terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Viagem V

 Subo os degraus à entrada do autocarro e volto a subir mais degraus para me instalar,  não vejo vantagem alguma em subir tantos degraus, nem facilita a acomodação dos mais velhos. Pelo contrário, dificulta mais e muito. Os passageiros entram devagar e em silêncio, como se dirigissem a um velório . Logo a seguir o transporte sai lentamente. Alguém  instala-se a meu lado, nem presto atenção, porque estou concentrada na cena que visualizo através da janela; um  casal de jovens a agridirem-se mutuamente,  à bofetada. Tento seguir a cena, ainda estico o pescoço,  os meus olhos de esquina, a fita   desaparece à medida que o autocarro desliza para iniciar o seu percurso. Que terá sucedido? Alguém deve tê-los afastado... Para chegar à violência é que já  sucederam precedentes nada dignos de um casal .   Encontro-me  eu  em suposições quando alguém dispara:

- Que tipo de  mulher  seca tudo à volta e consome a água  dos outros? 

-  É uma  filha  da puta! - responde outra voz

Algumas cabecas curiosas voltam-se para trás à procura do indivíduo que se pronuncia,  efetivamente não sei se   vêm o rosto,  não me mexo, apenas espreito para o meu lado direito e dou de caras com a senhora sentada contígua a mim com um ar sereno. 

- Este sujeito deve pensar que está na tasca - voz  calma e firme

- Se fosse um miúdo, era logo  "apedrejado" de mal educado...- digo eu. 

- A sociedade de hoje é uma lástima! 

- A cair de podre! 

Cai um silêncio , depois arqueia as sobrancelhas, inclina a cabeça na vertical, atribuindo-me razão. Só agora observo detalhadamente o semblante altivo  desta senhora,  tez amarelada assaz  vincada, olhos negros, líquidos, vivos , lábios semi finos,   o cabelo louro claro falso mas  bem cuidado, desce até aos ombros, fisicamente em muito boa forma . Vestuário desportivo  feminino; calça comprida castanha escura de  bombazine justa, casaco de linho bege claro, com botões castanhos escuros, a mesma cor nos sapatos . Por dentro, a blusa justa em algodão  castanha, brincos discretos, os dedos decorados com anéis, uma maquiagem suave, no entanto,  perceptível.  A senhora traz consigo um odor perfumado maravilhoso. Apetece permanecer ao seu lado. 

As vozes chegam até nós  e diluem-se entre novas conversações. 

- Logo pela manhã  esta gente fala imenso! - disse pausadamente 

- Concordo consigo, as pessoas falam mesmo muito alto e nem se dão de conta. 

- É um mal geral! Cada um julga que pode trepar sobre o outro! Todos  querem  impor o seu ponto de vista. Como se fossem todos doutores. Toda a gente opina! Os sabidos...É que falar mais alto, dá para notar, percebe? Anda tudo a fazer o mesmo. 

- Há uma impaciência no ser humano, cada vez mais crescente, uma irritação...

- Tudo o que não sou! Pelo menos, penso que não. 

- Eu também não! Não há necessidade, quero seguir em paz. 

- Olhe que bem, que sintonia entre nós , duas desconhecidas. 

Sorrimos ambas. 

- Também vai à baixa? - pergunta ela descontraidamente 

- Sim, vou. 

- Sempre viveu aqui  e gosta ? 

- Sim, sempre vivi nesta maldita gaiola, uma parca gaiola, uma mesquinha gaiola, uma miserável gaiola, onde todas as coisas são demasiadamente fechadas a fingir de abertas!  

- Não gosta mesmo disto!? 

- Não,  nada, odeio! 

- Se foi assim tão mau porque permaneceu? 

- Por causa do clima! Em boa parte bom para a minha  saúde! 

- Compreendo. Eu vivi alguns anos no Canadá! 

- Gostou  de lá ter estado? 

- Não, o meu primeiro marido era muito ciumento e não me permitia sair de casa! Era casada com ele nessa altura,  isso deixou-me de rastos, soube-me a pouco ou a nada. Não nasci para ser prisioneira de homens e aprendi a me defender de chantagens. 

- Quantos anos esteve por lá? 

- Sete anos. Foi um dos  piores momentos da minha vida. 

- Pois... efetivamente.  

- Admiro o sexo masculino, gosto desta parceria; homem, mulher, adoro a intimidade. Todavia, cortar as minhas asas,  ameaçar,  impedir todo e qualquer movimento,  como se eu fosse uma criminosa, só me trouxe desgosto. 

- Não podia ter fugido? 

- Se pudesse acha que não teria tentado? É que temos dois filhos em comum. Ir para outro país, livrar-me daquele estorvo, sabe, viajar é  maravilhoso, ver outras realidades,  você capta  a beleza das coisas,  areja e volta cheia de outras imagens de lugares e cores diferentes, de rostos desconhecidos,  outros sabores, outros odores, outras vozes... e regressa diferente. 

- Tem razão ! disse eu terrivelmente encantada 

- Nao usa  um livro de viagens? 

- Não . 

- Eu tenho o meu, com fotografias, legendas, com apontamentos dos lugares que visitei, onde permaneci. Pessoas com quem falei, os assuntos. Pretendo continuar a viajar e sobretudo bem acompanhada, consegue ser uma mais valia. Olhe, aproveito a oportunidade - ela abre a bolsa, graciosamente e segura de si, retira um cartão do porta moedas e estende-me: 

- O meu cartão, aqui tem,  é assim,  eu e o meu companheiro  somos organizadores de eventos e decoração. Ele organiza e eu decoro. Temos uma excelente  formação na área. Ligue-me  para combinarmos um café, um chá, qualquer coisa. 

- Se tiver disponibilidade...sim. 

- Arranje um tempo para si, para estar bem. Ofereça a si própria umas horas de bem estar , conforto e descontração. Você tem bom ar, é bonita, se quiser podemos engendrar um evento a seu gosto, deve ter namorado, noivo ou é casada... ou até que seja só para si, há amigos com certeza, ou até familiares, é  só combinar e aproveitamos para acertar  os preços, é  dinheiro que vale a pena, está a investir em si, na sua felicidade. 

- Está bem, agradeço a amabilidade.

- É uma gentileza minha, não é habitual ter este tipo de gestos, você parece uma pessoa que precisa arrebitar, um estímulo,  aqui está ele! 

-  Já saio a seguir,  na próxima paragem- esclareço 

- Quero que saiba que gostei muito desta nossa abordagem. É simpática e eu também . Está a ver, que alegria! vai ser este o momento da sua vida. É  verdade, estou a apostar no meu negócio mas estou também a apostar em si. Eu ganho e você .  Medite com carinho na minha proposta, aguardo uma resposta sua. 

- Eu também gostei e entrarei em contato consigo.

- Óptimo,  faça isso e não se arrependerá, confie em mim! 

Cá fora, observo minuciosamente  o cartão,  especialmente o verso , onde constam os valores e quedo-me estarrecida com  os preços praticados, desencantada atiro  o bocado de papel  para o balde do  lixo.