terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A gaivota e o outono

 És uma gaivota entre muitas outras gaivotas  que anseia estrear as asas, experimentar o vôo novinho em folha,  porém,  há empecilhos que estorvam o natural desdobrar do teu corpo, boicotam os teus intentos, forçam -te a  curvares a espinha mal inicias a tentativa ... Incutem pensamentos negativos nessa cabeça sonhadora e,  a ganhares mais e mais  acanhamento. Desvitalizam cada passo dado. Desvalorizam qualquer esforço. Ao impor obrigações absurdas, sujeitam a tua vontade à  vontade deles  e comprometem o teu futuro de forma  inequívoca. O Outono  desce compadecido e põe-se à  escuta, a voz embargada, dialoga contigo, mapeiam juntos possíveis caminhos para te livrares dessa asfixia total e sem fim à vista.   Ocasiões há, em que prefere recolher-se para  prantear sozinho,  baixinho, num orvalho contido e sentido,   por saber-te apanhada  num  sofrimento atroz ... e ele pouco pode fazer para que livres desse fardo  cruel. O trabalho mais árduo é  defender-te de ti própria,  da armadilha que ajudaram a criar  para ti .  E o pior dessa dor, que o atravessa todo,  é  já  não te reconhecer;  estás a ficar refilona, azeda, a responder irascível, sempre contrariada, na defensiva.

 O outono, ignora se vai a tempo do "conserto" . Assemelhas-te aos teus carrascos e malfeitores. Uma gaivota  fortemente perturbada, a nascerem--lhe   desejos requintados de malvadez,  que só pensa em vingar a sua dor  em todos aqueles que te aterrorizaram e continuam a  causar-te danos irreparáveis. Perdida, num poço fundo de tristeza ...  essa  desconfiança vê  em cada sombra um inimigo a abater.  É   preciso muita  paciência para   tratar-te , empregar diligências e remediar essa cordilheira  de estragos...  recuperar algo de ti... principalmente o perdão!
PN 

domingo, 13 de dezembro de 2020

Pensamento Solto

 A tua relação com ela  assenta em tudo o que ela te proporciona: disponibiliza-se , escuta-te, apoia-te ... E a tua amizade por ela como é?  

- Ela dá-me  quase tudo o que preciso e quando não dá, fico decepcionado, porque para ela eu sou especial.  

PN 

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Pensamento Solto

 Normalizar  certas situações quotidianas, é  abrir uma chaga que nunca mais cicatriza e agigantar um cancro social.

PN 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Pensamento Solto

 Se és um serrote nas minhas costas ? corta à  vontade, toma atenção,  tudo o que disseres a meu respeito... será o espelho do que tu  és,  portanto, estás a dizer   muito mais de ti, do que de mim. Não esqueças este pormenor.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Pensamento Solto

 Arrancaram-lhe praticamente todos os dentes da boca e agora exigem o acto de mascar...! 

PN 


domingo, 15 de novembro de 2020

Mitos e mentiras

 


Forjam-se  mitos  num estalar de dedos, com a mesma  rapidez  com que se devora o quotidiano ? Uma bebida num trago? como se não existisse  amanhã?
Mitos engendrados sobre o joelho,  e a condecoração segue para o peito? Desta forma, os mídia convencem  o cidadão  de que a lenda está aí! E todos ou praticamente todos, acreditam nesta fraude ? E seguem, curvados, cegos e loucos as divindades? sem pestanejar?!..mas  tanta divindade e a terra com falta de água?  Com falta de pão?  Com falta de ar?  Com falta de graça?  Com  falta de cabeças pensantes? Com falta de soluções?  
PN 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Quina

 Alfredinho,ui,ui...wait a moment!  quem diria? Casado? Filhos? Netos? Sessenta e sete anos? E eu metida num falso namoro?! Tu, peso; uma tonelada!? Que mais falta saber?  O ilustre  encantador de éguas,  afinal  é  um cachalote paranóico?  Mera atracção virtual, indicativo da sua própria impotência?! Mais um produto desta sociedade desastrosa, que só  gera aberrações! Lixeira de todas as classes sociais. Palavras, leva-as o vento ...Censurável  formato de  homem! ! Se pudesses.... dizes bem,  Ui, ui, ui... não passas de um  embuste!

Alfredinho,  descurti-te imediatamente à leitura da mensagem... sou muito jovem para perder tempo com homens do teu género.  "Alfredos, há muitos seu palerma".  E, um  Alfredrão , cujo espetinho é  uma máquina masturbatória que provavelmente  nem sobe... No reservatório ainda existe espermacete ? Duvido! Essa substância esbranquiçada, a do Cachalote  ( cetáceo) tem utilidade,  na confecção de velas e cosméticos!Sabias? ! No teu caso, não passas de um rato falido!  Ui, ui, ui  sinto pena dos teus descendentes .  Alfredinhos idênticos ao pai... gerações inteiras de seres todos iguais; seitas de anormais. A  inteligência do engate, o isco; escrever de forma aparentemente singular e extravagante  , mesmo que seja por enigmas insensíveis, que nem sentido te fazem ... quanto mais ininteligível , mais elas gostam, não resistem  à  magia dessa prosa refinada, do prestigiado autor, assaz cobiçado! E eu sei que o Alfredinho  possui bens e tem muito dinheiro, faça o que fizer,  a alma conspurcada  mas isso pouco importa!  Elas embebedam-se e deliram com esses textos,  Dro Alfredo, arquiteto de profissão, os versos   atiram-nas  aos  píncaros, efeito idêntico aos alucinógenos! Que proeza! É uma verdadeira honra alinhar nesse uso mútuo, um prazer comê-las,  e elas comerem-te. Que satisfação! Dá para arrotar? Um homem não é  de ferro, bolas ! Virtualmente falando!   Depois, tu e elas, no dia da Mulher, agitam  a bandeira, em prol das desafortunadas. Mulheres, especialmente aquelas vítimas  de assédio, de perseguição, de  desrespeito,  vítimas de agressão ,  de violação...  Quer pela navegação virtual ou  na vida real. Alfredo,  é muito louco e muito contraditório!  As mulheres que babam para o  teu  tipo, são machistas como tu  e, olha que há  muitas por esse mundo fora. É  como aquele actor; " chapadas de mão aberta" em mulheres porque elas " querem ter sempre a última palavra" ." O, 007 gostava de encerrar discussões com a mesma violência que usava nos filmes. E nada disto vai manchar a carreira deste homem!" Leste a notícia?  O mito está lançado há muitos anos!  Quem assistiu fechou os olhos. Se fosse um homem banal  que fizesse com a mulher, a reputação ficaria logo arruinada.
Quanto a ti; ui, ui, pêlo ralo, o monstro já vai nu!  Aí sentado,  as banhas de fora, calças arreadas, às  dobras no chão,   as ervilhas podres  de fora, e a  batata disforme na mão... murcha como um figo! O quarto fechado à  chave, só tu e as tuas taras e manias...
Alfredinho, como  irias esclarecer, não é?... ui, ui, ui... wait a moment,  a tua mensagem é  um descarte total!? Toda ela! Medricas! Ui, ui, ui wait a moment, nem um pedido de desculpas?!  Nada ?! proposeste-me uma visita?! " Proposta Indecente" . Aliei-me à  Alcinha Barbuda,ela deu -me um jeito aqui, o cunho pessoal é  meu ...Ui, ui, põe-te fino,  .. quem sabe, agora  assustas-te a sério,  Imagino uma  diarréia mental, começa já a ficar preocupado! Arranja um lençol para os suores frios! Treme todo e corre às  fraldas;  vais -te mijar  abundantemente  e cagar ainda melhor, qual prisão  de ventre?   
Andaste a brincar com a Quina Esteves Assunção Grelo! Agora é  a minha vez de brincar com o Alfredo Galante do Pinto Valente
Relembro-te que sou a
Quina! 

PN 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Alfredo

 

Quina, minha sorte!

É  verdade, tens razão, adoro-te! meu coração predador seduz e onde mexe é seu mas as minhas unhadas  são  deliciosas ! Tenho cara de Buldogue inglês,  velho, molengão,  faro apurado. Outros comentam que me assemelho a um porco em pé.  Se pudesse salpicava-te toda de beijos molhados e virava-te do avesso... o inverso de ti, não sei como é, gostava de saber! Se vives no Boliqueime a arder... será que não tens nenhuma ponta queimada ou em cinzas?
Minha riqueza, quando sugeri um perfil falso, era para eliminares o teu. Porquê?  Quina, não me convém essas investidas avassaladoras nos comentários, nos likes. És sempre a primeira em tudo!  dessa forma levantas suspeitas e cá em casa  começaram  a buzinar os meus ouvidos de  perguntas! Propões cartas?! Nem pensar, lindeza! Se apanham alguma, fico sem pêlo e olha que já  ando ralo da idade! O meio mais fácil e prudente é  o Messenger,  apenas este, antes de desligares o PC , apaga todo o histórico da nossa conversa, nada de  indícios e nada de fazer beicinho, está  tudo armazenado na  memória, isso chega!
Quanto ao "moço", forma como te referiste a mim, quem me dera... ter novamente trinta e dois  anos... a foto de perfil está  desatualizada, desculpa meu bem! Entretanto,  os anos passaram e tornei-me  um velho inchado e grávido, do alto dos meus sessenta e sete anos.  Visto um número enorme de calça e é  complicado encontrar nas lojas, é preciso mandar fazer.
Por lapso, esqueci de mencionar que sou casado, um casal de filhos, avô de dois netos.
 Aqui, encontro-me cercado pela família que muito prezo, amigos, conhecidos e confesso-te que pretendo continuar a parecer o que eles julgam que sou; um marido extremoso, um pai atento e um avô respeitável.  Há coisas que  não  penso mudar em mim...
Declino o teu convite, minha delícia, para encontrar-te em Boliqueime. Como   justificaria a minha ausência?  Que pretexto credível para me deslocar de comboio, até  aí?  Mentir não é o meu forte!  Agora, imagina o  convite em sentido  contrário  ! Sim, poderias vir de comboio e apearias na antepenúltima estação,  apanharias um táxi e seguirias diretamente para a minha casa de campo, assim que avistasses a moradia, despacharias o motorista,  ... em pouco tempo chegarias e eu esperar-te -ia lá! É   uma casa acolhedora antiga, bem decorada, património dos meus avós maternos,  isolada, distante de tudo! Mesmo  ideal para uns dias paradisíacos,  nós os dois...  já  me vejo lá  contigo! Só  de pensar, babo todo! É um lugar que procuro com alguma frequência,  quando necessito de isolamento...
Nota bem, poupavas dinheiro em pensões , em residenciais , em hotéis.  Nós,  lareira acesa em pleno Inverno,  altura em que praticamente está toda a gente a trabalhar, tu pedirias uma dispensa para tratar de assuntos pessoais,  sei que te encontras de serviço aos  fins de semana...
Em relação às terroristas, deixa-as comigo,  sei como afastá -las do caminho, venham todas... cá estou eu de braços abertos e bomba na mão! 
Olha, Quininha, não encontrei o teu blogue... depois explicas-me melhor, certo? Descreves esse lugar...tens cá um sentido de humor, engasguei- me de tanto  rir e urinei-me todo! Vais dizer que é  caso para começar a usar fralda? livra-te!
Eu também tenho um blogue; " O Cobardolas". Aviso; conteúdo para adultos, julgo que gostas de apimentados. Longe de ser uma revelação extraordinária; apenas mais um porco como muitos outros, mas  sem admitir que sou, ... nós gostamos de fantasias, de revistas porno, de vídeos, e de  mulheres  despidas. 

Quina, a sério, talvez seja aconselhável afastares-te um bocadinho, não te prendas a mim;   sou vulgar, acredita, embora aparente o contrário. Um perfeito  filho da puta e quanto às   exibicionistas, descaradas, atiradicas, oferecidas, muito piores que as putas com quem me cruzei. Era eu um garoto de  quinze anos,  e uma  gaja casada insinuou-se para  mim e segredou-me ao ouvido: ..".é  preciso ter quilhão preto, aproveita-me bem, meu ursinho".
Entretanto, expõe as tua opinião ,  se  mudares de ideias quanto às nossas brincadeiras, prometo compreender  a tua decisão.
Caso contrario, no Messenger; A casa dos nossos segredos.
Do teu, que te adora.

Alfredo  Galante do Pinto Valente   

PN 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Quina

 Se eu gosto de ti e sei que tu também gostas de mim e até nos queremos encontrar.  Perguntas-me: "Como fazemos isso?". O quê? Encontrar-se? Basta marcar ! Tu pedes-me  um perfil falso? O meu não serve?  Para quê outro? Então,  espera aí; Daqui ;   Quina Esteves Assunção Grelo,  sítio do Boliqueime, rua das Pichas Murchas da Azinhaga das Peitudas.  Não  tem número porque é a única porta do lado da casa do padre Inácio,  primo do Basílio Bonifácio.

 Agora, já  me podes responder? Envia uma carta que eu pago o carteiro. Fica bom assim? Pronto! Um abraço e continua para a frente que para trás, mija a burra e cheira mal. Gostei do poema, só  que se vê muito mal, as letras estão só nos comentários? Também gostei da mensagem da Alcinha Barbuda que deve ser terrorista, tem cuidado com as oferecidas moço, outra coisa, não aceites amizades de mulheres de bigode, são danadas,  dão-te a volta aos cornos  e mandam em ti.
Depois diz qualquer coisa e visita o meu blogue ; é o Boliqueime a arder, não há nada a perder, fala sobretudo da nossa terra; das plantas secas e do campo erradio. 
A terra não é muito boa, de qualquer forma chega  para o que cresce...   estrume para adubar os terrenos, onde nascem ervas para o gado,   depois matamos os porcos a guinchar...para não falar nas galinhas a andarem sem cabeça e no tanque temos peixe morto.
A ver se nos encontramos um dia destes , no Boliqueime em cinzas.
Beijos da tua Quina. 

PN 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Haverá feitiço?

 

As nuvens aguareladas descem bêbadas de alegria
são ainda rapariguinhas novas e leves;  baloiços sacudidos
brandamente pelo vento, baloiçam-se suavemente  e lançam-se
sozinhas  céu  aberto...
... pés de bailarina desengonçada,  esticam-se e rasgam o ar , flutuam
desacertadas...
Uma seta de cupido enganosamente, enterra- se
num galho
 A donzela, estendida ao relento,
no sopé da árvore, dorme um  sono profundo
respira tranquilamente de boquinha aberta. O  fruto
tomba e estatela-se entre os lábios. Assustada e aflita ergue-se, tronco acima ...
O fruto salta-lhe da boca  sem freio e vai parar, cristalino, às  mãos do vidente que se ri feliz, da sua sorte. Examina atentamente   e torna a examinar  a poderosa bola de cristal, que vaticína a chegada de um príncipe
Um jovem destinado a ser  líder ,  não  sem antes  passar por provações com sabor a sangue, a fel, a mágoa ....! 
Pranterá lágrimas de dor e desencanto
Será traído e humilhado, cuspido e escarrado, depois  de caído, erguer-se-á um homem novo,
limpo,  diferente, cauteloso, pronto para desafios e ciladas .
O seu coração  há-de compreender o valor do perdão, o valor do amor,
  o valor das pequenas coisas e outros mais em desuso...
Repentinamente, a bola de cristal salta sem aviso e rola apressadamente
enquanto o vidente,  persegue-a em bicos de pés , receoso  do pior...
Tenta alcançá-la com dedos de pinça,  gatinha no chão mas a bola de cristal é  redonda, lisa e veloz...
Apesar das artroses, da lombalgia, da cervicalgia, das contraturas,
...que o apanham por inteiro,
levanta-se desajeitado e não  desiste de alcançar o precioso  achado
que lhe veio parar às mãos
Entretanto,  o pé resvala sobre o esférico e o corcunda perde
o equilíbrio,  cai de costas... a bola segue indiferente o seu percurso,
A arfar doidamente e num esforço medonho, o rosto  descorado, enrugado como uma folha de papel amarrotada
põe-se de pé zonzo ...
ainda assim, persegue-a
O seu ângulo de visão permite ver uma falha grande  mais à  frente
antecipa o pior, ainda tenta um esforço  derradeiro
Mas a  bola rola, salta  e precipita-se para lá :
- Não, não,  não pode acontecer e o feitiço!?- a voz fina, enrouquece desalentada...
Estende-se ao comprido,   finca o olho escuro, por outro orifício, mais perto de si... Nada!
Na queda vertical,   o cristal desfaz-se e esmaga-se sobre a testa de um passante que,  pisca os olhos estremecidos, resvala até à ponta do nariz.  Não é tempo de chuva  ... É tempo de sol. Admiradíssimo, ergue as duas luas a boiar,  leva os dedos ao nariz molhado, uma bola de sabão, cheia de água!? a interrogação; de onde teria vindo? !Provavelmente uma brincadeira de criança...  de um qualquer andar, dos edifícios citadinos.
PN

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Instantâneos

Antes de subir o tabuleiro da ponte
no início, do lado esquerdo,
há  uma árvore esguia,
tronco fino; pinceladas amorfas.
Nela, avisto folhas; algumas  cruelmente queimadas 
ou as tratadas com aspereza e perseguidas...
outras ;muito amarelas, enfrentam os últimos dias
 certas;  quase negras, exóticas, beleza rara,
as  verdes; tonalidades exuberantes ; pouco frequentes
Dali, colho um pensamento
demasiado estranho!
  Sem ser ácido,  um  doce indefinido ...?
Amargo ? definitivamente não! 
Reencarnação?  Creio pouco nessa versão
 Assalta-me esta sensação efémera
assaz profunda, de tão intensa e minha...
Inexprimível , secreta, íntima...! 

PN


quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Sofrido

Apesar da voz vociferante,   olhos pouco iluminados; vindos do fundo do tempo, a face; ondas alterosas, semblante  anuviado e densamente povoado. Todavia, merece um bocado de céu... Tem de haver salvação para um confesso oculto contrito.
PN

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Cúmulo da estupidez

É  inadmissível saber a verdade, ver a verdade e fingir acreditar  naquelas  verdades alicerdadas em mentiras,   e ,de tanto se  mascarar do que não se é , acabam- se tornando em verdadeiros  fingidos, feios e escuros.
PN

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Medos que desconhecia...

Aconteceu inadvertidamente,  as pontas dos dedos tocaram-se
Não sei a minha expressão ...
a tua fisionomia alterou-se e ficou
dura, séria,  o rosto  encarquilhado
escuro, os olhos secos de pólvora...a rebentar pelos maxilares.
Percebes agora a tua impossibilidade?
PN
( episódio pré Covid)


Art Institute of Chicago- left eye detail

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Sabes,

Que te desejo por inteiro, e quando  sorris  vejo mais
do que julgas,
Não é  só  dentes brancos,   olhos esverdeados, cabelos selvagens
Voz grossa e rouca... barba farta.
É também !...
  É saber-te a par, suporte amigo, inquietar-se comigo.
A tua franqueza comove e  quando estás a meu lado, é  tudo verdade;
o que me fazes sentir... e onde vamos!
Puxas  e eu confio, aceito o desafio!
Os abismos para onde me levas são altos!
Provocam calafrios, ousadia, o meu corpo arde...
Um mundo povoado de imagens
Vertigem... e quando te atreves a descrever
aquelas cenas loucas que te sobem à  cabeça,
sem qualquer pudor, solto-me ainda mais...
Gosto de te escutar enquanto vamos desbravando
terreno suado, gozo pelos poros bordado...
É  tudo tão fiel; uma boca com fome de outra boca...
cumplicidade!
Depois  do alvoroço é  seda sobre nós, sossego, rumorejo baixinho das nossas vozes...
Espreguiçamo-nos, esticados  e felizes,  olhos nos olhos.
Num salto, corres e trazes
à  cama: frutos, café,  pão, queijo, biscoitos...
Rimos deliciados e os teus lábios soletram e repetem:
-Amo-te, amo-te, amo-te!
PN

Internet





domingo, 12 de julho de 2020

Lígia!



 Artista: Cécile  Desserle

Lígia,  ainda estou a repensar... a remoer no último encontro; até  as paredes da minha casa silenciaram ante a  nova  consciência de nós dois.   Juntos, seria um  completo absurdo. A  diferença  de idades, tu querias coisas, que a mim,  não vibravam. Soltei a verdade,  abri o jogo, só  no núcleo íntimo, devia-te isso, devia-me isso.  Fui surpreendido, subitamente as minhas palavras  lavraram  terreno ,como um incêndio, um fogo em busca de mato, de alimento. Porquê, Lígia? Porquê esse mar de lágrimas?   Saltaste do teu lugar e desataste aos berros,  nem me deste tempo para justificar melhor as minhas razões, agarraste a bolsa e bateste com a porta na minha cara? !Julgo que procuraste o colo da tua mãe e logo, logo, a dor torna-se passageira.  Oh, Lígia,   era previsível o desfecho!   É  fantasia minha; ou a causa desse dramalhão é mesmo o  fim deste hábito que impusemos a  nós mesmos? Não  pode haver outra razão  !   Sabemos ambos que não há !  Ou então choras por outro motivo que desconheço.  A falta de interesse, o clima  pálido que nos vestia, cada um voltado para os seus interesses! Ao pequeno almoço,  ocasião para nos olharmos e dialogarmos, o pouco tempo, os corpos perto, as almas distantes; eu a ler o Diário  de Notícias,  tu entretida ao telemóvel! Quando tentava abordar algum assunto que me perturbava,  tu respondias com o que observas nos murais dos teus amigos! Por favor, Lígia!  Um beijo apressado e cada um desatava a correr porta fora para os respectivos empregos. Felizmente não tivemos logo filhos . Que  caminho era este? Até na hora de nos enfrentarmos nus, sem cobertas, nem lençóis, apenas dois corpos que se queriam agarrar,  que se queriam apertar, que se desejavam roçar um no outro,  a epiderme a chamar  os lábios sorvedouros e a língua convidada a lambidelas mornas...e logo o teu brinquedo despertava,  naquele som  estridente e irritante  ; ora, era a tua mãe... ou a tua tia, ou o teu irmão ... ou uma colega de trabalho a pedir-te explicações ,  ou uma amiga a querer conselhos. Faltava a desfaçatez de me dizeres na cara que a cadela lá de casa lamentava por não te  ouvir e as suas vocalizações agudas e frustradas, agoniavam-te ... Lígia,  a culpa era  tua,  eu ali à  espera que tu te decidisses... como se não existisse outra ocasião mais opotuna para te ligarem . É  óbvio, quando estes comportamentos se repetem , tornam-se  hábitos...  e depois, nenhum de  nós  já  sequer teria   forças  para apanhar as  sombras de um e de outro e mudar-lhes o destino.  Assumimos  o arrefecimento   sem nos preocuparmos ou refletirmos .
Porque  choraste tanto,  Lígia?  Nos meus olhos não havia nenhuma água para correr. Nem resquícios de   mágoa ou dor , apenas  senti que não tínhamos nada para dar um ao outro . A minha idade foi uma vantagem, sendo muito mais velho, sou mais racional e tive outra  maturidade que um dia alcançarás e hás-de perceber a minha atitude. Amanhã, essa  dor passa, passa de certeza.
Lígia,  neste  brando tempo, quero estar sossegado. Confesso que vou guardar tudo o que vivemos, quer em fotografias, quer na minha cabeça. O teu lugar, ninguém subtrai ou subestima .
A  página virou, novo capítulo vem por aí,   tempo para estar  solteiro e sozinho  mas quem remexer nas minhas notas, aquelas que um dia tenciono reunir em livro, encontrar-te-á de certeza.
 A minha gratidão, por tudo aquilo que me fizeste sentir e no homem que ajudaste a erguer cá  dentro, é  imensa.
Não penses que te livras de mim facilmente,  como se de um um objecto obsoleto se tratasse, que já  não faz falta.    Preciso da tua amizade,  prezo esse sentimento,  nutro por ti  um grande respeito e carinho. Sobretudo, nada de confusões com outras relações do passado, eu não sou  desses que te voltaram as costas, que desavergonhadamente foram próximos e posteriormente  regressaram estranhos...  Espero para te refazeres, terás o teu tempo. Depois disso, procurar-te-ei.
PN 
 

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Grande parangona

Imagem de um filme " A tempestade" - NET

Amedrontados com o forçado anacronismo
Dos  argumentos  eruditos  e sapientes
A terra, fica a perder com a criação
Deste abocanhar constante e desavergonhado
Como se não pudesse aflorar
À memória colectiva, algo semelhante,  em chuveiros  de gaz
Sob ordens dementes, marchas de soldados drogados.
A audácia carece de atos extraordinários
De ousadia,  contrária a este entorpecimento,
Esta  escravidão a que submetem os mais incautos
Ou os que se servem inescrupulosamente  das contrapartidas
A pulga, mexe e remexe atrás da orelha, há  quem a sinta,
Mas acredite em especulações  prontas a vender.
Nada como uma moléstia  complexa e incaracterística
E assim o quintal é  varrido por um vendaval desconhecido,
e a população atirada ao chão. 
Após  uma, há-de chegar outra, sem comprometer
Os donos desta farsa infame  e mal encarada
À viva força  de repetir uma cartilha bem estudada
torna-se verosímil! 
E esta  amofinação  a que nos querem submeter
Que abalo histórico, um  verdadeiro maremoto !
Um levantamento gigante, engendrado por nuvens sinistras
Tão cedo auspícios menos enganadores, não seráo possíveis
Quem irá  sarar as sequelas daqueles que, não obstante, 
Ainda conseguem ruflar, dobram a espinha,
amolgam-se para endireitar?
Apesar do ruído  confuso, o medo despersuade
Paulatinamente os mais  sinceros, honestos , honrados
Nesta panóplia de jogos pautados por riscos incomensuráveis.
PN






sexta-feira, 12 de junho de 2020

Edgar Morin

Por F. L

Segundo Edgar Morin ; Isto já  não vai lá  com uma revolução. É  preciso uma drástica mudança de paradigma.
 É  um filósofo muito conhecido e tem um livro publicado que se intitula :
" Mudemos de via"
Esta globalização muito assente em paradigmas econômicos.... temos que criar aqui uma eco política e nós  próprios também temos de começar a mudar os nossos estilos de vida e encarar as nossas relações interpessoais de uma forma diferente,  uma era humanista, fala das várias solidariedades que devem ser criadas entre grupos mas depois de indivíduo para indivíduo,  deve partir de cada um de nós...

quinta-feira, 11 de junho de 2020

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Palavras de um coletivo consciente

Acredite se quiser! "Não  há  fumo sem fogo". Que futuro nos reserva,  esta panóplia crescente de tecnologia e mais tecnologia.  E a Fome e a Miséria,  portas adentro?! Além de outras muitas misérias.  Meu Deus, em que mundo vivemos?
A tecnologia 5G é uma catástrofe desastrosa para a saúde,  e pode trazer o apocalipse. A isto chama-se, má  ciência.
( O texto não é só meu )

Imagem roubada à  NET 

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Por G. A.

" Como muito bem disse o presidente do Tribunal Superior  Federal ,Luís Roberto Barroso, respondendo ao disparatado; é preciso armar o povo de Bolsonaro sim, é preciso armar  o povo de Educação,  Ciência e Cultura. Eliane Brum ,autora do livro, "Brasil construtor de ruínas ". E colunista no  "El País "lançou um aviso : Bolsonaro é um problema do planeta , não só do Brasil. "

Nota minha :  Subscrevo o argumento acima, acrescento, não só para o Brasil, à  escala planetária. E acrescento outro pormenor que considero importante; Educação, Ciência  e Cultura, e , primeiro que tudo isto, introduzido logo nas escolas; Saúde Mental! Um plano para salvar cabeças! 
De nada servem as outras se a principal falha !

Jornalista- " Olhamos agora para a informação, para as notícias, a nossa matéria prima diária, é  verdade que a tendência já  vem de trás,  nesta pandemia acentuou-se, claramente, somos bombardeados com números,  gráficos,  estatísticas, mas já chegamos a um ponto que a informação não produz necessariamente conhecimento."

" Sim, temos que pelo menos sobreviver ao tsunami e não estou a falar da onda pandémica , nem sequer a tempestade economia e financeira que temos a noção real do quão  gigantesca poderá ser. Estou mesmo a falar do ritmo avassalador de informação que paradoxalmente nos confunde, é  galopante, não vai parar, vai até agravar-se  exponencialmente com o aumento do acesso digital e com a perspectiva da implementação do 5G, Jesse Smith, da Google, uma das pessoas que pensa melhor sobre estas coisas, lembra que nos últimos dois anos foi conhecida tanta informação como em toda a história da humanidade até 2003, não fica por isso difícil imaginar que chegaríamos a uma altura em que nós, humanos, perderíamos o controlo e a capacidade de assimilar aquilo que é produzido,  daí a importância crescente  da análise de dados e da gestão da  informação.  Um ponto óptimo na relação e na quantidade de informação e produção do conhecimento,  há  muito que terá sido ultrapassado,  quanto mais informação for chegada,  se ela não tiver filtro de explicação e contextualização, pior será para a apreensão do conhecimento. 

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Depois do jantar


Género - crime
Imagem retirada da NET

Em pleno Agosto, ondas adocicadas aquecem a epiderme, despertando estímulos inexplicáveis e inexprimíveis.  Nada de irremediável ou insuportável, pelo contrário, sente-se qualquer coisa de espiritual, de imortal, de longevidade.
A vir, uma penumbrazinha, a claridade a declinar, como a idade ao fim da tarde.
Os três automóveis seguem em marcha lenta, com pequenos intervalos entre eles.
A certa altura rodam à esquerda e iniciam uma suave inclinação, quase impercetível. Uma estrada velha, revestida de pedras pequenas irregulares, com algumas elevações acentuadas. As rodas bamboleiam numa dança entre subidas e descidas, mais à esquerda, mais à direita tal qual barquinhos navegando em alto mar.
Do lado direito, raras habitações de tempos remotos, algumas abandonadas. Do lado esquerdo, terreno inculto e mal cuidado.
Até que os automóveis refreiam mais ainda. Dois dos condutores debruçam-se da janela e acenam um ao outro, à procura do melhor recanto para estacionar.
  Um dos carros entra diretamente por um portão grande que se abre, enquanto os gonzos rangem perros.
Quando as pessoas se encontram, desatam aos cumprimentos, abraços e exclamações. Sobem a escada de pedra com um corrimão do lado esquerdo, e, mais ou menos a meio, do lado direito, uma porta aberta, vão por ali.
A tia Madeleine guia-os à sala de estar e convida-os a instalarem-se nos sofás e nos cadeirões.  Tudo ali é antigo, de outras gerações, com algumas adaptações modernas, para os convidados se sentirem confortáveis e ela também.
Há sorrisos, risos, gargalhadas, conversas paralelas. Madeleine vai para o bar, abrir garrafas e retirar copos, e deixar a descoberto os doces sobre a mesa de vidro grosso. Ali, existe grande harmonia entre a mobília, objetos decorativos e cores.
Ela é a anfitriã: alta, cútis escura, cabelo negro, médio, charmosa, roupas compridas, claras, largas e leves, bijuteria nos pulsos, no pescoço, nos dedos e sandálias elegantes nos pés.  Olhos castanhos mel, atentos a todos os pormenores, muito observadora e extremamente exigente, inteligência analítica e perspicaz; uma capacidade que a maioria das pessoas não gosta, deteta e corrige erros e opostamente, em certas ocasiões, manifesta grande ternura e sensibilidade, até chegar às lágrimas. Esconder-lhe algo? Nem pensar, detentora de uma mente penetrante, sem nunca revelar os seus segredos e planos. Muito moralista e grande ditadora, até atingir a provocação e a crueldade, duas pessoas da família estão na mira:
- Sortuda, a vida corre-te bem! - desata Ellen, a irmã do meio.
- Não me enerves, a paciência para te aturar, já falta! - replica enervada.
- É preciso isso, mal posso abrir a boca, ficas uma ursa! - argumenta
- A vida corre-me mesmo bem, e queres saber a razão? Sou inteligente, esforcei-me para fazer um curso superior, sou excelente profissional, competente. Adoro o Lawrence, igualmente realizado, tenho dois sobrinhos maravilhosos, uma irmã, que embora viva no estrangeiro, é muito amiga e confidente. E quando vou lá nas férias e fico na casa dela, sou muito bem recebida. Que mais posso desejar? Vês! - exclama triunfante e sorri cínica, enquanto distribui outros risos à mistura, mais simpáticos, aos convidados, pois, é mestra na arte de dissimular.
- Ora, tens tudo! Não é!? A Emily concorda com tudo o que fazes e dizes, por isso gostas tanto dela! - remata alterada
- Sem vergonha, a violar a correspondência que ela me enviava! Tu e a tua filha! - acusa irada, os olhos sempre sorridentes para os presentes.
- A July fazia-o porque lhe pedia. Tu e a outra conspiravam nas minhas costas!
- Invejosas e ciumentas, aconteceu apanhá-las às duas, linda coisa! -  termina triunfante
- Não metas a minha filha nisto. Assumo a culpa. Sou invejosa?! Ou é uma questão de justiça?!
- O que o pai fez foi justo? Beneficiou ambas e eu fiquei de fora! Porquê?
- Róis-te de inveja! - troça
- Estás a rir de quê?  Então o pai em vida passa o património todo para vocês as duas e eu? A não ser que eu seja fruto extraconjugal ...
- Disparate! Logo aquele homem, mais fiel à mulher, não conheço. Tinha as suas coisinhas, mas nesse aspeto, jamais! O que o pai decidiu, está decidido!
- Está decidido porque não foste tu a prejudicada! Eu não presto, sou tudo de mau para ti, mas vives na minha casa! Olha que contradição!
- Deixa-te de merdas!
- É mentira? Há quantos anos instalaste-te lá e nunca vieste para aqui? Metes-te em tudo, dás palpites, mexes e alteras o que te apetece! As refeições fazes na minha casa, até dormes lá!
- Tens muito que me agradecer! Aprendeste tudo comigo! Não tinhas gosto para nada! Eu investi na tua casa! Se não fosse eu, coitada, triste de ti!
- E se não fosse eu, o que seria de ti? Esta casa é só para passar férias. Ambas as partes, ganharam. És egoísta, só tens olhos para o que fazes. Se fosses honesta, dividias a tua parte comigo:
- Nem penses nisso! Agora sai daqui, quero ver pessoas bonitas e ouvir coisas bonitas.
- Tu... - articula num tom de ameaça.
- Eu o quê? - interroga cáustica
- Nada! - responde já de costas
- Ainda bem! - murmura vencedora
A realização de Ellen é ficar próxima do ninho e das pessoas emocionalmente mais importantes para ela.  A família é a sua grande fonte de sustentação, por isso nunca se coloca a si própria em primeiro lugar e por conseguinte, não cuida da sua imagem.   De qualquer forma é muito bonita, beleza selvagem, dir-se-ia sensível, carinhosa, emotiva, mas pouco racional, admirada pela coerência, doçura e simpatia, porém, numa total dependência das relações afetivas, o que a prejudica enormemente.  Natureza nostálgica, pois prende-se demasiado a relacionamentos passados. Ninguém diria que entre as duas, lá atrás, existira uma grande cumplicidade, uma grande amizade. Se bem que, Madeleine, fora sempre a comandante, a mandante e a atmosfera era tranquila porque a natureza pacífica de Ellen permitira que a outra tomasse as rédeas da sua própria vida.
A certa altura, Madeleine trocista, ridiculariza a irmã, a sobrinha e o cunhado, arranja pretextos para enfatizar os defeitos, as preferências deles, as ideias, a forma de viver e consegue os seus intentos, ajuda inclusive, a destruir o casamento mal sucedido da outra.  Transforma-os em três falhados, três inseguros, três frustrados, três revoltados e todos dependentes uns dos outros, inclusive, ela própria.
É penoso para Ellen, ver a filha ser tão maltratada pela irmã e o sentimento de culpa aumenta, quando ela própria, tão protetora, se deixa manipular pelos argumentos convincentes da outra e confusa, baralhada, sem chão, chega a ser, ela também, cruel com July. Tem a noção que não deseja ser assim, mas como fugir? Madeleine espicaça- a de tal modo que gera em Ellen, sentimentos contraditórios para com a filha. É uma espiral para a qual se vê sugada e sem forma de fuga.

A tia Madeleine respira fundo, exibe um riso desmedidamente feliz e desconcertante, e dirige-se para onde está a amiga, Christine, de repente interpôs –se Vicktor, o sobrinho amado.
- Tia, posso falar consigo num lugar mais apropriado?
-Vicktor, podes falar aqui mesmo, ninguém escuta, olha, já discuti com a Ellen...julgas que alguém percebeu? Faz como eu; semblante natural e ar de festa!
- Queria pedir desculpa pela discussão que provoquei! Mas discordo da sua decisão!
- Querido, escuta, não há segredos entre nós.  Adoro-te, mas tens de aprender a gerir melhor o teu dinheiro.  Telefona-me sóbrio, caso contrário, desligo. Já desembolsei muito para te ajudar. Chega!
- Faz isso porque casei com a Lilian!
- Vicktor, estás a misturar tudo! Sim, assumo que não suporto a caça partidos!
O rapaz fez um ar desagradado ao ouvi-la falar da mulher.
- No que respeita a te dar mais dinheiro, a fonte secou, para ti, e para a tua irmã. São os dois com a mesma conversa. Apesar das desavenças que tenho com a tua prima, July, ela jamais me pediu nada.
- Agora já a defende?
- Não estás a compreender, meu amor. Arranja outro trabalho, surgiram-te óptimas oportunidades, deixaste escapar uma a uma! Escondes-te atrás das saias daquela...
- Tia, eu não admito que se refira...
- E não é óbvio?  - o tom é firme, os olhos continuam sorridentes.
- É a sua última palavra? Neste momento preciso com urgência!
- A conversa acaba aqui, Vicktor! Ama-me pelo que sou e não pelo que tenho. Fiz muito por ti, rapaz. Acorda! Desiste de estragar a minha noite, não conseguirás os teus propósitos, sabes - encosta os lábios ao ouvido esquerdo do jovem- estou muito feliz, aproveita tu também para te divertires!
- Se fosse a si, não tinha tanta certeza - dispara seco
- Certeza de quê?
- De que vai terminar esta noite em grande!
- Tens dúvidas?  - ri-se ainda mais
Vicktor junta-se à irmã a congeminar, os dois com cara de caso.
Madeleine apercebe-se e aproxima-se dos dois, mal se senta:
- Desamarrem essa cara, os dois!  Ou então são convidados a sair. Hoje, os problemas ficam lá fora! Já basta ter de aturar a tia Ellen.
E levanta-se rapidamente. Sempre com o mesmo ar, bem disposto.
Era do conhecimento geral que Vicktor sempre fora o menino bonito da tia. O confessionário dela. Um rapaz inteligente, responsável, diplomático, com grande tendência para harmonizar os contrários. Muito atado no que respeita a tomar atitudes com mais pulso.
Anna, é muito compincha do irmão; entre os dois existe muita cumplicidade a nível de pensamentos, planos, ideias. Os dois muito semelhantes, duas autênticas sanguessugas, em termos de extorquir dinheiro à tia. Servem-se dos sentimentos para esse efeito.
Anna ama e odeia a prima, July! Compete com esta, para lhe mostrar a sua superioridade, gasta muito dinheiro em roupa e assim alimenta a vaidade. É exibicionista e pedante, a imitação de Madeleine, embora fisicamente seja o oposto; baixa, atarracada, forte como uma foca, óculos grossos e olhos grandes, de peixe. De charmosa; nada, nem bonita, assemelha-se a uma cadeira desengonçada. Sempre de olho na prima, mais parece um cão de caça; Anna é melhor que a outra, veste melhor que a outra, tem mais amigos que a outra, a família gosta mais dela do que da outra. Tem uma tendência terrível de querer mais dos outros do que é razoável, procura a sua verdade acima de qualquer outra coisa. Por vezes é mesmo rebelde e imprevisível, dir-se-ia que quando perde terreno, chega a ser mal educada, encena esgares inapropriados à sua idade; faz birras. Depois, muda para a menina    bem comportada; teatraliza e gargalha para mostrar que nada a afeta.
Finalmente passam à sala de jantar. Sentado em frente à namorada, Lawrence; não cabe em si de feliz! Exerce medicina, um médico bem conceituado, interessante, bom orador, eloquente, capaz de seduzir plateias. Mais baixo que a namorada, pele escura, cabelo curto e farto, bigode meticulosamente tratado, aparado e grosso, rosto bem cuidado e boa aparência.
O jantar decorre satisfatoriamente, com a mesma animação, mas mais contida. Cruzam-se olhares apaixonados, ou mesmo faiscantes, ou mesmo desconfiados, ou mesmo zangados, ou até mesmo fulminantes.
Lawrence observa discretamente Christine, algumas vezes, enquanto decorre o jantar e apercebe-se que Christine observa discretamente Madeleine durante praticamente todo o jantar. A certa altura, Lawrence inclina-se para a namorada e comenta:
- Já viste a cara do Andrew, babadinho, de um lado a Christine, do outro, a July!
-Pois, a July dá-lhe atenção, são muito amigos. Adoram-se há muito tempo, se a Christine faz-lhe elogios, ele fica assim, caidinho... é muito novo e ingênuo!  Mas é bom miúdo, gosta de rir, contar piadas...
- Deixa lá, até eu, vai amadurecer com calma, sonhar, levar pouca coisa a sério. Os jovens são mesmo inconstantes, hoje sim, amanhã não! Depois talvez… Têm tempo para aprender!
- O jantar acabou, vamos anunciar o nosso noivado?
-Sim, boa ideia, mas já a seguir vou dormir um bocadinho, faz-me falta!  Depois vai haver bolo.  E vamos fugir…
- Vamos fugir para onde? – pergunta rindo
-  E se fossemos à “Danceteria", concordas?
- Gosto da ideia!
-Então vamos lá anunciar o nosso amor!
Levantaram-se os dois, a tia Madeleine, bateu palmas para chamar a atenção!
Anuncia o noivado com Lawrence, e este enfia o anel no dedo dela, e ela faz o mesmo no dedo dele. E, foi um momento de exaltação: Andrew desata em voz alta:
- Beija, beija, beija!
Os outros riem-se e apoiam o jovem!

Quando Lawrence abraça e beija Madeleine nos lábios, por cima do ombro desta, os olhos dele encontram surpreendentemente os de Christine; sombrios e dardejando faíscas. Embaraçada, afasta os seus imediatamente.
Madeleine aproveita a ocasião para explicar que após as refeições retira sempre uns dez minutos para dormir, precisa daquele sono, fá-la sentir-se melhor. Por isso pede compreensão aos presentes e obviamente ninguém se opôs.
Vai a sair, Lawrence segura-lhe a mão:
- Queres companhia, amorzinho?
- Não querido-  segura na mão dele carinhosamente e sorri maliciosa - Não é boa ideia, preciso mesmo de dormir e já te conheço, maroto!
E desta forma deixa a sala de jantar e recolhe-se no quarto de dormir.
Entretanto, os convidados resolvem sair e dispersam-se todos pelos vários cantos da casa.
Mãe e filha, Ellen e July, encaminham-se para o pequeno balcão, que fica à beira   da estrada.
- Que noite fantástica! - comenta Ellen.
- Uma delícia! - responde a filha
- Ainda estou a pensar nas conversas da tia!
- Sabe mãe, isso não é novidade para si! Há quantos anos...! Julga que nunca desejei morrer...
- Pelo amor de Deus, filha!
- E também desejei matá-la!
- Credo!
- Odiei-a com todas as minhas forças, agora que me apaixonei a sério por um rapaz que me quer bem... as brutidades do pai e as histórias terríveis com a tia Madeleine, passam para segundo plano.
- E pensas ir viver com esse rapaz?
- Depende.
- Vais me deixar só com o teu pai, um homem castrador e a rainha malvada? Deixa-te ficar quieta, os homens não prestam, são todos iguais, entendes?
- A mãe namorou e casou!
- E qual foi a minha sorte? Nenhuma! A única coisa boa que me aconteceu na vida, foste tu filha! - July lança-se nos braços da mãe
- Já pensaste nos namorados que tiveste? Também noivaste com o David e depois, esmoreceu e ele casou com outra. July, és como eu, sem sorte! Tens-me a mim.
- Mãe, tenho direito a ter uma vida própria..., defeitos, quem não os tem?
- Esquece os homens. O amor é como um fósforo, basta um sopro e apaga tudo...
- Vamos entrar, sim? - desagradada do teor do que ecuta, apressa a mãe 
Quando as duas mulheres entram na sala de estar, não há ninguém.  Ocupam um cadeirão e subitamente os  outros também chegam. Até que Ellen aconselha a filha:
-Vai chamar a tia, já cá estão todos! Só falta o Andrew, daqui a pouco, está aí.
-Sim, mãe.
A animação toma conta dos presentes, aguardam que a anfitriã retorne.
July volta só e foi logo ter com Lawrence e segreda-lhe ao ouvido. Este por sua vez vai imediatamente a dentro.
Entretanto Ellen questiona a filha sobre o que possa ter acontecido e ela disse nada saber. Perante a resposta, amarrota o sobrolho intrigada.
Lawrence reaparece, muito transtornado e diz em voz alta:
- Por favor, façam silêncio! O que tenho para anunciar é difícil para todos nós, a July foi chamar a tia e como se deparou com um cenário estranho e não obteve resposta, veio me chamar, fui verificar e é com imensa consternação que comunico que a nossa Madeleine está morta! - palavras proferidas com imenso nervosismo e embaraço.
Cai um silêncio mortal, entreolham-se à procura de uma explicação.
Lawrence, muito pálido, acrescenta que vai acionar os meios hospitalares e policiais. Ninguém pode sair dali.
Vicktor ergue-se como um louco:
- Quero ver, deixe-me passar!
- Lamento, mas não pode!
- O senhor pode estar enganado!
Ellen parece acometida de uma síncope:
-Parem de discutir, pelo amor de Deus!
- Mãe, tome esta água com açúcar, vai fazer-lhe bem!- aconselha e  ela também no mesmo estado crítico
Vicktor avança novamente sobre Lawrence:
- Você pode, eu não posso, porquê?
- A sua tia foi assassinada!  Quanto menos, impressões digitais, melhor!
O rapaz baixa o rosto, e fixa as próprias mãos aterrorizado e a seguir cerra os punhos com força.
- Sendo assim.… e coloca os braços à  volta do abdômen, como se quisesse proteger-se. Depois volta-se e atira-se num pranto aos pés da irmã, deposita a cara coberta sobre o colo e chora desalmadamente.
- E Andrew? Onde está? -  Lawrence questiona e ele surge todo contente
- Estou aqui! - diz com o sorriso a esmorecer dos lábios grossos- Que se passa?
O namorado da tia Madeleine, coloca o braço sobre o ombro do jovem.
- Andrew, a tua tia faleceu- diz devagar e com calma.
- Como?! Não! Que brincadeira vem a ser essa... que loucura! -gagueja imenso
E desata a correr, porta fora, sem que ninguém conseguisse segurá -lo.
-Isto é demais para ele. A polícia vai interpelá -lo...
- Quer dizer que pode ter sido ele? - pergunta Vicktor que levanta o rosto rubro das lágrimas
- Não quis dizer nada, apenas, todos vão ser chamados!
-Porquê?  Que quer dizer- interpela Ellen, sempre muito abatida. Como se de repente envelhecesse dez anos.
- É assim, a Madeleine não faleceu de morte natural!
- Não?! - O espanto de Ellen é visível
-Um de nós, aqui esta noite, cometeu homicídio!
- Meu Deus, que crueldade! Não consigo imaginar quem...- de repente todos os olhares correm a sala, as suspeitas caem sobre Andrew. De qualquer forma os mesmos olhares inquiridores saltam sobre Catherine. A mulher, nem notou, curvada, perna cruzada, o cotovelo sobre o joelho e o rosto apoiado na mão. Os olhos a divagar sobre a carpete fofa.  E os mesmos olhos desconfiados voam logo de seguida para Lawrence.
As autoridades chegam, o corpo de Madeleine é transportado num saco, isso deixa todos abalados. Os agentes fazem buscas, investigam detalhes, mexem e remexem, vasculham a casa toda, a colhem amostras de todos os objetos utilizados. Os presentes estão notificados a comparecer na polícia, no dia seguinte para prestar declarações.

Os interrogatórios levam horas a fio. Ninguém escapa. Nem mesmo Andrew. Atarantado e muito inquieto. Há dados novos e definitivos. O inspetor entrega uma carta a Ellen:
-Da sua irmã para si, encontrada junto ao cofre, onde guardava as jóias e outros objetos pessoais.
- Que diz a carta?- pede o inspetor
- Aqui diz que ela tenciona fazer um testamento e passar todo o património para mim, para a July e para o Andrew! - Ellen está entre boquiaberta e angustiada.
- Só isso, mais nada!
- Ah, aqui ela descreve que andava a receber ameaças de morte por parte do Vicktor, ligava-lhe alcoolizado e a Anna também pressionava muito, tudo questões envolvendo dinheiro e acrescenta que andava assustada, receosa, após ter dito abertamente que não os contemplaria no seu testamento. Nem haveria mais nada para nenhum dos dois.
- Sabia desse clima?
- Não! Nada me foi transmitido, sro inspector.
- Pois, coincide tudo, a senhorita Madeleine foi assinada enquanto dormia, na noite de sábado após o jantar, os dois sobrinhos ficaram na sala de estar, apercebendo-se do momento em que todos saíram, foram ao quarto, e o senhor Vicktor enquanto estrangulava a tia com a charpe, Anna, segurava os braços da vítima, pois o senhor Vicktor não teve coragem para consumir o homicídio, sozinho, e pediu a ajuda da irmã, que assim se tornou sua cúmplice. Há impressões digitais na écharpe, na cama, onde eles tocaram. Podem algemá-los aos dois!
Vicktor, não profere uma palavra. É um homem condenado e vencido. Anna,  cala-se. Parecia mais pesada e feia.
Os outros pareciam estátuas de mármore, mais aquele acontecimento; um autêntico pesadelo.
Christine ergue-se como uma sonâmbula e coloca-se à frente de Vicktor:
- Como foste capaz, logo tu e essa aí?
- Já assinei a minha sentença de morte.
Anna rompe o silêncio:
- Se ela não tivesse mencionado nada acerca do testamento…maldita hora!
- Fica calada e assume os teus actos tresloucados, a tua tia decidiu o que achou melhor. Era um direito dela. Anna,  matar? Que aterrador!

Ao funeral compareceram familiares, amigos, conhecidos. A certa altura no fim do acto, Lawrence aproximou-se de Christine:
- Julga mesmo que não percebi ...
-O quê?
- Sabe a que me refiro, todos pensaram que eu mantinha um romance consigo.
-É óbvio que não é verdade.
- Bem que tentou, as investidas saíram-lhe goradas.
- A que se refere?
- Madeleine amava-me, estava apaixonadíssima por mim, você queria-a para si. Ela via-a como uma amiga porque estar só era-lhe penoso. Tinha de preencher todos os espaços vazios. Assim que noivássemos, a primeira coisa, era pô-la a si, fora de jogo. Acha mesmo que eu iria permitir a sua sombra atrelada a nós? - Que disparate!
- Que fantasias são essas?
- Não se faça de desentendida.
Sem mais demoras, Christine afasta-se, os outros já tinham desparecido.
Ali, só Lawrence resta, sozinho, a velar pela sua Madeleine, mal acreditando ainda no que sucedera.
Os olhos molhados de sofrimento, todo o copo reflete a agonia da dor. o desconsolo em que se encontra mergulhado. De repente, sente a presença de alguém:
- Andrew, não tiveste coragem para assistir?
- Não!  - geme, também ele desolado
- Vamos, vou levar-te a casa.












segunda-feira, 11 de maio de 2020

A "Coisa"

Vinha de Sul...vinha de Norte,
Depois já vinha de Oeste...e ainda de Este...
Queriam ter razão, e gritavam uns com os outros:
- Veio do meu lado!
- Não,  não,  veio do meu!
Se fosse  coisa má,  ninguém diria nada ou sequer levantaria a voz.
Chegou alguém diferente e questionou:
- Não importa de onde vem, já  viram como a coisa está  a ficar?
- Que tem ?
- Vão  ver de perto.
Lá foram num passo apressado.
Engalfinharam-se à  entrada.
- Hum? Mas que é isto?
- Como é que ficou assim?
- Alguém veio cá  mexer?!
- Foste tu!
- Eu?
- Então foi ele!
- Ou aquele!
E desataram a socarem-se uns aos outros.
De tanto se agredirem, magoram-se severamente.
E foi tamanha a força que tombaram  um a um e não  se ergueram.
Alguém diferente chegou novamente  e sussurrou:
- Sendo assim, a coisa vai ficar para mim!
PN

Importada da NET


sexta-feira, 1 de maio de 2020

"Fala do Homem Nascido*" (1972) "Calçada de Carriche" (versão original) ...



Sendo o dia que é, lembrei-me das Mulheres e das condições de trabalho, porque estamos em 2020, e as Mulheres continuam em segundo plano, quando trabalham como os homens e até mais que eles, no entanto, é o que todos sabemos! Faz falta uma visão mais alongada, para já, se existe sociedade, deve-se às mulheres, são elas que asseguram a continuidade da espécie humana, com o auxílio do homem, naturalmente. De qualquer forma, quem fica menstruada? Quem sofre as dores mentruais? Quem fica grávida? Quem sofre as dores do parto? Quem cuida mais dos filhos, Quem cuida da casa? Quem cuida do homem? E como se não bastasse, arranjam tempo para estudar e trabalhar. Sei de mulheres que frequentam cursos pós laboral. Casadas, com filhos e marido e pais doentes às costas!

O mundo seria muito diferente, se as mulheres, desde sempre tivessem tido a oportunidade de equipar ao homem. Porque onde só existem mulheres, não resulta. Onde só existem homens, não resulta. Como pensam e sentem de maneira diferente, seria uma mais valia, quer em casa, quer no trabalho, equipas mistas funcionam muito melhor.

PN

terça-feira, 28 de abril de 2020

É um ciclo...


Trecho extraído da série com o mesmo nome que consta na imagem.


- “É um ciclo…
Quando achares que já passou, baixarás a guarda e reaparecerão…
Como a peste.
Agora, as pessoas comemoram nas ruas o fim da peste.
Embebedam-se e gritam de alegria em todo o lado. Não sabem que a peste nunca desaparecerá. Permanecerá adormecida nos móveis e na roupa, nas caves e nos baús, esperando pacientemente, que o Homem volte a acordá-la. E assim sucessivamente.  Para sempre.”

“Não há nada de novo debaixo do sol.”

“-A triste confiança no futuro. “

"- O Homem."

sábado, 25 de abril de 2020

O meu símbolo de Abril é este homem



"Esta fotografia é  o meu Che Guevara " - autoria : foto/ frase - Alfredo Cunha
25 de Abril  PÚBLICO

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Esbanjar e Consumir, Consumir e Esbanjar




Esbanjar e Consumir em excesso não é qualidade de vida. 

" A terra não está a dar uma oportunidade de a salvarmos e de vivermos melhor?"

Por R. F.

" Apesar de tudo, nunca são boas notícias, uma pandemia e o confinamento Eu penso que é  uma oportunidade para confinados, repensarmos, pensarmos um pouco neste planeta. Afinal não há outro planeta para habitarmos , é neste que moramos, não há  outro em condições de habitar e de facto ele está a rebentar pelas costuras, nós  estamos a exigir demasiado da terra. Temos vindo a aumentar século após século.  Estamos a colocar claramente a terra sob um enorme stress,  está a diminuir a diversidade, estão-se a esgotar os recursos,  está  a aumentar a poluição do ar, da água,  dos solos, portanto,  eu diria que temos que mudar de vida. Este alerta tem sido lançado há  muitos anos, tem sido cada vez mais insistentemente lançado, por cientistas, inicialmente seria  por um grupo restrito, hoje  são cada vez mais; as academias, as universidades,  a comunicação social, muitos políticos já,  mas de facto alguns países vão fazendo alguma coisa , outros vão fazendo bastante, mas claramente não chega.  Os sinais são  alarmantes.  Eu vi, por exemplo, numa revista científica prestigiada,  indica a propósito, que em 2017 morreram 1.2 milhões de pessoas de doenças respiratórias, por causa da poluição.  Isto é  alarmante, sobretudo quando comparamos com os números do Covid deste ano, são números violentíssimos . Nós  de facto, estamos claramente a criar uma atmosfera  perigosíssima, mesmo as partículas finas , enfim, nós  estamos com níveis de poluição muito elevados, que não foram levados muito a sério "

" Estávamos a viver uma realidade em que era impensável; parar tudo e a pandemia obrigou-nos a parar, nós não  conseguimos sequer reduzir a produção para termos menos poluição, tivemos que parar, e parar pode ser importante para começarmos outro caminho"

" Eu penso que sim, nesse sentido,  as Nações Unidas e o apelo que é  feito, pode ser que leve a que se repense o nosso modelo económico,  não podemos pensar na economia andar para trás, não vamos defender o regresso ao passado,  para trás  da revolução industrial,  não é isso que ninguém defende. Andar para a frente, a ideia de futuro, deve ser um futuro pensado não numa lógica de continuarmos a aproveitar recursos que são recursos que são finitos, mas, pelo contrário,  não é uma lógica de crescimento mas é  de bem estar, porquê continuar a aumentar o número de automóveis, porquê continuar a aumentar o número de quilómetros percorridos  por todos nós, porque não, recorrer mais ao tele trabalho,  que estamos a ver que funciona. Porque não procurarmos alimentos de maior proximidade, em vez de os importar do outro lado do planeta. Porque não  sermos mais racionais nesta lógica ambiental. Porque não andar mais a pé. São um conjunto de formas de estar, que são  melhores para a nossa saúde. Que são  melhores para o planeta. Que são melhores para nós.  É  uma forma mais racional de estar no planeta. É  isto que se pede. Penso que é uma boa altura de repensarmos, como cidadãos,  cada um de nós. E nesse sentido já temos vindo a fazer bastante, designadamente na Europa. Claramente que isto pede uma acção muito mais forte.  Uma acção forte dos diferentes decisores,  falta aqui o governo do mundo, que é  uma coisa que nós não temos, e faz falta, porque nas grandes acções globais o que faz muita falta é  o governo do mundo. Falta-nos isso. Não há umas Nações Unidas fortes, infelizmente.  Mesmo na União Europeia nós  vemos a dificuldade que é tomarmos decisões mais fortes; nas alterações climáticas, no ambiente, na acção económica, nas acções sociais, e, o planeta não vai lá com cada um para o seu lado, na tomada  das  grandes responsabilidades ... Eu espero que esta oportunidade venha gerar mudanças e espero bem que  sejam mudanças no melhor sentido, para o planeta e para o futuro, para o futuro dos nossos filhos,  netos... enfim, a médio e longo prazo e para todos nos"