domingo, 5 de junho de 2022

No Verão passado

 

Um homem jovem,  trinta e muitos anos , barbudo, olhos muitos  claros, louros, aparência cuidada, surge à janela, telemóvel ao ouvido, aguarda que a chamada seja atendida:
- Renato? - reconhece o interlocutor .
- Olá Vicente! - cumprimenta
- Como tens passado? - pergunta Vicente
- Nada bem! - declara Renato
- Que se passa contigo? - Vicente demonstra preocupação
- Nem sei!
- Problemas de saúde? - voz   surpresa
- Não,  felizmente nada ligado à  saúde! - conclui Renato
- Então,  estou curioso! - acrescenta o outro 
- Preciso falar contigo, com urgência!- remata ansioso
- Está bem! Onde e quando?
- Pode ser amanhã?
- Sim, pode ser! - concorda Vicente
- Aqui em casa, por volta das dezasseis e trinta!
- Combinado!
Os dois homens despedem-se. Vicente, encontra-se a meio de uma consulta. Aparenta alguma perturbação, é um homem  tranquilo e tolerante. Terminada a consulta, nota-se que ainda há um certo desassossego a  inquietá-lo. Vicente usa o cabelo  médio e liso, olhos negros, tez morena torrada,   estatura acima da média, espadaúdo, ombros ligeiramente inclinados.

No dia seguinte,  à hora marcada, Vicente chega a casa de Renato, toca a campainha, a porta abre-se, após o reconhecimento facial. Entra e avista o amigo no jardim, no habitual passeio  quotidiano. Encaminha-se para o outro. Renato,ao pressentir a presença do amigo, volta-se e cumprimentam-se de punhos cerrados. Renato acrescenta:
- Podes tirar a máscara ou não?
- Sim, posso!
- Agora não precisas disso,  estamos ao ar livre, somos  duas almas  saudáveis ...caso contrário não virias até aqui!
- É esse o teu grande problema, em que circunstâncias se usa a máscara?! - graceja
- A razão pela qual te chamei aqui , é outra, nunca seria por esse motivo! - remata brincalhão.
- Ah! Começava a ficar preocupado contigo! - exclama sorridente
- Podes te preocupar comigo, por outras razões!
- O que vem por aí , alguma tempestade?!
Enquanto conversam, os dois homens caminham e vão contornando os passeios do jardim, parando aqui e ali para se entenderem melhor.
- Nem sei como abordar este assunto contigo... - declara nervoso
- Dispara que logo se vê! - adianta o outro
- Pois...é um assunto delicado, daí a minha dificuldade, entendes?
- Até compreendo que seja, se não estás preparado hoje, falamos outro dia.
- Não,  nem pensar! De hoje não passa! - responde categórico
- Estou à espera! - sugere Vicente
Renato engole em seco:
- Tu não sabes de nada?! - inicia a receoso
- Sobre?
- Sobre a minha e a tua mulher? - as palavras saíram com dificuldade
- Que se passa com elas?!
- Nunca notaste nada? - questiona a tentar ganhar tempo ou a preparar terreno
- Referes-te a quê?! - fica assustado
- As nossas mulheres! As nossas mulheres  são amantes! - dispara finalmente
- Como assim,  amantes ?!- aparenta incredulidade
- Sim, as duas são amantes! -  exclama  pálido
Vicente volta-se de costas, depois de frente, coloca as mãos na cintura, fixa o chão,  ergue o rosto, passa a mão direita no queixo barbeado:
- Que dizes, rapaz?! perdeste a cabeça?! Bebeste?
- Não, não bebi, apanhei as duas em flagrante delito! - confessa
- O que é que tu viste? Provavelmente,  nada! Andas a  imaginar coisas?  - a voz tensa.
- Quisera eu que fosse tudo um engano! - profere  cansado
Os dois homens encaram-se como se desconhecessem.
 

Ambos, ali mesmo, enrugam, envelhecem. Vicente, atordoado acrescenta:
- Que  presenciaste ?
- Queres mesmo saber?
- Sim,  conta-me!
- Estávamos a dormir,eu e a Zita, de repente tinha saído do meu lado, demorou muito,por isso fui ao seu encontro,  ouvi gemidos, receoso do que pudesse ser, fui em direção ao que tinha escutado, percebi que vinha da casa de banho, baixei-me e espretei pela fechadura. Naquele momento tudo parou a minha volta, quando observei uma a fazer sexo oral na outra!
- Quem fez em quem?!
- A Susana na Zita!
- Tens a certeza que era mesmo isso?
- Esperei por ela na cama, quando chegou, atirou-se  aos lençóis, aguardei  uma confissão  mas nada. Então  resolvi abrir jogo. Falei o que tinha visto, ela respondeu que eu não tinha nada que espreitar! Assumiu e que era para eu respeitar a forma de ser dela.
 - Agora fiquei com a tarde estragada, a semana estragada, o mês estragado, o ano estragado. Estou sem norte, nem sul! Isto é   bombástico, Renato!?
- Como julgas que tenho andado?
- Ansioso e deprimido?
- Nem mais! Nós enganados pelas nossas mulheres, porque  andam enlaçadas uma na outra!
-  É  surreal! Onde foi isso? Quando descobriste?
-  No verão passado. Fiquei de sobreaviso, sabes,  pontas soltas... ninguém consegue enganar sempre!
- Há quanto tempo é que isto  sucede? Porque já  saímos juntos há uns   bons anos !...
- Não faço ideia, a esse respeito não consegui obter nenhuma  confirmação,  pressionei e não serviu de nada! Prefiro não pensar nisso!
 Vicente  passa a mão no cabelo,  estala a língua no palato, os olhos escuros sofridos  a perder de vista. O rosto quadrado tornou-se  cinza, a face crespada:
-  Foi como se tivesse levado um tiro na cara - articula  com tremor na voz
- Lamento que tenhas de passar por isto!
- Que tenhamos de passar por esta miséria! - corrige Vicente- nós os dois , as nossas esposas amantes!?
- Custa a engolir!
- Que pretendes fazer?
- Primeiramente acabaram-se as férias juntos! Ponto final.
- Estou contigo.
- Querem estar juntas, estejam, debaixo do meu nariz é que não!
-  Preciso de tempo para digerir esta porcaria , não sei como vou encarar a Susana, hoje!
-  Coragem e força, como aquela que precisei quando descobri! E sabes que podes contar comigo!
Renato coloca na mão sobre o ombro do amigo e adianta:
- Eu tenciono pedir o divórcio!
- E existe outra solução? É isso ou continuar sucessivamente a ser traído por ambas!
- Que raio de homens somos nós? A minha e a tua testa enfeitadas,  porque as nossas   mulheres  têm um romance.
- Por favor, Renato! Isto é mesmo  bombástico! - continua muito ansioso  - felizmente que eu e ela não  temos filhos! E tu, os teus filhos?
- Ainda não fui capaz , sei lá... vai  ser com muita calma! Só de pensar, fico arrasado
 - Eles habituaram-se a ver na Susana uma tia. As férias sempre com ela, criaram-se laços de ternura e de repente uma grande traição?!
- É  isso mesmo  que me faz uma enorme confusão! Será que elas começaram com esta merda antes dos teus filhos nascerem?! Então a traição vem de longa data!
- A Zita é  incapaz de me contar quando tudo iniciou.
- Renato, ainda bem que me puseste a par!
- É  óbvio que eu tinha de dividir a situação contigo! Afinal somos amigos. E diz-nos respeito, aos dois! Queres tomar uma bebida?
- Não,  vou caminhar, refrescar a cabeça...
- Então, vamos fazer o seguinte; quando tiveres novidades, liga-me e quando eu tiver novidades, ligo-te !
- Pode ser !

 Um mês depois ao telemóvel:
- Vicente , como resolveste o teu caso?
-  Renato, olha, vai parecer aquilo que é,  masoquismo, após dias a moer esta  grande chatice. A iniciativa partiu de mim, não suportei mais e falei de tudo, da nossa conversa, etc, etc. Discutimos, xingamo-nos, chafurdamos e após uns dias, resolvi expulsá-la de casa, como não estava preparado, a separação fez-me mal, fui buscá-la a casa da mãe.  Decidimos ter uma relação aberta, cada qual é livre.  Sei  que não é bom para mim porque ainda gosto muito dela. Independentemente do resto, houve muita paixão e amor entre nós.
- No meu caso , depois do furacão passar, ficou o vazio, ela mudou logo de quarto e eu tal como tu, por ainda nutrir um grande sentimento , nem cheguei a me separar. Depois, há os  filhos entre nós, embora  já sejam  adultos...
- Que grande choque   e os teus filhos, já lhes contaste?
- Ainda não!  A  minha filha tem andado desconfiada, olho em mim, olho na mãe... já  viu que dormimos em quartos separados, que não somos os mesmos, portanto, julgo que com estes sinais óbvios, saiba tirar as suas próprias ilações .. tenho que arranjar coragem. A Zita é perita a fechar-se na concha, protege-se e os outros que se danem! É  muito cobarde. O forte dela é enterrar a cabeça na areia como a avestruz. 
- Sabes, esta droga  rebentou comigo, teve o efeito de uma  ecatombe, uma avalanche.- lamuria-se desconsolado.
- A quem o dizes! Estamos ambos no mesmo barco- diz em tom  melancólico.
- Dói, dói muito!
- Se dói!
- Renato, tenho que desligar!
- Qualquer coisa, ligas-me!
- Sim, sim.

 Os dois homens voltam a contactar apenas no inverno:
-Queres saber da melhor? As duas zangaram-se!
- Elas ? - pergunta Renato curioso
-  Sim,  pelo que percebi, a briga foi feia!
- E qual o motivo?
- O mesmo de todos os casais, desgaste, fim da linha!
- Será que voltam para nós?
- Não, o facto de coabitarmos sob o mesmo teto  não significa nada. Pelo que chegou aos meus ouvidos, através de um telefonema, a Zita já anda de caso com outra fulana.
- Como? Outra? Ela vive na minha casa e anda a me fazer de parvo! Grande vádia!
pediu-me encarecidamente  para ficar, nunca imaginei uma ruptura por causa de outros casos! Quer viver assim, a porta da rua é serventia da casa!
- Eu tenho me sentido um verdadeiro parvo!
- Já somos dois!

As folhas do calendário são desfolhadas, uma a uma; horas, dias, meses ...e chegados a Agosto, um Agosto quente e suado, com praias apinhadas e ruas muito concorridas, abarrotadas de turistas.
Uma tarde,  Rita resolve remodelar o estúdio do pai, pretende fazer-lhe uma surpresa; decorá-lo a gosto, torná-lo mais luminoso, mais moderno. Renato não se opõe às ideias da filha, conhece e confia nas escolhas que considera opções estéticas de qualidade.
A meio da tarefa, o telefone do estúdio soa:
-Sim?
- Olá Rita!
- Olá Susana! Queres falar com o meu pai? Ele não...
- É  mesmo contigo que quero falar!
- Comigo?
- O teu pai ainda não te contou nada?
- Sobre?
- Sobre a tua mãe!
- Sobre a minha mãe?!
- Penso que já tens idade suficiente  para entenderes certos assuntos!
- Que assuntos?
- O teu pai flagrou a tua mãe com outra mulher!
- Susana, de que estás a falar?
-  Já disse!
- Disseste o quê?
- Vou repetir, o teu pai flagrou a tua mãe com outra mulher!
- Que queres dizer?
- Isso que escutaste! Vou me expressar de outra forma, a ver se compreendes melhor.  A tua mãe tem uma amante!
- Uma amante ou um amante?!
- Uma, uma amante, uma mulher! - soletra as palavras
- Mentira!
- O teu pai sabe de tudo, pergunta-lhe!
Rita  desliga imediatamente o telefone, como se o objeto lhe tivesse queimado a mão. A tremer ,tenta uma ligação mas em vão, a chamada não é atendida. Agarra a sacola, fecha a porta do estúdio e sai. Atravessa as ruas a correr, aparenta estar desorientada. Dirige-se para a praia, encaminha-se para uma parte mais  isolada. Senta-se sobre a areia e fica pensativa, ora puxa os fios dos  cabelos compridos para trás da cabeça,   ora cruza os braços,  descruza,  passa as mãos no rosto oval, pestaneja, sobe os joelhos, apoia os cotovelos nos joelhos, e sem esconder mais nada  chora, chora copiosamente, chora tanto que a vista  cansa, e em volta, incha. 
Levanta-se e caminha sem destino, avista uma fonte, vai até lá e passa abundantemente um  jorro de água pela face. Refresca-se lentamente.
O telemóvel toca, é o Renato:
- Sim, pai !
- Rita, não atendi  a chamada porque estava em reunião. O estúdio está a ficar lindo?
- Estou na praia!
-Ah!  Foste apanhar sol, fizeste bem!
- A Susana ligou para o estúdio quando eu estava lá!
- A Susana?! Para quê?! -  Renato é surpreendido
- Para falar coisas horríveis da mãe! - declara com a voz embargada
- Que coisas?
- Tu sabes!
- Eu sei? - defende-se
- Ela disse que tu apanhaste a mãe com uma mulher?!
- Ela disse mesmo assim? - cada vez mais atónito
- Sim.
- Que descarada! - confessa aterrado
- Porquê? Não é verdade ?
- Olha, querida, tenho uma chamada em linha, vai ter ao estúdio e lá conversamos com serenidade. -  e troca imediatamente de linha:
- Vicente?
- Ligaste-me esta tarde...
- Liguei e  agora estou ainda mais irado! 
- Que aconteceu?
- A Susana  é uma desavergonhada ...
- Que sucedeu desta vez?!
- Desculpa Vicente, as nossas mulheres são duas cabras malditas  ... sem comentários,  o que a tua mulher anda a fazer é que é  indecente !
- Que fez?
- Anda a ligar às pessoas da família, aos amigos e conhecidos para  acusar a minha mulher  de lesbianismo?!
- A sério?! Está louca! Ah! Já percebi, está a vingar-se da Zita por ter terminado com ela!
- Desta forma? Teve coragem de contar à  minha filha? Mas não acrescentou que a amante era ela própria! Bandidinha!- profere exaltado
- Agora fiquei sem chão,  Renato! Que feio! Nem sei como me desculpar!
- Tu não tens culpa de nada, nem eu!
-  Podiam ter tido  a decência de nos deixarem e fossem lá viver a vida que queriam!
- Ambas usaram-nos,  mulheres horríveis!
- O pior de tudo é  a dor que vai cá dentro!
- A tua dor e a minha, coisa de doidos!
- E agora, Renato, qual a etapa que se segue?
- Neste momento acabei de ter uma ideia !
- Qual?
- Vou fazer uma viagem e vou levar os meus filhos comigo! A minha filha soube da pior forma, não sei se já contou ao irmão ...
- Já sabes o destino?
- Primeiro vou conversar com eles mas independentemente das respostas,  quero voar  para bem longe daqui!
- Quanto tempo?
- Tudo vai depender do meu estado de espírito e do estado deles! 
- Boa ideia! Da minha parte,   sou um grande cobarde, prefiro fazer de conta que nada sucedeu! Tenho a vida estabelecida e não estou preparado  para ficar sem ela.
- Vicente, já percebeste como estas duas mulheres são mesmo ordinárias! Nem a Susana te deixa, nem a Zita me deixa e querem levar o tipo de vida que lhes convém!
- Renato, elas não nos deixam, nem nós queremos deixá-las !
- Por isso mesmo, preciso tratar a minha cabeça! Nada disto é normal!
- Olha, se vocês viajarem, a Zita, fica onde?
- A casa é grande e dos dois, a comunhão de bens dá nisto! Vai ficar à vontade, como uma rainha no seu palácio, rodeada de mulheres, como deve gostar!
- Essa ideia tortura-te !
- A maldição é que  tortura mesmo!