domingo, 22 de dezembro de 2019

Começo da vida

Nascimento de Adónis, 1733- casa Museu Medeiros e Almeida

Que prazeroso ver-te anediar os caracóis inocentes
Na apneia do momento azul prateado
Os cânticos  balançam o bico das rolas
Com meiguice atam galanteios à  beleza pura

Salta à  vista um rosto fresco e rechonchudo

O tempo transmuta-se e agiganta o outrora  corpinho pequenino
Paulatinamente,  evola-se no ar e rebola para fora da nascente
Átomos  numa fuga definitiva vão  mudando de tom
E assim, refilando audaz desprendido, vai mostrando outra forma

O rolar dos anos faz surgir um feliz Adónis

As pétalas da graça natural, sem artifícios nocivos
Vão -se espreguicando num bocejo profundo
A terra libidinosa, desagua atrevida  em público
O Inverno álgido vem por aí  abaixo...
Alienado, numa recatada poalha de sono fundo.
PN

Amigos, um Santo e Feliz Natal.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Ilustração Internet

Quando a ignorância se ri , subestima, desrespeita,  humilha, desafia, provoca a inteligência e sai triunfante. Meus amigos, o mundo está irremediavelmente perdido. PN

Ilustração Internet

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

"Como se atrevem?"



Afinal, trata-se apenas de uma miúda de 16 anos, preocupada com o seu e com o nosso futuro.

LPN- Eu tenho alguma dificuldade em perceber a agressividade das críticas à Greta. Aquela miúda que conseguiu entusiasmar os adolescentes para uma mensagem que é extremamente simples e ela própria bastante humilde nas palavras que eu ouvi à chegada a Lisboa. Ela própria se desvaloriza e alerta para que se foquem na mensagem que ela tem. Tenho alguma dificuldade em perceber a quantidade de ódio que ela consegue despertar. Estas acusações; que ela é radical, simplista, meu Deus, uma adolescente, radical e simplista?! Eu fico muito preocupado em saber que há adolescentes que são isso! E, um adolescente ser radical e simplista, acho que é uma coisa completamente inusitada, não sei como é que é possível que isso aconteça! E que ela esteja a provocar um certo pânico. Pois bem, olho para os jornais de hoje e vejo que a cimeira do clima em Paris, fala de uma catástrofe climática na próxima década, vou ao New York times vejo que a desflorestação da Amazónia é de 30% com o Bolsonaro. O Washington Post de ontem, disse que as emissões dos gases de estufa deste ano bateram um novo record. O parlamento europeu declarou emergência climática. O Papa propôs um novo pecado ecológico, chamado Ecocídio para a doutrina da Igreja. Eu acho que se fosse adolescente, e pensasse que tinha uns bons 60 anos pela frente, era natural que me assustasse, eu próprio e só tenho uns bons 10 anos pela frente. Se me portar bem e a sorte me acompanhar. É natural que os adolescentes olhem e pensem que lhes vão entregar um planeta com uma validade muito curta. Eu se fosse adolescente seria radical, simplista e estaria de luta armada pela ecologia. O que a mim me preocupa é quando vejo que estes adolescentes simplistas, radicais causem tanta impressão em certos velhadas, gordos, sentados, que há anos foram radicais na sua adolescência, marxistas, troxistas, 25 de abrilistas, mrppistas , e não sei mais quantos e agora estão sentados em frente ao seu computador, deram um salto para o obscurantismo. Negar a ciência e de repente isto são os adolescentes radicais que seguem um ícone. Meu Deus, um adolescente que segue um ícone…! Onde é que já se viu? Estes jovens agora seguem a ciência, preocupam-se … com a ciência! Onde é que esta juventude vai parar? (Ironiza)

PML- A Greta faz um papel extraordinário, o facto de ela chamar a atenção para aquilo que toda a gente devia estar preocupada é importante, porque não é algo que aconteça todos os dias. Há os jornais “bons” que tem colunitas aos pontapés, a dizer que isto é tudo uma fantochada e alarmista. A suprema cretinice é daqueles patetas que mandam a rapariga para a escola. Eu diria que escola e conhecimento são coisas que estes patetas obviamente desprezam, porque se eles tivessem ido à escola ou pelo menos tivessem tido o cuidado de se cultivar, percebiam que a rapariga está cheia de razão. A Greta Thunberg está do lado da ciência, valha-me Deus.E faz um papel absolutamente extraordinário, é um papel que nos remete para a ciência. O que ela diz é científico. Os patetas que a mandam para a escola ou que fazem textos piadísticos, sem piada nenhuma a gozar com ela, com o nome dela, coisas de um nível verdadeiramente extraordinário, é que deviam ir para a escola. Mas há algumas questões que a mim me perturbam nesta discussão. A primeira, é isto se ter tornado, por um conjunto de pessoas; a questão ecologia, a questão do aquecimento global, as questões das alterações climáticas, num problema ideológico, que também é um sinal dos tempos. Tudo é posto como uma trincheira; se há um conjunto de pessoas que pensam que as outras são de esquerda, o que temos de fazer é combatê-las. Tratam desta forma; como as melancias que se dizia na altura da guerra fria, que eram vermelhos por dentro e verdes por fora e há gente da direita que embarca nisto. Isto é um insulto a qualquer pessoa minimamente inteligente que seja de direita ou de esquerda. O capitalismo renega o papel regulador do estado, logo como se a direita não achasse que também é verdade, depois há um argumento muito interessante que tem a ver com a tecnologia, nós não temos que nos preocupar com isto que a tecnologia vai resolver, de facto a tecnologia tem de ser trazida e a própria Greta também o traz. Entretanto, as coisas vão piorando, ninguém nos garante que as coisas vão melhorar. A importância da mensagem da Greta é ser uma jovem que vai convencer as pessoas que têm de prescindir de alguma coisa. É um argumento bom para os adultos, dizer-lhes que as próprias crianças estão dispostas a prescindir de algum do seu conforto porque é isso que normalmente os adultos não querem.


DO- “Era bem feito que o planeta explodisse e atirasse com a menina Greta para saturno”, isto foi escrito por um adulto. As outras não foram cá, “doente mental”, a utilização das técnicas de (…), outra pessoa comparou-a a uma vítima dos campos de reeducação maoísta. A orgia de ódio perante uma rapariga de 16 anos, que diz coisas mais ou menos óbvias, demonstra que já só há uma maneira de discutir, para um campo politico é sempre assim, já só há esta maneira de discutir, ou o insulto mais rasteiro ou a piada, são as únicas duas formas de fazer debate político. Não há uma polarização neste caso, eu não aceito, quando as pessoas dizem que de um lado é o ódio, do outro lado o endeusamento, não há endeusamento nenhum. Eu não vi ninguém dizer que a Greta Thunberg ia salvar o planeta, ou era uma santinha. AGreta Thunberg é um símbolo duma geração que faz um combate político que é urgente e ainda bem que mobiliza uma geração, porque sem essa pressão política dessa geração, não vão ser feitas as coisas necessárias. Eu vou muito a escolas, tem mais impacto do que o Guterres , ainda bem, ainda bem. Eu vou a muitas escolas e se há coisa que eu apercebo-me é o tema que verdadeiramente mobiliza os jovens, é a questão das alterações climáticas e Greta Thunberg teve um papel nisso, ela não é uma líder politica, não é uma cientista, ela não vai dar respostas. Ela é um símbolo e todos os jovens tiveram símbolos…e ainda bem que é este, dos muitos que eram possíveis parece-me dos melhores. A irritação? há um lado que é, os velhos detestam receber reprimendas dos jovens, sempre detestaram e portanto há um lado, sobretudo quando as reprimendas têm fundamento, e nem tem a ver com o nosso modo de vida, os telemóveis… Nós perdemos décadas, estou a falar de política, nós perdemos décadas a ter que falar com terra planistas, ou seja, perdemos décadas a discutir se as evidencias cientificas eram evidencias cientificas ou não. Não é só geracional, é uma discussão de um grupo de pessoas, não é a direita toda, há um grupo de pessoas que acha que o capitalismo não se tem que regular, que ele se regula sozinho. E se há coisa que isto demonstra, é que isso é totalmente falso. Termino só dizendo que a condescendência agressiva para com a Greta Thunberg é o pior que podem fazer , porque se há coisa que consegue mobilizar o jovens é a condescendência dos velhos, portanto sejam mais condescendentes e vão ver como o radicalismo desaparece.   

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Não se esqueça


Imagem - NET

Chame à  atenção do seu filho mas muito antes disso, dê  o bom exemplo. Ele reflecte exatamente quem você é!  PN

Imagem- NET


terça-feira, 26 de novembro de 2019

Sim!

Conheces-me também no sentido implícito das coisas que rabisco. PN


Urban Arts
Verde e Amarelo Abstrato- cores e rabiscos
Marca - Delroy

sábado, 16 de novembro de 2019

Aprende a ser comedido


Imagem - NET


Agrafa a língua linguaruda aos lábios e não simules a arte que não tens.

PN

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

O trapiche dentro do convento



O porco em pé, dá  instruções incoerentes  às  freiras das cabeças loucas. E quando se juntam, elas não oram, falseiam, cortam-se às  tesouradas. Nada como uma pitada de mal dizer, uma poção mágica inventiva e difamatória. O ego enjoado alimenta-se dessas quezílias de carne queimada e escura; o início da putrefação; o cancro em franco desenvolvimento. 
PN



 Pinturas de Hieronymus Bosch / História das Artes 




domingo, 13 de outubro de 2019

Nunca mais será como antes,se nada tivesse sido remexido...


Lá em cima; tufos densos, vegetação intrincada, narrativa forte, pedido desesperado e bramoso; ladrado aos quatros ventos. O céu chora alto, soluça perdido. Os fios grossos e copiosos infiltram-se por entre roseirais de nuvens, pedregosas e lamacentas e escorrem para a terra numa depressão circular; findam em vales e planícies calcárias cársicas; erosão e dissolução subterrânea inorgânica .
PN

domingo, 15 de setembro de 2019

Quem tramou Babet ?


Babet nómada, solta, desenxovalhada
Olhar cigano, sorriso espontâneo
Tisnada até às vestes dos panos
Beleza sem artifícios, rara
Frescura sem fissuras irremediáveis
Sem riscos ainda, apenas deleites
Babet; mochila às costas
Guitarra na mão
Chega às praças, às ruas estreitas ou largas, fechadas ou abertas, pernas treinadas a cruzar no chão
Ou nos bares familiares, em cima do balcão
Dedos ágeis à medida das cordas, prontos para dedilhar os sons dos fios…
Os aneis ficam-lhe bem, as argolas nos pulsos delicados também
Cabelo floreado, em síncopes desmanchado, desaguando em pontas, ombros abaixo...
 Vozeirão rouco, bem afinado, picante, rasgado
Percorre o Rock and Rool, salta para o Blues e atira-se ao Soul.
Compõe letras bem entrelaçadas, profundidade abissal...
Acordes singulares, arrisca muito e acerta no pretendido
O púlico de Babet saliva, baba para grandeza tamanha!
Há pouco, bem pouco uma notícia assaltou-me a visão:
Babet metida em escolhos?
Pasmo; a minha curiosidade desbrava mais terreno exposto; ali à mão
Casos com garotos imberbes, álcool, drogas, mentiras…?!
Casada pela terceira vez, escolhas tortas, filhos das várias uniões celebradas
A meio da notícia; a cantora  não adormece sem ter o membro sexual masculino
dentro do seu canal genital ... e assim  permanece toda a noite?
Pode-se achar censurável, causar estranheza, parecer insólito ...
Alguns entendidos arriscam que é assim que busca e preenche os afetos negados.  
Em rodapé; a vocalista foi vítima de uma infância demasiado cabeluda…
Entretanto, apesar de todos os pesares, continua nas noites perdidas em bares de enganos.
PN


                          Ilustração retirada da Internet - Mary Bridget- Davies


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Puxei por ti tantas vezes...


Puxei por ti  tantas vezes...
ao teu orgulho não agradou
Não foi uma perna, nem um braço...
Sentirias apenas o puxão e passaria a impressão
ou nem sentirias ...
Falei-te ao coração e o assomo agastado:
"Eu é que sei, não te metas na minha vida”

Mas a tua vida permanece ligada à minha...

Desterras-me para o lado da sombra?!
As minhas palavras novas em folha! … pena! 
Paraste os teus olhos ateus nos meus desarmados? Que coragem!
À procura de quê? de outra; talvez uma criatura cáustica, a crepitar aleivosa

O teu sobrolho amarrotado, num enxovalho defensivo

Logo a seguir, mais de perto, ensaiando passos cautelosos;
tento nova investida, acantoada numa penumbra reservada
Saco outra vez, outras frases, recicladas talvez; e, mais respingos:
" Faço o que eu quiser, como quiser e não quero a tua interferência "

Mas depois pedes... apelas a palpites ?!

Que cegueira desse mundo às avessas!
Cataratas coladas nas lentes, sombras sem remédio de delir, apagar ou remover.
Inamovível, à força de uma mente obstinada, lançada na ira de quem tudo quer, tudo pode, anulas o meu amor, trocas o verdadeiro pelo falso... rendido ao circo que  tu mesmo criaste
Nada mais posso fazer, a não ser caminhar e esquecer
porque voltas sempre para mim, quando a mágoa aperta e a festa termina.
Olho fixo nos meus gestos, olho; prego espetado, insinuas- te como se nada, se nada se rasgasse cá dentro...
Dentro de mim; encontras a ilusão pura de que… quem sabe…
Dentro de ti; encontro rocha dura, tranca na porta, sinal de fechado.

PN

" Desespero no Sotão"- Título e imagem captada na NET

sábado, 17 de agosto de 2019

Escuta

Amo-te hoje com a intensidade do fogo
Amo-te unicamente a ti!
Não reveles a ninguém esta nossa intimidade
É  só  nossa, pertence-nos .
O nosso segredo fica à  parte...
Eu quero assim!
Deixa-te ficar comigo até  extinguir a luz que nos apanhou
PN
Foto: NET

sábado, 3 de agosto de 2019

Há-de passar...

 Vem uma banheira de frio de um lado...
onde não  há   pontos cardeais,
a hérnia cervical remexeu-se logo, dor  aguda!
Pacientemente subo a gola do casaco,
talvez este gesto lhe traga algum conforto....
PN

ArtStation- Aspen eyes, Klaudia Kotecka



quinta-feira, 25 de julho de 2019

Que me deu de beber...?



-Que me deu de beber
gentil  e real   cavalheiro...?
Minha boca saboreia um estranho fel!
nublou-se-me a vista!
travou meus passos!
como se à  beira do fim me encontrasse?!
-Não preciosa donzela, deve tratar-se de uma
indisposição vossa...
-Que me deu de beber? Confessai!
-Esse mal estar pertence-lhe; o prenúncio do que
julgais que aí  vem…
- Em seu entender, que julgo eu?
-O vosso mal? não sois  suficientemente rica,
Sem nome grandioso… Sabeis que toda a
corte se ri de vós ? A vossa mãe demonstra o que sobejamente conheceis,
o vosso pai, sem instrução, sem terras, sem negócios promissores…
Consta que existem ascendentes nobres no vosso passado mas o sangue puro perdeu-se,
não lhes sucederam. A vossa linha não é a mesma,
querem- vos  mal. A mistura de raças…
Nunca poderá haver aliança entre as nossas famílias.
Pena, menina prendada, bela, bons atributos físicos e
com valores morais que aprecio, inteligente e instruída...
Uma fortuna deliciosa para qualquer homem que se preze
-Que propõe que façamos, então?
-Sermos amantes.
-Amantes?! Que horror! Casará com uma daquelas fidalgas da corte e eu
servirei para as escapadas ?!
Porque não enfrenta o seu pai?
-Ele deserdar-me-ia e passaria a ser um proscrito.
-Somos de famílias rivais devido à condição social.
Amantes, jamais!
-Esse teatro também me desagrada!
Perdoai querida donzela, custa-me pô-la nesta situação;
um atalho sem fim, que desgosto para mim!
-E o  vosso pai...tolerai que vos diga; grande fingido
Teme  os céus, profere  o nome de Deus em vão,
defende o bem e a justiça
Frequenta igrejas, joelha diante de altares.
Canta no coro e bendiz o Senhor?!
Que fervorosa fé é a daquele homem? 
Imita um cristão autêntico, que alma pequena, engano de pessoa 
- Tendes razão!Meu pai influenciou a corte, inventou coisas a vosso respeito!
Espalhou em cicio a difamação... Sinto vergonha pelo mal que lhe causa!
-Nem vos atreva ser malvado como ele,
nem  ides cochichar aos ouvidos de ninguém nada dos nossos encontros.
- Jamais!
-Enlamear ainda mais uma inocente! Que tirano!
-Nada vos acusa a consciência, não  vos apoquenteis, um dia ele terá 
a moeda de troca.
-Um dia, enquanto isso, sou vítima  de calúnias e maledicências
e ele sem nenhum dedo a apontar as imperfeições, continua embutido na sua vaidade
 no seu orgulho venéfico, desfruta dos seus melhores dias…
 -Melhores dias?
Não  julgue as aparências,  nem tudo é  como ele  faz crer...
Olhe que algumas vezes, não tão raras assim,
mostra-se sorumbático e indignado. Esqueçamos essa figura por agora
e diga-me,  amada menina ,o que nos guarda, o destino?
-Gostaria de lhe responder, receio nada ter a dizer, nem saber…
-E se fugíssemos os dois, sem deixar nenhum rasto,
Demorar apenas o tempo certo e partir o mais depressa possível
-E as consequências de tal acto?
- Refere-se a meu pai, dar-me-á caça por certo mas iremos para bem longe.
-Sinto-me mal por esta decisão…
-Deixe lá, já sou homem e almejo a minha independência,
amo-vos acima de tudo. Depois, chegou a hora de constituir
 a minha família... Tenho conhecimentos no estrangeiro,
farei uso desta possibilidade.

Dia da partida; encontram-se nas traseiras da quinta. Ela espera por ele impaciente,
de trouxa na mão,  capa escura, vestimenta discreta. Atira-se para dentro da carruagem.
 Beijam os lábios um do outro à pressa.
Ele incita os cavalos e a carruagem pôs -se em andamento
Mais alguns metros, freia bruscamente os animais.
Um vulto surge do nada.
Ele levanta-se assustado, inclina-se para fora, o coração perturbado:
-Senhor, queira afastar-se da frente, por favor!
O desconhecido retira o capuz.
-Mãe?!
- Meu amado filho, desejo-vos sorte, se é isso que deseja, vá depressa! Mande notícias!
Menina, o meu marido não aceitará uma descendente de escravos, lamento. Sejam felizes!
- Muito agradecida, minha senhora!
-Mãe! – enternecido, toma as mãos maternais e leva-as aos lábios, beija o rosto e envolve-a
num ternurento abraço.
Escuta-se um tiro!
- É seu pai e vem armado!Corra!
- Por favor, meu amado! – chama a donzela
- Mãe, que fará o pai consigo?! – fica preocupado
- Nada temeis, comigo não sucederá nada, filho, vá depressa!
Novos tiros são sibilados.
Os cavalos relincham, a carruagem levanta voo, num desvario de cascos.
Os olhos do rapaz rasos de água, pregados na figura materna:
- Querida mãe, mandarei novas! – promete num grito
- Fujam, fujam, fujam! - murmura a mulher entre dentes , enquanto o homem descarrega as
munições da arma, tentando acertar  na carruagem!
Num acesso de cólera e desapontado pelos intentos gorados, agride a esposa
com a coronha e fá-la resvalar para o chão.
Logo a seguir, apercebe-se que ela não se move, chama por socorro.
Mirando-se detalhadamente, temendo que alguém o apanhe de arma na mão
e pense o pior, esconde-a atrás de um tronco.
Baixa-se e tenta reanimá-la sem sucesso,
resolve carregá-la nos braços fortes e à medida que se aproxima da entrada:
- Acudam a madame, acudam!

PN

Imagem - NET
Personagens da novela " Deus salve o rei"( Não conheço a respectiva)

domingo, 30 de junho de 2019

Da tua boca não nascem rosas


Da tua boca não nascem rosas
Lamento dizer-te …
Toco a “excelência”de um ser
e o respingo é cáustico, áspero…
Índole mesquinha, alegoricamente obtuso
encrespado, abjecto, astuto
Sucedem-se birras conforme a utilidade,
complementadas com esgares,
momice imprópria para um homem de pelo na venta
Fica mesmo ridículo, feio, já te disse…
mas não escutas e foges dos espelhos!
Examino minuciosamente a representação ágil;
treino de disfarces; peças para resguardo do rosto
Brincas com os incautos, desvias a atenção dos mais atentos,
 enganas os pobres de espírito…
Trapaceiro e manipulador!
Os outros? Os outros são iguais a ti e também se servem de ti!
 agarram os ventos que correm oportunos… usam-se uns aos
outros;“prostituição” consentida…
Dono de um ego; um batalhão de soldados, que satisfazem
os teus desejos, vontades e pulsões primárias,
o “conselheiro” que devia cochichar aos teus ouvidos
a atenção a dar  aos valores morais e culturais, compraste-o!
Tens praticamente todos nas mãos, olha que obra medonha!
A corda bamboleia sob o peso estúpido dos teus pés…
Trôpego, e desastrado lá consegues fazer o teu número;
Já não sei se me chega aos tímpanos
copiosos aplausos
ou uma amalgama de assobios, vaia, ou troça;
ou dissimulam para te agradar
És dono de títulos "nobiliárquicos",
vives num castelo rococó de pó, gigantes de bolor trepam as
 paredes…e teias imóveis já sem nenhum vigor; pardas e sujas
Há uma ovelha do rebanho, novinha,
abandonada à sua sorte que vai pedir-te socorro:
- Pai, para que lado devo seguir?
- Vá poe-te a andar daqui, procura o teu grupo! – ordena trovejante
- É que não vejo ninguém, pai, não sei onde estão… - responde
desanimada
-  Quero lá saber! Não me incomodes, o meu grupo sei onde está!
( É o mesmo que dizer a um incapacitado,
numa cadeira de roda, levanta-te e anda)
Como? Por acaso és um deus? Nunca te vi fazer milagres!
Sei que és mestre na mentira, exímio na arte da manha
A tua ambição ultrapassa-te;
esmagas cabeças, entortas vidas, especialista em lavagens
cerebrais… e artista na tontice
“ Cospes no prato onde comeste …e voltas a comer no prato que cuspiste”
Contratas idiotas e cegos para desviarem quem vai no seu
caminho em paz, semeias o caos
Espera pela tempestade, tarde ou cedo abater-se-á sobre a tua soberania.
Entretanto, segues e trincas pessoas sem nenhuma comiseração;
Um sorriso “santo” nos lábios e um pedido de “desculpas”
 “natural”
A falta de limpidez chega à cave das tuas entranhas
Eu sou a pedra que desejarias fora do teu paraíso de fantochada!
Desgraçadamente estou sob o teu domínio…
Incomodo? Pois sim!
É pena, porque também eu sofro, com tão abominável figura.

 PN




sábado, 8 de junho de 2019

Doce fantasia



Sir- lawrence- Alma- Tadema-Courtship- The Proposal

Sorrio-te e namoro demoradamente                 
os teus belos olhos  siena queimada de rapaz,
deixo os meus azuis cinzentos
pregados nos teus e tu  ficas guloso por mais,
quando avanças,  pego  no galho de flores secas
e dou com ele, meigamente  no teu rosto fresco, é engraçado...ver-te assim, desarmado!
PN
 


domingo, 2 de junho de 2019

Amor de uma vida inteira


   Andre Kohn 

Conheci-a,
ainda imberbe e incauto…
aquela eternidade
que trava a proximidade
de um jovem sossegado
a uma jovem citadina; horizontes largos, desempoeirada
Os meus olhos mansos
repousavam distraídos
quando viram outros
que  passavam pelos meus...
  Causaram  em mim tal
embaraço e perturbação…!
No entanto, os meus encantaram-se por aquela visão;
Vi gaivotas rodopiarem em equilíbrio no puro côncavo etéreo
e chegaram para hospedar-se nas cordas do meu coração
Eu, navio despreparado, fundeado numa pequena baía marítima
fiquei  mesmo ali, imóvel,  sem  nenhuma acção,
regozijado naquela doce ilusão.
Certo dia, perdido em pensamentos quiméricos;
passeava devagar na orla do mar; pés nus, ténis ao ombro
  E, de modo imprevisto, fui atingido por uma explosão;
tomado por um fenômeno estranho;
Medo!
Recuei estonteado, meia dúzia de passos para trás,
 quase assaltado por uma síncope!  
Voltei-me para o lado inverso. Ajustei os óculos de sol,
engoli em seco, mexi as mãos; os dedos gelados
  estava ela, sentada sobre a areia fina,  virada para o mar,
Pernas cruzadas , "à  chinês "
Havia nela qualquer coisa  de hippie sofisticado
e isso desmoronava-me de susto
Permanecia imóvel ... Estaria a meditar?
A ansiedade crescente escalava uma falésia tenebrosa dentro de mim,
fiquei a espera de um sinal mais descontraído …
desejava muito agir mas sentia-me pregado ao chão. 
Quando a vi sair daquele estado hipnótico
avancei  cauteloso; o corpo todo a tremer,
dissimulei um encontro inesperado e fui convincente.
Cumprimentamo-nos de forma cordial,
ela convidou-me a ficar e partilhar aquele momento a seu lado.
Falamos de imensas coisas; a voz dela musical...
Julgo que fui além da conta; um jorro de euforia
brotava de mim. Um frenesim louco mas sem atitudes precipitadas…
O toque da mão  dela no meu braço; um afago delicioso
tão  delicioso que me calei de repente
Senti-me apanhado por um redemoinho;
ela suavizou o constrangimento abrupto
A minha parte tonta sem chão era um disparate…
foi ali, frente ao mar que tudo começou;
Na transparência das águas, um compromisso!
Selado, num acordo de paz entre corpo e alma
Sentia-me em festa, havia reflexos em tudo
aos meus olhos nus e indefesos!
Naquela tarde, à hora crepuscular, despedi-me dela.
Depois, encontrávamo-nos em todas os lugares da escola; na sala de aula, mesmo a par,
no pátio, na cantina, no bar , nos corredores…
De noite sonhava com ela....
Um dia, a minha mão pousou inadvertidamente sobre a dela,
imediatamente a  seguir,  um corisco desceu sobre mim;
o coração sofreu um choque estrepitoso
Quando nos encaramos os dois, olhos nos olhos,
os meus olhos confessaram finalmente  ...
e os dela recetivos, responderam implicitamente que sim,
 foi aí  que segurei a mão  dela com mais  força e nunca mais a soltei.

Poema inspirado num casal que conheci de vista nos meus tempos de secundário.
Durante muitos anos perdi-lhes o rasto, quando voltei a vê-los, caminhavam lado a lado na
mesma aparente cumplicidade.
PN

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Instável (a)mar


                                     Rafal Olbinski opera e surrealismo

Raras vezes consigo tocar-te …
mas vejo-te através de mim;
tu não deixas mais…
assaz pungente; o silêncio estrondoso, excessivo e denso
este vácuo cheio…_______________________________
Inesperadamente chegas
como um verdadeiro estranho
ah! e eu cheia de amor para te dar.
Leio discretamente as linhas do teu rosto;
tentando adivinhar…
não encontro os teus olhos!
Os teus olhos inseguros, põem-se em debandada,
arredados dos meus e os meus tentam buscar
 os teus fugidiços da alma, porquê?
Como se o nosso amor não fosse imenso!…
Ainda tentas…fica quase, quase…
Depois, bamboleias nas redes
que só tu vês, nas veias das minhas mãos.
Desesperado, saltas e atiras-te como um louco
de volta ao teu mar.
Talvez um dia, quem sabe…
Aprendas a ler o sentido implícito
das grandes  e complexas questões do ser humano
e decidas  ficar.
PN

terça-feira, 7 de maio de 2019


quinta-feira, 25 de abril de 2019

Tempo de Adoração da figura abjecta

Encontro frequentemente o beijo de Judas.  Ele espreita o meu rosto, vem acariciar a pele macia; sinto um roçar  de casco duro tocar, lança  um sorriso manhoso, dos olhos, um frio metal a fingir de ternura e uma fisionomia revestida de candura. 
Digo para mim;  foge depressa dessa coisa ruinosa, pegajosa e mentirosa porque está  na moda mentir; e está  na moda ser manipulado e gostar de ser manipulado para ficar do lado de dentro , ainda que seja obscuro. 
PN 

terça-feira, 16 de abril de 2019

O Inferno de Arthur


O jovem sacerdote Gregório pensou ser mais vantajoso para aquela gente ter alguém a defendê-los; de si próprios, das emboscadas, assaltos e até das investidas de animais perigosos que circulavam naquela região. Apressou-se a solicitar a presença dos populares para auscultar as suas opiniões e transmitir as suas.

Assim que a carroça, puxada por um cavalo branco, foi avistada; grande alarido se levantou, o imenso assombro depositou uma ruga no sobrolho de Gregório.

Chegado ao ponto de encontro, freou devagar o cavalo lento e assustou-se perante o alvoroço de um grupo de homens numa vozearia ininteligível.

Tornou-se pálido ao ver exposto;

paus, facões, espingardas, pistolas…

Imóvel, no banco da carroça, aguardou o desfecho final.

Temeu o pior quando ouviu disparos, depois percebeu que os tiros

tinham sido disparados para o alto. Os homens retiraram-no do banco 

transportaram-no sobre os ombros. Iriam executá-lo? Um tremendo calafrio
percorreu-lhe a  espinha dorsal …  mais à frente  o medo serenou ; atento; notou nos seus rostos demonstração de júbilo e euforia… alguns tocavam-lhe nas mãos, nos braços, no rosto, foi com grande alívio que constatou a alegria com que  o recebiam; à maneira deles ; a ovação comoveu-o e as lágrimas assomaram-lhe aos olhos azuis.

Baixaram-no com desvelo, tratamento dado a um andor.

Agora, frente a frente com a sua gente; dirigiu-lhes palavras de valor e conforto; todos ali o conheciam, sabiam da sua simplicidade, da sua fé, do homem assisado, do seu trabalho; pronto para qualquer chamado, fosse qual fosse o motivo. A fisionomia marmórea benevolente, os cabelos curtos, louros lisos, cova no queixo. Residia ali a beatitude de um altruísta, defensor acérrimo dos ditames de Cristo, um estudioso, complacente e vigilante; possuía um verdadeiro espírito missionário.

Falou-lhes aquilo que precisavam ouvir; O alimento para a alma. Tal como as ovelhas esperam do bom pastor.

Expôs o quanto precisavam de um líder corajoso, a quem escutariam e confiariam os destinos do povoado. Os olhos procuraram entre a multidão à sua frente e encontraram a tal personagem que lhe fazia sentido, fez sinal com a mão. O outro; barbudo, cabelo pelos ombros, olhos escuros, colocou as pontas dos dedos no peito -  Eu?

Sim, ela ele! Saiu de dentro da massa de gente que permanecia em silêncio e foi colocar-se na frente do padre:

- Venha cá, Arthur, vire-se para as pessoas! – aconselhou enérgico.
- Mas eu, padre?  

- Porque não? Conheço-o há tempo suficiente para dizer que tem tudo o que é preciso num líder, então…é a sua oportunidade para demonstrá-lo

- Obrigado padre, por confiar em mim.
- Ei, ouçam, se concordam que o srº Arthur seja o nosso líder aplaudam, se alguém discorda, levante a mão e se pronuncie.
Ladeou Arthur pelos ombros e o outro colocou o braço à volta da cintura do clérigo, esperaram a manifestação das pessoas. Ninguém contra. 

Cumprimentaram-se ambos e Gregório apressou-se a celebrar missa ali mesmo. Ainda tiveram tempo para confraternizar e aos poucos dispersaram; cada um foi aos seus afazeres.

A azáfama retomou o seu habitual; trabalho braçal, cascos de cavalo, carroças rolaram no chão de terra batida, cânticos de louvor a Deus, cânticos de coro, cânticos de amor à terra que dava frutos para viverem, cânticos alegres e abraços calorosos, e diálogos produtivos e alguma prosperidade.

Arthur reunira mais homens para não ser facilmente vencido, cauteloso para não desiludir o amigo Gregório. Passados muitos meses, começou a prestar atenção ao monte à sua frente, subia a cavalo até ao cume, para observar as outras montanhas que se entrepunham à frente daquela. Até que uma madrugada, antes da povoação acordar; mochila às costas, sorrateiramente subiu o dorso do cavalo e pôs-se a caminho.

Assim que os homens notaram a sua ausência, fizeram chegar ao clérigo o seu repentino desaparecimento; uma busca por ali mesmo, talvez tivesse caído por uma ravina ou tivesse sido atacado por um animal feroz, três dias de busca intensa e nada da sua localização, nem uma pista que fosse. O vigário deu o alerta; acaso alguém o encontrasse, que fosse prontamente  socorrido ou corresse a  pedir auxílio.

Passou um mês; comentavam e colocavam todas as hipóteses;  até ter sido morto e levado por um urso.

Certo dia, avistaram um indivíduo a cavalo, a campainha da aldeia soou. Os populares acorreram até ao cimo do monte; uns apostavam que não, outros apostavam que sim! …ali amontoados, o padre pediu licença, colocou-se à frente e afirmou:

- É o sro Arthur!

E foi um alarido de contentamento, o sino da capela tocou e Gregório pediu que o fossem alcançar, podia estar ferido ou muito gasto. Os cavalos saíram numa corrida veloz.

Arthur desceu a montada devagar e ajudado pelos seus homens:
- Padre… - começou o líder…
- Agora não, vá descansar, lavar-se e saciar a fome que bem necessita! Depois conversamos! – aconselhou, pois via ali  um homem extremamente derreado.
Dois dias depois, Arthur veio bater à porta do padre, aparara o cabelo, a barba, roupas frescas…
- Entre, entre, parece um ator de cinema! ficou mais jovem! – observou Gregório com alegria – quer um café?
- Obrigado, não me apetece um café agora, padre! Já estou bem, vim falar consigo, devo-lhe uma explicação.

Os dois sentaram-se à mesa da cozinha:

- Então sro Arthur, que aconteceu? – perguntou morto de curiosidade
- É assim padre, arrisquei demais e sozinho, quis ir  longe e encontrei um desconhecido a cavalo, chamado Frederico, apontou-me logo uma arma …
- Felizmente reconhece que se expos ao perigo e até à morte! - proferiu sério - e esse desconhecido não lhe deu nenhuma chance?
- Nenhuma chance! fui levado para uma povoação maior que a nossa, com outro tipo de construções, mais desenvolvida… e quando percebi que ia mofar na cadeia, fiz o possível e o impossível para escapar e cá estou!
- Que coisa doida, sentiu medo, não?
- Oh, padre! Julguei que não voltaria a ver a luz do sol!
- Quem é esse homem?
- É um homem mau, o governador daquilo lá, ele manda em tudo!
- Pensa que virá atrás de si?… - a aflição do padre era evidente
- Acho que mais dia, menos dia, vem me buscar!
- Deus permita que se esqueça! Falou de nós? Ele sabe que existimos?
- Não, nunca! Apenas disse que me tinha perdido; um ser isolado, longe de casa.
- Isso não me agrada…  que coisa ... mas   provavelmente  acaba por esquecer o episódio! – tentou tranquilizar a sua  alma inquieta.
- Não conte com isso, temos de nos preparar para tudo! Vou armar os homens e os civis têm de colaborar…
- Lá se vai a nossa paz! – lastimou-se profundamente
Havia nos olhos de Arthur uma faísca estranha, uma expressão escura, a possibilidade de um conflito, deixava-o desgostoso, a ele e a Gregório, talvez fosse isso mesmo.
O padre observava o seu líder e aquele espírito beligerante crescente, aquela forma de incitar os homens para um conflito armado, deixava-o desconfiado. Que acontecera com ele? Teria contado toda a verdade?

Até que um dia foi o alvoroço total, alguém anunciou que vinham aí ; muito homem armado!
- Não lhe disse, padre?!
Gregório levou as mãos à cabeça:

- Eu temia isto mesmo! Escute, sro Arthur, evite o confronto, vou içar a bandeira branca!
- Padre! Perdeu a cabeça, agora é o senhor que quer  morrer?
- Tenha calma, tentemos um pacto de paz, eu mesmo irei lá, até eles!
- Idiota, vai estragar os meus planos… - resmungou entre dentes
- Que disse, sro Arthur?
- Nada, eu nem falei!
- Desculpe-me, estou nervoso com esta situação…
- Não se preocupe, eles que venham, nós responderemos e eles vão ver como é!
- Sro Arthur, não fale assim! Não antes de eu tentar…
- O padre é que sabe! – respondeu revoltado
- Que lhe aconteceu, sro Arthur? Está diferente da pessoa que conheci.
- Arrependido por me ter nomeado líder?
- Arrependido não! Aconteceu algo quando se ausentou, voltou outro…! Quer se livrar do que o atormenta? Podemos falar disso! – rematou com humildade
- Ah, padre, julga que é hora de me confessar? – e afastou-se apressadamente, enquanto Gregório examinava-o boquiaberto.

Havia balbúrdia e correria por todo o lado, o pároco, a tremer por dentro, lá foi na carroça desengonçada, a dirigir o cavalo com puxões leves nas rédeas e comandos de voz. Quando chegou a meio campo, levantou-se e ergueu a bandeira branca, nisto um homem da linha inimiga, veio ter com ele a trote calmo. Trocaram impressões, estenderam as mãos e saudaram-se, o recém chegado voltou para os seus acompanhantes  e deu ordem de retirada. Arthur, raivoso, atirou-se discretamente ao chão, rolou num ápice até uma moita, ali perto. Fez pontaria e disparou contra as costas de Gregório, e rapidamente retomou o seu lugar; distraídos; ninguém notara nada. O padre, ainda teve tempo de se voltar, arquejante, olhou para o líder, a bandeira caíra da mão, e com olhos apavorados, compreendeu o terror da traição, os lábios abriram-se e desenharam em silêncio um nome; Arthur, porquê? Os olhos de Gregório fixaram-se nele momentaneamente.

Arthur, incapaz de se mover, cerrou as pálpebras com força, consciente da loucura que acabara de cometer.

 Logo a seguir, Gregorio  tombou da carroça mortalmente para o chão, o líder foi a correr vê-lo, soergueu-o  do chão, tentou tomar-lhe o pulso, estava morto. Abraçou-o em pranto, dizendo baixinho:
- Perdão padre, perdão! Que fiz, Meu Deus!

Todos julgaram que o inimigo havia baleado o padre e insurgiram-se como loucos contra aquele ataque a um homem santo. Inclinado para o cadáver  nos braços, de repente, Arthur levou, uma pancada forte na cabeça e desfaleceu
Vencidos, os que restaram foram levados pelos homens de Frederico, para a outra povoação,longe dali.  Arthur foi com eles.

Isolao,  na prisão, bradava:
- Padre, onde está? Padre, que lhe fiz? Padre, fale comigo! Diga que me perdoa! – e repetia vezes sem conta as frases, ora aos gritos , ora  lavado em lágrimas e em  gemidos. Via-o nas paredes, no teto e chamava-o. Certa vez chegou a suplicar a um dos homens que fazia ronda, que o executasse. E não sossegava; noite e dia. Gritava sem parar, atirava-se contra as paredes, sacudia as grades. Queria falar com o padre Gregório. Só ele podia salvá-lo daquele inferno. A sua alma culpada não encontrava paz, nem sossego! Pedia a morte vezes sem conta. Ninguém o atendia. Até que, sabendo daquela tormenta, Frederico quis que o trouxessem à sua presença:

- Diga-me, de quem se trata?
- Sou Arthur, o responsável pela morte do padre Gregório e das outras pessoas!
- Porque diz isso?
- Eu matei o padre e desencadeei uma guerra estúpida e sem sentido!
- Porque matou o padre?
- Ele queria o contrário de mim!
- E o sro desejava o quê?
- O que era seu!
- Meu? – a perplexidade tomou conta de Frederico
- Sim , do sro – revelou e apontou para o outro
- Explique-se melhor! – pediu calmamente mas incrédulo.

- Certa ocasião aventurei-me e sai de lá sem ninguém saber , avistei-o a si e segui-o e vi que vivia em melhores condições que nós, havia desenvolvimento aqui, quando regressei, a inveja, a cobiça, a  raiva apoderaram-se de mim, já não podia ver ninguém , desprezava  o padre, o melhor amigo que tive na vida. Eu sou apenas um desgraçado  rude, bravio, sem família, um falhado que o padre escolheu para ser líder! Intimamente a vaidade foi-se  entranhando em mim e comecei a sentir vontade de querer mais, aquilo era pouco para mim.

- Ambição desmedida!
- Além de cometer a maior atrocidade da minha vida, provoquei uma guerra; houve baixas do meu lado, houve baixas do seu  e tudo por minha culpa,   culpa que carrego nos ombros. Trai quem confiou em mim ,entende?
- Vou libertá-lo! – decidiu com firmeza
- Não faça isso! Por favor, sou um criminoso, mereço a morte, não vê?
- Vejo um sujeito arrependido, a culpa é o fardo que vai carregar para o resto da vida. Amava o padre? Eu vi-o ser baleado, não fazia ideia de quem tinha disparado. A versão do padre foi invenção sua?
- Foi invenção minha, eu menti mas amava e amo – a voz embargada
Frederico levantou-se da cadeira e foi ao encontro de Arthur e abraçou-o:
- O sro é bom para mim, porquê? o seu gesto aumenta ainda mais a  minha dor e a minha culpa!
- Essa cruz é sua, sro Arthur! Que quer que lhe faça?
- A morte! – respondeu prontamente
-  Não!  acaso serei eu um reles carrasco ? Não! Precisa se regenerar!
- Que mereço, então?
- Olhe, tire essa barba, corte o cabelo, que mais parece um urso e vá para o hospital ajudar a sua gente que ficou ferida, será ajudante dos médicos e enfermeiros, quando terminar essa tarefa, tenho outra missão para si.
- Que missão, sro Frederico?
- Vai igualmente ajudar a erguer uma capela, em memória do padre Gregório, trabalho árduo e de hoje em diante a sua casa será o convento.
- Aceito sim, sro Frederico.
- A sua gente mais perigosa continua presa, uns dois ou três, o resto está fora ou no hospital. Isto não é um castigo, é uma forma de se tornar melhor homem e expiar os seus crimes, o sro Arthur tem um fundo bom, sei que lhe fará bem, é conveniente  para si e para mim.
- Eu sei que é o padre a pedir por mim! Outro, no seu lugar, condenava-me logo à morte.      
- Então agradeça todos os dias ao padre Gregório e a Deus a sua sorte!
- E a si também!
- Se quiser, pode ser! Peça também a Deus por mim! Agora vá cumprir a primeira  parte do nosso trato.

Arthur, ocupou-se  da sua gente, pediu desculpas a todos eles, lamentou a morte de outros, ergueu a capela em memória do sacerdote, aproveitou as horas mortas no convento, onde se exilou, para se instruir, descobriu o seu verdadeiro talento e na parte traseira do jardim, esculpiu  um conjunto de estátuas, dizia que representava uma missa celebrada por aquele que jamais esquecera. Frederico, mandou abrir as portas do convento a quem quisesse admirar as obras e acrescentava que ficariam ali, para quem, de mais distante viesse, pudesse apreciá-las. E assim aconteceu, o nome do escultor correu mundo, recebeu gente de lugares que nem imaginava, deu a conhecer a sua arte, ensinou outros. Tornou-se afável, no entanto, parco nas palavras. Quem passasse à porta da sua cela, ouvia-o todos os dias  a falar com o seu amigo inseparável, por vezes chorava recolhido na sua dor, rezava baixo e provavelmente orava.

 Morreu já com idade avançada, quis se confessar a um dos monges do convento que permaneceu à sua cabeceira até ao fim; contou que Arthur nos momentos finais, balbuciou algumas vezes o nome do tal padre, estendeu a mão direita e acrescentou num fio de voz:

- Padre, veio me buscar? Estou pronto… - um sorriso a desvanecer-se no rosto, os olhos muito abertos, fixos no teto; o estertor da agonia…do canto do olho direito, uma lágrima soltou-se devagar e foi sepultar-se na almofada. Em seguida, o sofrimento parou. Arthur era agora um homem livre. O monge cerrou as pálpebras a um irmão que tinha amado o outro, durante toda a sua vida.
PN 
    
 Desejo a Todos os Amigos, uma Santa e Feliz Páscoa.