quinta-feira, 22 de abril de 2021

O convidado

 

Género- Suspense

Chego à ilha. Encontro-a como me haviam descrito. Céu baixo, capacete de nuvens.  Apanho um taxi , rumo à  baixa da cidade. Salto do veículo  na Avenida do Mar,  rua que corre paralela ao próprio mar... Caminho devagar até uma praça ajardinada e sobranceira ao oceano. Volto-me e observo atrás de mim, como pano de fundo  belas colinas salientes. Há um nevoeiro ralo a galgar as serras. Maravilha. Respiro fundo, sigo vagarosamente naquela tarde cinza,  pensativo e estranho, invade-me uma sensação de abandono e liberdade.
Um indivíduo barbudo reconhece-me e para meu espanto, faz-me recuar no tempo; ao secundário, passam séculos por mim... momentaneamente envelheço, não existe  na minha memória qualquer imagem ou referência daquele homem.
Encaminhamo-nos para uma esplanada, um parco sol mostra-se, é  de duvidar...  apesar do frio que se faz sentir, nada que um bom agasalho não amenize. Segundo ele, fomos colegas de turma, cita  o meu nome e outros pormenores da altura, tudo  faz crer que é verdade. Sentados à  mesa,  a saborear o café. Pouca gente a circular. Barcos de recreio a balançar sob a moleza das ondas. Que calma agradável .
Gustavo Serra  é um tipo afável, bom comunicador,  sentido de humor refinado, sorridente...simpatizo com aquela figura, agrada-me a companhia. Começo a relaxar. Para minha surpresa oferece-me estadia na sua casa, é tão convincente que acabo por aceitar. Cinco dias... não incomoda nada.
Consulta o relógio, está na hora de seguirmos. Numa das ruas, indica o Skoda verde escuro. Deixamos o centro a caminho da periferia. A velocidade da viatura , as manobras para ultrapassar os outros veículos , provocam em mim um arrepio dorsal :
- Sai da frente, estou com pressa! Desanda, palerma! - resmunga
Depois, observa a minha reação  e desata a rir:
- Não te aflijas, chegas a casa são e salvo, sou bom nisto!... sabes lá as acrobacias  que consigo  fazer!
 Parece que sim, concluo para mim
Subimos estradas íngremes e sinuosas; curvas apertadas, direita,  esquerda, esquerda, direita e por fim aponta para uma delas:
- Lá está a minha casa! - indica satisfeito
É um casarão, com diversas varandas, apresenta-se enorme!  Afigura-se-me como alguém obeso, a sair da terra, a projectar-se na paisagem, num gesto arrojado e abismal.  As linhas principais; um  só  bloco, uma caixa dividida em patamares.
O carro entra na garagem, a abertura  engole-o definitivamente. 
Quando salto do banco, sinto água a correr pelas costas, a roupa colada ao corpo,
Apresenta-me a esposa; Raquel, uma mulher de estatura baixa,  quadrada, perna grossa, cabelo comprido às madeixas, um bocadinho maquilhada para lá da conta.
Lábios risonhos, riso expressivo. Muito expansiva nos gestos das mãos roliças .
Almoçamos os três.  Aparenta ser um casal cúmplice e  muito atento às minhas necessidades à mesa.   Ela explica-me que o quarto da filha encontra-se vago,   a rapariga  já conquistou  a sua independência. Há o João, de seis anos, que ainda está na escola e tem o seu próprio cômodo.
Mostram-me onde vou pernoitar. É  simples; madeira maciça mel, um roupeiro de parede, a cama feita com roupa em tons castanhos e verdes, mesa de cabeceira pequena,  uma gaveta, um armario incrustado,  candeeiro preto, o abajur cilindrico, imita um vitral. Os quadros encostados à parede, ilustram paisagens  à  base de manchas. Telas pintadas pela  filha deles.   Agrada-me imediatamente.  Posteriormente, sou conduzido à  varanda principal da casa,  enorme. Apetece gritar  a plenos pulmões. Uma autêntica maravilha, beleza digna dos deuses. Passo o resto da tarde no quarto, a observar minuciosamente as pinceladas dos quadros, e a fazer  telefonemas de trabalho.
Ao jantar conheço o João.  Uma criança bonita, alegre, viva, bem disposta.  E os pais constantemente a chamá-lo à  atenção. Repreendem-no por coisas ínfimas. Causa-me má  impressão.  Tudo é  motivo de negação. 

Passamos à sala de estar, o João é curioso, sempre com os olhos postos em mim, sorriso fácil , pergunta se quero brincar com ele. O casal arranja forma de tirá-lo dali, mesmo contrariado. Começo a me sentir incomodado. Cai um silêncio pesado, mais tarde, voltam os dois, muito descontraídos, decido recolher-me. Dispo o tronco,  para ficar mais à  vontade. Estendo-me na cama, ajeito-me,  mas quando vejo a maçaneta  da porta rodar muito lentamente, sento-me num salto.  Surge o João de pijama, sempre sorridente. Assalta-me uma preocupação.  Entra e vem sentar-se a meu lado. Repara no tronco nu e toca com o indicador  no ombro. Subitamente, a mãe pede-me autorização entra e ralha com a criança,  tenta puxá-lo dali , sem êxito. O pai vem aos  berros, até eu estremeço e sem mais demoras arrasta-o para fora do quarto, tranca a porta, eu ouço-os nitidamente:
- Queres levar umas palmadas  valentes? Ficas direitinho, percebes? percebes?
- Cala-te, João, já estou farta das tuas birras!
Que mal causou o pequeno João?  Porque razão se mostram tão arreliados, tão furiosos?
- Todas as noites, é isto, nem com visitas, tu acalmas? - a voz de Gustavo
- Chora para aí!  Vamos fechar a porta, vou apagar luz do candeeiro! Não há paciência!   - a voz de Raquel !  torno-me apreensivo. Ela, como mãe deveria adotar obrigatoriamente   outra postura. Atiro-me à  cama de barriga para baixo e cubro a cabeça com uma almofada. 
Só me apetece ir lá fora e  chamá-los à  atenção.  Mas  não posso,  nem devo.
A criança desata num pranto copioso, os dois silenciam,   eu ali ,sem saber como agir, e o tempo passa e continua a chorar, e chama pelo pai , tosse,  chora, chora, tosse.  Ali há qualquer coisa muito errada! Julgo que passam uns vinte minutos. De vez em quando, passos.  Que raio se estará a passar ? Nenhum presta atenção àquela criança? 
Alguém entra no quarto do rapaz, é a voz mais calma do  Gustavo!  a criança pára de chorar.  Ainda há soluços,  depois,  uma estranha  calma.  Transtornado, sento-me na cama, sono perdido.
No dia seguinte, combinam  um passeio e incluem-me. Não me apetece nada ... de qualquer forma um estranho dentro de casa... é melhor aceitar ...
Quando saio do quarto, após  o duche matinal, dou de caras com aquele casalzinho simpático, boa disposição, como se nada tivesse  sucedido no dia anterior.  Os dois,  prontos para seguir, ali, à  minha espera. A Raquel passa-me uma fatia de bolo para as mãos  e :
- Vamos Alberto! Coma.  Faremos uma paragem para tomar algo. É uma voltinha por aí,  apenas para desanuviar. 
Sobem a escada, em direção ao exterior e eu sigo-os. O João irradia  felicidade.
No banco de trás,  o rapazinho ,  que não pára de me examinar detalhadamente.  Vejo-o com imensa graça.  Tão amoroso e atento! A certa altura:
- Para onde vamos, papá?
Gustavo não responde. A pergunta é  feita de novo e nada. De novo, nada.
- Para onde vamos mamã? 
- Não sei, João! - responde fria
- Para onde vamos,  mamã?  - insiste
Já te respondi, não sei, rapaz, sei lá para onde vamos! - a mulher indignada nem me olha.
Avistamos um parque, o miúdo pede para sair, o pai não concorda, a mãe  discorda do pai. Trocam argumentos!  O carro segue em frente.
- Eu quero ir ali ! aponta outro lugar de diversão
- Queres ir àquele para quê? - desata Gustavo irritado
- Eu quero! - exclama contente.
- Tu vais querer o que nós quisermos, ouviste João? És muito novinho para dar sugestões ! - acrescenta a mãe, a simular ordem
- Mas eu quero, mamã!-  pede de uma forma que me comove . Ele só quer brincar.
- Ficamos neste? - sugere ao marido.
- Vai lá tu, eu fico aqui à espera!
- Como é?  Não vais connosco? !
- Querem? vão!
- Já tens a tua vontade, João?!- vinga-se na criança
O rapazinho sai desalmado e arrasta-me pela mão.  Eu, sem largar a mão dele, deixo-me levar.
Espera que eu fique a vê-lo no escorrega e eu gosto de o observar.  Ao fim de três vezes, vem a Raquel chamar o filho.
-Vamos!
- Já?! - o rapaz estranha e eu também.
Os olhos do João tornam-se nublados  e em silêncio  acata a ordem.
Dentro do carro, Gustavo mostra-se impaciente:
- Vá,  João, hoje! mexe-te e entra! O Alberto também deve estar farto disto!
- Não,  nada disso! - se existe alguém de quem estou farto, é dele mesmo e daquela mulher desagradável, que se finge passar por quem não é. 
O automóvel arranca de forma violenta e cria embaraço em nós.
Eu a julgar que o passeio seria para descomprimir. A certa altura, Gustavo pretende ultrapassar e o outro condutor não permite. E começa uma corrida desenfreada.  Fico  nervoso, Raquel apercebe-se e pede calma ao marido. João ainda anda a leste, vai cantarolando  cantigas inventadas .
 O outro pára, vem ao nosso encontro, Gustavo também estaciona e sai, Raquel desfalece enquanto tenta apanhar  a perna direita do marido:
-  Gustavo, não vás! -  pronuncia lastimosa.
Vejo o João, com ambas as mãos a  cobrir o rosto e esta imagem parte-me o coração.  Tenho de agir imediatamente. Salto da viatura e agarro o casaco do Serra e puxo-o para trás mas os dois homens envolvem-se, engalfinham-se:
- Gustavo, pare, pense na sua família! - subitamente ele encara-me pálido. - Por favor, vá,  acabemos com isto!- peço ao outro que se afaste, ainda tartamudeia uma frase incompreensível, subitamente encolhe-se e dá as costas. Nisto, ouço o Gustavo murmurar:
- Palhaço tonto, azelha do caraças!
- Gustavo, por favor, liga o carro e regressemos a casa - pede Raquel visivelmente tensa
Dominado pela fúria, arranca  e provoca  um rugido de fera,  até eu sobressalto-me .Olho para o lado, o João tira as mãos do rosto e fixa-me de olhos muito abertos, engulo em seco e fico sem chão,  que fazer? As maçãs no rosto da criança denunciam o seu estado de alerta. Dá-me um sorriso forçado,  como quem deseja apagar rapidamente  a perturbação provocada por  aquele episódio e finge que tudo não passa de um faz de conta... A  mão dele  procura a minha e aperta na sua e volta a cantarolar para espantar o medo.
Quando  entro em casa, recolho-me no quarto e saio apenas para jantar. O ambiente pesado; Gustavo silencia, Raquel recolhe-se em si mesma, apenas se escuta a voz do rapaz a cantar. Após o jantar retiro-me imediatamente. Nenhum dos dois se atreve a acrescentar o que quer que seja e eu aproveito o momento e desapareço. Nem o pequeno João percebe a minha ausência. Mais uma longa noite sem sono. Semi deitado, olhos no tecto a digerir os acontecimentos do dia e a pensar nos meus filhos, na minha mulher, que estilo de vida diferente deste ou somos melhores pais? Subitamente, ouço o rodar da maçaneta muito sorrateiramente, deve ser o miúdo.  Sento-me na cama, de olhos postos na porta que se abre lentamente . A respiração quase suspensa. A cabeça do João inclina-se. Rio-me com o jeito dele, tão engraçado.  Entra timidamente e põe-se logo a falar comigo, como se me conhecesse de longa data. Devagarinho, de sorriso nos lábios senta-se a meu lado :
- Tens de ir dormir, sabias?
- Mas não tenho sono.
A mãe vem depressa:
- João,  que vergonha é esta? Só fazes asneiras!
- Não,  não foi nenhuma asneira, são coisas de crianças - tento socorrer a parte mais fraca.
- Vamos sair já daqui e voltar à  cama! Que é isto?!
Raquel, está possuída por uma raiva que desconheço, nem me atrevo a fazer frente. Ela é a mãe,  por isso, abstenho-me. 
Aguardo um tempo, de repente, por alguma razão obscura e sem explicação, sinto-me zangado e até frustrado, recolho as minhas coisas, as essenciais e subo para o escritório. Para minha surpresa,  lá está  Raquel imersa em papelada. Peço licença e ocupo um lugar vago.
- É a secretária do meu marido! - aponta para mim
- Oh! - exclamo e tento erguer-me
- Não se levante! Ele nem se encontra cá! Deixe-se ficar!
 - Está bem. -volto a sentar.
- A esta hora ele está com o João,  nem deverá vir aqui. Logo a seguir, vai para o quarto. Eu termino o meu trabalho sempre tarde, quando chego à  cama, ele ressona.  Devo-lhe um pedido de desculpa, foi uma tarde para esquecer!
- Ainda me sinto em estado de choque! 
- Compreendo-o, Alberto! 
- O meu marido é boa pessoa, o problema é exaltar-se com frequência! 
- Não se controla!
- É exatamente isso, ele descontrola-se facilmente, até com o João!
- Em relação ao João, não me parece que seja só ele!
- Explique-se !
Reflito e tento passar por esquecido ou confuso:
- Raquel, o que é que eu estava mesmo a dizer?
- Está  a querer  dizer que com o João, somos iguais, eu e o meu marido?
- Perdi a linha de raciocínio! Não,  não era isso ... olhe, esqueça.
- Pois, foi uma tarde complicada, ainda está atordoado? Eu também fico assim quando o Gustavo perde os travões, mas vou ser franca consigo, não me vejo sem ele, tem os seus defeitos e quem não os tem? Dentro de casa; aquele homem dá imenso jeito!
Não será que fizeste dele, um escravo! Talvez lhe tivesse faltado uma grande mulher! que o ajudasse a dominar aquele feitio destemperado. Assemelham-se a  dois cães  impacientes e raivosos no trato com o  filho, talvez a filha tivesse fugido pela mesma razão, pôs-se a milhas! Provavelmente acusam-na e culpam-na, porém,  os verdadeiros responsáveis são vocês.
- Ficou calado?
- Eu não conhecia o seu marido.
- Ele lembra-se de si, do tempo de escola!
- Desse tempo, especificamente dele, não tenho memória nenhuma.
- Já percebeu que contamos  tudo um ao outro! Tudo mesmo!
- Sabe, Raquel,  contar tudo ao marido ou vice versa, não significa fidelidade, deixar de contar certos pormenores, pode  poupá-lo ou protegê-lo de certos aborrecimentos.
- Entre nós, não existem segredos. 
Usa o marido como depósito de lixo! Sujeita-se a ter um indivíduo muito mal disposto dentro de casa e isso  intoxica o matrimónio. Reflicto momentaneamente:
- E os limites?
- Sei de tudo o que faz, por onde anda, o que conversa... Eu faço o mesmo! Acordamos que seria assim! Não será agora que vamos mudar!
- É que ...
- Eu sei que ele é trocista e arrogante...- atalha resignada
- Trocista e arrogante? São características próprias de pessoas mal resolvidas.
- O Gustavo, mal resolvido?
- Sim, nota-se que é um homem com imensas fragilidades, inseguro, frustrado.
- Isso não sei! Nem me parece que seja assim...
- Acredite que é! Então, como explica o comportamento dos arrogantes,  dos pedantes ?
- Têm manias que são bons!
- Ouviu-se? têm manias! Eles sabem que não são e precisam de espremer os subordinados  para lhes dar a  sensação de poder. Mal amados. Mal quistos. Vai desculpar-me, tenho de lhe falar, porque está aqui, atravessado na minha garganta; ontem escutei-a com o seu marido, a discutirem por minha causa. A Raquel julga-me muito mal, pareço indiano e não tenho culpa disso e esse pormenor faz de mim, menos pessoa?Um cigano?! Um encardido?!Um tipo estranho dentro de casa?! O seu marido tem aparência de "jihadista", quando me convidou para vir, não declinei o convite a imaginar que pudesse ser terrorista. Se correm riscos comigo aqui, eu também corro os meus, nesta casa.
- Não supus que tivesse ouvido a discussão!  Desculpe!
- Pede desculpa mas o problema é que pensa mesmo isso...Falaram alto, como não tenho problemas de audição...mas vamos nos concentrar um bocadinho no seu filho...

Subitamente,  entra Gustavo, carão  carregado, cinzento e pesado, levanto-me imediatamente .
- Que te interessa o meu filho? Preocupa-te com os teus! Tens mulher e queres te meter com a minha!? Ofereci-te a minha própria  casa para esta vergonha! Traidor!
- Não,  por favor, nada disso, estás a pensar errado! - tremo por todos os lados
- É,  estou errado, vamos ver, talvez uma pancada nessa cabeça...!
Nisto, eu afasto-me mais para dentro, Raquel tenta apaziguar os ânimos, abraçando-o e ele empurra-a, ela solta um grito e cai sentada na cadeira, que com o embate choca com a mesa e como tem rodas, ressalta, apanha as pernas do Gustavo. Quando ele tomba visivelmente  magoado,  eu passo ao largo e precipito-me  para a saída da casa. Ele percebe a minha intenção e ouço-o cá fora:
- Larga-me, ele é covarde, vai fugir, tem medo de levar nos queixos! - berra em altos brados
Sem mais demoras, fecho a porta no trinco e corro o mais possível  que as forças me permitem. Os meus pés ganham asas, a rua  inclinada, parece que me empurra na descida,  e ajuda-me a desaparecer dali.  Apalpo os bolsos do casação e apercebo-me que tenho comigo o essencial, lá em baixo, numa encruzilhada,  paro um taxi e peço para ir até à baixa da cidade. Enquanto a viatura roda na estrada deserta, o meu coração bate alvoroçado, sinto-me agitado e perdido e o sorriso do João ocupa toda a minha mente. 
 






quinta-feira, 15 de abril de 2021

Amanhã ardo em segredo

 Amanhã ardo em segredo

num desgasto excessivo que já vem de longe..

Nas esperas absurdas e prolongadas 

portas fechadas de brutos  silêncios 
O meu nome propositadamente riscado 
 a bacia forçada a entortar de tanto
sentar no banco dos réus.  
Amanhã ardo em segredo
porque termina hoje o limite do suportável.  

quinta-feira, 1 de abril de 2021

O Cristo


Há uma ilustração que foi de calendário
sem os meses do ano
a que pertencia
afixada na parede,
por um prego espetada
Ironia...
A imagem colada justamente
por um prego
Lembra os pregos da Cruz
É uma daquelas pinturas  que circulam em bazares
onde se vende de tudo, a baixo custo,
até de artistas anónimos,
sem escola, sem classe,
sem nome, com erros  anatómicos
Mas é Cristo que ali está ,
que olha nos olhos
de qualquer ponto do quarto
 Às vezes  sorri,
um sorriso ora contente, ora nostálgico
Uma compreensão comovente
Mais de perto, rosto sério
Tenho por este Cristo um carinho muito especial
e por isso mesmo, grande respeito
Uma companhia diária
Poucas rezas, saudações várias.
Amo-O, admiro-O,  louvo-O, santifico-O,
por tudo aquilo que me dá
Que é muito mais do que aquilo que aqui está.