...." Nós temos as catacumbas e nas catacumbas nós contamos como era a igreja nascente, ajuda a perceber que a igreja não é aquela igreja do poder, dos trajes, dos incensos, era uma igreja muito humilde, muito pobre, em que se reuniam quase às escondidas mas aí sentiam-se irmãos, aí, duma certa forma projetaram também aquilo que é o cristianismo de todos os tempos. Ser-se político, ser-se sacerdote, é isso, eu vou te buscar onde tu estiveres e onde tu estiveres, eu quero que tu tenhas as mesmas coisas que eu tenho, acho que a religião só serve para isso, uma religião que não ajuda, que não cuida dos seus pobres, não serve para nada.
Podem vender a igreja paroquial à vontade que ela não serve para nada , a igreja serve para nós cuidarmos uns dos outros e quando ela não cuida, quando as pessoas não cuidam umas das outras, a igreja não serve para nada .Fomos pensando quem é que seriam os pastores de Belém, hoje, e, pusemo-nos a pensar, os pastores era gente que estava à margem da sociedade e pensamos, se calhar, os reclusos são os pastores de Belém. Então são esses que nós vamos anunciar em primeira mão que Jesus Nasceu. Vêm trabalhar para aqui, de manhã, pelas oito e meia, almoçam aqui e por volta das dezassete horas regressam, ao estabelecimento prisional. Aqui aprendem o ofício, pode ser na área da construção civil, na área da carpintaria, até na área da jardinagem, temos instrutores para isso, a pessoa ganha mais menos entre quatrocentos e trinta, a quatrocentos e cinquenta euros , ganha porque isto não é trabalho escravo, desse dinheiro, metade dele, pode utilizar, mas a outra metade fica cativa, o que possibilita, quando sair em liberdade, esta pessoa não volta para a rua, esta pessoa tem dinheiro, para poder alugar um quarto, uma casa e iniciar a sua vida. O sistema terá que ser muito mais célere, nomeadamente quer com os senhores juízes dos tribunais de execução de penas, que deviam conhecer as realidades, onde é que estas pessoas vieram trabalhar, os técnicos de construção civil que fazem os relatórios também não sabem em que sítio os reclusos trabalham,
acho que este trabalho devia ser levado muito a sério e ao mesmo tempo, dar oportunidade a estas pessoas para poderem trabalhar, costumo dizer que o trabalho não é uma obrigação, só trabalha quem quer , nomeadamente que está detido mas é um direito, alguém que está detido deveria ter direito a trabalhar, porque o juíz que o condenou a não ter liberdade como qualquer outa pessoa em sociedade tem , mas não o condenou a não fazer nada"
Entrevista transmitida na RTP2