terça-feira, 23 de setembro de 2025

Viagem XV

 Estou a sair da cidade rumo a casa . Sei que quando lá  chego só encontro aquele  silêncio asfixiante,  perturbador, incomodativo. A sensação viva e a consciência de que falta a presença habitual, a alma da casa, as notas coloridas já não estão ,  é tão triste, muito triste, a lembrança e o sentimento que deixou cá, o lugar vago que ninguém pode preencher. Dos cantinhos dela erguem-se montanhas de silêncio, são  vazios abissais. Olha-se em redor, a cama articulada vazia, as almofadas sem uso, as cadeiras sem o corpo.   Algo ali murchou para sempre. 

 Cumprida a minha missão , resta seguir por outro atalho. Outro  caminho, procurar outro espaço que me pertença. 

Li algures sobre a reencarnação,  para mim é impensal, uma idosa vai habitar um corpo de uma vida nova? Não me faz sentido nenhum, que absurdo,  ainda mais absurdo que aquela do nosso primo afastado  ser um  primata. Cada tese bizarra! E ainda há quem embarque nestes inventos pouco ortodoxos . 

 Espreito pela vidraça grupos de mulheres e homens agarrados às sombras.  É que o fogo crepita pernas fora,  como se o asfalto tivessem incendiado ,  a cozer-nos os calos,  como se estivéssemos a caminhar dentro de uma enorme frigideira, e a sermos  fritos, sente-se o  inferno  à volta, a derreter-nos, o calor dos incêndios imiscuído nas temperaturas temerárias, devoram estranhamente.  Escapar é meter-se a correr em abrigos  frescos, há  os que arriscam caminhar por entre estas  lebaredas, nao sei como suportam... 

O autocarro desanda após cada paragem, a sentir o mesmo fogo.  Por isso o carrossel continua a sua viagem sem freios. 

Através da vidraça encontro  o sorriso da minha mãe. Há lá fora uma senhora, tão semelhante,  num impeto  era atirar-se porta fora e ali mesmo, dar-lhe um abraço apertado e chorar e rir e rir e chorar. De repente,  a senhora volta o rosto num outro sentido e aí,  constato que não é ela. Não é a primeira vez que sucede , deve acontecer com toda a gente. Já me pareceu ter visto outros familiares falecidos. Espero que estejam todos reunidos no Paraíso,  local sagrado ou como ela mesma dizia, que todos os mortos iriam habitar uma nova Jerusalém.  O autocarro arranca devagar,  a cidade continua o seu percurso ora lento, ora veloz. Parecem formigas  dispersas, que se vão evitando umas às outras para não chocarem. E regresso à minha mãe,  a mágoa de não estar presente no último adeus. Não me conformo. Julgo que nunca me hei-de conformar. Metade de mim, está com ela, metade dela está comigo. Um dia, quando nos voltarmos a encontrar, as duas metades vão completar numa  só. Unidas para sempre, de mãos dadas. Em Paz, finalmente,  por toda a eternidade.  Tal como o Pai e o Filho. Entretanto, a viagem segue. Após muitos anos sem entrar numa igreja, o meu problema é com os padres, nunca com Deus. Penso  numa missa por ela e fico surpreendida, não  acredito no negócio que ali entra, por cada nome citado, quanto custa ao cidadão comum. E ainda há o peditório durante a missa. Das minhas mãos não cai uma moeda por mais pequeno que seja o seu valor.  O estado mete os tentáculos no  nosso bolso e a igreja vai pelo mesmo caminho? Não, não embarco nessa, Deus conhece as minhas  intenções. À porta da igreja, há pobres que estendem a mão, são os pobres ignorados pelos padres. Mais depressa, os estrangeiros socorrem ou um ou outro residente. 

A viagem prossegue e a tarde continua a arder.