Ouço o apito singular e longo a indicar que o navio inicia a manobra para desatracar. A tarde vai a meio e eu a meio do cais, no andar inferior , muito rente onde as embarcações fundeiam amarradas diretamente às estruturas de madeira, outras de metal, vizinhas umas das outras, vão sussurando tranquilamente. Não são as embarcações de recreio que atraem a minha atenção, o deslumbramento imiscui-se naquela dança lenta e doce dos reflexos coloridos projetados nas águas. Apraz-me o ambiente marinho que alaga as íris . Sinto-me leve como uma pluma esvoaçante, fico em paz com Deus, comigo, com os outros e com a natureza. Esqueço momentaneamente os arrufos, as picardias, as zangas, os amuos, os insultos, os maus humores, as indecências, as difamações, o desejo camuflado de alguns meterem a foice na minha seara . Ali, toda a tortura cai por terra e na queda a sucata do quotidiano e isso é extremamente libertador.
Após deter-me minuciosamente nos reflexos de cores diversas e tonalidades carregadas e suaves. Sigo devagar e sorvo cada gole daquela extraordinária beleza. Deito a mão a uma das varandas e subo degrau a degrau tranquilamente, sempre ávida do que aprecio. Já no andar superior, os meus olhos procuram um banco, voltado para a parte que mais admiro, a mesma por onde venho. Sento-me a meio, tentando impedir que mais alguém me perturbe. Mal acabo de me acomodar, aproxima-se um casal, sou obrigada a me puxar para a ponta esquerda. Do meu lado direito a mulher logo seguida do homem. Atravesso os olhos de viés para tentar alcançar outros bancos, os que a minha vista consegue alcançar, encontram-se ocupados. Nem me atrevi a passar os olhos cheios de curiosidade pelos recém chegados. Decido permanecer ali, afinal, quando chegaram, eu já lá estava.
- Que bela tarde ! - o homem exclama num tom encantado, arranhado e pelo sotaque deve ser francês, embora o arraste da língua nativa seja perceptível ao meu ouvido.
- Um espetáculo maravilhoso! - a mulher adianta por sua vez. A voz fina, baixa com aquele delicioso sotaquezinho português do continente, talvez lisboeta.
De repente rompe um silêncio, não sei se trocam olhares cúmplices ou não.
- Parece um quadro! - acrescenta naquele som arrastado e estrangeiro.
- Um quadro de um artista famoso! - adianta a mulher completamente embevecida
- Se fosse um artista, de quem te parece que poderia ser ?
- Não te sei apontar nomes....olha, o meu tio diante desta paisagem faria um trabalho soberbo, a aquarela ou com óleos!
- Foi dramático e revoltante o que fez às filhas... - lembra o estrangeiro
- Por isso fugiu para o estrangeiro para não ser preso! - uma crítica irritada
- Eu faria o mesmo que a tua tia, já que não teve tempo para fazer justiça, foi ao atelier do bandido e destruiu tudo o que havia dentro e ateou fogo... remeteu-o às cinzas, ao pó e ao esquecimento!
- Exatamente, a única forma de fazer alguma justiça ! E ele mereceu! Um canalha da pior espécie. As raparigas confessaram à mãe o sucedido. Embebedou as três! Que tarado!
A minha tia ficou desnorteada... confessa nostálgica
- Nunca descobriram onde se escondeu?
- Nunca! Desapareceu sem deixar rasto! - mostra-se desiludida - a mãe não enlouqueceu por sorte.
- Uma ficou grávida!
- Que horror! - pronunciou grave
- A rapariga quis abortar e com razão.
- Esse indivíduo não é pai de ninguém! E tão pouco marido! Como é que a tua tia nunca se apercebeu de nada?
- Ele era um pai fantástico, tudo para cativar as raparigas, levou-as num fim de semana com ele. Eles tinham uma casita de campo. Foi ali onde tudo aconteceu.
Uma delas conseguiu escapar, o vizinho ouviu os gritos e veio ver o que se estava a passar, encontrou a minha priminha toda rasgada, ensaguentada, com manchas de espancamento, a chorar e a pedir socorro mas embriagada. Ele percebeu a presença do vizinho, saiu dali a correr, meteu-se no carro e foi a casa, minha tia estava a trabalhar, vestiu roupa fresca agarrou na mochila, conseguiu um bilhete, uma vaga num avião, devia ter dinheiro guardado em casa. Chegou ao Porto, apanhou outro transporte e partir daí não se sabe mais nada.
- Outro avião?- pergunta o homem
- Parece que não, tudo indica que pediu boleia... o destino ninguém conhece.
- Já me contaste, isso a aconteceu quando?
- Há cerca de dez anos, as quatro, tia e primas continuaram a receber apoio psicológico. Quando o caso se soube, e chegou aos ouvidos da vizinhança, elas não suportaram e viajaram para casa de uma amiga da minha tia que vivia em Leiria.
Também nunca mais soube delas. Já tentei encontrá-las, fui até Leiria e nada !Como não me chegaram notícias, não faço ideia se permaneceram por lá. Julgo que fizeram uma ruptura com a família.
- Aquele animal destruiu a vida da própria família ! - remata o francês
- Pois, infelizmente, muito infelizmente! Olha, há muitos casos destes!
- Ana, eu também tive uma tia, muito querida, amiga, uma mulher de estatura baixa magra, mas com muita garra, muita força, muita coragem. Teve vários namorados, era de paixões violentas, quando se apaixonava era uma loucura, depois quando terminava sofria tanto que dava dó. Até que desistiu...E se lhe surge o tal? O homem da vida dela?
- E se nenhum é o tal ?
- Mas ela não fechou definitivamente a porta... só não procura, nem está aflita por homem nenhum.
- Faz bem estar sem compromisso. Não sofre por amor. Nem é o fim do mundo, uma pessoa não ter alguém, às vezes é uma libertação.
- Então não casarás comigo?!
- Já me conheces, sabes que não.
- É uma pena, adoraria que entrasses comigo na igreja, vestida de branco, uma cerimónia linda, a troca de alianças, o juramento de amor, o beijo , a lua de mel, depois filhos...
- Onde tu já vais!...
- Mas já temos amor, amizade, respeito, intimidade, da melhor qualidade!
- E isso não chega?
- Não, quero estabilidade, constituir família, no cartão de cidadão estar lá como " casado".
- Vai sonhando...
- Imagina que eu conheça uma outra mulher que se queira casar comigo?
- Não é nada que eu já não tenha pensado! Quando acontecer vou sofrer muito! Faço o meu luto e tu o teu e continuamos amigos.- conclui Ana
- E vais ficar sem marido e sem filhos - mostra-se estupefato
- Qual é o problema?
- Não te vais sentir só?
- Já te tenho dito, sou mulher sem vocação para filhos , também não vou ser comandada por homem nenhum, no início até respeitam uma mulher autónoma e independente, que trabalha e brilha como eles, depois da paixão consumida e apagada, emergem outro tipo de sentimentos; a inveja, a competição e logo seguem-se os maus tratos e o conto de fadas desaparece. Vi o caso da minha mãe, o que sofreu, proibida de exercer a sua profissão. O caso da minha tia...
- Eu sou diferente!
- Por enquanto...
- Ah! Não sejas mazinha. Amo-te tanto, no entanto um dia vou me cansar de ser solteiro.
- Acredito, porque não deixamos tudo como está, o que tiver de acontecer, vai acontecer! Nessa altura vamos saber lidar com o que a situação.
- Talvez tenhas razão! - exclama submisso e desencantado.
- Hoje vamos viver este amor que nos faz tão felizes! Esquece o resto, não sabemos nada do futuro! Deixa o amanhã no lugar que lhe é reservado.
Nesse momento levantei-me e sem olhar para trás, caminhei para o interior da cidade.