Subo os degraus à entrada do autocarro e volto a subir mais degraus para me instalar, não vejo vantagem alguma em subir tantos degraus, nem facilita a acomodação dos mais velhos. Pelo contrário, dificulta mais e muito. Os passageiros entram devagar e em silêncio, como se dirigissem a um velório . Logo a seguir o transporte sai lentamente. Alguém instala-se a meu lado, nem presto atenção, porque estou concentrada na cena que visualizo através da janela; um casal de jovens a agridirem-se mutuamente, à bofetada. Tento seguir a cena, ainda estico o pescoço, os meus olhos de esquina, a fita desaparece à medida que o autocarro desliza para iniciar o seu percurso. Que terá sucedido? Alguém deve tê-los afastado... Para chegar à violência é que já sucederam precedentes nada dignos de um casal . Encontro-me eu em suposições quando alguém dispara:
- Que tipo de mulher seca tudo à volta e consome a água dos outros?
- É uma filha da puta! - responde outra voz
Algumas cabecas curiosas voltam-se para trás à procura do indivíduo que se pronuncia, efetivamente não sei se vêm o rosto, não me mexo, apenas espreito para o meu lado direito e dou de caras com a senhora sentada contígua a mim com um ar sereno.
- Este sujeito deve pensar que está na tasca - voz calma e firme
- Se fosse um miúdo, era logo "apedrejado" de mal educado...- digo eu.
- A sociedade de hoje é uma lástima!
- A cair de podre!
Cai um silêncio , depois arqueia as sobrancelhas, inclina a cabeça na vertical, atribuindo-me razão. Só agora observo detalhadamente o semblante altivo desta senhora, tez amarelada assaz vincada, olhos negros, líquidos, vivos , lábios semi finos, o cabelo louro claro falso mas bem cuidado, desce até aos ombros, fisicamente em muito boa forma . Vestuário desportivo feminino; calça comprida castanha escura de bombazine justa, casaco de linho bege claro, com botões castanhos escuros, a mesma cor nos sapatos . Por dentro, a blusa justa em algodão castanha, brincos discretos, os dedos decorados com anéis, uma maquiagem suave, no entanto, perceptível. A senhora traz consigo um odor perfumado maravilhoso. Apetece permanecer ao seu lado.
As vozes chegam até nós e diluem-se entre novas conversações.
- Logo pela manhã esta gente fala imenso! - disse pausadamente
- Concordo consigo, as pessoas falam mesmo muito alto e nem se dão de conta.
- É um mal geral! Cada um julga que pode trepar sobre o outro! Todos querem impor o seu ponto de vista. Como se fossem todos doutores. Toda a gente opina! Os sabidos...É que falar mais alto, dá para notar, percebe? Anda tudo a fazer o mesmo.
- Há uma impaciência no ser humano, cada vez mais crescente, uma irritação...
- Tudo o que não sou! Pelo menos, penso que não.
- Eu também não! Não há necessidade, quero seguir em paz.
- Olhe que bem, que sintonia entre nós , duas desconhecidas.
Sorrimos ambas.
- Também vai à baixa? - pergunta ela descontraidamente
- Sim, vou.
- Sempre viveu aqui e gosta ?
- Sim, sempre vivi nesta maldita gaiola, uma parca gaiola, uma mesquinha gaiola, uma miserável gaiola, onde todas as coisas são demasiadamente fechadas a fingir de abertas!
- Não gosta mesmo disto!?
- Não, nada, odeio!
- Se foi assim tão mau porque permaneceu?
- Por causa do clima! Em boa parte bom para a minha saúde!
- Compreendo. Eu vivi alguns anos no Canadá!
- Gostou de lá ter estado?
- Não, o meu primeiro marido era muito ciumento e não me permitia sair de casa! Era casada com ele nessa altura, isso deixou-me de rastos, soube-me a pouco ou a nada. Não nasci para ser prisioneira de homens e aprendi a me defender de chantagens.
- Quantos anos esteve por lá?
- Sete anos. Foi um dos piores momentos da minha vida.
- Pois... efetivamente.
- Admiro o sexo masculino, gosto desta parceria; homem, mulher, adoro a intimidade. Todavia, cortar as minhas asas, ameaçar, impedir todo e qualquer movimento, como se eu fosse uma criminosa, só me trouxe desgosto.
- Não podia ter fugido?
- Se pudesse acha que não teria tentado? É que temos dois filhos em comum. Ir para outro país, livrar-me daquele estorvo, sabe, viajar é maravilhoso, ver outras realidades, você capta a beleza das coisas, areja e volta cheia de outras imagens de lugares e cores diferentes, de rostos desconhecidos, outros sabores, outros odores, outras vozes... e regressa diferente.
- Tem razão ! disse eu terrivelmente encantada
- Nao usa um livro de viagens?
- Não .
- Eu tenho o meu, com fotografias, legendas, com apontamentos dos lugares que visitei, onde permaneci. Pessoas com quem falei, os assuntos. Pretendo continuar a viajar e sobretudo bem acompanhada, consegue ser uma mais valia. Olhe, aproveito a oportunidade - ela abre a bolsa, graciosamente e segura de si, retira um cartão do porta moedas e estende-me:
- O meu cartão, aqui tem, é assim, eu e o meu companheiro somos organizadores de eventos e decoração. Ele organiza e eu decoro. Temos uma excelente formação na área. Ligue-me para combinarmos um café, um chá, qualquer coisa.
- Se tiver disponibilidade...sim.
- Arranje um tempo para si, para estar bem. Ofereça a si própria umas horas de bem estar , conforto e descontração. Você tem bom ar, é bonita, se quiser podemos engendrar um evento a seu gosto, deve ter namorado, noivo ou é casada... ou até que seja só para si, há amigos com certeza, ou até familiares, é só combinar e aproveitamos para acertar os preços, é dinheiro que vale a pena, está a investir em si, na sua felicidade.
- Está bem, agradeço a amabilidade.
- É uma gentileza minha, não é habitual ter este tipo de gestos, você parece uma pessoa que precisa arrebitar, um estímulo, aqui está ele!
- Já saio a seguir, na próxima paragem- esclareço
- Quero que saiba que gostei muito desta nossa abordagem. É simpática e eu também . Está a ver, que alegria! vai ser este o momento da sua vida. É verdade, estou a apostar no meu negócio mas estou também a apostar em si. Eu ganho e você . Medite com carinho na minha proposta, aguardo uma resposta sua.
- Eu também gostei e entrarei em contato consigo.
- Óptimo, faça isso e não se arrependerá, confie em mim!
Cá fora, observo minuciosamente o cartão, especialmente o verso , onde constam os valores e quedo-me estarrecida com os preços praticados, desencantada atiro o bocado de papel para o balde do lixo.