto e eu tal como tu, por ainda nutrir um grande sentimento , nem cheguei a me separar. Depois, há os  filhos entre nós, embora  já sejam  adultos...
- Que grande choque   e os teus filhos, já lhes contaste?
- Ainda não!  A  minha filha tem andado desconfiada, olho em mim, olho na mãe... já  viu que dormimos em quartos separados, que não somos os mesmos, portanto, julgo que com estes sinais óbvios, saiba tirar as suas próprias ilações .. tenho que arranjar coragem. A Zita é perita a fechar-se na concha, protege-se e os outros que se danem! É  muito cobarde. O forte dela é enterrar a cabeça na areia como a avestruz. 
- Sabes, esta droga  rebentou comigo, teve o efeito de uma  ecatombe, uma avalanche.- lamuria-se desconsolado.
- A quem o dizes! Estamos ambos no mesmo barco- diz em tom  melancólico.
- Dói, dói muito!
- Se dói!
- Renato, tenho que desligar!
- Qualquer coisa, ligas-me!
- Sim, sim.

 Os dois homens voltam a contactar apenas no inverno:
-Queres saber da melhor? As duas zangaram-se!
- Elas ? - pergunta Renato curioso
-  Sim,  pelo que percebi, a briga foi feia!
- E qual o motivo?
- O mesmo de todos os casais, desgaste, fim da linha!
- Será que voltam para nós?
- Não, o facto de coabitarmos sob o mesmo teto  não significa nada. Pelo que chegou aos meus ouvidos, através de um telefonema, a Zita já anda de caso com outra fulana.
- Como? Outra? Ela vive na minha casa e anda a me fazer de parvo! Grande vádia!
pediu-me encarecidamente  para ficar, nunca imaginei uma ruptura por causa de outros casos! Quer viver assim, a porta da rua é serventia da casa!
- Eu tenho me sentido um verdadeiro parvo!
- Já somos dois!

As folhas do calendário são desfolhadas, uma a uma; horas, dias, meses ...e chegados a Agosto, um Agosto quente e suado, com praias apinhadas e ruas muito concorridas, abarrotadas de turistas.
Uma tarde,  Rita resolve remodelar o estúdio do pai, pretende fazer-lhe uma surpresa; decorá-lo a gosto, torná-lo mais luminoso, mais moderno. Renato não se opõe às ideias da filha, conhece e confia nas escolhas que considera opções estéticas de qualidade.
A meio da tarefa, o telefone do estúdio soa:
-Sim?
- Olá Rita!
- Olá Susana! Queres falar com o meu pai? Ele não...
- É  mesmo contigo que quero falar!
- Comigo?
- O teu pai ainda não te contou nada?
- Sobre?
- Sobre a tua mãe!
- Sobre a minha mãe?!
- Penso que já tens idade suficiente  para entenderes certos assuntos!
- Que assuntos?
- O teu pai flagrou a tua mãe com outra mulher!
- Susana, de que estás a falar?
-  Já disse!
- Disseste o quê?
- Vou repetir, o teu pai flagrou a tua mãe com outra mulher!
- Que queres dizer?
- Isso que escutaste! Vou me expressar de outra forma, a ver se compreendes melhor.  A tua mãe tem uma amante!
- Uma amante ou um amante?!
- Uma, uma amante, uma mulher! - soletra as palavras
- Mentira!
- O teu pai sabe de tudo, pergunta-lhe!
Rita  desliga imediatamente o telefone, como se o objeto lhe tivesse queimado a mão. A tremer ,tenta uma ligação mas em vão, a chamada não é atendida. Agarra a sacola, fecha a porta do estúdio e sai. Atravessa as ruas a correr, aparenta estar desorientada. Dirige-se para a praia, encaminha-se para uma parte mais  isolada. Senta-se sobre a areia e fica pensativa, ora puxa os fios dos  cabelos compridos para trás da cabeça,   ora cruza os braços,  descruza,  passa as mãos no rosto oval, pestaneja, sobe os joelhos, apoia os cotovelos nos joelhos, e sem esconder mais nada  chora, chora copiosamente, chora tanto que a vista  cansa, e em volta, incha. 
Levanta-se e caminha sem destino, avista uma fonte, vai até lá e passa abundantemente um  jorro de água pela face. Refresca-se lentamente.
O telemóvel toca, é o Renato:
- Sim, pai !
- Rita, não atendi  a chamada porque estava em reunião. O estúdio está a ficar lindo?
- Estou na praia!
-Ah!  Foste apanhar sol, fizeste bem!
- A Susana ligou para o estúdio quando eu estava lá!
- A Susana?! Para quê?! -  Renato é surpreendido
- Para falar coisas horríveis da mãe! - declara com a voz embargada
- Que coisas?
- Tu sabes!
- Eu sei? - defende-se
- Ela disse que tu apanhaste a mãe com uma mulher?!
- Ela disse mesmo assim? - cada vez mais atónito
- Sim.
- Que descarada! - confessa aterrado
- Porquê? Não é verdade ?
- Olha, querida, tenho uma chamada em linha, vai ter ao estúdio e lá conversamos com serenidade. -  e troca imediatamente de linha:
- Vicente?
- Ligaste-me esta tarde...
- Liguei e  agora estou ainda mais irado! 
- Que aconteceu?
- A Susana  é uma desavergonhada ...
- Que sucedeu desta vez?!
- Desculpa Vicente, as nossas mulheres são duas cabras malditas  ... sem comentários,  o que a tua mulher anda a fazer é que é  indecente !
- Que fez?
- Anda a ligar às pessoas da família, aos amigos e conhecidos para  acusar a minha mulher  de lesbianismo?!
- A sério?! Está louca! Ah! Já percebi, está a vingar-se da Zita por ter terminado com ela!
- Desta forma? Teve coragem de contar à  minha filha? Mas não acrescentou que a amante era ela própria! Bandidinha!- profere exaltado
- Agora fiquei sem chão,  Renato! Que feio! Nem sei como me desculpar!
- Tu não tens culpa de nada, nem eu!
-  Podiam ter tido  a decência de nos deixarem e fossem lá viver a vida que queriam!
- Ambas usaram-nos,  mulheres horríveis!
- O pior de tudo é  a dor que vai cá dentro!
- A tua dor e a minha, coisa de doidos!
- E agora, Renato, qual a etapa que se segue?
- Neste momento acabei de ter uma ideia !
- Qual?
- Vou fazer uma viagem e vou levar os meus filhos comigo! A minha filha soube da pior forma, não sei se já contou ao irmão ...
- Já sabes o destino?
- Primeiro vou conversar com eles mas independentemente das respostas,  quero voar  para bem longe daqui!
- Quanto tempo?
- Tudo vai depender do meu estado de espírito e do estado deles! 
- Boa ideia! Da minha parte,   sou um grande cobarde, prefiro fazer de conta que nada sucedeu! Tenho a vida estabelecida e não estou preparado  para ficar sem ela.
- Vicente, já percebeste como estas duas mulheres são mesmo ordinárias! Nem a Susana te deixa, nem a Zita me deixa e querem levar o tipo de vida que lhes convém!
- Renato, elas não nos deixam, nem nós queremos deixá-las !
- Por isso mesmo, preciso tratar a minha cabeça! Nada disto é normal!
- Olha, se vocês viajarem, a Zita, fica onde?
- A casa é grande e dos dois, a comunhão de bens dá nisto! Vai ficar à vontade, como uma rainha no seu palácio, rodeada de mulheres, como deve gostar!
- Essa ideia tortura-te !
- A maldição é que  tortura mesmo! 

quarta-feira, 4 de maio de 2022

O sinal ?

 

No dia do funeral
quando acompanhamos
a viatura funerária ao cemitério
Seguíamos transtornados
olhos  ensopados de água
torcidos de mágoa
emotivos  com a despedida 
 pensativos e recolhidos
A morte a guiar-nos na estrada
Nao era  um finado qualquer...
era o nosso amado  paizinho
Deixamo- lo ...assim, adormecido...
 voltamos a casa
a titi tinha-se atrasado 
e queria assistir à cerimónia fúnebre
do marido da irmã
A irmã,  nossa querida  mãezinha
piedosa e atormentada
Sentada no cadeirão, as cinquenta
contas pequenas a passarem  entre os dedos
curtos , parando abatida
nas contas maiores...
Dava-se conta da sua  viúvez...
a falta já daquela  companhia que vinha de longe...
Enquanto o carro rolava
Na ida e na vinda...
ouvimos um som  assaz estranho
Como descrever ?
Era um grito, um grito vindo das entranhas
longínquo e  imparável... Um pedido de socorro?
Medo do desconhecido? Coisas por dizer?
Atribuiu-se tal  facto às colunas do automóvel
posteriormente, a um brinquedo a pilhas  que deveria estar a rebolar na bagageira do carro e desta forma ativava a  respectiva sonoridade
Após a missa de corpo presente, o paizinho foi sepultado
na fundura da terra; cumpriu-se a sua última vontade
 Voltamos ao carro
O que nos incomodou anteriormente,  subitamente deixou de pertubar...
Regressamos vazios da presença, estranhamente perturbados
de coração apertado
O grito deixou de se escutar.
Afinal não havia pilhas no brinquedo.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Recorte do dia

 Muitas vezes o castigo dos agressores é a ruína da vítima. Liberdade sem respeito e sem justiça,  não vale de nada. 

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Da morte para a vida

 O grande milagre é praticar o Bem! E o milagre está dentro de si. Ponha-o em prática! A Esperança  depende do que fazemos, da contribuição que somos capazes de dar! Seja um agente ativo benigno. 

domingo, 10 de abril de 2022

Quantos e Quantas?

 

Os nossos olhos revoltosos  faíscam, atrás da  retina,  a raiva acossada pelas imagens chocantes e trágicas de mais uma guerra sem sentido. Apesar da contagem numérica não corresponder à verdade, a destruição consta, os traumas edificam-se como cidades invisíveis e aterradoras, os mortos  e feridos espalhados pelo solo cozido de  uma massa amarga e traiçoeira. Que sentido? Nenhum! A não ser a loucura cega e louca dos insensíveis.  Nada se ganha, tudo se perde.
A guerra é a negação da vida. A antítese dessa mesma vida!  a ignorância a falar mais alto, as botas  que sufocam o grito dos cadáveres que choram sem que ninguem os ouça.  Negociar a qualquer preço porque a  guerra torna legítimo o crime!

A madre Teresa de Calcutá num dos seus pensamentos, diz algo semelhante a isto; as guerras começam no seio da família e isto é um facto, a violência doméstica é uma verdadeira pandemia, sai à rua; visível nas escolas, e toma os caminhos do mundo; nos trabalhos, empregos e  na vizinhança. Torna-se uma praga que destrói  vidas,  difama pessoas, armadilha destinos, persegue gente pelas mais diversas razões ou forja alguma. 
É a chamada caça às bruxas! Em todos os sectores da vida. Transversal! E quando os opressores detêm o poder,   vão usar a sua superioridade de forma a vergar aquele (a) que incomoda. Independentemente do género,  seja feminino ou masculino, exercer  tirania não escolhe sexos.
Lamentavelmente,  há muitos putin(s) e muitas ucraniana(s) espalhdas por este planeta fora.

segunda-feira, 28 de março de 2022

No Coração da Escuridão

 "Cada ato de preservação,  é um ato de criação.  Tudo o que se preserva renova a criação.  É assim que participamos na criação "

quarta-feira, 9 de março de 2022

"No coração da escuridão"

 



R-Reverendo Toller eJovem pai (Jp) 
R- A Mary está grávida?
Jp- Pois é.
R- De quanto tempo?
Jp- Vinte semanas.
R- Parabéns.
Jp- Obrigado. Que idade tem, Reverendo?
R- Quarenta e seis.
Jp- Trinta e três.  Será a idade do nosso filho em 2050.Mais dois anos do que tenho agora. O Reverendo terá  81. Sabe como será o mundo em 2050?
R- É  difícil imaginar.
Jp- Acha? Bem , Reverendo. O mundo está a mudar tão depressa.  Mesmo à nossa frente. Um terço do mundo natural foi destruído ao longo da sua vida. A temperatura da Terra  será três  graus mais elevada. Quatro graus é o limite. " um impacto severo,  generalizado e irreversível ". Quando os cientistas dizem estas coisas... O National Center for Atmospheric Research, Lawrence Livermore, o Potsdam Institute.
R( Ele continuou durante algum tempo. Em 2050, o nível do mar terá subido 60cm na Costa Leste. As zonas mais baixas ficarão submersas.  O Bangladesh perderá 20% da sua área terrestre.  A África Central reduzirá as suas colheitas em 50% devido à  seca. As reservas do Ocidente terão secado. Refugiados devido às alterações climáticas.  Epidemias. Tempestades extremas.
Jp- Sabe...Essa altura vai chegar e, a partir daí,  será tudo muito rápido.  Esta estrutura social não vai suportar múltiplas crises. Doenças oportunistas. Anarquia,  lei marcial . É o ponto de viragem. E isto não vai acontecer num futuro distante.  O Reverendo vai cá estar para ver isto. Os meus filhos vão viver esta situação insuportável.  Desculpe, mas... Eu pensava que as coisas poderiam mudar. Pensava que as pessoas iriam escutar.
R- Pensou fazer mal a si próprio?
Jp- Não.  Porquê? A Mary disse-lhe alguma coisa sobre isso?
R- Não. 
Jp- Eu não estou preocupado comigo. Este mundo será o que tiver de ser.  Posso fazer-lhe uma pergunta, Reverendo? Como se pode consentir que uma menina venha ao mundo...Por exemplo,  imagine que eu e a Mary tínhamos uma menina.  Uma criança cheia de esperança,  que acredita, ingénua, num mundo onde essa menina... se tornará uma mulher  e que nos olha, olhos nos olhos,  e pergunta se nós já sabíamos disto? Compreende? O que havemos de lhe dizer?
R- Há algo a crescer dentro da Mary. Algo tão vivo como uma árvore.  Como uma espécie em perigo de extinção.  Algo cheio de beleza e mistério natural.  Disse " consentir "? Acha que a Mary deveria fazer um aborto? Tem esse direito? A decisão é sua? Já perguntou à  Mary o que ela acha? Isto não se trata do vosso bebé.  Não se trata da Mary.  Trata-se de si e do seu desespero.  A sua falta de esperança.  As pessoas têm ao longo da história,  acordado a meio da noite atormentadas pela escuridão. Sentindo que as nossas vidas não têm significado. " O Desespero Humano ".
Jp- Sim, mas isto é diferente. 
R- As maiores realizações do Homem levaram-no a um ponto em que a vida tal como a conhecemos pode acabar num futuro próximo.  Sim, é algo novo. Mas a escuridão... não é. Somos pessoas da Ciência.  Queremos resolver os problemas.  Queremos respostas racionais. Não é? Se a humanidade não conseguir ultrapassar os seus interesses imediatos para garantir a sua sobrevivência,  então aí tem razão.  A única resposta racional é o desespero. Mas acha que há mais alguma existência para além desta ? Esta que temos agora?
Jp- Sim.
R- Antes de nós.  Depois de nós. 
Jp- Está a falar da próxima vida? Acha que...
R( Senti-me como Jacob a lutar toda a noite com o anjo. A lutar bem de perto.  Cada frase, cada pergunta e resposta seria uma luta mortal. Foi entusiasmante. 
Jp- Acredita no martírio,  Reverendo?
R- Não sei se entendo a sua pergunta.
Jp- Os santos de Deus, os primeiros Cristãos que não renunciaram à sua fé? Os missionários que foram atacados na terra do Senhor? Acha que eles morreram por uma causa?
R- Acho.
Jp- Todas as semanas morrem ativistas que tentam proteger o ambiente.  Morreram 117 o ano passado a defender as suas crenças.  Aqui está o José Cláudio Ribeiro da Silva.  Esta é a mulher dele,  a Maria. Foram mortos a tiro, em 2011, na Amazónia. Estavam a protestar contra o abate da floresta tropical.  Esta é  a Dorothy Stang, 2005.

 Era uma freira do Ohio. De que serviram as mortes deles? Em 2010, o IPCC disse que se não se  tomassem medidas drásticas até 2015, o colapso ambiental seria irreversível.  E não se fez nada. Estamos em 2017.
R- Disse que respeitava aquilo por que passei?
Jp- Sim.
R- Então conhece a minha história. Sim, era capelão.  O meu pai era professor no VMI. Eu encorajei o meu filho a alistar-se . Era uma tradição de família. Tal como o pai dele e o meu pai. Uma tradição patriótica.  A minha mulher não queria.  Mas o meu filho alistou-se na mesma. E seis meses depois, morreu no Iraque.  Convenci o meu filho a entrar numa guerra sem qualquer justificação moral. A minha mulher já não podia ficar comigo. Saí do exército.  Estava perdido. O Reverendo Jeffers da Abundant Life, ofereceu-me esta posição na First Reformed e aqui estou eu. Michael,  prometo--lhe que o desespero que sente por trazer um filho a este mundo, não se compara ao desespero de ver um filho partir.
Jp- Como é que ele se chamava? O seu filho?
R- Joseph.
Jp- O rapaz atirado ao poço.  Eu lembro-me.  O sonhador.
R- Sim, o sonhador.
Jp- E conseguiu continuar?
R- A coragem é a resposta para o desespero.  A razão não nos dá qualquer resposta.  Não sei o que o futuro nos trará.  Temos de escolher apesar das incertezas.  Sabedoria,  é  termos duas verdades contraditórias,  ao mesmo tempo, na nossa cabeça.  Esperança e desespero.  Uma vida sem desespero é  uma vida sem esperança. Ter estas duas ideias na cabeça é o que nos dá vida.
Jp- Pois, também acho. Será que Deus nos vai perdoar? Pelo que fizemos ao mundo?
R- Não sei. Quem pode saber o que Deus pensa ? Mas podemos escolher...uma vida virtuosa. Fé,  perdão, graça,  é tudo o somos.  Acredito nisso.  

R( Revi tudo o que foi dito e o que deveria ter sido dito, ou poderia ter sido dito de forma diferente,  ou poderia ter sido dito melhor.  " Sei que nada pode mudar e que não há esperança." Escreveu Thomas Merton. O desespero é um fruto do orgulho tão grande que admite a sua certeza, em vez de admitir que Deus é mais criativo do que nós.  Talvez tenha sido bom eu não lhe ter dito isto.)
( Este jovem pai acaba por se suicidar logo a seguir a esta conversa com o Reverendo Toller) 

Outro excerto que vale a pena ler. 




domingo, 27 de fevereiro de 2022

"No Coração da Escuridão"

 

( O ator que veste a pele de Reverendo Toller) 

Excerto do Diálogo entre o Reverendo Toller e o Reverendo Jeffers

R J - Está sempre no Jardim.  Nem Jesus estava sempre no Jardim, de joelhos, a suar sangue. Também estava no Monte. No mercado. No templo. Mas o Reverendo está sempre no Jardim. Para si, estamos sempre na Hora mais Negra.
R T- Não me apercebi de ter ofendido.
R J- Jesus não quer o nosso sofrimento.  Ele sofreu por  nós: Ele quer compromisso e obediência. 
R T- E a sua criação? Os  Céus declararam a glória a Deus. Deus está presente em todo o lado, em cada planta,  cada rio,  cada pequeno inseto.  Todo o mundo é uma manifestação da Sua presença divina.  Acho que a igreja deveria abordar este assunto.  Mas não dizem nada. O Congresso dos EUA ainda nega as alterações climáticas? Onde estávamos quando estas pessoas foram eleitas? Sabemos quem falou em nome dos grandes negócios.  Mas quem falou em nome de Deus? 
R j- " Toda a criação espera com ardente esperança a libertação do cativeiro. " Romanos 8:23 Compreende ?
RT- Então devemos poluir para Deus poder limpar? Devemos pecar para Deus poder perdoar? Não acho que o Apóstolo quisesse dizer isso. Acho que devemos olhar  pelos olhos de Jesus para todo o ser...
R J - Não vive no mundo real. Não vive. É pastor de uma igreja para turistas a que ninguém vai. Faz alguma ideia do que é preciso para fazer o trabalho de Deus?
R T- Estou a tentar...
R J - Para manter uma missão deste tamanho? O pessoal,  a assistência social, a quantidade de pessoas com que lidamos todos os dias ? Como se chama aquele padre de que tanto gosta?
R T - Thomas Merton
R J- Thomas Merton. Ele também não vivia no mundo real.
R T - Vivia sim.
R J- Ele era um monge que vivia num mosteiro no Kentucky e escrevia livros!
R T - Alguém tem de fazer alguma coisa! É a Terra que está aqui em jogo.
RJ - E se este for o plano Dele? E se nós não entendermos?
R T - Acha que Deus quer destruir a sua criação?
R J- Já o fez uma vez. Quarenta dias e quarenta noites. Escute, a Abundant Life está do seu lado. Nós preocupamo-nos. A sério. Sei que são tempos difíceis para si, mas nós vamos ajudá-lo . Mal terminemos a Reconsagração, precisa de fazer uma desintoxicação.  Tem de ser internado numa clínica médica.  Está bem? Talvez possa ir até à Nicarágua pregar o evangelho ou construir casas. Mas faça alguma coisa no mundo real. Se não puder estar na cerimónia,  eu compreendo. É  suposto lá estar, mas podemos dizer que está doente, o que é verdade...
R T - Não se trata da cerimónia. Eu quero lá estar. Tenho de lá estar. É a minha igreja. São 250 anos. Quero lá estar. Quero apresentá-lo. Por favor.
R J- O Ed Balq decidiu fazer alguns comentários,  por isso será o Governador a apresentá-lo. Algum problema?
R T - Não, nenhum. Nenhum.
R J-  Ótimo. Vamos lá fazer esta Reconsagração. Vai ser algo especial. Depois lidamos com as outras questões.
R T - Obrigado. 
 
Pela pertinência do tema, deixo cá o texto. 

sábado, 22 de janeiro de 2022

A Igreja de Cristo

 ...." Nós temos as catacumbas e nas catacumbas nós contamos como  era a igreja nascente, ajuda a perceber que a igreja não é aquela igreja do poder, dos trajes, dos incensos, era uma igreja muito humilde, muito pobre, em que se reuniam quase às escondidas mas aí sentiam-se irmãos,  aí, duma certa forma projetaram também aquilo que é o cristianismo de todos os tempos.  Ser-se político,  ser-se sacerdote, é isso, eu vou te buscar onde tu estiveres  e onde tu estiveres,  eu quero que tu tenhas as mesmas coisas que eu tenho, acho que a religião só serve para isso, uma religião que não ajuda,  que não  cuida dos seus pobres, não serve para nada.

Podem vender a igreja paroquial  à vontade que ela não serve para nada , a igreja serve para nós cuidarmos uns dos outros e quando ela não cuida,  quando as pessoas não cuidam umas das outras, a igreja não serve para nada .
Fomos pensando quem é  que seriam os pastores de Belém,  hoje, e, pusemo-nos a pensar, os pastores era gente que estava à margem da sociedade e  pensamos, se calhar, os reclusos são os pastores de Belém.  Então são esses que nós vamos anunciar em primeira mão que Jesus Nasceu.  Vêm trabalhar para aqui, de manhã,  pelas oito e meia, almoçam aqui e por volta das dezassete horas regressam,  ao estabelecimento prisional.  Aqui aprendem o ofício,  pode ser na área da construção civil, na área da carpintaria,  até na área  da jardinagem,  temos instrutores para isso,  a pessoa ganha  mais menos entre  quatrocentos e trinta, a  quatrocentos e cinquenta euros , ganha porque isto não é trabalho escravo, desse dinheiro,   metade dele, pode utilizar, mas a outra metade fica cativa, o que possibilita, quando sair em liberdade,  esta pessoa não volta para a rua, esta pessoa tem dinheiro, para poder alugar um quarto, uma casa e iniciar a sua vida. O sistema terá que ser muito mais célere, nomeadamente quer com os senhores juízes dos tribunais de execução de penas, que deviam conhecer as realidades, onde é que estas pessoas vieram trabalhar, os técnicos de construção civil que fazem os relatórios também não sabem em que sítio os reclusos trabalham,
 acho que este trabalho devia ser levado muito a sério e ao mesmo tempo, dar oportunidade a estas pessoas  para poderem trabalhar, costumo  dizer que o trabalho não é uma obrigação,  só trabalha quem  quer , nomeadamente que está detido mas é um direito,  alguém que está  detido deveria ter direito a trabalhar,  porque o juíz que o condenou a não ter liberdade como qualquer outa pessoa em sociedade tem , mas não o condenou a não fazer nada"

Entrevista transmitida na  RTP2 

domingo, 9 de janeiro de 2022

Profetas do sadismo

 

Um rosto sobejamente  conhecido ...
Sabemos da eloquência das suas  palavras, dos seus gestos grandiosos, dos seus  milagres, não magias obsoletas ou exibicionistas !
Muitos lêem, estudam, pesquisam, exploram a Sua Vida!
e depois? Depois inventam, acrescentam, subtraem, julgam...
de acordo com a  imaginação   galopante.  Excentricidades!
Outros....como eu,
parcos passos, os nossos ...
Ainda, os que  usam o nome de Deus  para   proveito próprio
Cada qual com o seu  interesse...
nos lábios,  suspensa, a mentira florida
 um deus que criaram, à sua imagem e semelhança...
O espirito apegado  a coisas térreas ...
 Esquecidos  da  nossa insignificância ! Esquecidos da humildade! Esquecidos do humanismo. Total  amnésia de valores!
O Rei dos Judeus nasceu pobre, viveu pobre,  despojado de  honras de estado...
 Seguirá Vivo! E nós ? Salvámo-nos pela besta e equivocada vaidade ?
Ele Coroado de espinhos! nos pés, sandálias !
Só a Ti me Curvo, só em Ti  assenta a minha fé, só em  Ti reconheço  Santidade!
Nego outros poderes
Chamo-te !
Guia-nos  cegos que somos!
Que é feito de nós?
Da nossa nobreza?
Nesta forma de vida,
quem somos ?
Défice de bem e excesso de mal, loucura abissal !
 Sombras de ira amarga no nosso interior,
Temo-nos em boa conta!  Somos canalhas! Sim,nós!
Crucificamos o nosso semelhante?! Aberração!
 Abandonamos quem mais amamos! empanturrados de egoísmo,
a boca cheia de nós  próprios , as nossas lamúrias, vontades, caprichos
 apenas nós próprios!
 Protótipos anões de cinismo,  intriga, rancor, inveja, difamação;
 Taças e taças   que guardam  veneno, em vez de  licor,
é  esse veneno que muitas vezes temos para oferecer.
 Dentro de cada um há muita maldade!  ,  excesso de " pecado".
Profetas do Sadismo! ...Que homem é  este?!
Peritos em negar, negar e voltar a negar!
Negar até quando? nem Pedro negou cristo   tantas vezes!
Os que erguem as mãos para Cristo ? Beijam o crucifixo e as enrolam as contas nos dedos...Apenas um peditório em oração?

 A nossa reza limita-se a querer mais e mais e mais... a quem enganamos? Deus?
E cansa-nos a caridade?! Teatralizamos compaixão mas   a vénia destina-se  aos ricos, porque a riqueza fica imensamente bem no retrato!
O prestígio? Que prestígio?!
Resta-nos o cansaço deste mundo imparável,  todos opinam, gritam uns por cima dos outros!  Não se escutam! A seriedade perdeu brilho, o respeito, enterrado num  deserto muito  seco, talvez para não refilar...
Que hora alegre, aquela em que soube de Ti!
A melhor de todas!
E  gente tratada como o cesto do lixo, engolindo  papéis  que os outros rejeitam, atirados para qualquer canto,  por outra gente que se diz  de bem?!
A indiferença de muitos  , roedores de primeira ordem!
Os mesmos que se joelham frente ao altar,
Celebram o natal , montam  presépios, entoam cânticos....
este homem  que em nada mudou, desde que o mundo é mundo
Que é que o salva das garras da morte eterna? as invenções?   os equívocos? os erros grosseiros ?
tudo armado pelo mesmo  homem
Apenas isso.
De resto, que valemos nós?
pobres, ervas  arrancadas  com desleixo, sem sentido e sem graça.
Serão sempre os mesmos?  Os mesmos a pagar?nem  poderão  dizer  da sua desgraça , porque vão-lhes dar  caça !
Que importam os corações partidos? Arrancados a frio? Não contam, são números! Comove? Umas quantas lagrimas forjadas! Os escravos, mão de obra barata, dão-lhes  tudo o que possa ser de difícil acesso. Adoecem? Paciência,  falsa esperança?  É mantê-los  entretidos a esperar...
 Agora penso Nele; Ele guia-me , Ele conforta-me, Ele compreende-me !
Mostra-me os furos das mãos, dos pés, as cicatrizes do coração...
A dor, A entrega... Suportou,  risadas, cuspidelas,  provocações, injúrias...
 Sossega-me! Não estou só !
Que Cristo proclamais vós?  Que Deus exaltais vós?
Senhor,  só tu me podes  libertar deste fardo e ser diferente
sentir mais profundamente, ver mais além...
 dai-me paz, uma ínfima partícula  da tua bendita e infinita  luz
Algo que se pareça com a tua sabedoria para me tornar mais forte
Acorda-me os olhos, para o  Teu  Mistério sagrado  ... pelo menos, o Bem praticável!
Sobretudo para sofrer um pouco menos , Amar mais e perdoar ainda mais.