Quando a máscara cai,
o samaritano, de repente, confrontado com ideias diferentes das suas, começa a chafurdar o discurso escrito e a responder de forma inadequada, a mostrar surpreendentemente os caninos. É preciso bani-lo do espaço alheio e apagar rapidamente todas as suas palavras incomodativas, inadequadas e desenquadradas do contexto.quarta-feira, 8 de dezembro de 2021
segunda-feira, 6 de dezembro de 2021
terça-feira, 30 de novembro de 2021
Recorte instantâneo
Observas através de um quadrado?! habituaste-te a isso... eu amarfanhei o quadrado para ter a visão toda.
Recorte instantâneo
Dei tudo, dei toda a vida que tinha, depois percebi que havia uma vida por viver, naturalmente, a minha!
Recorte instantâneo
As nuvens encontram-se, beijam-se ruidosamente, tão estrondosamente que faz faísca
segunda-feira, 22 de novembro de 2021
A meio do nevoeiro…
As árvores estranham
os gemidos dos pássaros
Voltam-se e não os vêm
Por que estão mortos.
domingo, 21 de novembro de 2021
terça-feira, 2 de novembro de 2021
Hortênsias e Penicas
Uma tarde na esplanada
D. Penica, senhora de idade considerável ;
cabeleira, peruca em forma de penico,
atarrachada na cabeça quase calva,
não fosse uma desvairada ventania
arrancá-la à força e cobrir as suas faces de vergonha.
Macėrrima e má cara.
Fazia-se acompanhar das duas filhas; a primogénita,
Beatrizinha, logo a seguir; Dorzinha e dois filhos da primogénita;
Inocêncio e Larito.
Beatrizinha; uma graça engraçada, roliça, rechonchudinha,
sem ornatos, nem enfeites e muito meiguinha.
A irmã, mais nova, ainda solteirinha
temia os homens e ninguém sabia porquê.
Escanzelada desde os dedos dos pés, à ponta dos cabelos,
os mais gozões equiparavam-na ao pai,
pela carência ou ausência de curvas e das saliências
naturais das mulheres.
se o pai fisicamente se assemelhava a um pote inchado,
o mesmo não se diria de D.Penica, no entanto, muito vivaça,
uma força física surpreendente.
Porém, as duas irmãs muito chegadinhas
partilhavam conversas entre elas.
Larito, sentado à direita da avó,
o mais velho dos dois irmãos ; aprumado, pouco dado a risos
ou exibicionismos, cantor de fados, aplaudido pela afinação.
Talento herdado do pai, um fadista conceituado de profissão
que abandonara a família muito cedo.
Larito, possuía dois encantos físicos, a combinação
dos grandes olhos, duas luas,
iguais aos da mãe e a elegância do pai.
Inocêncio, do lado esquerdo, sorridente como a mãe,
até se perceber, o logro que escondia atrás dos dentes
Um riso trocista, cínico, matreiro...
Já acima do peso, lábios grossos e vermelhos.
D. Hortênsia, distinta senhora, cabelo grisalho, farto,
ondeado, trajada a gosto. Boa comunicadora,
ar afável e saudável,
olhos pequenos esverdeados e sedutores.
Teresita, a filha,uma jovem bonita, solteira, sozinha,
atenta a tudo, preocupada e amável .
De um lado, a mãe, do outro, a sobrinha;
Pureza, adolescente bem parecida,
cabelo comprido, bem tratado e liso.
T' shirt decotada, calções curtos, bonito corpo.
Muito cobiçada e disputada pelos irmãos Larito e Inocêncio
mas não lhes ligava nenhuma.
Concentrada nela própria, nos seus atributos físicos.
Ar enfastiado e contrariado.
Sem a menor disposição para estar ali...
O seu lado narcísico,
massajava repetidas vezes os cabelos,
mirava-se constantemente
como se quisesse ter a certeza
que tudo em si estava perfeito.
Logo a seguir, consultava o telemóvel,
Objeto sempre disponível.
Seguidamente, cruzava os braços e quedava-se
muda e esticada, sobrancelhas altivas.
Eis que surge Gonçalito, um rapaz descontraído,
cabelo negro, pastado e comprido até aos ombros.
Rosto quadrado e tisnado.
Ocupou a cadeira ao lado de D. Hortênsia,
que o recebeu com alegria e passou a mão direita
nos ombros e na cabeça :
- Oh! Quem chegou?! - exclamou D. Penica visivelmente desagradada
- Porquê, não posso? - perguntou irritado
D. Hortênsia colocou a mão sobre a dele.
- Tens a língua solta! - provocou D. Penica
- A senhora implica comigo! - reagiu áspero
- Eu implico contigo porque tu és insolente!
- E o que é que eu estou fazendo agora?!- interrogou com espanto
- Eu sei como és na escola, o Inocêncio conta- me tudo...
- Ele conta-lhe o que também faz? -
- Inocêncio, diz lá como é! - D. Penica pediu esclarecimentos
- Eu nunca me comporto mal ! - justificou-se o neto sorridente
- Ah! Estás a ver, fala por ti e de ti e não acuses o meu neto!
- Eu vejo as professoras escreverem recados na caderneta dele!
- Não inventes! E agora também és mentiroso?- acusou a senhora
- Não, não sou mentiroso, ele que diga! - elucidou o rapaz
- Inocêncio, como é? - trovejou D. Penica abestalhada com os contornos da situação.
- Ate hoje, nenhum professor me escreveu na caderneta! - o rosto de Inocêncio ficou sério
- Ele rasgou?! - Gonçalito atirou convincente
Beatrizinha, até aí calada, continuou calada mas pensativa, um clarão escuro assaltou-lhe o rosto e os olhos.
- Serias capaz?! - voltou-se para o neto
- Nunca, avó! - de repente, Inocêncio simulou uma tristeza repentina
- Eu bem sabia! Tu não prestas! - continuou D. Penica
Teresita, trocou um olhar cúmplice com a mãe e sugeriu:
- Gonçalito, vamos dar uma volta ?
O rapaz nem respondeu, levantou-se imediatamente.
- Partia-te esses ossos todos, um por um !
Gonçalito, enquanto se afastava dali, virou-se horrorizado:
- A senhora é uma velha chata!
Naquele instante:
- Gonçalito! - Teresita pronunciou com voz de espanto e repreensão e puxou-o pela mão.
Inocêncio parecia divertido, da tristeza, se alguma aconteceu, nem se lembrava mais dela.
Entretanto D. Penica para D. Hortênsia:
- Aquele diabrete quem julga que é?
- O Gonçalito não é mau miúdo, precisa que o compreendam!
- Só a sua filha para o aturar! - observou a outra
- Ele agora acalma , pede-lhe desculpa e ficamos todos em paz.
- Eu não desculpo, não merece,ele que faça por merecer! É pólvora!
Nesse exato momento vem Teresita:
- Foi para casa! - informou os presentes.
- Na próxima, ele desculpa-se com a D. Penica- esclareceu Teresita e imediatamente a seguir:- Mãe, eu vou pedir a conta para irmos!
- Nós também vamos! E quanto a esse pequeno pedir desculpas, é escusado, a má educação corre-lhe nas veias! Haste torta, nunca mais endireita.
- Eu não penso assim, D. Penica, devemos tratar de recuperar e não atirar às feras, aí sim, é perdê-lo definitivamente, peço desculpas em nome dele... - rematou Teresita pondo um ar sério e ponderado.
Subitamente, Inocêncio saiu dali a correr sem dar explicações e Teresita pôs-lhe os olhos em cima, que mau pressentimento. Tinham pago as respetivas contas quando Inocêncio voltou, com o mesmo sorriso de sempre nos lábios grossos e nas bochechas, porém, sempre a olhar para trás.
Levantaram-se da mesa e de repente Inocêncio cinicamente apontava para o outro lado do passeio.
- Lá está o tinhoso de novo! - resmungou D. Penica
- Tem pedras nas mãos e vê-se que está muito transtornado, repara naquela postura, naquele rosto! - murmurou D. Hortênsia para a filha
- Pois! - os olhos de Teresita fulminaram Inocêncio , que distraído e encantado com a cena, nem se apercebeu de nada. Agilmente pediu à sobrinha; Pureza para amparar a avó no percurso de volta a casa, enquanto ela ia ter uma conversa com o primo.
quinta-feira, 21 de outubro de 2021
"Somos uma floresta em movimento "
“Somos uma floresta em movimento,
somos um ser vivo em movimento.
Defendemos a nossa natureza;
defendemos as nossas árvores,
os nossos rios, defendemos os nossos peixes,
os nossos animais , o nosso ar puro,
a nossa água limpa e os nossos filhos.
A natureza reage, os seres vivos reagem
e o desequilíbrio atual é uma mensagem clara,
se o homem se continuar neste rumo,
será a nossa destruição. "
"Não há sistema de uma força tão criadora de ilusões como o capitalismo. Promete uma progressão e um crescimento permanentes, prosperidade mas ao mesmo tempo, faz com que não vejamos as consequências. As potências deviam pensar se querem garantir a vida ou a aniquilação dos seus filhos. "
"O poder tornou-se invisível, organizou-se em grandes redes e não está ao nosso alcance. Se quisessemos alterar algo nem saberíamos por onde começar. "
" Se deixarmos as decisões nas mãos de uma elite, desligada do que se passa nos outros níveis, vão fazer de conta que não aconteceu nada. "
"Quando uma espécie desenvolve comportamentos de interajuda e não de concorrência, essa espécie consegue enfrentar as crises e prosperar. É preciso sair da ditadura do medo, é preciso fazer perguntas. Mas isso tem de ser feito com inteligência coletiva. Conseguimos mobilizar a inteligência coletiva com as instituições que temos hoje? Não!
sexta-feira, 15 de outubro de 2021
“Somos uma pandemia”
“Tivemos o vírus da colonização, o vírus da escravatura, o vírus da alienação, o vírus dos valores humanos, o vírus da destruição das culturas da selva”
“ Nós somos como o vírus. Estamos a destruir a terra- “Somos uma pandemia “
Eu acrescento, o vírus da corrupção…
domingo, 10 de outubro de 2021
Dorminhoco
Abriu aquele olho espevitado e cravou-o em mim. Bocejou ruidosamente, espreguiçou-se, puxou a roupa da cama e voltou a adormecer .
terça-feira, 5 de outubro de 2021
Cegueiras
Observas através de um minúsculo quadrado, habituaste-te a isso, há muito tempo, resolvi amarfanhar o quadrado para ter a visão total.
domingo, 3 de outubro de 2021
Obsessivo- compulsivo
Tolero um suão inesperado,
incómodo e pegajoso de mosquitos
Custa mais a suportar a dor do corte na carne,
quando a faca desce impiedosamente.
O golpe fundo, a ratoeira de olhos fitos ...
podres de traidores.
Antítese do bem,
seres feios de alma.
Há gente sombria, nascida sob o signo de qualquer maldição;
noite de temporal
vingança certeira
manias de perseguição.
Gestos armadilhados rondam a presa,
desejo incontrolável e inexplicável de "abate".
domingo, 26 de setembro de 2021
Gente e ursos
Gente como nós sente com maior intensidade...
por isso fica no centro das horas obscuras de nevoeiro
a matutar e a contar pelos dedos os ursos que morrem à nossa frente
Olhos de gente, olhos de ursos, rasos de lezíria,
água pesada, luz condoída ...
O desgosto de ter as mãos atadas,
sob pena de voltarem a nós furiosos e de nos matarem
Ursos esfaimados , deveras esfaimados,
tornam-se bravios e perigosos
Mas, vê- los ali, quotidianamente, a fintar à nossa frente,
a tentar a sua sorte; restos da pesca, um peixe esquecido na rede...
Observar os bichos a definhar , magricelas, o pêlo ralo e chamuscado,
já nem ursos são!
A fome a chegar aos dentes afiados, desatam aos urros e rugidos desesperados.
Lambem durante muito tempo as crias fenecidas, à míngua de alimento.
Ursos pensativos, abatidos na sonolência, da claridade frouxa que se apaga
lentamente, sucumbem entre as rochas da baía, estendidos, perdidos de agonia.
Os rugidos muito mais brandos e fracos, numa prece última. ..
Uma faca espetada no peito de gente como nós;
as patas dianteiras seguram a cabeça, passam pelo focinho ranhoso de choro e ali se acabam devagar, em sofrimento lento.
Um qualquer dia, há-de chegar peixe de fartura, parca temporada...nessa altura correm sôfregos a saciar a fome de tanto esperar...depois, a comida volta a faltar.
Gente como nós tem de assistir a isto, a fome e a morte por ali, sempre a rondar.
segunda-feira, 13 de setembro de 2021
Aos mais novos e não só…
Por Luís C.
Hoje, vou deixar-te com este conselho. Quando pensares que já não tens valor ou que ninguém à tua volta te valoriza, lembra-te que uma garrafa num supermercado pode custar 30 cêntimos mas a mesma garrafa de água, num bar, pode custar 1 a 2 euros. No aeroporto ou mesmo dentro do avião, pode ter um valor de 4 a 5 euros. CONTINUAMOS A FALAR DA MESMA GARRAFA.
MUITAS DAS VEZES TENS O VALOR TODO EM TI, SÓ NÃO ESTÁS COM PESSOAS QUE TE VALORIZEM O SUFICIENTE, PERANTE AQUILO QUE NECESSITAS SER VALORIZADO.
M.S.
segunda-feira, 30 de agosto de 2021
A mulher, o homem e a outra mulher
A estação de comboio e esta hora encontra-se deserta. Os painéis de azulejaria narram episódios emblemáticos de vidas passadas. Do lado esquerdo, a bilheteira , no espaço contíguo, os sanitários. Em frente, a máquina de vender chocolates. Encostado à parede do meio, jaz um banco comprido, a criar ferrugem . Na parte dianteira, o portão fechado esconde a linha férrea. Nas laterais da parede do meio, duas aberturas largas e altas, em arcadas, cuja parte cimeira forma meio arco. É por ali que passam os viajantes. Àquela hora, o último comboio partira. Na estação só estão três pessoas. Duas mulheres, sentadas nas extremidades do banco, a meio, um homem. No início, calados, apenas se escuta o respirar da noite e o murmurar dos materiais de que são feitas todas as coisas que os rodeiam. A certa altura, o homem, solta um suspiro que revela impaciência, um estalinho com a língua no Palato. A mulher mais velha, ajusta os óculos modernos e põe um ar sério. A mulher mais nova, arqueia as sobrancelhas resignada, os olhos minúsculos mas muito atrentes atrás das lentes, usa óculos antigos e baratos. Agarra a bolsa com ambas as mãos. Rente aos pés, um saco grande. O homem, desabafa incrédulo e em voz alta, os olhos direcionados para a frente:
- Não me digam que vamos pernoitar aqui?!A mulher mais velha:
- É o mais óbvio!
- Que chatice! - de novo um estalo com a língua - enche as bochechas e dispara uma baforada de ar sonora
- Que desespero! - expressa-se a mulher mais nova
- Por acaso também não está? - pergunta enervado
- Desesperada, não! Acontece a quem se atrasa, paciência ! - responde resignada
- Impávida e serena ?!- observa o homem
- Afinal, que quer que eu faça? Que me ponha aos gritos? Que lhe bata?
- Me bater é que não! - defende-se cáustico
- Tenham calma, principalmente o senhor, não provoque! - a mais velha chama à razão
- Óptimo, assim já sei como vou ocupar o meu tempo! - levanta-se e apalpa os bolsos das calças, do casaco. Solta um grunhido a meia voz, dirige-se rapidamente para o trole, escancara as aberturas exteriores. E volta a remexer:
- Hum?! Perdi-o! Grande porcaria! - visivelmente abatido, volta-se para as mulheres- alguma de vocês tem telemóvel?
- O meu ficou sem bateria! - declara a mais velha
- Eu não tenho telemóvel! - esclarece a mais nova
- Não acredito, perco o comboio, o telemóvel, que mais vou perder?!
- Nenhuma desgraça! - resmunga a mais nova
- Perder o único meio de transporte não é uma grande chatice?! A minha mulher vai ficar preocupada por não chegar a horas. Os meus amigos facebookianos vão começar a imaginar as razões da minha ausência ! - outra baforada sonora de ar
Volta a questionar as mulheres, se efetivamente possuem ou não o respetivo objecto. A resposta é a mesma. Como não se cala acerca da rede social:
- Fez casa no facebook? - a mais nova pergunta entre dentes
Ele senta-se e volta a cabeça para a esquerda :
- O que é que ela disse?
- Também não percebi.
Cai um silêncio estranho, subitamente nenhum se atreve a dizer mais nada. Após um intervalo:
- Sinto-me vazio, perdido! Este silêncio mexe comigo... - rompe queixoso
- É como se ficasse sem um membro, não é? - a mais velha manifesta-se solidária
- Também sente o mesmo em relação a não poder usar o seu ?
- Assim, tanto, não. Um dos meus filhos que está a estudar em Londres , é uma loucura! O que eu passei... A vida dele fazia-se através daquele retângulo, se falhasse, tornava-se possesso! Trepava paredes!
- Além de vício, é doença ! - atalha a mais nova
- Falhei como mãe e o meu marido falhou como pai, essa e outras...
- Ainda tem consciência para admitir, eu também cometi os meus erros! - declara a mais nova
- Não tenho problemas em colocar a mão no peito! e perceber que nós, mulheres, somos muito moles com os nossos filhos e os homens duros e frios, eles obedecem a quem? Por medo ou por respeito, mais medo que respeito, estes extremismos, não fazem sentido - confessa a mais velha
- Não percebi o que quis dizer, desculpe lá . - responde a outra
- Não se preocupe com isso. Tem filhos?
- Tenho dois filhos - declara a mais nova
- O que fazem ?
- O rapaz já saiu de casa, julgo que trabalha num escritório, não tenho a certeza, a rapariga vive comigo e com o pai, é empregada de balcão . - explica calmamente
- Não tem a certeza do seu filho?
- Ele só aparece em casa para pedir dinheiro e desaparece.
- Ei, que modos são esses? - interpela a mais velha
- A conversa está animada, por isso... as senhoras deviam aproveitar para fazer o mesmo. Estão aí, travadas, enroladas...
- Tem razão, mas não necessita ser tão expansivo!
- Acusa-me de má educação, ou receia que os meus vírus a atinjam? - ri-se festivo
- E ainda se ri?! - repreende a mais nova
- Se estamos aqui, testamos negativo...certo? - adianta o homem
- Certo! - aprova a mulher - também já levou a vacina?
- Já tomei a primeira dose e as reações não foram famosas.
- Somos apenas três entes, que a ironia do destino, juntou, o banco é comprido, o distanciamento, recomendável... portanto...- conclui o homem satisfeito
- Se fomos testados! - atira o homem
- Não é bem assim! - a mulher mais velha continua séria- toda esta questão causa-me uma enorme confusão, como é possível, termos as tecnologias mais sofisticadas e aperfeiçoadas e ainda recorrermos às técnicas usadas durante a Peste Negra!? confinar toda a gente!? Que absurdo, o auge da Peste deu-se no século catorze! Estamos no século vinte e um?! Parar tudo!? Uma demonstração total da nossa falta de preparação, é óbvio que não estamos no bom caminho. E , olhem lá, se continuarmos como até aqui, não vai ser nada bom!
- Tem razão- o homem subscreve as palavras da mulher mais velha - e continua- surpreende-me que cada vez mais pessoas aceitem restrições às suas liberdades e caladinhos....
-Estou convencida que inúmeras pessoas querem mudar, têm os valores corretos. Desejam cuidar dos outros e das gerações futuras mas não sabem como fazer ... não os deixam fazer, colocam barreiras a cada passo. Um dos maiores desafios que enfrentamos, é a nossa propria sobrevivência no mundo e a nossa sobrevivência depende da forma como tratamos o planeta. Não é só sermos solidários com o vizinho do lado mas com o destino da humanidade, se repararem , há uma tendência, encorajada por todos os governos, a incitar para que nós confiemos neles e deixarmos as responsabilidades nas suas mãos, mas eles já demontraram nitidamente que não conseguem nos proteger de nada . Hoje, temos de ser nós a arranjar meios de proteção e defesa, por outro lado, somos obrigados a aceitar tudo o que nos impingem?! Aprendamos a nos libertar desta gente!
- É isso mesmo! - acrescenta o homem entusiasmado - a mulher prossegue- toda a gente devia fazer algo superior, eu trato de um problema, o meu vizinho trata de outro, os meus amigos, cada um deles trata de um problema. Sabe, é urgente uma maior envolvência por parte de todos.
- Eu até gosto de escutá-los - começa a mulher mais nova- sabem, ser amigo, começa dentro de casa, amigo primeiro dos seus, depois dos outros. Às vezes a família ajuda e não é reconhecida, ajudar para um certo número de pessoas, é dar sem abrir a boca, como se fosse a nossa obrigação!Querem sair de casa, saiam, depois venham de visita!
- Refere-se ao seu filho?
- Ao meu filho e a outros tantos que andam por aí! Se não fosse a família...
- Eles querem o peixe pescado, cozinhado, pronto para mastigar e sem espinhas... acrescenta de novo a mais velha.
- O meu filho é diferente da irmã, ela ajuda em tudo, é muito nossa amiga, ensina-me coisas da escola e que vê na televisão. Ele tem vergonha da mãe, depois bate à porta porque lhe falta dinheiro.
- Vergonha da mãe? - acrescenta a mais velha chocada
- O único motivo é eu ser bordadeira, picar o dedo na agulha, apesar de mal paga, ainda o ajudo! - explica a mais nova.
- A sua filha nunca pensou em se meter num curso superior?
- Quando vai a uma loja, precisa de quem a atenda, não é assim? quando vai ao supermercado, precisa de ajuda ? Mal de nós se não fosse essa gente, o varredor de rua, imagina o lixo de monte durante muito tempo? Como seria? A minha filha falou-me se as máquinas que tratam das águas dos esgotos avariassem e não houvesse quem arranjasse , morríamos todos, levantavam- se doenças perigosas. Acha que alguém pensa nesses homens ? são como eu, mal pagos.
- Tem toda a razão! - comove-se sinceramente a mais velha
- A minha filha é digna, gosta do que faz, não explora a família, a mania que só vale quem tem curso superior! Mas os que têm mais estudos não mostram esse saber todo! Olhe o que disse há pouco? Ah! Tanta gente informada para quê? Estamos num beco sem saída. Veja o ambiente! A mesma coisa! Isto está de pernas para cima. Uns ladrões de todo o tamanho. Na minha casa não há ladrões. Apesar de tudo, o meu filho, pede. Somos pobres e honrados . O meu marido também é como eu! só tenho a quarta classe dos tempos antigos, a cabeça não deu para mais. Foram outros tempos! E agora? Como é? Mudou tanto para isto?!é o que se sabe e se vê?!
- A minha tia dizia; " Quem não rouba nem herda, não tem se não merda"- remata o homem.
- Não ouviu esta senhora? - acudiu a mais velha - estamos como estamos, em parte, por pensarmos dessa forma!
O homem cala-se, mete as mãos nos bolsos do casaco, continua de pé, mexendo-se de um lado para o outro.
- Olhe, eu sou professora reformada - confessa a mais velha fixando a mais nova nos olhos.
- Ah, sim? - a outra mostra-se curiosa
- Sim, reformei-me mais cedo, o ensino ficou um barco encalhado, ninguém conserta nada, é remendo aqui, ali, acolá... assim não se chega lá- a mulher levanta-se entusiasmada pelo tema, aproxima-se mais da outra, que permanece sentada.
- Fugiu dessa desgraça? - quis saber a mais nova - e retoma a palavra- Deu-se mal?
- Não me dei mal, até tive muita sorte, consegui atingir o penúltimo escalão, um salário bom, para se chegar lá é uma chatice, enfim, é para esquecer esta estranha forma de avaliar professores. Inventaram o projeto docente e relatórios. Anda muita gente vaidosa, com o quê? A qualidade da educação que se dá às classes mais baixas é a mais vulgar possível, para haver uma diferença entre as duas classes. Para que as elevadas permaneçam num nível superior, fazendo crer às menores que não conseguem atingir o mesmo patamar. Agora, promove-se a mediocridade, tornou-se moda ter falta de inteligência, ter falta de educação, se estiverem atentos, hão-de perceber que tudo o que é medíocre, aparece em grande número, em todas as esferas sociais, refiro-me à arte, à ciência, à religião, à política. Mas, quando falei que tive sorte, é mesmo verdade,no ensino, passei por quase todos os cargos, fui muito bajulada, também bajulei. Testemunhei situações com colegas, inadmissíveis, passam-se coisas nas escolas que não é do conhecimento geral, autênticas aberrações, envolve professores, funcionários, pais, alunos, é uma vergonha, uma falta de ética, de consciência! Julga-se que já se viu tudo, nem pensar!
- Dizem que os professores faltam muito! - interrompe a mais nova , o homem fica parado, atento à mulher mais velha.
- Exatamente, faltam muito! Os ambientes de trabalho são péssimos! Há professores muito mal tratados, alguns são forçados a se afastarem e vão metendo atestados médicos psiquiátricos porque preferem estar em casa e outros adoecem mesmo. Não têm idade para sair do ativo e ficam reféns destas situações nojentas, desculpem-me a expressão. Há escolas que não passam de autênticas ratoeiras.
- Os professores doentes, ficam sem juízo? - interroga a mais nova
- É isso que acabou de dizer! Sem juízo! - justifica a outra
- Porque é que os professores não ficam numa escola, apenas quatro anos, terminado o prazo, seguem para outra ... não estou a dizer para fazerem grandes deslocações, até cerca de uma hora de carro, afinal praticamente todos eles conduzem . - lança o homem
- Parece-me bem! Nada que eu já não tivesse pensado! Fiz mal, arrisquei pouco. Acomodei-me e fiquei parada no tempo, por muitas formações que se frequente, é saudável arejar, ver outras escolas, sentir outros sentires; cheiros, vozes, colegas, alunos...enfim, embruteci, fartei e enfartei!
- Coitado daquele que cai nas garras desses loucos! manicómios ! - observa a mais nova
- Um covil de hipócritas!- acrescenta o homem
- Sabe, recebemos ordens para trabalhar à frente de um ecrã, com falhas grosseiras de imagem e som, o ensino à distância! Querem habituaram-nos a isto? É o projeto do neocapitalismo, fazer com que a tecnologia avance cada vez mais, a inteligência artificial, a digitalização generalizada, a 5G. Sempre mais máquinas...E os laços humanos? manter as pessoas distantes, sequestradas por ecrãs e pela Internet, sequestrados por essas ondas 5G ou outra invenção qualquer. A intenção é isolar-nos uns dos outros! - continua a mais velha
- E já são cinco horas! - o homem consulta o relógio
- Ainda? - a mais nova e endireita os óculos desiludida
- Já estivemos mais longe - acrescenta o homem e finalmente senta-se, e cruza os braços
A mulher mais nova também cruza os braços e desata:
O homem olha em frente e sorri também.
- Confesso que em termos financeiros, não há problemas, tenho bons recursos, cresci com eles. Tive sorte, o meu casamento acabou mas conheci um senhor pelo Facebook e agora vou vê-lo ao vivo e a cores.
- Tenha cuidado com essa gente! -adverte a mais nova
- Já falo com ele há muito tempo, agrada-me o género e o meu género agrada-lhe!
- Não quer experimentar comigo? - o homem tenta sua sorte
- O senhor não é casado?- lembra a mais nova
- Mal casado! - responde ligeiramente irritado
- É bem mais jovem do que eu ! - observa a mais velha
- Não gosta de homens mais novos? - atira com um sorriso maroto
- Tem boa presença! - a mais velha comprova - Mas não o conheço!
- Se me der uma oportunidade...
- Posso dar... - declara com alguma incerteza - e sequer acha-me interessante, faço o seu tipo?
- Já tinha reparado em si...
- A sério?!
A mulher mais nova, olha para um e para o outro com um ar reprovador.
Pouco a pouco cai um silêncio estranho, os três calados, a mulher mais nova, acaba por fechar os olhos. Entretanto, o comboio chega.
O homem começa a fazer olhinhos à mulher mais velha. Ela fica constrangida , porém, demonstra que lhe agrada. O homem de quando em vez , espreita a outra para se certificar que dormita ou simula.
- Assim podemos nos entender sem esta senhora incomodar- diz o homem
- Coitada, deve estar cansada . Que quer dizer?
- Quando descermos vou acompanhá-la! Esqueça o outro ! Quantos dias ia ficar com ele?
- Cinco dias!
- Óptimo, passe-os comigo! - consegue ser convincente
- Ai, estou confusa! O outro espera-me, não é uma atitude digna da minha parte!
- Isso passa, invente uma desculpa, já sabe, vou consigo! Certo?
- Sim, certo! - concorda meio desajeitada
A mulher mais velha levanta-se pensativa, o homem também, ficam próximos, ela afasta-se.
- Que se passa? Tem medo de mim ?
- Não se trata disso! O confinamento, o distanciamento, repetido sem cessar, está tudo dentro da minha cabeça...o outro senhor , o outro senhor que me aguarda...que falta de respeito e de palavra!não me sinto confortável nesta posição...
- Então vamos dar tempo... para começar uma amizade! nem pense em fugir de mim! Declara carinhoso e passa um braço pela cintura da mulher -Gosta do toque ? - pergunta ele baixinho
- Gosto! -ela responde baixinho
- O ritmo é o aconselhável por agora! - acrescenta o homem
- Agora sente-se no seu lugar - pede branda
- Com certeza! - alisa o bigode louro recortado sobre o lábio superior e ajeita o cabelo lambido da mesma cor.
Depois, ficam calados e aos poucos lançam olhares mútuos , ora sérios ora sorridentes. A mulher mais nova, acorda atordoada, foi comprar um chocolate, a mais velha procurou o WC. O homem fica sozinho.
Anunciam a hora de embarque. Os poucos viajantes vão entrando, o homem segura imediatamente o braço da mais velha e conduz a mesma para dentro do comboio.
- A outra senhora onde está?
-Acredita que ela tem telemóvel e não me emprestou?!
- Como descobriu?
- Quando foi à máquina dos chocolates, tirou o porta moedas da bolsa e deixou-a cair, nisto, o telemóvel sai.... eu agarrei e vi que estava ativo e tinha bateria, ela ficou atrapalhada.
- Ela não vem?! Esqueça isso, ela não tinha que emprestar o telemóvel a um desconhecido. É um objeto pessoal. Que lhe aconteceu? Não a vejo!
- Vai aprender ! - sussurra o homem
- Que falou?!
- Arrefeceu!
- Muito mais agradável com a sua presença !
A mulher sorri :
- Vá chamar a outra senhora!
- Espere, vou chamar!
Volta sozinho.
-Então? ! - exclama pasmada
- Ela recebeu uma chamada e disse que afinal vai de boleia.
- Tem a certeza disso? Nem me despedi dela, nem fiquei com o contato...simpatizei com a sua simplicidade e franqueza, que pena!
- O comboio já vai partir! - anuncia o homem- e escuta-se o som de saída
A mulher mais velha ainda espreita pela janela, volta o pescoço e nem sinal da outra.
Na estação, a mulher mais nova percorre o recinto numa aflição:
-Bom dia, que procura? - pergunta o homem da belheteira
- A minha bolsa! Meu Deus, perdi o comboio! E agora? Tenho toalhas para entregar amanhã. A minha bolsa?! - pronuncia quase a chorar
- A sua bolsa? O indivíduo que estava aqui com as senhoras meteu debaixo do banco!
- O meu filho?!
terça-feira, 10 de agosto de 2021
Recortes instantâneos
domingo, 25 de julho de 2021
Há verde no deserto
Chora, chora muito, chora tudo
sem medo ou receio, nem outras ditadas intolerâncias
Escancara as aberturas da comporta
Desaperta as fivelas dessas presilhas
que te enlaçam à coberta do navio;
A infância traída
A mocidade perdida
Mas estás aqui!
O primeiro amor, puro engano
talvez nem chegou a sê-lo
O segundo amor, nem sei que história...
O terceiro amor, parecia, prometia
Deixa ir!
O coração desespera por outro dia
O melhor amigo voltou as costas
O segundo amigo nem deu a mão
O terceiro amigo confiaste e perdeste o chão
Abraça o fiel cão
Acertaste nas viagens, bons passos
Já te deslumbraste!
Agarraste nos livros, algumas travessias
Há em ti, dons preciosos, não te desgastes
Um dia, quem sabe... tem calma
Tens a sorte de ter uma prima
Outros que têm o teu sangue, o teu apelido
são os primeiros
a te atiçarem palavras afiadas
punhais, enxofre até ao tutano
Sempre angustiam
Essas feridas nuncas mais vão cicatrizar
Vale o bom humor ! Essa capacidade, mais uma!
Não vivas à sombra de um mundo errado
Essa justiça que te corre nos lábios
não a percas, deixa os outros mentirem
Queixas-te em voz baixa
protestas em voz alta
Outras injustiças virão
Tudo reunido, é a luz do universo a tremer os queixos
Agora, vai correr, sobe a serra
De quando em vez, solta uns brados
Uns quantos guinchos, uns quantos urros
Regressa com a limpidez dos cristais
E olha, tens sorte, os braços da tua prima
terça-feira, 13 de julho de 2021
Recortes instantâneos
Li por mero acaso a notícia; trata-se de uma figura pública, do sexo masculino, traído pelo respetivo elemento feminino, encontrado em circunstâncias íntimas , obviamente, a parte masculina pediu a separação mas por vingança, a parte feminina, resolveu denunciar a figura pública por violência doméstica. Tornou a situação pública e levou ao conhecimento das autoridades, consequentemente , a já citada figura pública, teve de usar pulseira eletrônica. O tribunal arquivou o processo por falta de provas. E, segundo o que espreitei , neste caso, nunca houve cenas de agressão física ou verbal.
Note-se que estas " brincadeiras / mentiras " de muito mau gosto podem destruir por completo a vida de alguém.
De forma inviesada reparei num comentário , de um leitor que resolveu expressar-se da seguinte forma:
" Quando as cabras deixam de mamar, por vezes tornam-se agressivas. Conheço várias assim. Se o processo foi arquivado, porque é que o tribunal não condena uma cabra difamatória? Não seria correto? Mas não. Hoje, as cabras têm tudo ao seu lado; bons pastos, boas rações, boa palha e até pelos vistos, a justiça. "
Maria Silva
segunda-feira, 5 de julho de 2021
Recortes instantâneos
Quantas vezes negas Cristo e nem te dás por isso!? Na família, no trabalho, no circulo de amigos, na vizinhança! Pedro, o Apóstolo, negou-O três vezes, em pouco espaço de tempo... Judas entregou-o por dinheiro, não é diferente do que se passa hoje. Uns traem por dinheiro, por cargos, por favores, para fazer parte de determinado círculo de pessoas com postura social vantajosa, é importante se fazer acompanhar de certos núcleos sociais. Depois disto, será que ainda existe consciência ou o filtro tornou-se obsoleto? Ou nunca o possuiste...sem freio, fica complicado! ou perdeste-o e nada a fazer...
Maria Silva
sexta-feira, 2 de julho de 2021
Recortes instantâneos
Metade do teu rosto, é Anticristo. A outra metade, Judas. Provocas a destruição, a doença e a morte, fatalmente.
Maria Silva
domingo, 27 de junho de 2021
E s t r a n h a m e n t e
Estranha, esta forma de se encontrar
estranho mal estar de se olhar
dia comprido, estranhamente percorrido
na estranheza de gente perfeitamente desconhecida
Experimentar um medo que não se conhece
e inspirar um estranho ar
Quando a noite fala
com brancura doce, um bafo alar
Volta a vestir por inteiro
aquela estranha sensação
não entender de que mundo são ...
domingo, 20 de junho de 2021
Os velhos esquecem que já foram novos
Quando o velho descobriu o rapaz entrelaçado nos braços da rapariga, espremeu os lábios, estreitou os olhos , escureceu o semblante, lançou uma cuspidela para o lado, as mãos à ilharga, pose de forcado na frente do touro :
- Começas cedo mas já te tiro daí.
Maria Silva
domingo, 13 de junho de 2021
Todo o ser é composto de mudança?
Nasceste num beco, cresceste num beco, tornaste-te homem no mesmo beco. Saíste do beco, lançaste mão às imensas oportunidades para te tornares melhor ser. Hoje, gestos e fraseado denunciam que afinal o beco permanece dentro de ti.
Maria Silva
terça-feira, 1 de junho de 2021
Dei de caras...
As flores nos olhos, este incêndio nos lábios e a náusea do que escrevo, é fraca arma de combate.
MS
sábado, 22 de maio de 2021
Lençóis
Lençóis a sacudir, ventos a acenar...
roupa alva, bom cheiro
Ventos imodestos, sem cerimónia
Agarrados ao balanço do baloiço
e a balancear molemente
e num repente... veementemente
terça-feira, 4 de maio de 2021
Não há dias para ti...
Lembro-me de ti todos os dias. Quando estou contigo, o resto descansa, espera. Por entre risos divertidos, gargalhadas, cantigas deste e de tempos longínquos, diálogos assertivos , lendas e mitos é uma festa no teu rosto e no meu.
quinta-feira, 22 de abril de 2021
O convidado
Género- Suspense
Chego à ilha. Encontro-a como me haviam descrito. Céu baixo, capacete de nuvens. Apanho um taxi , rumo à baixa da cidade. Salto do veículo na Avenida do Mar, rua que corre paralela ao próprio mar... Caminho devagar até uma praça ajardinada e sobranceira ao oceano. Volto-me e observo atrás de mim, como pano de fundo belas colinas salientes. Há um nevoeiro ralo a galgar as serras. Maravilha. Respiro fundo, sigo vagarosamente naquela tarde cinza, pensativo e estranho, invade-me uma sensação de abandono e liberdade.
Um indivíduo barbudo reconhece-me e para meu espanto, faz-me recuar no tempo; ao secundário, passam séculos por mim... momentaneamente envelheço, não existe na minha memória qualquer imagem ou referência daquele homem.
Encaminhamo-nos para uma esplanada, um parco sol mostra-se, é de duvidar... apesar do frio que se faz sentir, nada que um bom agasalho não amenize. Segundo ele, fomos colegas de turma, cita o meu nome e outros pormenores da altura, tudo faz crer que é verdade. Sentados à mesa, a saborear o café. Pouca gente a circular. Barcos de recreio a balançar sob a moleza das ondas. Que calma agradável .
Gustavo Serra é um tipo afável, bom comunicador, sentido de humor refinado, sorridente...simpatizo com aquela figura, agrada-me a companhia. Começo a relaxar. Para minha surpresa oferece-me estadia na sua casa, é tão convincente que acabo por aceitar. Cinco dias... não incomoda nada.
Consulta o relógio, está na hora de seguirmos. Numa das ruas, indica o Skoda verde escuro. Deixamos o centro a caminho da periferia. A velocidade da viatura , as manobras para ultrapassar os outros veículos , provocam em mim um arrepio dorsal :
- Sai da frente, estou com pressa! Desanda, palerma! - resmunga
Depois, observa a minha reação e desata a rir:
- Não te aflijas, chegas a casa são e salvo, sou bom nisto!... sabes lá as acrobacias que consigo fazer!
Parece que sim, concluo para mim
Subimos estradas íngremes e sinuosas; curvas apertadas, direita, esquerda, esquerda, direita e por fim aponta para uma delas:
- Lá está a minha casa! - indica satisfeito
É um casarão, com diversas varandas, apresenta-se enorme! Afigura-se-me como alguém obeso, a sair da terra, a projectar-se na paisagem, num gesto arrojado e abismal. As linhas principais; um só bloco, uma caixa dividida em patamares.
O carro entra na garagem, a abertura engole-o definitivamente.
Quando salto do banco, sinto água a correr pelas costas, a roupa colada ao corpo,
Apresenta-me a esposa; Raquel, uma mulher de estatura baixa, quadrada, perna grossa, cabelo comprido às madeixas, um bocadinho maquilhada para lá da conta.
Lábios risonhos, riso expressivo. Muito expansiva nos gestos das mãos roliças .
Almoçamos os três. Aparenta ser um casal cúmplice e muito atento às minhas necessidades à mesa. Ela explica-me que o quarto da filha encontra-se vago, a rapariga já conquistou a sua independência. Há o João, de seis anos, que ainda está na escola e tem o seu próprio cômodo.
Mostram-me onde vou pernoitar. É simples; madeira maciça mel, um roupeiro de parede, a cama feita com roupa em tons castanhos e verdes, mesa de cabeceira pequena, uma gaveta, um armario incrustado, candeeiro preto, o abajur cilindrico, imita um vitral. Os quadros encostados à parede, ilustram paisagens à base de manchas. Telas pintadas pela filha deles. Agrada-me imediatamente. Posteriormente, sou conduzido à varanda principal da casa, enorme. Apetece gritar a plenos pulmões. Uma autêntica maravilha, beleza digna dos deuses. Passo o resto da tarde no quarto, a observar minuciosamente as pinceladas dos quadros, e a fazer telefonemas de trabalho.
Ao jantar conheço o João. Uma criança bonita, alegre, viva, bem disposta. E os pais constantemente a chamá-lo à atenção. Repreendem-no por coisas ínfimas. Causa-me má impressão. Tudo é motivo de negação.
- Queres levar umas palmadas valentes? Ficas direitinho, percebes? percebes?
- Cala-te, João, já estou farta das tuas birras!
Que mal causou o pequeno João? Porque razão se mostram tão arreliados, tão furiosos?
- Todas as noites, é isto, nem com visitas, tu acalmas? - a voz de Gustavo
- Chora para aí! Vamos fechar a porta, vou apagar luz do candeeiro! Não há paciência! - a voz de Raquel ! torno-me apreensivo. Ela, como mãe deveria adotar obrigatoriamente outra postura. Atiro-me à cama de barriga para baixo e cubro a cabeça com uma almofada.
Só me apetece ir lá fora e chamá-los à atenção. Mas não posso, nem devo.
A criança desata num pranto copioso, os dois silenciam, eu ali ,sem saber como agir, e o tempo passa e continua a chorar, e chama pelo pai , tosse, chora, chora, tosse. Ali há qualquer coisa muito errada! Julgo que passam uns vinte minutos. De vez em quando, passos. Que raio se estará a passar ? Nenhum presta atenção àquela criança?
Alguém entra no quarto do rapaz, é a voz mais calma do Gustavo! a criança pára de chorar. Ainda há soluços, depois, uma estranha calma. Transtornado, sento-me na cama, sono perdido.
No dia seguinte, combinam um passeio e incluem-me. Não me apetece nada ... de qualquer forma um estranho dentro de casa... é melhor aceitar ...
Quando saio do quarto, após o duche matinal, dou de caras com aquele casalzinho simpático, boa disposição, como se nada tivesse sucedido no dia anterior. Os dois, prontos para seguir, ali, à minha espera. A Raquel passa-me uma fatia de bolo para as mãos e :
- Vamos Alberto! Coma. Faremos uma paragem para tomar algo. É uma voltinha por aí, apenas para desanuviar.
Sobem a escada, em direção ao exterior e eu sigo-os. O João irradia felicidade.
No banco de trás, o rapazinho , que não pára de me examinar detalhadamente. Vejo-o com imensa graça. Tão amoroso e atento! A certa altura:
- Para onde vamos, papá?
Gustavo não responde. A pergunta é feita de novo e nada. De novo, nada.
- Para onde vamos mamã?
- Não sei, João! - responde fria
- Para onde vamos, mamã? - insiste
Já te respondi, não sei, rapaz, sei lá para onde vamos! - a mulher indignada nem me olha.
Avistamos um parque, o miúdo pede para sair, o pai não concorda, a mãe discorda do pai. Trocam argumentos! O carro segue em frente.
- Eu quero ir ali ! aponta outro lugar de diversão
- Queres ir àquele para quê? - desata Gustavo irritado
- Eu quero! - exclama contente.
- Tu vais querer o que nós quisermos, ouviste João? És muito novinho para dar sugestões ! - acrescenta a mãe, a simular ordem
- Mas eu quero, mamã!- pede de uma forma que me comove . Ele só quer brincar.
- Ficamos neste? - sugere ao marido.
- Vai lá tu, eu fico aqui à espera!
- Como é? Não vais connosco? !
- Querem? vão!
- Já tens a tua vontade, João?!- vinga-se na criança
O rapazinho sai desalmado e arrasta-me pela mão. Eu, sem largar a mão dele, deixo-me levar.
Espera que eu fique a vê-lo no escorrega e eu gosto de o observar. Ao fim de três vezes, vem a Raquel chamar o filho.
-Vamos!
- Já?! - o rapaz estranha e eu também.
Dentro do carro, Gustavo mostra-se impaciente:
- Vá, João, hoje! mexe-te e entra! O Alberto também deve estar farto disto!
- Não, nada disso! - se existe alguém de quem estou farto, é dele mesmo e daquela mulher desagradável, que se finge passar por quem não é.
O automóvel arranca de forma violenta e cria embaraço em nós.
Eu a julgar que o passeio seria para descomprimir. A certa altura, Gustavo pretende ultrapassar e o outro condutor não permite. E começa uma corrida desenfreada. Fico nervoso, Raquel apercebe-se e pede calma ao marido. João ainda anda a leste, vai cantarolando cantigas inventadas .
O outro pára, vem ao nosso encontro, Gustavo também estaciona e sai, Raquel desfalece enquanto tenta apanhar a perna direita do marido:
- Gustavo, não vás! - pronuncia lastimosa.
Vejo o João, com ambas as mãos a cobrir o rosto e esta imagem parte-me o coração. Tenho de agir imediatamente. Salto da viatura e agarro o casaco do Serra e puxo-o para trás mas os dois homens envolvem-se, engalfinham-se:
- Gustavo, pare, pense na sua família! - subitamente ele encara-me pálido. - Por favor, vá, acabemos com isto!- peço ao outro que se afaste, ainda tartamudeia uma frase incompreensível, subitamente encolhe-se e dá as costas. Nisto, ouço o Gustavo murmurar:
- Palhaço tonto, azelha do caraças!
- Gustavo, por favor, liga o carro e regressemos a casa - pede Raquel visivelmente tensa
Dominado pela fúria, arranca e provoca um rugido de fera, até eu sobressalto-me .Olho para o lado, o João tira as mãos do rosto e fixa-me de olhos muito abertos, engulo em seco e fico sem chão, que fazer? As maçãs no rosto da criança denunciam o seu estado de alerta. Dá-me um sorriso forçado, como quem deseja apagar rapidamente a perturbação provocada por aquele episódio e finge que tudo não passa de um faz de conta... A mão dele procura a minha e aperta na sua e volta a cantarolar para espantar o medo.
Quando entro em casa, recolho-me no quarto e saio apenas para jantar. O ambiente pesado; Gustavo silencia, Raquel recolhe-se em si mesma, apenas se escuta a voz do rapaz a cantar. Após o jantar retiro-me imediatamente. Nenhum dos dois se atreve a acrescentar o que quer que seja e eu aproveito o momento e desapareço. Nem o pequeno João percebe a minha ausência. Mais uma longa noite sem sono. Semi deitado, olhos no tecto a digerir os acontecimentos do dia e a pensar nos meus filhos, na minha mulher, que estilo de vida diferente deste ou somos melhores pais? Subitamente, ouço o rodar da maçaneta muito sorrateiramente, deve ser o miúdo. Sento-me na cama, de olhos postos na porta que se abre lentamente . A respiração quase suspensa. A cabeça do João inclina-se. Rio-me com o jeito dele, tão engraçado. Entra timidamente e põe-se logo a falar comigo, como se me conhecesse de longa data. Devagarinho, de sorriso nos lábios senta-se a meu lado :
- Tens de ir dormir, sabias?
- Mas não tenho sono.
A mãe vem depressa:
- João, que vergonha é esta? Só fazes asneiras!
- Não, não foi nenhuma asneira, são coisas de crianças - tento socorrer a parte mais fraca.
- Vamos sair já daqui e voltar à cama! Que é isto?!
Raquel, está possuída por uma raiva que desconheço, nem me atrevo a fazer frente. Ela é a mãe, por isso, abstenho-me.
Aguardo um tempo, de repente, por alguma razão obscura e sem explicação, sinto-me zangado e até frustrado, recolho as minhas coisas, as essenciais e subo para o escritório. Para minha surpresa, lá está Raquel imersa em papelada. Peço licença e ocupo um lugar vago.
- É a secretária do meu marido! - aponta para mim
- Oh! - exclamo e tento erguer-me
- Não se levante! Ele nem se encontra cá! Deixe-se ficar!
- Está bem. -volto a sentar.
- A esta hora ele está com o João, nem deverá vir aqui. Logo a seguir, vai para o quarto. Eu termino o meu trabalho sempre tarde, quando chego à cama, ele ressona. Devo-lhe um pedido de desculpa, foi uma tarde para esquecer!
- Ainda me sinto em estado de choque!
- Compreendo-o, Alberto!
- Não se controla!
- É exatamente isso, ele descontrola-se facilmente, até com o João!
- Em relação ao João, não me parece que seja só ele!
- Explique-se !
Reflito e tento passar por esquecido ou confuso:
- Raquel, o que é que eu estava mesmo a dizer?
- Está a querer dizer que com o João, somos iguais, eu e o meu marido?
- Perdi a linha de raciocínio! Não, não era isso ... olhe, esqueça.
- Pois, foi uma tarde complicada, ainda está atordoado? Eu também fico assim quando o Gustavo perde os travões, mas vou ser franca consigo, não me vejo sem ele, tem os seus defeitos e quem não os tem? Dentro de casa; aquele homem dá imenso jeito!
Não será que fizeste dele, um escravo! Talvez lhe tivesse faltado uma grande mulher! que o ajudasse a dominar aquele feitio destemperado. Assemelham-se a dois cães impacientes e raivosos no trato com o filho, talvez a filha tivesse fugido pela mesma razão, pôs-se a milhas! Provavelmente acusam-na e culpam-na, porém, os verdadeiros responsáveis são vocês.
- Ficou calado?
- Eu não conhecia o seu marido.
- Ele lembra-se de si, do tempo de escola!
- Desse tempo, especificamente dele, não tenho memória nenhuma.
- Já percebeu que contamos tudo um ao outro! Tudo mesmo!
- Sabe, Raquel, contar tudo ao marido ou vice versa, não significa fidelidade, deixar de contar certos pormenores, pode poupá-lo ou protegê-lo de certos aborrecimentos.
- Entre nós, não existem segredos.
Usa o marido como depósito de lixo! Sujeita-se a ter um indivíduo muito mal disposto dentro de casa e isso intoxica o matrimónio. Reflicto momentaneamente:
- E os limites?
- Sei de tudo o que faz, por onde anda, o que conversa... Eu faço o mesmo! Acordamos que seria assim! Não será agora que vamos mudar!
- É que ...
- Eu sei que ele é trocista e arrogante...- atalha resignada
- Trocista e arrogante? São características próprias de pessoas mal resolvidas.
- O Gustavo, mal resolvido?
- Sim, nota-se que é um homem com imensas fragilidades, inseguro, frustrado.
- Isso não sei! Nem me parece que seja assim...
- Acredite que é! Então, como explica o comportamento dos arrogantes, dos pedantes ?
- Têm manias que são bons!
- Ouviu-se? têm manias! Eles sabem que não são e precisam de espremer os subordinados para lhes dar a sensação de poder. Mal amados. Mal quistos. Vai desculpar-me, tenho de lhe falar, porque está aqui, atravessado na minha garganta; ontem escutei-a com o seu marido, a discutirem por minha causa. A Raquel julga-me muito mal, pareço indiano e não tenho culpa disso e esse pormenor faz de mim, menos pessoa?Um cigano?! Um encardido?!Um tipo estranho dentro de casa?! O seu marido tem aparência de "jihadista", quando me convidou para vir, não declinei o convite a imaginar que pudesse ser terrorista. Se correm riscos comigo aqui, eu também corro os meus, nesta casa.
- Não supus que tivesse ouvido a discussão! Desculpe!
- Pede desculpa mas o problema é que pensa mesmo isso...Falaram alto, como não tenho problemas de audição...mas vamos nos concentrar um bocadinho no seu filho...
Subitamente, entra Gustavo, carão carregado, cinzento e pesado, levanto-me imediatamente .
- Que te interessa o meu filho? Preocupa-te com os teus! Tens mulher e queres te meter com a minha!? Ofereci-te a minha própria casa para esta vergonha! Traidor!
- Não, por favor, nada disso, estás a pensar errado! - tremo por todos os lados
- É, estou errado, vamos ver, talvez uma pancada nessa cabeça...!
Nisto, eu afasto-me mais para dentro, Raquel tenta apaziguar os ânimos, abraçando-o e ele empurra-a, ela solta um grito e cai sentada na cadeira, que com o embate choca com a mesa e como tem rodas, ressalta, apanha as pernas do Gustavo. Quando ele tomba visivelmente magoado, eu passo ao largo e precipito-me para a saída da casa. Ele percebe a minha intenção e ouço-o cá fora:
- Larga-me, ele é covarde, vai fugir, tem medo de levar nos queixos! - berra em altos brados
Sem mais demoras, fecho a porta no trinco e corro o mais possível que as forças me permitem. Os meus pés ganham asas, a rua inclinada, parece que me empurra na descida, e ajuda-me a desaparecer dali. Apalpo os bolsos do casação e apercebo-me que tenho comigo o essencial, lá em baixo, numa encruzilhada, paro um taxi e peço para ir até à baixa da cidade. Enquanto a viatura roda na estrada deserta, o meu coração bate alvoroçado, sinto-me agitado e perdido e o sorriso do João ocupa toda a minha mente.
quinta-feira, 15 de abril de 2021
Amanhã ardo em segredo
Amanhã ardo em segredo
num desgasto excessivo que já vem de longe..
Nas esperas absurdas e prolongadas
portas fechadas de brutos silênciosO meu nome propositadamente riscado
a bacia forçada a entortar de tanto
sentar no banco dos réus.
Amanhã ardo em segredo
porque termina hoje o limite do suportável.
quinta-feira, 1 de abril de 2021
O Cristo
sem os meses do ano
a que pertencia
afixada na parede,
por um prego espetada
Ironia...
A imagem colada justamente
por um prego
Lembra os pregos da Cruz
É uma daquelas pinturas que circulam em bazares
onde se vende de tudo, a baixo custo,
até de artistas anónimos,
sem escola, sem classe,
sem nome, com erros anatómicos
Mas é Cristo que ali está ,
que olha nos olhos
de qualquer ponto do quarto
Às vezes sorri,
um sorriso ora contente, ora nostálgico
Uma compreensão comovente
Mais de perto, rosto sério
Tenho por este Cristo um carinho muito especial
e por isso mesmo, grande respeito
Uma companhia diária
Poucas rezas, saudações várias.
Amo-O, admiro-O, louvo-O, santifico-O,
por tudo aquilo que me dá
Que é muito mais do que aquilo que aqui está.
segunda-feira, 15 de março de 2021
O teu nome e outras palavras
Eu a tentar apanhar o teu nome, como outras palavras rasuradas, a puxar as letras, para vê-las à claridade, na esperança que chegassem. Certa que imediatamente aflorariam aos meus lábios. Sem nenhuma comiseração, os teus olhos continuaram impassíveis, fixos nos meus, boca lacrada. Eu a tentar não desistir de nada... tiveste espaço para me alcançar, em vez disso, adotaste essa postura, onde senti uma nítida e odiosa superioridade.
segunda-feira, 8 de março de 2021
O ajuste de contas
O telefone ressoa e a secretária atende.
- Bom dia, gabinete do Dro Fera.
- Bom dia, desejo falar com o Dro Fera.
- Quem devo anunciar?
- Lobo Mau, por favor.
- Aguarde um momento...sim?
- Sim.
Pausa.
- Vou passar já a sua chamada!
- Obrigado!
- Então, Lobo! - soa a voz entusiasmada do Dro Fera - a operação foi um êxito!
- Como sabe?
- Estou por dentro de tudo! Julgaste que tiraria o olho de ti...
- Nesse caso, não existem novidades a transmitir! Precisamos acertar a minha parte.
- Quero ter o prazer de escutar certos pormenores...
- Dro Fera, está na hora de...
- Detesto que me interrompam! Cala-te e deixa-me terminar o raciocínio! - berra e atropela as palavras, afogado em raiva.
- Desculpe, pode continuar, Dro Fera.- responde o Lobo, manso
Silêncio.
- Vá, prossegue! - o Dro Fera recompõe-se e ordena.
- É assim, fiquei mais próximo da dita cuja e ela aos poucos foi-se confessando, e eu naturalmente também me expus...
- Que queres dizer com isso ? !
- Tive que engendrar uma vida para mim! A de Lobo bom, decente, boas famílias, caso contrário o plano esfumava-se.
- Um cordeirinho por tempo indeterminado e provisório.
- Exatamente, fui obrigado a agir assim...
- Obrigado?! Quem te obrigou a ...?
- Espere...
-Outra vez a cortar a palavra?! Já te avisei que odeio interrupções, és surdo?- de novo, a voz irada
- Não senhor, Dro Fera, peço desculpa!
- Vá, siga!
- Siga , para onde?
- Continua a tua narrativa, estúpido!
- Retomo a exposição dos pormenores, confesso que não foi fácil! A dita cuja era o que julgávamos; esperta, inteligente, atenta...
- Salta essa parte! Chegaste a casar com ela?
- Sim, casei com ela, uma cerimónia rápida, sem ninguém, só nós dois, um falso padre ... por isso, não valeu de nada!
- Apaixonaste-te por ela?
- Jamais, ela não possuí os requisitos que me atraem! Sem encantos...A dita cuja é muito travada!
- E sexo antes do casamento?
- Não! Nem se deixa arrastar para isso!
- Que idade?
- Dezessete anos!
- Maior de idade! Não te apeteceu forçar nada?
- O plano esteve sempre presente na minha cabeça!
- No teu lugar, aproveitaria tudo o que estivesse ao meu alcance, comigo, não havia de falhar! - remata folgado
- Ao contrário de si, eu não queria mesmo! Se a atração faltou...
- És parvo, "a ocasião faz o ladrão "! Adiante!
- A lua de mel era uma surpresa minha, a dita cuja desconhecia que o destino da viagem era a Sibéria, embarcou sozinha, fiquei para trás, esqueci de propósito uma das minhas malas. O avião arrancou sem mim.
- A reacção dela?- ri-se com gozo
- Como vou saber?
- Questionavas a hospedeira!
- Isso que importa!?
- Fiquei curioso, imagino-a atarantada a agir tal qual uma barata tonta! Dá-me prazer!
- Neste momento, nada sei dela!
- É óbvio, já morreu congelada, nem teve tempo para enfrentar os lobos selvagens! - agora, sufocado em riso, controla-se e pergunta - Sentes dó da dita cuja?
- Antes ela a dar-se mal que eu, não sinto nada, indiferença absoluta!
- Eu sou Fera mas tu és mesmo Mau!
- Sou Mau ao seu serviço!
- Tu ofereceste-te, ninguem te forçou a nada!
- As circunstâncias forçaram! - explica - Temos pontos a ajustar!
- Lobo Mau, como é possível teres levado... quanto tempo nisso?!
- Três anos!
- Impressionante!
- Tenho uma lista de nomes importantes, sei de factos inéditos, conheci os amigos dela! Estou na posse de imenso material valioso!
- Calculo, quero isso tudo amanhã, na minha secretária!
- Então, vou ai?
- Esquece, eu envio alguém da minha confiança à tua casa, entregas todo o material e desapareces de cena, hás-de receber um bilhete de avião e segues para Paris! Lá, serás encaminhado para um cargo de grande responsabilidade.
- E os suplementos extra que me prometeu?
- Quais ? Um cargo vitalício, férias sempre prolongadas, uma habitação nova e toda mobilada, uma conta choruda no banco ?
- Foi o acordado!
- Empregaste demasiado tempo nessa operação!
- O tempo necessário!
- Aparentemente e só aparentemente uma miúda carente, ingenua, pacata...
- Problema teu, ou aceitas a minha proposta ou nada, escolhes nada?
- Pensando bem, aceito o que oferece.
- Feito! - e desliga a chamada.
O Lobo Mau, atira furioso o telemóvel à parede:
- Animal! Fera maldito! Vais ver como é, verme!
No dia seguinte, o Lobo Mau, entrega o envelope lacrado e recebe o bilhete.
Mal o desconhecido se apaga da vista, corre para dentro, agarra a mochila, o capacete, cá fora, monta a moto de alta cilindrada e esfuma-se a toda a velocidade.
Quando o envelope chega às mãos do Dro Fera, este abre e depara-se com folhas em branco, sentindo-se traído, desata aos berros e espuma pela boca!
Todas as tentativas de encontrar o Lobo Mau, revelam-se infrutíferas:
"Eu apanho-te, rato! Mais tarde ou mais cedo vais cair! Andas a provocar a pessoa errada!"
O Lobo Mau viaja Europa dentro e a vida corre-lhe de feição, mais tarde, entra na Índia. Três anos depois, é vítima de atropelamento e morre a caminho do hospital.
Na mesma altura, o Dro Fera, é acusado de vários crimes obscuros. Embora tivesse negado sempre, é preso.
Quanto à Capuchinho, paradeiro incerto, hipoteticamente conseguiu sair da Sibéria e dizem que se encontra em lugar incerto, algures, na Europa.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021
A emboscada
O lobo mau andava a visitar a floresta com a sua comitiva, em comentários abonatórios, altos uivos. O efeito ; exaltar os resultados da desflorestacão por ali praticada. O intuito; erguer empreendimentos Pós- modernos, tecnologia de ponta. A certa altura, um dos lobos, o mais sagaz, avistou a Capuchinho Vermelho, uma rapariga que usava uma lingugem nova, invulgar e incomodativa. Lá estava ela, numa babada simpatia com alguns animais. Comentaram entre eles que alguém teria de pôr cobro à situação; afastá -la dos amigos, privá -la do contato social, difamar e confinar a rapariga ao exílio precoce, exercer discretamente bullying, proibir de se aproximarem dela, ou arcariam com as consequências dessa familiaridade ou contrariamente, receberiam prémios para escorraçar aquela figura dali. O mesmo lobo voluntariou-se para ser o primeiro a entrar em cena. Começaria por ser uma abordagem tranquila, com requintes primorosos de sedução calorosa, assemelhando-se a uma amizade única, como a Capuchinho jamais, alguma vez, imaginaria viver.
sábado, 6 de fevereiro de 2021
Roda comigo
Penso em rio, mar, domingo plano , céu aberto, passeio ...
Fios azuis , olhos de peixes, onde gosto de demorar o meus olhos... ursos polares tocam banjo... e estou com eles.
Rodo, rodo, rodo a saia, rodo os pés, rodo o leme do barco, rodo a lua, rodo o sol... rodo a minha cabeça, rodo a tua cabeça e tu gostas e é engraçado. Eu rodo o planeta ... e tu ris...Arrisca e risca e rabisca o guião.
domingo, 31 de janeiro de 2021
Pensamento solto
A tua boca fala certas coisas... os teus olhos disdizem essas mesmas coisas... e a luz que surge neles, por vezes, intimida... de tão estranha. Não sei se te sentes e apercebes mas nem ouso revelar-te.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2021
A nossa felicidade
Não foram convidados a entrar!
e muito menos a interpretar
os gestos, os gostos, as palavras...
nem ajuizar sobre as camas desfeitas,
nem tecer observações acerca dos móveis coalhados de pó
e afastem essas dilatadas retinas a sondar minuciosamente
certos esquecimentos, certos desleixos
das roupas atiradas sobre cadeiras, sobre camas e mesas
e nem escapam os espelhos sujos, riscados e abocanhados nas pontas...
Há espíritos inquisidores, espias sorrateiras...
quem se vê naquelas bocas !?...
Agora, se me apetece estender as pernas na esplanada,
fumar demoradamente um cigarro e escrevinhar poesia,
grande qualidade dos meus versos, e bem entendido,
publicar livros e vendê-los aos amigos do Facebook.
Aindam duvidam das minhas reais capacidades?
Sem mencionar as centenas de fotos, onde vou...
partilho tudo convosco; eventos culturais,
não perco um... sou feliz!
Que importa se esbravejamos? Se atiro os filhos contra o pai?
Nem se atrevam a colocar em causa a minha conduta
como mãe extremosa; sou muito melhor que ele,
Ele não é nada, a culpa da nossa desgraça é dele!
Ele estraga tudo onde toca!
Os filhos são o reflexo daquele homem...
Mal educados, barulhentos, refilões, sem interesse por nada .
Detestam a escola...
Em nada se assemelham a mim...
a utilidade deste homem, é ser motorista particular da família !
Os meus filhos já estão na psicóloga...salvaguardados!
Esperneamos por tudo e por nada?se me defendo com mentiras?
Hábito que adquiri do marido!... as contrariedades são muitas...
Quem não se comporta assim? Toda a gente falta à verdade!
Entre quatro paredes enconde-se muito segredo.
Somos falíveis e sem capacidade para nos corrigir.
Nascemos tortos, na recta final, vamos nos arrepender
e com sorte, haverá um lugar no céu
Um lugar privilegiado, idêntico ao da terra
para fazer jus à pessoa que sou
E conto com um anjo que me fará todas as vontades! Porque mereço!
Ninguém precisa saber de nada!
Somos narcísicos? Somos egoístas?
Que drama!
E o mundo não se apresenta cada dia, mais deformado?
Somos infelizes? Quem conhece melhor a minha casa que eu?
A vida é bela, sou eu que afirmo.
Socorri-me da vossa ajuda no pretérito, foi!
agora é escusado, afastem-se.
Ninguém vos pediu, para tomarem , como vossas , as minhas dores.
Lamento, fiquem do lado de fora.
