domingo, 7 de janeiro de 2024

Conto de natal

 

Paro às portas de uma mansão

Sobre o telhado do primeiro andar
 debruçadas das janelas, 
as  flores escorrem secas  e  murchas;
 algumas pretas e feias, outras  magricelas
a exalar um cheiro nauseabundo
Nem sei descrever a sua espécie...
Quem serão as gentes dali ?
Os meus olhos percorrem a fachada e eis que;
Por detrás da vidraça surge
ao centro
uma rapariga  de expressão
tristíssima,
cinzenta outonal
Por detrás da outra vidraça,
a da direita, há um rapaz
de camiseta sem mangas
a  exibir o  conjunto superior musculado
e  sorriso
malandro colado nos lábios,
 pose relaxada e sensual
Na  janela superior,  sobre um telhado  de dimensões diminutas,
surge  outra  rapariga
talvez a mais velha;
rosto enxovalhado
sobrolho carregado
 com olhos  aborrecidos
O rapaz abre a vidraça e inclina
o tronco para a janela  da  mais velha:
- Assim está muito melhor!
- Cá para mim, uma maravilha!
- Fazes a tua vida aí e eu a minha, aqui
- Nós não nos entendemos...pois não?
- Ui, há muito tempo!
-  Enjeitada,  não estás melhor assim? - o rapaz refere-se à do meio
A do meio, de  vidraça aberta  não responde
- Sim, tu, óh tontinha! Estou a falar contigo...
- Eu sou a filha que a mãe gosta mais! - declara a mais velha
- Lembrem-se  que sou o predileto dela por ser o mais novo, por ser o único  macho. 
- Mas eu  sou a mais querida, a primogénita! Ela repete-o vezes sem conta!
- Então, divides o pódio comigo?
- Naturalmente que sim!
- A parva do meio não entra nisto, fica de fora! - acrescenta a mais velha
- Ninguém da família gosta dela! - remata o rapaz mais novo
- Somos os mais importantes! Ela é coisa secundária! - responde  com desdém
- Estás a ouvir, cara de aborto  mal parido!- ridiculariza
- Que importa o que digam? Eu sei o que a mãe sente por mim!
- E o que é que a mãe sente por ti? - o rapaz troça
- A mãe ama-me! - responde a do meio
- Tu nasceste  num asilo, a mãe foi lá te buscar! Nem pertences a esta família!
- Vocês  os dois são maus! - declara
- O quê? Eu sou santa! Estás enganada, rapariga!
- Coitadinha da enjeitada  veio por engano, não devias ter nascido, entendes? - o rapaz berra em plenos pulmões 
-  Sei que a mãe me ama!
- Ama-te como a nós? - pergunta a mais velha com  sarcasmo
- Sei que não...
- Ah! Então temos razão! Nem a mãe faz disso segredo! - esclarece  o rapaz
- No entanto,  a mãe não me maltrata, tem preferência por vocês os dois, mas no  coração dela há um  espaço reservado só  para mim. - remata convicta
- Ahhhhhhhh! - ela confessou-te isso assim!? - o rapaz  exclama divertido
- De vez em quando confessa que ama os três de igual modo e trata-me por minha querida ou muito querida,  sinto! - conclui a jovem do meio
- Mentira! - brada o rapaz irritado - Sabes parva, estamos quase no natal e haverá prendas, eu vou receber das melhores marcas, as mais caras  e tu ficas com os sobejos, os restos...
-  A mim também me há-de chegar do bom e do melhor! - esclarece a mais velha
- Vou ter direito a alguns pertences do avô - explica  a do meio
- Como?! - vociferam  os outros dois.
- Sim, o diário, os cadernos, as canetas e os outros objetos, a mãe vai passar para mim! Porque tem a certeza que ficarão bem entregues .
- Espera aí,  eu coleciono antiguidades  e ela não me falou de nada?! - desabafa frustrado- a mãe não refletiu bem, nem nos consultou! Isso não pode acontecer!
- Que te interessa? Não tens estimas por nada! - adianta a do meio
- Que queres dizer com isso?  Estás a irritar! Raios te partam!  - diz o  rapaz   assoberbado, ela tem de nos consultar primeiro se concordamos com isso ou não!
- Tu não zelas as coisas, queres mas não tratas bem!
- Que parvoíce é essa? - pergunta  a espumar  raiva
- Deixas as coisas amarfanhadas, o teu quarto é o reflexo da tua desarrumação interior! - remata com convicção
- Mas que observação estúpida,  já vou aí ter contigo!
- Calma, não precisas  de te  enervar! - assusta-se a do meio
- Oh!- exclama a mais velha - ei, que está  acontecendo aí? - debruça-se sobre o parapeito da janela e vê a do meio ser atirada pela janela  e o rapaz surge a observar o efeito do que tinha acabado de fazer.
- És louco?  que fizeste?
- Que queres?  armada em santa?
- Ela deve estar morta, não percebes a gravidade disso?!
- Chegou-te uma peninha agora, como se gostasses muito dela!?
- Entre não gostar e ser criminoso vai uma diferença abismal! Eu jamais faria isso,  um gesto desses!? Por favor!
- Logo tu que também maltrataste a desgraçada, que odiaste-a, que invejaste-a!
- Que horror! Nada disso, tínhamos pontos de vista diferentes, apenas isso, não inventes.
- Hipócrita! -berra no auge da irritação - bandida!  Agora faço-te uma visitinha !
- Tem vergonha e chama uma ambulância, pode ser que ainda esteja viva!
- Como se tu te importasses minimamente com o destino da triste! Então liga tu e  chama a ambulância!
- Eu não, chama tu, foste tu que a empurraste !
- Tu és igual a mim, a diferença é que a  mataste lentamente, em fogo lento! Qual a diferença?
- Tirar a vida dessa forma, nunca! E vais preso!
- Cala-te ! Vou aí!

- Podes vir que a porta está trancada à chave! - remata irónica
- Qual é  o problema? Eu arrombo! - responde endemoniado
O rapaz  derruba a porta  com vários golpes de pés, mal irrompe o quarto da mais velha,  repentinamente leva uma  paulada forte na cabeça,  fios de sangue correm da cabeça para o rosto e pingam sobre o peito, tropeça e cambaleia, rola  sobre o chão mas volta a erguer-se com esforço e muito pálido.   A  mais velha  atinge-o  de novo com força nas  costas  o rapaz torna a dar passos incertos em direção à janela e agarra-se  ao parapeito, a arfar de dor e a tossir,  ao ver  que a mais velha se prepara para atingi-lo de novo, num último esforço atira-se  pela janela mas agarra a mais velha que  cai  com ele . Escutam-se gritos horrorizados de ambos e os dois despenham-se lá em baixo onde jaz o corpo da irmã  do meio. De repente sinto-me rodeada de um grupo de pessoas que assiste à tragédia  e ouço as sirenes da polícia e das ambulâncias.

( texto inspirado no conto de Eça de Queiroz- " O tesouro " )