Género- Suspense
Chego à ilha. Encontro-a como me haviam descrito. Céu baixo, capacete de nuvens. Apanho um taxi , rumo à baixa da cidade. Salto do veículo na Avenida do Mar, rua que corre paralela ao próprio mar... Caminho devagar até uma praça ajardinada e sobranceira ao oceano. Volto-me e observo atrás de mim, como pano de fundo belas colinas salientes. Há um nevoeiro ralo a galgar as serras. Maravilha. Respiro fundo, sigo vagarosamente naquela tarde cinza, pensativo e estranho, invade-me uma sensação de abandono e liberdade.
Um indivíduo barbudo reconhece-me e para meu espanto, faz-me recuar no tempo; ao secundário, passam séculos por mim... momentaneamente envelheço, não existe na minha memória qualquer imagem ou referência daquele homem.
Encaminhamo-nos para uma esplanada, um parco sol mostra-se, é de duvidar... apesar do frio que se faz sentir, nada que um bom agasalho não amenize. Segundo ele, fomos colegas de turma, cita o meu nome e outros pormenores da altura, tudo faz crer que é verdade. Sentados à mesa, a saborear o café. Pouca gente a circular. Barcos de recreio a balançar sob a moleza das ondas. Que calma agradável .
Gustavo Serra é um tipo afável, bom comunicador, sentido de humor refinado, sorridente...simpatizo com aquela figura, agrada-me a companhia. Começo a relaxar. Para minha surpresa oferece-me estadia na sua casa, é tão convincente que acabo por aceitar. Cinco dias... não incomoda nada.
Consulta o relógio, está na hora de seguirmos. Numa das ruas, indica o Skoda verde escuro. Deixamos o centro a caminho da periferia. A velocidade da viatura , as manobras para ultrapassar os outros veículos , provocam em mim um arrepio dorsal :
- Sai da frente, estou com pressa! Desanda, palerma! - resmunga
Depois, observa a minha reação e desata a rir:
- Não te aflijas, chegas a casa são e salvo, sou bom nisto!... sabes lá as acrobacias que consigo fazer!
Parece que sim, concluo para mim
Subimos estradas íngremes e sinuosas; curvas apertadas, direita, esquerda, esquerda, direita e por fim aponta para uma delas:
- Lá está a minha casa! - indica satisfeito
É um casarão, com diversas varandas, apresenta-se enorme! Afigura-se-me como alguém obeso, a sair da terra, a projectar-se na paisagem, num gesto arrojado e abismal. As linhas principais; um só bloco, uma caixa dividida em patamares.
O carro entra na garagem, a abertura engole-o definitivamente.
Quando salto do banco, sinto água a correr pelas costas, a roupa colada ao corpo,
Apresenta-me a esposa; Raquel, uma mulher de estatura baixa, quadrada, perna grossa, cabelo comprido às madeixas, um bocadinho maquilhada para lá da conta.
Lábios risonhos, riso expressivo. Muito expansiva nos gestos das mãos roliças .
Almoçamos os três. Aparenta ser um casal cúmplice e muito atento às minhas necessidades à mesa. Ela explica-me que o quarto da filha encontra-se vago, a rapariga já conquistou a sua independência. Há o João, de seis anos, que ainda está na escola e tem o seu próprio cômodo.
Mostram-me onde vou pernoitar. É simples; madeira maciça mel, um roupeiro de parede, a cama feita com roupa em tons castanhos e verdes, mesa de cabeceira pequena, uma gaveta, um armario incrustado, candeeiro preto, o abajur cilindrico, imita um vitral. Os quadros encostados à parede, ilustram paisagens à base de manchas. Telas pintadas pela filha deles. Agrada-me imediatamente. Posteriormente, sou conduzido à varanda principal da casa, enorme. Apetece gritar a plenos pulmões. Uma autêntica maravilha, beleza digna dos deuses. Passo o resto da tarde no quarto, a observar minuciosamente as pinceladas dos quadros, e a fazer telefonemas de trabalho.
Ao jantar conheço o João. Uma criança bonita, alegre, viva, bem disposta. E os pais constantemente a chamá-lo à atenção. Repreendem-no por coisas ínfimas. Causa-me má impressão. Tudo é motivo de negação.
Passamos à sala de estar, o João é curioso, sempre com os olhos postos em mim, sorriso fácil , pergunta se quero brincar com ele. O casal arranja forma de tirá-lo dali, mesmo contrariado. Começo a me sentir incomodado. Cai um silêncio pesado, mais tarde, voltam os dois, muito descontraídos, decido recolher-me. Dispo o tronco, para ficar mais à vontade. Estendo-me na cama, ajeito-me, mas quando vejo a maçaneta da porta rodar muito lentamente, sento-me num salto. Surge o João de pijama, sempre sorridente. Assalta-me uma preocupação. Entra e vem sentar-se a meu lado. Repara no tronco nu e toca com o indicador no ombro. Subitamente, a mãe pede-me autorização entra e ralha com a criança, tenta puxá-lo dali , sem êxito. O pai vem aos berros, até eu estremeço e sem mais demoras arrasta-o para fora do quarto, tranca a porta, eu ouço-os nitidamente:
- Queres levar umas palmadas valentes? Ficas direitinho, percebes? percebes?
- Cala-te, João, já estou farta das tuas birras!
Que mal causou o pequeno João? Porque razão se mostram tão arreliados, tão furiosos?
- Todas as noites, é isto, nem com visitas, tu acalmas? - a voz de Gustavo
- Chora para aí! Vamos fechar a porta, vou apagar luz do candeeiro! Não há paciência! - a voz de Raquel ! torno-me apreensivo. Ela, como mãe deveria adotar obrigatoriamente outra postura. Atiro-me à cama de barriga para baixo e cubro a cabeça com uma almofada.
Só me apetece ir lá fora e chamá-los à atenção. Mas não posso, nem devo.
A criança desata num pranto copioso, os dois silenciam, eu ali ,sem saber como agir, e o tempo passa e continua a chorar, e chama pelo pai , tosse, chora, chora, tosse. Ali há qualquer coisa muito errada! Julgo que passam uns vinte minutos. De vez em quando, passos. Que raio se estará a passar ? Nenhum presta atenção àquela criança?
Alguém entra no quarto do rapaz, é a voz mais calma do Gustavo! a criança pára de chorar. Ainda há soluços, depois, uma estranha calma. Transtornado, sento-me na cama, sono perdido.
No dia seguinte, combinam um passeio e incluem-me. Não me apetece nada ... de qualquer forma um estranho dentro de casa... é melhor aceitar ...
Quando saio do quarto, após o duche matinal, dou de caras com aquele casalzinho simpático, boa disposição, como se nada tivesse sucedido no dia anterior. Os dois, prontos para seguir, ali, à minha espera. A Raquel passa-me uma fatia de bolo para as mãos e :
- Vamos Alberto! Coma. Faremos uma paragem para tomar algo. É uma voltinha por aí, apenas para desanuviar.
Sobem a escada, em direção ao exterior e eu sigo-os. O João irradia felicidade.
No banco de trás, o rapazinho , que não pára de me examinar detalhadamente. Vejo-o com imensa graça. Tão amoroso e atento! A certa altura:
- Para onde vamos, papá?
Gustavo não responde. A pergunta é feita de novo e nada. De novo, nada.
- Para onde vamos mamã?
- Não sei, João! - responde fria
- Para onde vamos, mamã? - insiste
Já te respondi, não sei, rapaz, sei lá para onde vamos! - a mulher indignada nem me olha.
Avistamos um parque, o miúdo pede para sair, o pai não concorda, a mãe discorda do pai. Trocam argumentos! O carro segue em frente.
- Eu quero ir ali ! aponta outro lugar de diversão
- Queres ir àquele para quê? - desata Gustavo irritado
- Eu quero! - exclama contente.
- Tu vais querer o que nós quisermos, ouviste João? És muito novinho para dar sugestões ! - acrescenta a mãe, a simular ordem
- Mas eu quero, mamã!- pede de uma forma que me comove . Ele só quer brincar.
- Ficamos neste? - sugere ao marido.
- Vai lá tu, eu fico aqui à espera!
- Como é? Não vais connosco? !
- Querem? vão!
- Já tens a tua vontade, João?!- vinga-se na criança
O rapazinho sai desalmado e arrasta-me pela mão. Eu, sem largar a mão dele, deixo-me levar.
Espera que eu fique a vê-lo no escorrega e eu gosto de o observar. Ao fim de três vezes, vem a Raquel chamar o filho.
-Vamos!
- Já?! - o rapaz estranha e eu também.
- Queres levar umas palmadas valentes? Ficas direitinho, percebes? percebes?
- Cala-te, João, já estou farta das tuas birras!
Que mal causou o pequeno João? Porque razão se mostram tão arreliados, tão furiosos?
- Todas as noites, é isto, nem com visitas, tu acalmas? - a voz de Gustavo
- Chora para aí! Vamos fechar a porta, vou apagar luz do candeeiro! Não há paciência! - a voz de Raquel ! torno-me apreensivo. Ela, como mãe deveria adotar obrigatoriamente outra postura. Atiro-me à cama de barriga para baixo e cubro a cabeça com uma almofada.
Só me apetece ir lá fora e chamá-los à atenção. Mas não posso, nem devo.
A criança desata num pranto copioso, os dois silenciam, eu ali ,sem saber como agir, e o tempo passa e continua a chorar, e chama pelo pai , tosse, chora, chora, tosse. Ali há qualquer coisa muito errada! Julgo que passam uns vinte minutos. De vez em quando, passos. Que raio se estará a passar ? Nenhum presta atenção àquela criança?
Alguém entra no quarto do rapaz, é a voz mais calma do Gustavo! a criança pára de chorar. Ainda há soluços, depois, uma estranha calma. Transtornado, sento-me na cama, sono perdido.
No dia seguinte, combinam um passeio e incluem-me. Não me apetece nada ... de qualquer forma um estranho dentro de casa... é melhor aceitar ...
Quando saio do quarto, após o duche matinal, dou de caras com aquele casalzinho simpático, boa disposição, como se nada tivesse sucedido no dia anterior. Os dois, prontos para seguir, ali, à minha espera. A Raquel passa-me uma fatia de bolo para as mãos e :
- Vamos Alberto! Coma. Faremos uma paragem para tomar algo. É uma voltinha por aí, apenas para desanuviar.
Sobem a escada, em direção ao exterior e eu sigo-os. O João irradia felicidade.
No banco de trás, o rapazinho , que não pára de me examinar detalhadamente. Vejo-o com imensa graça. Tão amoroso e atento! A certa altura:
- Para onde vamos, papá?
Gustavo não responde. A pergunta é feita de novo e nada. De novo, nada.
- Para onde vamos mamã?
- Não sei, João! - responde fria
- Para onde vamos, mamã? - insiste
Já te respondi, não sei, rapaz, sei lá para onde vamos! - a mulher indignada nem me olha.
Avistamos um parque, o miúdo pede para sair, o pai não concorda, a mãe discorda do pai. Trocam argumentos! O carro segue em frente.
- Eu quero ir ali ! aponta outro lugar de diversão
- Queres ir àquele para quê? - desata Gustavo irritado
- Eu quero! - exclama contente.
- Tu vais querer o que nós quisermos, ouviste João? És muito novinho para dar sugestões ! - acrescenta a mãe, a simular ordem
- Mas eu quero, mamã!- pede de uma forma que me comove . Ele só quer brincar.
- Ficamos neste? - sugere ao marido.
- Vai lá tu, eu fico aqui à espera!
- Como é? Não vais connosco? !
- Querem? vão!
- Já tens a tua vontade, João?!- vinga-se na criança
O rapazinho sai desalmado e arrasta-me pela mão. Eu, sem largar a mão dele, deixo-me levar.
Espera que eu fique a vê-lo no escorrega e eu gosto de o observar. Ao fim de três vezes, vem a Raquel chamar o filho.
-Vamos!
- Já?! - o rapaz estranha e eu também.
Os olhos do João tornam-se nublados e em silêncio acata a ordem.
Dentro do carro, Gustavo mostra-se impaciente:
- Vá, João, hoje! mexe-te e entra! O Alberto também deve estar farto disto!
- Não, nada disso! - se existe alguém de quem estou farto, é dele mesmo e daquela mulher desagradável, que se finge passar por quem não é.
O automóvel arranca de forma violenta e cria embaraço em nós.
Eu a julgar que o passeio seria para descomprimir. A certa altura, Gustavo pretende ultrapassar e o outro condutor não permite. E começa uma corrida desenfreada. Fico nervoso, Raquel apercebe-se e pede calma ao marido. João ainda anda a leste, vai cantarolando cantigas inventadas .
O outro pára, vem ao nosso encontro, Gustavo também estaciona e sai, Raquel desfalece enquanto tenta apanhar a perna direita do marido:
- Gustavo, não vás! - pronuncia lastimosa.
Vejo o João, com ambas as mãos a cobrir o rosto e esta imagem parte-me o coração. Tenho de agir imediatamente. Salto da viatura e agarro o casaco do Serra e puxo-o para trás mas os dois homens envolvem-se, engalfinham-se:
- Gustavo, pare, pense na sua família! - subitamente ele encara-me pálido. - Por favor, vá, acabemos com isto!- peço ao outro que se afaste, ainda tartamudeia uma frase incompreensível, subitamente encolhe-se e dá as costas. Nisto, ouço o Gustavo murmurar:
- Palhaço tonto, azelha do caraças!
- Gustavo, por favor, liga o carro e regressemos a casa - pede Raquel visivelmente tensa
Dominado pela fúria, arranca e provoca um rugido de fera, até eu sobressalto-me .Olho para o lado, o João tira as mãos do rosto e fixa-me de olhos muito abertos, engulo em seco e fico sem chão, que fazer? As maçãs no rosto da criança denunciam o seu estado de alerta. Dá-me um sorriso forçado, como quem deseja apagar rapidamente a perturbação provocada por aquele episódio e finge que tudo não passa de um faz de conta... A mão dele procura a minha e aperta na sua e volta a cantarolar para espantar o medo.
Quando entro em casa, recolho-me no quarto e saio apenas para jantar. O ambiente pesado; Gustavo silencia, Raquel recolhe-se em si mesma, apenas se escuta a voz do rapaz a cantar. Após o jantar retiro-me imediatamente. Nenhum dos dois se atreve a acrescentar o que quer que seja e eu aproveito o momento e desapareço. Nem o pequeno João percebe a minha ausência. Mais uma longa noite sem sono. Semi deitado, olhos no tecto a digerir os acontecimentos do dia e a pensar nos meus filhos, na minha mulher, que estilo de vida diferente deste ou somos melhores pais? Subitamente, ouço o rodar da maçaneta muito sorrateiramente, deve ser o miúdo. Sento-me na cama, de olhos postos na porta que se abre lentamente . A respiração quase suspensa. A cabeça do João inclina-se. Rio-me com o jeito dele, tão engraçado. Entra timidamente e põe-se logo a falar comigo, como se me conhecesse de longa data. Devagarinho, de sorriso nos lábios senta-se a meu lado :
- Tens de ir dormir, sabias?
- Mas não tenho sono.
A mãe vem depressa:
- João, que vergonha é esta? Só fazes asneiras!
- Não, não foi nenhuma asneira, são coisas de crianças - tento socorrer a parte mais fraca.
- Vamos sair já daqui e voltar à cama! Que é isto?!
Raquel, está possuída por uma raiva que desconheço, nem me atrevo a fazer frente. Ela é a mãe, por isso, abstenho-me.
Aguardo um tempo, de repente, por alguma razão obscura e sem explicação, sinto-me zangado e até frustrado, recolho as minhas coisas, as essenciais e subo para o escritório. Para minha surpresa, lá está Raquel imersa em papelada. Peço licença e ocupo um lugar vago.
- É a secretária do meu marido! - aponta para mim
- Oh! - exclamo e tento erguer-me
- Não se levante! Ele nem se encontra cá! Deixe-se ficar!
- Está bem. -volto a sentar.
- A esta hora ele está com o João, nem deverá vir aqui. Logo a seguir, vai para o quarto. Eu termino o meu trabalho sempre tarde, quando chego à cama, ele ressona. Devo-lhe um pedido de desculpa, foi uma tarde para esquecer!
- Ainda me sinto em estado de choque!
- Compreendo-o, Alberto!
Dentro do carro, Gustavo mostra-se impaciente:
- Vá, João, hoje! mexe-te e entra! O Alberto também deve estar farto disto!
- Não, nada disso! - se existe alguém de quem estou farto, é dele mesmo e daquela mulher desagradável, que se finge passar por quem não é.
O automóvel arranca de forma violenta e cria embaraço em nós.
Eu a julgar que o passeio seria para descomprimir. A certa altura, Gustavo pretende ultrapassar e o outro condutor não permite. E começa uma corrida desenfreada. Fico nervoso, Raquel apercebe-se e pede calma ao marido. João ainda anda a leste, vai cantarolando cantigas inventadas .
O outro pára, vem ao nosso encontro, Gustavo também estaciona e sai, Raquel desfalece enquanto tenta apanhar a perna direita do marido:
- Gustavo, não vás! - pronuncia lastimosa.
Vejo o João, com ambas as mãos a cobrir o rosto e esta imagem parte-me o coração. Tenho de agir imediatamente. Salto da viatura e agarro o casaco do Serra e puxo-o para trás mas os dois homens envolvem-se, engalfinham-se:
- Gustavo, pare, pense na sua família! - subitamente ele encara-me pálido. - Por favor, vá, acabemos com isto!- peço ao outro que se afaste, ainda tartamudeia uma frase incompreensível, subitamente encolhe-se e dá as costas. Nisto, ouço o Gustavo murmurar:
- Palhaço tonto, azelha do caraças!
- Gustavo, por favor, liga o carro e regressemos a casa - pede Raquel visivelmente tensa
Dominado pela fúria, arranca e provoca um rugido de fera, até eu sobressalto-me .Olho para o lado, o João tira as mãos do rosto e fixa-me de olhos muito abertos, engulo em seco e fico sem chão, que fazer? As maçãs no rosto da criança denunciam o seu estado de alerta. Dá-me um sorriso forçado, como quem deseja apagar rapidamente a perturbação provocada por aquele episódio e finge que tudo não passa de um faz de conta... A mão dele procura a minha e aperta na sua e volta a cantarolar para espantar o medo.
Quando entro em casa, recolho-me no quarto e saio apenas para jantar. O ambiente pesado; Gustavo silencia, Raquel recolhe-se em si mesma, apenas se escuta a voz do rapaz a cantar. Após o jantar retiro-me imediatamente. Nenhum dos dois se atreve a acrescentar o que quer que seja e eu aproveito o momento e desapareço. Nem o pequeno João percebe a minha ausência. Mais uma longa noite sem sono. Semi deitado, olhos no tecto a digerir os acontecimentos do dia e a pensar nos meus filhos, na minha mulher, que estilo de vida diferente deste ou somos melhores pais? Subitamente, ouço o rodar da maçaneta muito sorrateiramente, deve ser o miúdo. Sento-me na cama, de olhos postos na porta que se abre lentamente . A respiração quase suspensa. A cabeça do João inclina-se. Rio-me com o jeito dele, tão engraçado. Entra timidamente e põe-se logo a falar comigo, como se me conhecesse de longa data. Devagarinho, de sorriso nos lábios senta-se a meu lado :
- Tens de ir dormir, sabias?
- Mas não tenho sono.
A mãe vem depressa:
- João, que vergonha é esta? Só fazes asneiras!
- Não, não foi nenhuma asneira, são coisas de crianças - tento socorrer a parte mais fraca.
- Vamos sair já daqui e voltar à cama! Que é isto?!
Raquel, está possuída por uma raiva que desconheço, nem me atrevo a fazer frente. Ela é a mãe, por isso, abstenho-me.
Aguardo um tempo, de repente, por alguma razão obscura e sem explicação, sinto-me zangado e até frustrado, recolho as minhas coisas, as essenciais e subo para o escritório. Para minha surpresa, lá está Raquel imersa em papelada. Peço licença e ocupo um lugar vago.
- É a secretária do meu marido! - aponta para mim
- Oh! - exclamo e tento erguer-me
- Não se levante! Ele nem se encontra cá! Deixe-se ficar!
- Está bem. -volto a sentar.
- A esta hora ele está com o João, nem deverá vir aqui. Logo a seguir, vai para o quarto. Eu termino o meu trabalho sempre tarde, quando chego à cama, ele ressona. Devo-lhe um pedido de desculpa, foi uma tarde para esquecer!
- Ainda me sinto em estado de choque!
- Compreendo-o, Alberto!
- O meu marido é boa pessoa, o problema é exaltar-se com frequência!
- Não se controla!
- É exatamente isso, ele descontrola-se facilmente, até com o João!
- Em relação ao João, não me parece que seja só ele!
- Explique-se !
Reflito e tento passar por esquecido ou confuso:
- Raquel, o que é que eu estava mesmo a dizer?
- Está a querer dizer que com o João, somos iguais, eu e o meu marido?
- Perdi a linha de raciocínio! Não, não era isso ... olhe, esqueça.
- Pois, foi uma tarde complicada, ainda está atordoado? Eu também fico assim quando o Gustavo perde os travões, mas vou ser franca consigo, não me vejo sem ele, tem os seus defeitos e quem não os tem? Dentro de casa; aquele homem dá imenso jeito!
Não será que fizeste dele, um escravo! Talvez lhe tivesse faltado uma grande mulher! que o ajudasse a dominar aquele feitio destemperado. Assemelham-se a dois cães impacientes e raivosos no trato com o filho, talvez a filha tivesse fugido pela mesma razão, pôs-se a milhas! Provavelmente acusam-na e culpam-na, porém, os verdadeiros responsáveis são vocês.
- Ficou calado?
- Eu não conhecia o seu marido.
- Ele lembra-se de si, do tempo de escola!
- Desse tempo, especificamente dele, não tenho memória nenhuma.
- Já percebeu que contamos tudo um ao outro! Tudo mesmo!
- Sabe, Raquel, contar tudo ao marido ou vice versa, não significa fidelidade, deixar de contar certos pormenores, pode poupá-lo ou protegê-lo de certos aborrecimentos.
- Entre nós, não existem segredos.
Usa o marido como depósito de lixo! Sujeita-se a ter um indivíduo muito mal disposto dentro de casa e isso intoxica o matrimónio. Reflicto momentaneamente:
- E os limites?
- Sei de tudo o que faz, por onde anda, o que conversa... Eu faço o mesmo! Acordamos que seria assim! Não será agora que vamos mudar!
- É que ...
- Eu sei que ele é trocista e arrogante...- atalha resignada
- Trocista e arrogante? São características próprias de pessoas mal resolvidas.
- O Gustavo, mal resolvido?
- Sim, nota-se que é um homem com imensas fragilidades, inseguro, frustrado.
- Isso não sei! Nem me parece que seja assim...
- Acredite que é! Então, como explica o comportamento dos arrogantes, dos pedantes ?
- Têm manias que são bons!
- Ouviu-se? têm manias! Eles sabem que não são e precisam de espremer os subordinados para lhes dar a sensação de poder. Mal amados. Mal quistos. Vai desculpar-me, tenho de lhe falar, porque está aqui, atravessado na minha garganta; ontem escutei-a com o seu marido, a discutirem por minha causa. A Raquel julga-me muito mal, pareço indiano e não tenho culpa disso e esse pormenor faz de mim, menos pessoa?Um cigano?! Um encardido?!Um tipo estranho dentro de casa?! O seu marido tem aparência de "jihadista", quando me convidou para vir, não declinei o convite a imaginar que pudesse ser terrorista. Se correm riscos comigo aqui, eu também corro os meus, nesta casa.
- Não supus que tivesse ouvido a discussão! Desculpe!
- Pede desculpa mas o problema é que pensa mesmo isso...Falaram alto, como não tenho problemas de audição...mas vamos nos concentrar um bocadinho no seu filho...
- Não se controla!
- É exatamente isso, ele descontrola-se facilmente, até com o João!
- Em relação ao João, não me parece que seja só ele!
- Explique-se !
Reflito e tento passar por esquecido ou confuso:
- Raquel, o que é que eu estava mesmo a dizer?
- Está a querer dizer que com o João, somos iguais, eu e o meu marido?
- Perdi a linha de raciocínio! Não, não era isso ... olhe, esqueça.
- Pois, foi uma tarde complicada, ainda está atordoado? Eu também fico assim quando o Gustavo perde os travões, mas vou ser franca consigo, não me vejo sem ele, tem os seus defeitos e quem não os tem? Dentro de casa; aquele homem dá imenso jeito!
Não será que fizeste dele, um escravo! Talvez lhe tivesse faltado uma grande mulher! que o ajudasse a dominar aquele feitio destemperado. Assemelham-se a dois cães impacientes e raivosos no trato com o filho, talvez a filha tivesse fugido pela mesma razão, pôs-se a milhas! Provavelmente acusam-na e culpam-na, porém, os verdadeiros responsáveis são vocês.
- Ficou calado?
- Eu não conhecia o seu marido.
- Ele lembra-se de si, do tempo de escola!
- Desse tempo, especificamente dele, não tenho memória nenhuma.
- Já percebeu que contamos tudo um ao outro! Tudo mesmo!
- Sabe, Raquel, contar tudo ao marido ou vice versa, não significa fidelidade, deixar de contar certos pormenores, pode poupá-lo ou protegê-lo de certos aborrecimentos.
- Entre nós, não existem segredos.
Usa o marido como depósito de lixo! Sujeita-se a ter um indivíduo muito mal disposto dentro de casa e isso intoxica o matrimónio. Reflicto momentaneamente:
- E os limites?
- Sei de tudo o que faz, por onde anda, o que conversa... Eu faço o mesmo! Acordamos que seria assim! Não será agora que vamos mudar!
- É que ...
- Eu sei que ele é trocista e arrogante...- atalha resignada
- Trocista e arrogante? São características próprias de pessoas mal resolvidas.
- O Gustavo, mal resolvido?
- Sim, nota-se que é um homem com imensas fragilidades, inseguro, frustrado.
- Isso não sei! Nem me parece que seja assim...
- Acredite que é! Então, como explica o comportamento dos arrogantes, dos pedantes ?
- Têm manias que são bons!
- Ouviu-se? têm manias! Eles sabem que não são e precisam de espremer os subordinados para lhes dar a sensação de poder. Mal amados. Mal quistos. Vai desculpar-me, tenho de lhe falar, porque está aqui, atravessado na minha garganta; ontem escutei-a com o seu marido, a discutirem por minha causa. A Raquel julga-me muito mal, pareço indiano e não tenho culpa disso e esse pormenor faz de mim, menos pessoa?Um cigano?! Um encardido?!Um tipo estranho dentro de casa?! O seu marido tem aparência de "jihadista", quando me convidou para vir, não declinei o convite a imaginar que pudesse ser terrorista. Se correm riscos comigo aqui, eu também corro os meus, nesta casa.
- Não supus que tivesse ouvido a discussão! Desculpe!
- Pede desculpa mas o problema é que pensa mesmo isso...Falaram alto, como não tenho problemas de audição...mas vamos nos concentrar um bocadinho no seu filho...
Subitamente, entra Gustavo, carão carregado, cinzento e pesado, levanto-me imediatamente .
- Que te interessa o meu filho? Preocupa-te com os teus! Tens mulher e queres te meter com a minha!? Ofereci-te a minha própria casa para esta vergonha! Traidor!
- Não, por favor, nada disso, estás a pensar errado! - tremo por todos os lados
- É, estou errado, vamos ver, talvez uma pancada nessa cabeça...!
Nisto, eu afasto-me mais para dentro, Raquel tenta apaziguar os ânimos, abraçando-o e ele empurra-a, ela solta um grito e cai sentada na cadeira, que com o embate choca com a mesa e como tem rodas, ressalta, apanha as pernas do Gustavo. Quando ele tomba visivelmente magoado, eu passo ao largo e precipito-me para a saída da casa. Ele percebe a minha intenção e ouço-o cá fora:
- Larga-me, ele é covarde, vai fugir, tem medo de levar nos queixos! - berra em altos brados
Sem mais demoras, fecho a porta no trinco e corro o mais possível que as forças me permitem. Os meus pés ganham asas, a rua inclinada, parece que me empurra na descida, e ajuda-me a desaparecer dali. Apalpo os bolsos do casação e apercebo-me que tenho comigo o essencial, lá em baixo, numa encruzilhada, paro um taxi e peço para ir até à baixa da cidade. Enquanto a viatura roda na estrada deserta, o meu coração bate alvoroçado, sinto-me agitado e perdido e o sorriso do João ocupa toda a minha mente.