domingo, 30 de junho de 2019

Da tua boca não nascem rosas


Da tua boca não nascem rosas
Lamento dizer-te …
Toco a “excelência”de um ser
e o respingo é cáustico, áspero…
Índole mesquinha, alegoricamente obtuso
encrespado, abjecto, astuto
Sucedem-se birras conforme a utilidade,
complementadas com esgares,
momice imprópria para um homem de pelo na venta
Fica mesmo ridículo, feio, já te disse…
mas não escutas e foges dos espelhos!
Examino minuciosamente a representação ágil;
treino de disfarces; peças para resguardo do rosto
Brincas com os incautos, desvias a atenção dos mais atentos,
 enganas os pobres de espírito…
Trapaceiro e manipulador!
Os outros? Os outros são iguais a ti e também se servem de ti!
 agarram os ventos que correm oportunos… usam-se uns aos
outros;“prostituição” consentida…
Dono de um ego; um batalhão de soldados, que satisfazem
os teus desejos, vontades e pulsões primárias,
o “conselheiro” que devia cochichar aos teus ouvidos
a atenção a dar  aos valores morais e culturais, compraste-o!
Tens praticamente todos nas mãos, olha que obra medonha!
A corda bamboleia sob o peso estúpido dos teus pés…
Trôpego, e desastrado lá consegues fazer o teu número;
Já não sei se me chega aos tímpanos
copiosos aplausos
ou uma amalgama de assobios, vaia, ou troça;
ou dissimulam para te agradar
És dono de títulos "nobiliárquicos",
vives num castelo rococó de pó, gigantes de bolor trepam as
 paredes…e teias imóveis já sem nenhum vigor; pardas e sujas
Há uma ovelha do rebanho, novinha,
abandonada à sua sorte que vai pedir-te socorro:
- Pai, para que lado devo seguir?
- Vá poe-te a andar daqui, procura o teu grupo! – ordena trovejante
- É que não vejo ninguém, pai, não sei onde estão… - responde
desanimada
-  Quero lá saber! Não me incomodes, o meu grupo sei onde está!
( É o mesmo que dizer a um incapacitado,
numa cadeira de roda, levanta-te e anda)
Como? Por acaso és um deus? Nunca te vi fazer milagres!
Sei que és mestre na mentira, exímio na arte da manha
A tua ambição ultrapassa-te;
esmagas cabeças, entortas vidas, especialista em lavagens
cerebrais… e artista na tontice
“ Cospes no prato onde comeste …e voltas a comer no prato que cuspiste”
Contratas idiotas e cegos para desviarem quem vai no seu
caminho em paz, semeias o caos
Espera pela tempestade, tarde ou cedo abater-se-á sobre a tua soberania.
Entretanto, segues e trincas pessoas sem nenhuma comiseração;
Um sorriso “santo” nos lábios e um pedido de “desculpas”
 “natural”
A falta de limpidez chega à cave das tuas entranhas
Eu sou a pedra que desejarias fora do teu paraíso de fantochada!
Desgraçadamente estou sob o teu domínio…
Incomodo? Pois sim!
É pena, porque também eu sofro, com tão abominável figura.

 PN




sábado, 8 de junho de 2019

Doce fantasia



Sir- lawrence- Alma- Tadema-Courtship- The Proposal

Sorrio-te e namoro demoradamente                 
os teus belos olhos  siena queimada de rapaz,
deixo os meus azuis cinzentos
pregados nos teus e tu  ficas guloso por mais,
quando avanças,  pego  no galho de flores secas
e dou com ele, meigamente  no teu rosto fresco, é engraçado...ver-te assim, desarmado!
PN
 


domingo, 2 de junho de 2019

Amor de uma vida inteira


   Andre Kohn 

Conheci-a,
ainda imberbe e incauto…
aquela eternidade
que trava a proximidade
de um jovem sossegado
a uma jovem citadina; horizontes largos, desempoeirada
Os meus olhos mansos
repousavam distraídos
quando viram outros
que  passavam pelos meus...
  Causaram  em mim tal
embaraço e perturbação…!
No entanto, os meus encantaram-se por aquela visão;
Vi gaivotas rodopiarem em equilíbrio no puro côncavo etéreo
e chegaram para hospedar-se nas cordas do meu coração
Eu, navio despreparado, fundeado numa pequena baía marítima
fiquei  mesmo ali, imóvel,  sem  nenhuma acção,
regozijado naquela doce ilusão.
Certo dia, perdido em pensamentos quiméricos;
passeava devagar na orla do mar; pés nus, ténis ao ombro
  E, de modo imprevisto, fui atingido por uma explosão;
tomado por um fenômeno estranho;
Medo!
Recuei estonteado, meia dúzia de passos para trás,
 quase assaltado por uma síncope!  
Voltei-me para o lado inverso. Ajustei os óculos de sol,
engoli em seco, mexi as mãos; os dedos gelados
  estava ela, sentada sobre a areia fina,  virada para o mar,
Pernas cruzadas , "à  chinês "
Havia nela qualquer coisa  de hippie sofisticado
e isso desmoronava-me de susto
Permanecia imóvel ... Estaria a meditar?
A ansiedade crescente escalava uma falésia tenebrosa dentro de mim,
fiquei a espera de um sinal mais descontraído …
desejava muito agir mas sentia-me pregado ao chão. 
Quando a vi sair daquele estado hipnótico
avancei  cauteloso; o corpo todo a tremer,
dissimulei um encontro inesperado e fui convincente.
Cumprimentamo-nos de forma cordial,
ela convidou-me a ficar e partilhar aquele momento a seu lado.
Falamos de imensas coisas; a voz dela musical...
Julgo que fui além da conta; um jorro de euforia
brotava de mim. Um frenesim louco mas sem atitudes precipitadas…
O toque da mão  dela no meu braço; um afago delicioso
tão  delicioso que me calei de repente
Senti-me apanhado por um redemoinho;
ela suavizou o constrangimento abrupto
A minha parte tonta sem chão era um disparate…
foi ali, frente ao mar que tudo começou;
Na transparência das águas, um compromisso!
Selado, num acordo de paz entre corpo e alma
Sentia-me em festa, havia reflexos em tudo
aos meus olhos nus e indefesos!
Naquela tarde, à hora crepuscular, despedi-me dela.
Depois, encontrávamo-nos em todas os lugares da escola; na sala de aula, mesmo a par,
no pátio, na cantina, no bar , nos corredores…
De noite sonhava com ela....
Um dia, a minha mão pousou inadvertidamente sobre a dela,
imediatamente a  seguir,  um corisco desceu sobre mim;
o coração sofreu um choque estrepitoso
Quando nos encaramos os dois, olhos nos olhos,
os meus olhos confessaram finalmente  ...
e os dela recetivos, responderam implicitamente que sim,
 foi aí  que segurei a mão  dela com mais  força e nunca mais a soltei.

Poema inspirado num casal que conheci de vista nos meus tempos de secundário.
Durante muitos anos perdi-lhes o rasto, quando voltei a vê-los, caminhavam lado a lado na
mesma aparente cumplicidade.
PN